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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Viagem à Capela da Senhora da Orada (Melgaço) em fotos de antigamente


A capela da Nossa Senhora da Orada é um importante marco da arquitetura religiosa medieval de Melgaço e de todo o Alto Minho. Trata-se de um templo outrora associado a lendas e romarias que remontam a vários séculos atrás aos tempos da peste. Acerca desta capela, José Saramago, Nobel da Literatura, escreveu no seu livro Viagem a Portugal: “Logo adiante de Melgaço está a Nossa Senhora da Orada. Fica à beira do caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa e desatento, passa por ela, e ai minha Nossa Senhora, onde estás tu? Esta igreja está aqui desde 1245, estão feitos, e já muito ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjetivos, que são a peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste caso. Mas a Igreja da Nossa Senhor da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo de luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpanos, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é. O viajante pergunta aos ares de onde são os álbuns de arte que mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e de todas as Oradas que por este país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir.”
Proponho-vos uma viagem à Nossa Senhora da Orada pelas fotografias dos últimos 120 anos e um raro desenho da capela com mais de 130 anos. Viaje no tempo!...


Capela da Orada em 1886 (desenho no livro "O Minho Pittoresco).


Capela da Orada em 1909 (foto que consta numa reportagem na revista Serões intitulada "A estrada de S. Gregório - A paisagem mais bonita de Portugal).

Capela da Orada em postal de início do século XX

Capela da Orada em postal de início do século XX

Capela da Orada em foto de 1903 (Foto de Aurélio da Paz dos Reis).
Capela da Orada em 1914 (cliché que Marque de Abreu)


Capela da Orada em postal de início do século XX


Capela da Orada em postal do primeiro quarto do século XX

Capela da Orada em postal da década de 30 do século passado


Pormenor da Capela da Orada fotografado em 1928 


Capela da Orada em meados do século XX


Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais)


Pormenor do portal lateral da Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais)



Pórtico Principal da Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais)


Interior da Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais)



Capela da Orada em 1971 (Foto de Severino Costa).

Portal de entrada da Capela da Orada em 1971 com a Senhora da Orada no exterior.
(Foto de Severino Costa).



Exterior junto à Capela da Orada em 1971 com a Senhora da Orada exposta (foto de Severino Costa)

Capela da Orada em postal dos anos 70 do século passado


Capela da Orada em postal dos anos 70 do século passado

Capela da Orada em postal dos anos 80 do século passado
Capela da Orada em postal dos anos 70 do século passado

sábado, 22 de novembro de 2014

A vila de Melgaço descrita por José Saramago (1981)

A vila de Melgaço na época

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, no seu livro "Viagem a Portugal", de 1981, descreve a vila de Melgaço nestas palavras: "Melgaço é vila pequena e antiga, tem castelo, mais um para o catálogo do viajante, e a torre de menagem é coisa de tomo, avulta sobre o casario como o pai de todos. A torre está aberta, há uma escada de ferro, e lá dentro a escuridão é de respeito. Vai o viajante pé aqui, pé acolá, à espera de que uma tábua se parta ou salte rato. Estes medos são naturais, nunca o viajante quis passar por herói, mas as tábuas são sólidas, e os ratos nada encontrariam para trincar. Do alto da torre, o viajante percebe melhor a pequenez do castelo, decerto havia pouca gente na paisagem em aqueles antigos tempos. As ruas da parte velha da vila são estreitas e sonoras. Há um grande sossego. A igreja é bonita por fora mas por dentro banalíssima: salve-se uma Santa Bárbara de boa estampa. O padre abriu a porta e foi-se às obras da sacristia. Cá fora, um sapateiro convidou o viajante a ver o macaco da porta lateral norte. O macaco não é macaco, é um daqueles compósitos medievos, há quem veja nele um lobo, mas o sapateiro tem muito orgulho no bicho, é seu vizinho.
Logo adiante de Melgaço está a Nossa Senhora da Orada. Fica à beira do caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa e desatento, passa por ela, e ai minha Nossa Senhora, onde estás tu? Esta igreja está aqui desde 1245, estão feitos, e já muito ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjetivos, que são a peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste caso. Mas a Igreja da Nossa Senhor da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo de luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpanos, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é. O viajante pergunta aos ares de onde são os álbuns de arte que mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e de todas as Oradas que por este país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir. O viajante vai mais longe: certos monumentos deveriam ser retirados do lugar onde se encontram e onde vão morrendo, e transportados pedra por pedra para grandes museus, edifícios dentro de edifícios, longe do sol natural e do vento, do frio e dos líquenes que corroem, mas preservados. Dir-lhe-ão que assim se embalsamariam as formas; responderá que assim se conservariam. Tantos cuidados de restauro com a fragilidade da pintura, e tão poucos com a debilidade da pedra.
Da Nossa Senhora da Orada, o viajante só escreverá mais isto: viram-na os seus olhos. Como viram, do outro lado da estrada, um rústico cruzeiro, com um Cristo cabeçudo, homenzinho crucificado sem nada de divino, que apetece ajudar naquele injusto transe.
Vai agora o viajante iniciar a grande subida para Castro Laboreiro..."

Extraído de: SARAMAGO, José (1981), Viagem a Portugal. Edições Caminho, Lisboa.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"As meninas de Castro Laboreiro" na escrita de Saramago (1981)


No livro "Viagem a Portugal", editado em 1981, Saramago, à chegada a Castro Laboreiro, escreve...
“Castro Laboreiro chega sem avisar, numa volta da estrada. Há ali umas casas novas, e depois a vila com o seu trajo escuro de pedra velha. Bons de ver são os botaréus que amparam as paredes da igreja, restos românicos da antiga construção, e o castelo, nesta sua grande altura, com a única porta que lhe ficou, a do Sapo, alguma coisa daria o viajante para saber a origem deste nome. Não requer grandes demoras a vila, ou requere-as enormes a quem tiver ambições de descoberta, ir, por exemplo, àquelas pedras altas, gigantes em ajuntamento que ao longe se levantam. No céu, de puríssimo azul, atravessa um rasto branco de avião, recto e delgado: nada se ouve, apenas os olhos vão acompanhando o lento passar, enquanto, obstinadamente, as pedras se apertam mais umas contra as outras.

Está quase a despedir-se. Veio por causa do caminho, da grande serrania, destes altos pitões, e correndo agora em redor dos olhos, já distraídos, dá com duas meninas que o miram, com sério rosto, suspendendo as atenções que davam a uma boneca de comprido vestido branco. São duas meninas como nunca se viram: estão em Castro Laboreiro e brincam à sombra duma árvore, a mais nova tem o cabelo comprido e solto, a outra usa tranças com uns lacinhos vermelhos, e ambas fitam gravemente. Não sorriem quando olham a máquina fotográfica, quando assim se mostra o rosto, tão aberto, não é preciso sorrir. O viajante louva, em pensamento, as maravilhas da técnica: a memoria, infiel, poderá renovar-se neste rectângulo colorido, reconstituir o momento, saber que era de tecido escocês a saia, crespas as tranças, e as meias de lã, e o risco do cabelo ao meio, e, descoberta inesperada, que uma outra bonequita havia, caída lá para trás, acenando com a mão, com pena de não ficar de corpo inteiro na fotografia”.
As meninas de Castro Laboreiro (foto retirada do livro "Viagem a Portugal" (1981)

Extraído de: SARAMAGO, José (1981), Viagem a Portugal. Caminho, Lisboa.