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sábado, 7 de novembro de 2015

A vila de Melgaço no velho "Guia de Portugal"

Praça da República (Vila de Melgaço) na década de 50

O "Guia de Portugal" é uma obra iniciada em 1924 por Raúl Brandão. É reconhecido como um dos mais completos roteiros de Portugal do século XX. Foi publicado em vários volumes dedicados a cada uma das regiões do nosso país. A edição do volume dedicado ao Alto Minho é de 1965 e fala-nos desta região e em particular das estradas e caminho de Melgaço e das contemplações do autor com as paisagens da nossa terra.
A respeito da vila de Melgaço, refere: "Melgaço, povoação antiga, de 728 habitantes, coroada por um velho castelo afonsino, como atalaia da fronteira que a dez quilómetros (no posto de S. Gregório) deixa de ser raia húmida para se tornar raia seca e serrana.
A vila situada a uns 180 metros de altitude, dispõe-se em patamar sobre amplo vale. O rio corre ao fundo. Defronte avultam, em sucessivos planos, os austeros montes galegos.
Noutros tempos, a vila concentrava-se numa apertada e robusta cerca murada de que restam apenas panos e cubelos sobranceiros ao vale. De um extremo ao outro, a povoação tem cerca de um quilómetro. Ao lado do seu antigo núcleo, nota-se uma discreta dispersão do seu casario ao longo da principal via, que é a própria estrada relacionada com o posto fronteiriço relativamente próximo de S. Gregório.
Sobre a vertente, defronte da terra galega, impõe-se, como severo miradouro, do vale, o velho e arruinado castelo (monumento nacional), de estrutura afonsina. A torre de menagem, quadrangular e ainda coroada de ameias, é quase tão alta imponente como a do roqueiro de Guimarães. Somente, em vez da paisagem urbana e rústica do coração do Minho, a largueza que daqui se domina é tipicamente raiana e serrana.
Quem seguir pelo campo da feira poderá deitar um olhar pela parte mais arcaica da povoação medieva. Um dos edifícios que solicitam, pela robustez, é o dos antigos Paços do Concelho, assente em três possantes arcos redondos.
Transpondo a muralha pela ponte do Poente poderá seguir-se ao longo da antiga cerca até junto da “canhoneira”, obra defensiva do século XVII, contígua à barbacã, hoje ocupada pela Guarda Fiscal. Prosseguindo até à Praça, teremos em frente a velha igreja matriz (monumento nacional), templo românico, talvez do século XIII, de modestas proporções e projeção cruciforme. O seu mais estimável valor reside no tímpano do pórtico, pelo singular alto-relevo zoomórfico que nele se encontra. Interior relativamente singelo.
Ao norte de Melgaço, junto da estrada que conduz a S. Gregório, encontra-se a 1 quilómetro, a Igreja de Nossa Senhora da Orada (monumento nacional), templo coevo ou quase coevo da fundação da nacionalidade portuguesa, alcandorado sobre um pequeno patamar da ampla visão panorâmica. O portal da igreja voltado a poente, está precisamente no enfiamento do extenso e profundo vale do Minho, permitindo a visão simultânea das duas vertentes, a portuguesa e a galega.
Igreja castiçamente românica pura e interessante. Portal gracioso, com três arquivoltas, de ponto levemente subido, assentes em seis colunelos de singelos capitéis. A decoração de cada uma das arquivoltas é extremamente graciosa. Ao longo da cornija, há uma linha de curiosos modilhões. Abside retangular, com outra série de cachorros e uma fileira de grânulos. Porta lateral voltada a norte, muito interessante, pela preciosa decoração semicircular, de estilo oriental que a reveste. Do lado sul, outro portal mais singelo.
Interior muito simples. Nave única e relativamente alta, com cobertura de madeira. Iluminação discreta obtida por quatro frestas. Capela-mor muito típica. Arco triunfal a anunciar uma leve tendência para a ogiva.

Descendo de novo à estrada, poderemos prosseguir até ao ponto próximo da fronteira. À medida que se vai caminhando, a paisagem parece redobrar de seriedade. As montanhas do outro lado do rio ganham em volume, como que justificando, na sua muda eloquência, a custosa desistência que o ânimo forte do primeiro rei português teve de aceitar após o desastre de Badajoz."


Extraído de:
SANT'ANA DIONÍSIO (1965) - Guia de Portugal - Entre o Douro e Minho II. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

sábado, 5 de setembro de 2015

Mulheres de Melgaço em fúria num funeral (1886)


Recuamos a 1886, numa época que já era proibido enterrar os mortos nas igrejas. Esta estória passou-se às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de Fevereiro na igreja matriz de Melgaço.
Era um funeral de um homem. As mulheres cavaram um buraco na igreja para sepultar o defunto mesmo contra a lei. O administrador do concelho tentou impedi-las de concretizar os intentos. Foi cuspido, pontapeado, sovado e escorraçado pelo mulherio. Mandou chamar os soldados. O que se passou de seguida, foi bastante feio. Encontramos tudo contado numa notícia do jornal espanhol “El imparcial”, na sua edição de 25 de Fevereiro de 1886:


Un motim de mujeres
A las ocho y media de la mañana del 15 del corriente, celebrábase en la iglesia parroquial de Melgazo (Portugal) un oficio fúnebre por el alma de un hombre. El cadáver de este se hallaba sobre el tumulo levantado en el templo, y en el templo multitud de mujeres amigas o vecinas del finado.
A una señal convenida, doce de ellas se colocaron al rededor del féretro como para darle guardia de honor, mientras otras, valiéndose de tablas y otros instrumentos comenzaron á cavar la fosa que que habia de ser enterrado el cadáver.
Enterado el alcalde de lo que en el templo ocurría, se dirigió allí aconpañado por algunas personas; pero las mujeres comenzaron á bofetadas y á palos con ellos hasta que los hicieron retroceder. Volvieron á la carga y pudo entrar en la iglesia él alcalde, quien, metido dentro de la fosa abierta, invitó á las mujeres á que se retirasen y dejasen que el muerto fuera enterrado en el cementerio como prescriben las leyes.
Nueva lluvia de bofetadas, mordiscos y tirones de pelo cayó sobre el infeliz alcalde, quién, viendo que era imposible por la fuerza de la razón dominar y convencer á aquéllas furia, apeló a la razón de la fuerza para conseguirlo y mandó llamar á 14 soldados y un sargento.
«Soldados — dijo el sargento, — no tirar contra las mujeres; servirse unicamente de las culatas de las carabinas en caso necesario.»
Aquéllas, más que mujeres demonios, lanzáronse furiosas sobre los soldados, á quienes mordieron, arañaron y patearon. Unas cuantas arrastraron el féretro hacia la fosa, y como á favor de esta horrible contusión habían entrado en la iglesia algunos hombres, uno de éstos, padre del muerto, agarró uno de los santos del altar, y sin considerar el sacrilegio que cometía, furioso lo dejó caer sobre la cabeza del sargento, cuya sangre manchó la cara de la sagrada imagen.
Desde este momento el tumulto adquirió ya sertas proporciones, porque en él tomaron parte los hombres armados con palos, hoces y revólvers.
Sonó un tiro, y uno de los soldados cayó á tierra herido gravemente en la cabeza, y otro soldado también fué herido por una pedrada en la cabeza.
Entonces el sargento reclamó y obtuvo del alcalde permiso para proceder con energía y hacer uso de las armas. Se hizo una descarga al aire, y esto exasperó a las mujeres, que gritaban furiosas: “Tiran com pólvora seca! A ellos! A ellos!”.
Em una nueva arremetida, las mujeres fueron hacia ellos en actitud amenazadora, y entonces se oyó la voz de “Fuego”, alcanzando esta vez, las balas á un infeliz que iba á sacar del tumlto á su mujer, quien cayó muerto en el acto, y á otros varios que fueron heridos, entre los cuales estaba la mujer que aquel desgraciado iba á buscar.
Como los soldados tiraban á dar, el tumulto fué cediendo hasta que se pudo dar sepultura al cadáver en el cementerio.”

Cabeçalho do jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886


Recorte da notícia trancrita (jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886)


Fonte: Jornal "El imparcial", edição de 25 de Fevereiro de 1886, ano XX.