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sábado, 7 de dezembro de 2019

Quando o Convento das Carvalhiças (Melgaço) foi comprado (1839)




A vida do Convento das Carvalhiças em Melgaço foi curta. Foi começado a construir em 1748. Em 1834, foi extinta a comunidade de frades franciscanos no Convento das Carvalhiças. Enquanto a igreja ficou como propriedade da Ordem Terceira de São Francisco de Melgaço, a parte do convento foi leiloada em hasta pública, sendo comprada por um padre natural de São Paio de Melgaço, o reverendo António Gomes da Cunha. Pouco tempo depois, este foi queixar-se ao administrador distrital de Viana por causa de ”factos violentos” praticados pelo administrador do concelho no Convento das Carvalhiças e que aqui expõe: O reverendo António Bernardo Gomes da Cunha, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, e abade da freguesia de São Paio de Melgaço, não pode deixar de levar à presença e conhecimento de Vossa Excelência os violentos factos praticados na sua propriedade pelo Administrador do Concelho de Melgaço. Tendo o representante arrematado o edifício do convento de Santo António de Melgaço, e dele tomado posse, e em que habita, requereu ao Governo para mandar fechar as portas que comunicavam a Igreja com o Convento; mandou Sua Majestade fechar esta comunicação: cuja ordem Vossa Excelência transmitiu ao Administrador deste concelho para a cumprir. Acontece que indo este para cumprir a ordem exorbitou dos seus limites por paixão e sinistros fins particulares; querendo fazer repartimentos na casa do suplicante para o coro e púlpito; fechou as portas dos claustros; fazendo-os despejar, e considerando os como pertenças da Igreja e sagrados por juízo de três sacerdotes, que para isso mandou chamar, querendo desta maneira tornar sagrado aquilo que está legitimamente profanado, e é pertença do edifício, e não da Igreja! Fechou várias portas, que dão serventia do claustro para o edifício, para a casa da hospedaria, e outras casas baixas, etc., e não fechando aquelas que dão comunicação para a Igreja, e desta para o edifício, que são as que a Ordem de Sua Majestade lhe manda fechar, e não as que dão serventia para o edifício e casa do representante. Estes excessos, Excelentíssimo Senhor, cometeu este Administrador no dia 5 do corrente, fazendo e introduzindo, para os cometer, carpinteiros e vários homens em casa do representante; chegando até a dar-lhe a voz de preso à ordem de Sua Majestade por lhe dizer que não consentia que em sua casa se fizessem repartimentos e obras sem sua licença; não lhe embaraçando, que fechasse aquelas portas que devia fechar; que eram só as que comunicam a Igreja com o convento e este com a Igreja e que este era o sentido literal e espírito da Portaria de Sua Majestade. Porém, todos estes violentos excessos e procedimentos são filhos da inveja, e malevolência, que tem ao suplicante por ele ter comprado os bens dos extintos frades; por quem quase todo este Povo ainda suspira! Além disto, também procede isto do representante não consentir de que não passe pelo claustro a procissão da quinta-feira santa, que no tempo dos frades passava. Por cuja continuação instam, e trabalham de conluio todas as autoridades deste concelho, e a Misericórdia; querendo atacar e violar com um uso ou costume por sua natureza extinto, a propriedade deste representante que a arrematou em hasta pública à Fazenda Nacional, que não pode nem deve enganar. Nestas circunstâncias torna-se este Administrador (e todas as mais autoridades) deste concelho muito e muito suspeito ao suplicante. Portanto, digne-se Vossa Excelência mandar que este Administrador feche só as portas que comunicam a Igreja com o edifício do Convento: que é justamente o que Sua Majestade manda na indicada Portaria, e que se abstenha de praticar violências e excessos de tal natureza, ou então haver Vossa Excelência por bem mandar, que qualquer dos Administradores dos Concelhos mais vizinhos vá cumprir a Real Ordem de Sua Majestade na forma da mesma (...).
Melgaço, 12 de Agosto de 1839
Como procurador José Manuel Gomes de Sousa”
A resposta a esta exposição por parte do pároco de S. Paio é bastante clara por parte do administrador distrital de Viana e manda o seguinte: O Senhor Administrador do Concelho, cumprindo fielmente a portaria remetida por cópia, limite-se a tapar unicamente, todas as portas que dão comunicação da Igreja para o edifício do Convento, sendo só pertenças da Igreja e Sacristia e não os claustros.
Viana, 13 de Agosto de 1839
O Administrador Geral Interino Vasconcelos”

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

As origens do Convento das Carvalhiças (Melgaço)



O Convento das Carvalhiças albergou, em tempos, uma comunidade de frades franciscanos e tem origens em meados do século XVIII. Pertenceu à Ordem Terceira de S. Francisco e integrava a rede de conventos de Nossa Senhora da Conceição. Quais as razões para a sua edificação em Melgaço? 
Encontramos todas as respostas num manuscrito da época lavrado por um dos primeiros frades do convento, um tal Frei Manuel de Jesus Maria, a que deu o título de “Relação Sumária da Vinda dos Religiosos para esta Vila de Melgaço e do motivo que para ela houve”. Neste documento, o autor conta-nos como foi a construção deste convento com algum pormenor a partir de 1748. No manuscrito, podemos ler: "Mas porque a devoção dos principais da vila se não satisfaziam com a erecção da venerável Ordem Terceira, e tudo era pedir ao sobredito Provincial religiosos que lhe viesse assistir, determinou o ministro provincial para este efeito ao Irmão Pregador Frei Francisco da Trindade, com o Irmão Frei Paulo da Soledade ex leitor de Moral para que como Comissários da mesma Ordem residissem na mesma vila e dela fossem também assistir a de Monção, enquanto se não dava outra providencia. Para satisfazer pois a obediência do Prelado que assim o determinava, chegaram a esta vila os ditos religiosos a 29 de Julho do sobredito ano de 1746 e enquanto se não preparavam umas casas que descobriram neste Campo da Feira para poderem assistir se hospedaram em casa de Silvestre Teixeira Torres, que era um dos mais empenhados na sua vinda para esta vila e a quem o sobredito Provincial tinha mandado patente de síndico dos mesmos religiosos (...) Compostas as casas conforme pedia a Nossa Santa pobreza, foram os dois companheiros morar para elas e juntamente provendo-se pouco a pouco do necessário com um Irmão Donato, que lhes assistia a fazer a Cozinha (...) depois de vir para o Hospício o Irmão Pregador Frei André de Jesus Maria (...) sucedeu chegar a porta do hospício um homem pobre, no que mostrava, perguntando pelo síndico dos Padres que não achara em casa, para lhe entregar um dinheiro. Sabido o recado eram vinte moedas de 4.800, que lhe entregara em Lisboa um homem de Rouças, chamado Pedro Fernandes da Silva, sem mais segurança, nem cautela, que um escrito com elas embrulhado, em que dizia: que se entregassem aquelas vinte moedas a Silvestre Teixeira para as obras dos Padres Capuchos e passasse recibo (…)
Ajustado que foi o sítio, vieram os pedreiros de Lanhelas a vê-lo, e feita a planta se fez o ajuste da Capela-Mor com o primeiro dormitório que é dobrado, em quinhentos mil réis, e depois com os acréscimos que houve passou a seiscentos (…) Principiaram os pedreiros a arrancar a pedra a 10 de Outubro de 1748. Lançou-se a primeira pedra no cunhal da Capela Mor da parte da vila a 28 de Novembro do mesmo ano (...); e depois de acabadas as paredes se lançou a primeira pedra no cunhal do dormitório também da parte da vila, a 30 de Maio de 1749 e acabada por 12 de Dezembro do mesmo ano; e depois de se cobrir tudo, de se forrar e fazer as taipas e algumas janelas, fizemos a nossa muda das casas do Campo da Feira para o novo hospício a 8 de Setembro de 1750 (...)
Acomodados no novo hospício, entramos a fazer as janelas mais precisas e reparos para o Inverno, que foi o mais rigoroso que há muitos anos tinha vindo, e sendo um dos principais reparos os telhados seguros já com cal, foi tanta a violência do vento pelos grandes temporais, e desamparo do sítio, que se alagaram as celas da parte do poente em água, de sorte que não tínhamos os Religiosos donde escapar da chuva, senão em algumas celas que ficavam da outra parte contraria, e assim passamos o inverno com muito trabalho e desconsolação, enquanto não chegou tempo oportuno para dar outra providencia aos telhados, como se deu no verão seguinte mandado vir os homens mais experimentados do termo de Viana, que ao mesmo tempo que fizeram o estuque da Capela Mor, também deram volta aos telhados, fazendo-os dobrados como se veem da parte do temporal, da mesma sorte que os da Capela, e com isso se pôs remédio às coisas.
Já por este tempo se tinha encomendado a imagem da Conceição, em Ponte do Lima, e como em Viana se tinha feito a tribuna nova com intuito de darem para esta Capela a antiga, se fez conduzir este mesmo verão, de sorte que quando vieram os caiadores já ela estava assentada (...) Irmão Pregador Frei Manuel de São Francisco, natural de Grovelas, termo da Barca, que foi mandado de Caminha onde acabara de guardião para Regente deste Hospício tomando posse dele nos últimos dias deste mês de Dezembro do mesmo ano de 1751. E com as esmolas, que a Divina Providência lhe ia administrando, a deligência que alguns religiosos zelosos ia fazendo, continuou com a obra de paredes desde a Cozinha, até fechar na Capela Maior, conduzindo com grande trabalho todas as traves, que foram necessárias de Parada do Monte e do lugar das Cavencas de Riba de Mouro (...) Maio de 1753, em que saiu eleito para Regente deste Hospicio o Irmão Pregador Frei Félix de Santa Teresa, natural de Ponte do Lima (...), e solhou o meio dormitório, desde a cozinha até à Casa última, fez as taipas, e celas e concluiu a Casa última no estado em que se acha. Fez também o muro desde a Capela da Pastoriza até à volta que fez em roda da tomada de Caetano de Abreu. O qual muro continuou depois o Irmão Pregador Frei Manuel de São Francisco até o canto da Cruz de pedra, que está para a parte da Pigarra (...) e plantou de novo o pomar com várias árvores de fruto no último canteiro da mata, que fica onde está a Cruz de Pedra (...)
Depois da sua extinção, a igreja fez parte do património da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço durante um curto período de tempo de pouco mais de meio século, entre finais do século XIX e 1963.




Extraído de: AMM, Convento das Carvalhiças, MARIA, Frei Manuel de Jesus, "Relação Sumária da Vinda dos Religiosos para esta Vila de Melgaço e do motivo que para ela houve, iniciado em 1758."

sábado, 1 de dezembro de 2012

A edificação do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Melgaço III



Fachada principal e campanário, 1757-1758.


Em 1763 foi Guardiao Frei Diogo da Purificação (...) Fez as urnas dos altares colaterais, pintou-os, e tambem o pulpito: pôs as grades, pôs os taburnos da Igreja e as sepulturas entre os taburnos de caixilhos de alto abaixo. Lajeou a porta da Igreja da banda de fora e desentulhou toda a entrada da mesma Igreja, que era um outeiro, fez os muros desde a quina da torre ate o caminho, e dai até a quina do caminho da porta do carro. Fez mais o outro muro da banda de baixo do mesmo comprimento pagando o chao para botar o caminho por onde agora vai. Principiou a obra da agua, que se chama a fonte nova, e tirou para isso o despacho de Sua Excelencia e fez nessa obra um grande pedaco deixando, para se continuar 200.00 reis na mao do nosso Irmao Sindico e fez mais o forro da porta do coro e o almário dele.
Frei Diogo da Soledade que tomou posse aos 6 de Outubro de 1764 (...) Continuou a dita obra da agua ate se meter na cozinha, gastando-se nela os ditos 200.000 mil reis e mais de 150.000 em cima (...) Andou-se com toda a pressa com a dita obra da água até meter-se na horta, que caiu nela a 24 de Janeiro (...) Frei Francisco do Rosário (...) tomou posse em 13 de Junho de 1765 (...) No seu tempo fez a Provincia metade da obra do claustro, nao concluida alias, porquanto a esmola provincial nao foi bastante (...)
Frei Matias do Espirito Santo, natural de Sao Miguel de Perre, termo de Viana, tomou posse em 12 de Fevereiro de 1767 (...). Fez o tanque da horta e levantou o frontespicio da Igreja, concorrendo para esta obra com a esmola de 32.000 reis o Padre Frei Paulo da Conceição. No arco cruzeiro da Igreja colocou-se no seu tempo as imagens do Santo Cristo, Nossa Senhora e São João Evangelista (...) Fizeram-se duas quadras do claustro de pedraria somente.
Frei Antonio de Sao Joao (...) tomou posse este guardiao em 22 de Setembro de 1768 (...) fez o coberto para dar esmola aos pobres e cobriram-se e soalharam-se de novo duas quadras dos claustros. Colocou de novo o Senhor da Portaria e outros acrescentamentos fez.
Frei Francisco da Purificacao (...) tomou posse da guardiania em 3 de Julho de 1770 (...). No seu tempo retelharam-se as duas quadras do claustro e todo o mais convento que necessitava (...).
Frei Francisco da Madre de Deus (...) tomou posse em 21 de Dezembro de 1771 (...). No seu tempo fizeram-se duas quadras dos claustros, a que corre encostada ao De Profundis e a que desta vai para a sacristia, soalharam-se e madeiraram-se; e as outras se tornaram a compor de madeiras, consertando-se lhe tambem os telhados, assim como em muitas partes do convento. Mudou-se a adega do capitulo e este se preparou colocando-se-lhe a imagem de Sao Pedro de Alcantara. (...) Consertou-se tambem o muro da mata em quatro pontos. Na rouparia colocou-se a imagem de Sao João Nepomuceno, primeiro mártir e defensor do sigilo sacramental (...) Fez-se ainda com todo o primor da arte uma urna para Nossa Senhora das Dores.
Frei Manuel de Santa Margaria, natural da vila da Barca, tomou posse do cargo a 13 de Junho de 1776 (...) e esticou a escada do De Profundis e caiou o convento pela primeira vez desde que se fundou. (...) Frei Joao de Jesus, Maria, Jose tomou posse em 3 de Junho de 1779 e finalizou em 16 de Dezembro de 1780. No seu tempo fez-se a Portaria para dar a esmola e o muro da Senhora da Pastoriza, cerrando-se o que legou Caetano de Abreu e mais um pedaco de baldio. Construiu-se tambem a entrada de carro a esquina da Igreja. (...)
Frei Manuel de Jesus toma posse em 24 de Julho de 1782 (...) Nessa altura fez-se a livraria e nela se colocaram estantes. No campo trabalhou-se tambem especialmente na horta nova e no pomar. Fez-se tambem um galinheiro.
Frei Francisco de Santa Quiteria, que tomou posse da guardiania a 10 de Maio de 1785, deixou na Igreja três lâmpadas novas a romana (...) Organizou-se a enfermaria (...) Frei Bernardino de São José (...) Como fiquei reconduzido na Congregacão do sobredito Provincial, celebrada em Santo António de Viseu a 15 de Dezembro de 1798. Nesta estadia se botou abaixo o estuque, por estar muito roto e despedacado, caiando a pedacos, e se forrou a igreja de madeira de castanho, pintou-se o dito forro de alvaiade fino, fez-se-lhe no cimo e meio do forro a tarja da Senhora da Conceição com armas reais, e seraficas, a qual tem de comprido 35 palmos e 30 de largo. Fizeram-se as varandas de pintura por cima das cornijas da mesma igreja, tambem pintadas como se vêem. Pintaram-se as ditas cornijas, frestas, pedestal do pulpito, arcos, cruzeiro da capela de Sao Pedro de Alcântara e do claustro, portas dos confessionários quanto respeita a pedra e pau. Lavaram-se as três imagens do arco cruzeiro e se lhes puseram cortinas de fingido carmesim, resplandores prateados. Dourou-se e pintou-se o retabulo da capela de São Pedro de Alcantara, como tambem urna, etc. Dourou-se e pintou-se o retabulo e urna da Senhora das Dores, que e o colateral da parte do Evangelho e se fez de novo a Divina Imagem Dolorosa, vestido feito tudo em Braga, so ela Senhora, com os seus adereços, custaram por cima de sessenta mil reis, e pos-se-lhe o caixilho para a vidraca (...)
Frei Manuel de Santa Teresa de Jesus. Tomou posse em 20 de Agosto de 1800 (...) e a obra principal do seu tempo foi a aquisição de um sino para as horas do relógio que se colocou no cimo do campanário em quatro varões de ferro com suas guarnições e garimpa. Terminava com uma cruz na haste da qual se atravessava uma lanca, sustentando, um galo, que rolando, mostrava os ventos. (...)
Frei Joao da Pureza. Tomou posse em 8 de Dezembro de 1813 (...) Diz o sindico da Comunidade, Antonio Luis de Araujo Cunha, da Casa da Gaia, ter o guardião mandado arrancar e cortar no mesmo sitio da Pedreira para as sepulturas e ladrilho do claustro do dito convento, alguma pedra e, como assim se fez, foi a obra embargada pelo tesoureiro mor."

Extraído de:
- FIGUEIREDO, Ana Paula Valente (2008) - Os Conventos franciscanos na real província da Conceição - análise histórica, tipológica, artística e iconográfica. Tese de Doutoramento em Arte, Património e Restauro, FLUL, Lisboa.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A edificação do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Melgaço II



Altar Principal da Igreja do Convento

No capitulo seguinte que se celebrou em Viana aos 29 de Setembro de 1757 (...) se tornou a eleger para Presidente o Irmão Pregador Frei Francisco da Trindade (...) o qual tomou posse aos 15 de Outubro do mesmo ano começou a rezar em coro aos 13 de Novembro, dia do Patrocinio de Nossa Senhora para que com ele tivesse principio e bons progressos as principais funcoes de uma Casa tanto sua, o que fez em uma cela que e a do canto do dormitorio que esta para a vila, e principiando a demolir a penha em que foi fundada a Igreja pelo mes de Fevereiro de 1758 se lancou a primeira pedra junto a porta da Via-Sacra, e se benzeu aos 13 de Abril com assistencia da Comunidade que ja constava de 12 Religiosos; onde e de notar que havendo sobre esta penha em que a Igreja foi fundada um lajão que servia de eira com sua casa para recolher palhas, que tudo tinha rematado por uma divida de trinta mil reis o Capitao Manuel Goncalves Gomes, da Vila de Caminha, e a deu de esmola aos religiosos, como antes disto ficava tao distante se serviam da eira e juntamente do palheiro, nao só os vizinhos, e quem se queria aproveitar deles para as suas colheitas, mas tambem aqueles: quorum Deus venter esto: para nelas fazerem sacrificios a Baco, e a Vénus, de noite e de dia. E depois, por acaso e sem misterio, veio a ficar o coro no mesmo sitio, e na altura em que estava o palheiro, dispondo-o assim a divina providência para que ficasse desagravado o lugar em que de dia e de noite fora Deus ofendido com o continuo desempenho com que de dia e de noite Deus fora louvado; pois havendo uma grande questão entre os religiosos fundadores que queriam a Igreja mais para a parte do monte para lhe ficar mais campo, e os pedreiros que a queriam fundar onde agora e o refeitorio para fugirem da penha, a bom concerto veio a ficar, aonde agora se acha, vindo a cair o coro no mesmo lugar do palheiro. Em fim demolida a penha a ferro e fogo e levado o entulho com muito trabalho para o norte da mata se foi pondo a obra em bons termos (...) outro Presidente (...) que foi o Irmao Pregador Frei Manuel dos Serafins (...) E continuando com a Igreja solhou a Capela Mor, acabou a Igreja de pedraria, parte do madeiramento, acabou a torre e colocou nela o sino, deixou feitas as vidracas da janela do coro e as das quatro frestas do corpo da Igreja, etc., e concluiu o seu governo no capitulo feito a 30 de Agosto de 1760, no qual foi canonicamente eleito o primeiro Guardiao deste novo Hospicio e se lhe deu o titulo de Convento com obrigação de regular, como nas mais da Provincia (...) Foi novamente eleito em primeiro Guardiao deste novo Convento (...) Irmao Frei Inacio de Santo Antonio (...) E tanto que tomou posse nesta Casa deste novo cargo, que foi pela especial devoção que tinha ao glorioso Sao Jose na Dominga 2.a de Outubro, dia em que reza a Igreja do seu Patrocinio, cuidou logo em fechar a clausura exterior para evitar na arca devassidões, e invasões de gados, e seculares, enquanto se dispunham as coisas para clausular o interior, e para aquele fim fez os muros da cerca da parte do norte, e quinta da Pigarra ate a fonte, tendo aqueles quatro palmos de grosso, e em partes mais de doze de alto e de comprido setenta e duas bracas e um quarteirao (...) coloca colocando sobre o cunhal do novo muro da parte da Galiza, uma cruz de pedra de 6 palmos de alto e a benzeu. (...) continuou o seu zelo em socalcar grande parte do pomar e pondo nos socalcos escadas para suave descensu dos religiosos, copando-o de ruas e plantando nelas novo bacelo das melhores castas para a seu tempo se tecerem latas, mandando enxertar as fruteiras que havia e acrescentando o pomar. Para este efeito sachou um grande pedaco de mata que assombrava o pequeno pomar que tinha plantado o Irmao Regente Frei Manuel de Sao Francisco de que acima faz mencao, e lho acrescentou com muitas novas arvores, das melhores frutas, e belos enxertos que de fora vieram, e todos os religiosos por fora pediram, pelo grande gosto que do acrescimo do pomar tiveram, e no canteiro por cima se principiou com laranjeiras e limoeiros, que se puseram um ordinario pomar de espinho, que se vai com diligencia continuando. Coparam-se as ruas da mata de castanheiros postos ao cordel e em toda ela muitos carvalhos se plantaram ocupando com este inumeravel zelo todo o Inverno, chegou finalmente o Marco do seguinte ano de 1761 e nele se concluiu o madeiramento, cambotaria da Igreja e seu faiscado, e ripado e toda a carpintaria do coro, com tal diligência que a 9 de Abril deram principio as obras de colher e rebocadores.
Continuando os rebocadores com diligencia a sua empreitada em toda a Igreja a 4 de Julho do mesmo ano a tinham telhado, estucado, rebocado e caiado toda e neste mesmo dia que caiu em sabado, a Mae de Deus dedicado, se fechou a porta da nova Igreja e a Portaria (...)
No primeiro de Agosto, que tambem caiu no sabado, a nossa Patroa dedicado, primeiro dia do singular jubileu da Porciuncula, apareceram os tres altares da nova Igreja concluidos de urnas, banquetas e os seus Santos nestes colocados Nos colaterais: da parte do Evangelho fica a Senhora das Dores, que e o do Sacrario; na parte da Epistola, o glorioso Santo Antonio e se lhe pôs de novo o seu resplandor de prata e tambem ao seu Menino, feitos a moderna e este se fez privilegiado com deputacao do Ordinario segundo o Breve do Senhor Papa Benedito 14 (...)
No Altar da Capela do Cruzeiro se colocaram o Menino Deus no ternissimo Misterio do Nascimento de uma parte a Madre de Deus, e da outra o gloriosos Sao Jose, ambos de roca e de estatura proporcionados e se vestiram custosamente de tudo o necessario (...) e se puseram as cimalhas de talha a moderna, no cimo das frestas da capela mor, e da mesma lisa se fez o pulpito, e se solhou todo o Arco Cruzeiro ate a grade; e para esta se assentar se fez um degrau de esquadria; e por baixo outro no olivel do pavimento da Igreja para os caixilhos das sepulturas (...)
(continua)

Extraído de:
- FIGUEIREDO, Ana Paula Valente (2008) - Os Conventos franciscanos na real província da Conceição - análise histórica, tipológica, artística e iconográfica. Tese de Doutoramento em Arte, Património e Restauro, FLUL, Lisboa.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A edificação do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Melgaço I



"Mas porque a devoção dos principais da vila se não satisfaziam com a erecção da venerável Ordem Terceira, e tudo era pedir ao sobredito Provincial religiosos que lhe viesse assistir, determinou o ministro provincial para este efeito ao Irmao Pregador frei Francisco da Trindade, com o Irmao frei Paulo da Soledade ex leitor de Moral para que como Comissarios da mesma Ordem residissem na mesma vila e dela fossem tambem assistir a de Moncao, enquanto se nao dava outra providencia. Para satisfazer pois a obediencia do Prelado que assim o determinava, chegaram a esta vila os ditos religiosos a 29 de Julho do sobredito ano de 1746 e enquanto se nao preparavam umas casas que descobriram neste Campo da Feira para poderem assistir se hospedaram em casa de Silvestre Teixeira Torres, que era um dos mais empenhados na sua vinda para esta vila e a quem o sobredito Provincial tinha mandado patente de sindico dos mesmos religiosos (...) Compostas as casas conforme pedia a Nossa Santa pobreza foram os dois companheiros morar para elas e juntamente provendo-se pouco a pouco do necessario com um Irmao Donato, que lhes assistia a fazer a Cozinha (...) depois de vir para o Hospicio o Irmao Pregador Frei Andre de Jesus Maria (...) sucedeu chegar a porta do hospicio um homem pobre, no que mostrava, perguntando pelo sindico dos Padres que nao achara em casa, para lhe entregar um dinheiro. Sabido o recado eram vinte moedas de 4.800, que lhe entregara em Lisboa um homem de Roucas, chamado Pedro Fernandes da Silva, sem mais seguranca, nem cautela, que um escrito com elas embrulhado, em que dizia: que se entregassem aquelas vinte moedas a Silvestre Teixeira para as obras dos Padres Capuchos e passasse recibo (...) Ajustado que foi o sitio vieram os pedreiros de Lanhelas a ve-lo, e feita a planta se fez o ajuste da Capela Mor com o primeiro dormitorio que e dobrado, em quinhentos mil reis, e depois com os acrescimos que houve passou a seiscentos (...) Principiaram os pedreiros a arrancar a pedra a 10 de Outubro de 1748. Lancou-se a primeira pedra no cunhal da Capela Mor da parte da vila a 28 de Novembro do mesmo ano (...); e depois de acabadas as paredes se lancou a primeira pedra no cunhal do dormitorio tambem da parte da vila, a 30 de Maio de 1749 e acabada por 12 de Dezembro do mesmo ano; e depois de se cobrir tudo, de se forrar e fazer as taipas e algumas janelas, fizemos a nossa muda das casas do Campo da Feira para o novo hospicio a 8 de Setembro de 1750 (...) Acomodados no novo hospicio, entramos a fazer as janelas mais precisas e reparos para o Inverno, que foi o mais rigoroso que ha muitos anos tinha vindo, e sendo um dos principais reparos os telhados seguros ja com cal, foi tanta a violencia do vento pelos grandes temporais, e desamparo do sitio, que se alagaram as celas da parte do poente em agua, de sorte que nao tinhamos os Religiosos donde escapar da chuva, senao em algumas celas que ficavam da outra parte contraria, e assim passamos o inverno com muito trabalho e desconsolacao, enquanto nao chegou tempo oportuno para dar outra providencia aos telhados, como se deu no verao seguinte mandado vir os homens mais experimentados do termo de Viana, que ao mesmo tempo que fizeram o estuque da Capela Mor, tambem deram volta aos telhados, fazendo-os dobrados como se veem da parte do temporal, da mesma sorte que os da Capela, e com isso se pos remedio as coisas. Ja por este tempo se tinha encomendado a imagem da Conceicao, em Ponte do Lima, e como em Viana se tinha feito a tribuna nova com intuito de darem para esta Capela a antiga, se fez conduzir este mesmo verao, de sorte que quando vieram os caiadores ja ela estava assentada (...) Irmao Pregador Frei Manuel de Sao Francisco, natural de Grovelaz, termo da Barca, que foi mandado de Caminha onde acabara de guardiao para Regente deste Hospicio tomando posse dele nos ultimos dias deste mes de Dezembro do mesmo ano de 1751. E com as esmolas, que a Divina Providencia lhe ia administrando, a deligencia que alguns religiosos zelosos ia fazendo, continuou com a obra de paredes desde a Cozinha, ate fechar na Capela Maior, conduzindo com grande trabalho todas as traves, que foram necessarias de Parada do Monte e do lugar das Cavencas de Riva de Mouro (...) Maio de 1753, em que saiu eleito para Regente deste Hospicio o Irmao Pregador Frei Felix de Santa Teresa, natural de Ponte do Lima (...), e solhou o meio dormitorio, desde a cozinha ate a Casa ultima, fez as taipas, e celas e concluiu a Casa ultima no estado em que se acha. Fez tambem o muro desde a Capela da Pastoriza ate a volta que fez em roda da tomada de Caetano de Abreu. O qual muro continuou depois o Irmao Pregador Frei Manuel de Sao Francisco ate o canto da Cruz de pedra, que esta para a parte da Pigarra (...) e plantou de novo o pomar com varias arvores de fruto no ultimo canteiro da mata, que fica onde esta a Cruz de Pedra (...) Foi eleito em seu lugar o Irmao Pregador Frei Jose da Madre de Deus, natural de Viana, que no seu tempo forrou e pintou o refeitorio como se acha, solhou e forrou a sacristia e o mesmo fez ao de Profundis, solhou o dormitorio que corre da Casa ultima ate a capela mor, deixou encomendadas as imagens da Madre de Deus com seu Menino e Sao Jose, e tambem a Senhora da Escada; pos o relogio com seu sino, que mandou fazer (...) como tambem a custodia, e os melhores ornamentos que nela se acham procurou quem pagasse toda a telha para a Igreja alem de muitas e grandes esmolas que diligenciou por pessoas devotas para continuacao das obras".
(continua) ...

Extraído de:
- FIGUEIREDO, Ana Paula Valente (2008) - Os Conventos franciscanos na real província da Conceição - análise histórica, tipológica, artística e iconográfica. Tese de Doutoramento em Arte, Património e Restauro, FLUL, Lisboa.