sábado, 11 de abril de 2020

São Gregório (Cristóval - Melgaço) e a Ponte das Várzeas: a sua importância em tempos antigos



O lugar a que hoje chamamos de S. Gregório na freguesia melgacense de S. Martinho de Cristoval é de origem bastante antiga. Contudo só conhecemos referências em documentos históricos a partir do século XVII. Até aí, em termos de lugares desta freguesia, apenas aparecem citadas com alguma regularidade o sítio da Ponte das Várzeas ou a vila de Doma.  
A origem para o nome do lugar “S. Gregório” merece do Padre Bernardo Pintor um apontamento. Segundo o mesmo, a razão para o seu nome deve derivar do facto de “em tempos remotos que não sei definir edificou-se ali uma capela dedicada a S. Gregório. Tal era a devoção que o lugar tomou o nome do Santo. A sua imagem está lá ainda na capela. Mais tarde, para ali se levou uma imagem de Santa Bárbara mais da devoção popular por ser evocada contra os trovões. De tal modo se desenvolveu o seu culto que se lhe faz uma grande festa e talvez não haja quem se lembre de rezar a São Gregório.” Sabemos que em meados do século XIX, a festa realizada nesta capela era já a de Santa Bárbara e já não há qualquer referência à veneração a São Gregório. 
Padre Bernardo Pintor expressa ainda o receio que “é possível que no decorrer dos tempos a imagem de São Gregório se arruíne e seja arrumada daqui para fora e os vindoiros não saibam qual a razão do nome do lugar. Tem havido muitos casos desses.” 
Não temos informação precisa acerca da época de construção da capela. Contudo, NOÉ, P. (2014), considera que a mesma terá sido edificada no século XVII ou XVIII, ainda que a segunda possibilidade seja pouco provável. O pároco, nas Memórias Paroquiais em 1758, escreve que a capela já é antiga nessa época. Ao longo dos tempos, a capela recebeu obras, particularmente no século XX. 


Capela de S. Gregório

A capela de S. Gregório apresenta uma planta retangular simples, tendo adossado à fachada posterior corpo retangular, mais baixo e estreito. Possui volumes escalonados, com coberturas em telhados de duas águas, rematadas em beirada simples. As fachadas são rebocadas e pintadas de branco, percorridas por faixa em cimento, pintada de cinzento, com cunhais apilastrados, coroados por pináculos piramidais sobre acrotério, e terminadas em cornija. A fachada principal apresenta-se virada a sul, terminada em empena truncada por sineira, sobrelevada, em arco de volta perfeita sobre pilares, albergando sino, e rematada em empena com cornija, coroada por cruz latina de cantaria, biselada. É rasgada por portal de verga reta, de moldura simples, e óculo circular, com moldura pintada de branco, existindo entre os dois vãos três lápides inscritas. A fachada lateral esquerda com a capela é rasgada por porta travessa, de verga reta e moldura simples, e janela retangular, sem moldura, e o corpo adossado por janela retangular, maior e também sem moldura, e porta de verga reta, moldurada. Na fachada lateral direita a nave é cega e o anexo rasgado por duas frestas de molduras pintadas de branco. A fachada posterior com a capela e o corpo é adossado terminados em empena, coroadas por cruz latina biselada, sobre acrotério, rasgando-se no anexo janela retangular, de moldura pintada de branco. 
A importância do lugar de S. Gregório ao longo dos tempos teve que ver com a importância que a Ponte das Várzeas foi adquirindo, especialmente em época de conflito armado com o país vizinho, nos séculos XVII ou épocas de tensão no século XVIII e XIX.  Não podemos esquecer também que este lugar se situa no muito antigo caminho que vem desde o litoral ao longo de todo o vale do Minho, mais tarde Estrada Real e que se prolongava até à dita ponte e continua pela Galiza. Em finais do século XIX, era já conhecida também como Ponte Internacional de S. Gregório.


Ponte Internacional (Velha) de S. Gregório em 1903

Neste sentido, é bom salientar que a existência desta ponte é muito antiga dando inclusivamente nome ao próprio lugar que tinha uma designação comum de ambos os lados do rio: Ponte das Várzeas/Ponte Barxas. Todavia, do lado português, o nome entrou em desuso algures no início do século XX, enquanto que do lado galego, a localidade conserva o nome antigo (Ponte Barxas). 
Claro que São Gregório foi desde sempre um local onde o comércio prosperou, quer as trocas legais, quer o contrabando, tão antigo como a própria fronteira ainda que muito mais falado durante o Estado Novo. Deixo-vos contudo um extrato de uma notícia do jornal de Melgaço “A Espada do Norte”, da sua edição de 29 de Dezembro de 1892 que diz o seguinte: "Eis aqui as apprehensões realisadas nos diferentes postos d’esta secção durante o mez corrente: (…) Pelas praças do posto fiscal de S. Gregório, differentes géneros alimentícios, algumas fazendas de lã e algodão, no valor de 3130 réis." Os bens transacionados vão variando ao longo dos tempos mas em nenhuma época os valores envolvidos são tão elevados como durante a segunda guerra mundial.
Há ainda a ter em conta que a antiga Ponte das Várzeas (Ponte Velha) era tão rudimentar como estratégica em termos militares. Historicamente, daquilo que se conhece, era a principal passagem de Melgaço para a Galiza através do vale do rio Trancoso e por isso, um ponto fronteiriço sempre sensível em tempos de guerra. Sabendo que em tempos antigos, o rio Minho era intransponível em praticamente todo o troço que passa por Melgaço, restavam as outras linhas de fronteira natural, entre as quais o traçado do rio Trancoso. Nesta linha fronteiriça, a importância da Ponte das Várzeas é destacada por MOREIRA, L. (2008) que refere que “Desde Castro Laboreiro, à entrada do rio Minho, a fronteira era estabelecida pelo vale do rio Trancoso - também designado por “rio das Várzeas” - cujo vale de margens abruptas era considerado impenetrável. Os únicos pontos de passagem seriam duas pontes: a Ponte de Pouzafolles, ainda em área de montanha, e a Ponte das Várzeas, construída em madeira no lugar de S. Gregório”, relativamente próximo do rio Minho.  
Em todos os registos históricos que conhecemos, a Ponte das Várzeas é descrita como sendo construída em madeira. Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco escreve que a paróquia “tem mais o lugar de Sam Gregório com uma capela antiga do mesmo santo e com vinte vizinhos (fogos), por onde é a estrada deste Reino de Portugal para a Galiza passando-se o regato por uma ponte de táboa que chamam a Ponte das Varges”. Por este registo, se vê que o lugar de São Gregório era o mais extenso da freguesia sendo que o lugar da Porta era, a seguir a São Gregório, o que tinha mais fogos, mas com apenas doze. No lugar da Porta, havia em tempos muito antigos, uma portagem de passagem que as pessoas pagavam pela circulação das próprias e pelas mercadorias. 
O facto de uma ponte tão importante como esta ser em madeira durante vários séculos leva-nos a pensar em qual seria a razão para tal. Talvez por ser um ponto de passagem muito sensível no vale do rio Trancoso. 


Ponte Internacional (Velha) de São Gregório em 1903

A importância estratégica da velhinha Ponte das Várzeas na perspetiva militar durante a Guerra da Restauração (século XVII) é comprovada pela frequência com que é utilizada por portugueses e espanhóis nas suas incursões em território inimigo. Para comprovar tal ideia, podemos citar um trecho do livro “História do Portugal Restaurado” que nos fala das manobras militares nas fronteiras desta região: “D. Gastão, com outro troço, ficou alojado na Ponte das Várzeas (Cristóval) e para que o inimigo divertisse o poder que tinha junto, mandou entrar na Galiza pela Portela do Homem a Vasco de Azevedo Coutinho e por Lindoso a Manuel de Sousa de Abreu, ordenando-lhes, que segunda feira, nove de Setembro, entrassem na Galiza. No mesmo dia ao amanhecer, dividiu D. Gastão a infantaria em três troços e levantando uma plataforma, fez jogar as duas peças de artilharia que levava, contra o reduto da Ponte da Várzeas (junto a Ponte Barxas) e foram de grande efeito, recebendo o inimigo considerável dano”. 
Temos notícia da Ponte das Várzeas no livro “Corografia Portugueza” do padre Carvalho da Costa, publicado em 1706, que refere a propósito de Cristóval que “aqui está a Ponte das Várzeas, que divide este Reyno do da Galliza”.  
No século XVIII, além das Memórias Paroquiais, temos ainda informações sobre São Gregório e a Ponte das Várzeas. Existe um estudo de engenharia militar da autoria de Custódio Villas Boas onde este delineia um plano de defesa em caso de ataque nesta região em finais do século XVIII em época de tensão com Espanha e França, anos antes das invasões napoleónicas. No que toca à defesa de Melgaço, o autor refere que “a defesa da entrada do rio Minho deveria ser feita no rio Trancoso, onde seria necessário construir alguns entrincheiramentos, equipados com os canhões de Melgaço, ao mesmo tempo que se demoliria a Ponte das Várzeas a fim de dificultar o movimento inimigo”. Para a zona entre Melgaço e a Ponte das Várzeas, previu-se a construção de uma linha de baterias "feitas com parapeito em terra, próprias para receber soldados armados com armas ligeiras, mas também onde se poderiam colocar peças de artilharia" (ALMEIDA, C. 2002). Tais estruturas de defesa, foram efetivamente construídas, mas nunca houve uma incursão neste setor durante as invasões e, portanto, não chegaram a ser usadas. 
Durante as lutas liberais, S. Gregório teve aqui estacionada uma quantidade significativa de soldados, tendo chegado a existir um Quartel General. Socorremo-nos da publicação “O Imparcial” de 23 de Novembro de 1826 que nos conta que “em S. Gregório, estão 150 homens de infantaria 9, e 30 de Caçadores 12” e acrescenta que “na Ponte das Barges, junto a Melgaço, guarnece este ponto importante, 180 homens do Regimento 9, e Caçadores 12. 
Ainda no século XIX, o lugar de São Gregório é descrito com algum pormenor. De facto, no livro “O Minho Pittoresco”, de 1886, o autor descreve-nos o lugar e a velhinha Ponte das Várzeas: “Chegámos enfim a S. Gregório, o mais importante lugar da freguesia de Cristóval, cuja igreja oculta por detrás da encosta, onde assenta S. Gregório, é o templo que fica mais ao norte em território português. 


Vista parcial para S. Gregório em 1920

S. Gregório apresenta o aspecto duma pequena vila inclinada sobre o rio Trancoso, que ali voltámos a cumprimentar, como a nossa primeira artéria internacional, artéria que junto a Cevide, último lugar de Cristóval, vai desaguar no Minho e cuja confluência marca igualmente o ponto em que este formoso rio se interna em plena Galiza, ou melhor, em que ele, ao vir de lá, beija pela primeira vez a terra portuguesa.  
S. Gregório é, por assim dizer, uma rua única, uma rua verde, em ladeira íngreme até à ponte da Várzea, essa ponte que o nosso desenho representa, e que é a primeira ponte internacional lançada entre os dois países, se não quisermos falar nas poldras de Pousafoles, mais ao nascente, no curso do Trancoso. 
Mas, enfim, a ponte da Várzea tem já os seus 4 metros de altura, 6 de comprimento e 2 de largo! É quase a ponte de um lagosinho 
Não se riam dela, contudo, que ali onde a vêem, com os seus dois troncos de castanheiro, lançados de margem a margem, e os seus torrões como pavimento macio, é um símbolo de fraternidade entre dois países que vivem em plena paz, e seria um baluarte de independência a conquistar, quando o clarim de guerra ressoasse desoladoramente por aquelas quebradas fora.   
Ponte Várzea é o lugar espanhol, donde o pontilhão tira o nome e que pertence à alcaidaria de Padrenda, com quem S. Gregório faz o seu comércio meio lícito, meio... de contrabando!  
Que diabo queriam, porém, que fizesse S. Gregório, se no inverno é a margem de Ponte Várzea que lhe dá por empréstimo um bocadito de sol, a cujos raios vão aquecer-se aqueles pobres friorentos gelados das suas sombras de meses!    
Na pequena vila, — chamemos-lhe assim, que não seja senão por patriotismo, — há uma capela onde se festeja Santa Bárbara!”. 
Uns anos mais tarde, mais concretamente em 1894, São Gregório e a sua área envolvente que envolve o lugar foram alvo de um estudo por parte do investigador Adolpho Moller onde nos deixa uma descrição do lugar “S. Gregório é uma pequena povoação que fica situada na fronteira e dista de Melgaço oito kilometros. Outrora esta povoação teve um commercio importante, mas depois decahiu muito; actualmente porém tende outra vez a animar-se. A estrada que a liga com Melgaço tem já 7 kilometros concluídos, falta-lhe o oitavo e último, que anda em construcção. 
S. Gregório não é sede de freguezia, a igreja matriz está n'uma pequena povoação a cerca de um kilometro de distância. Este facto, de povoações importantes não serem sedes de freguezia, dá-se em vários pontos do paiz, como por exemplo na Mealhada e no Cargal do Sal que são cabeças de concelho e têm a matriz em aldeias próximas. A parte alta de S. Gregório está a cerca de 250 metros acima do nível do mar e o rio Minho fica-lhe ao norte à distância aproximada de 1,500 metros. 
Do nascente, banha a parte baixa d'esta povoação o pequeno rio ou ribeira de Trancoso, affluente do Minho, que limita Portugal da Galiza e tem a sua origem próxima a Alcobaça, Há uma pequena ponte internacional sobre a ribeira de Trancoso, que liga S. Gregório com uma pequena aldeia hespanhola e onde existe um posto de fiscalização aduaneira(…). 
Dos lados sul e poente de S. Gregório está a serra que tem por ponto culminante o castello de Castro Laboreiro o qual fica a cerca de 1,250 metros de altitude. Para se ir a esta povoação passa-se pela aldeia denominada Alcobaça, situada na fronteira e que fica perto de 2 horas e meia de caminho de S. Gregório. 
A poente de Alcobaça há um monte que tem a mesma altitude de Castro Laboreiro (…) 
O solo em volta de S. Gregório ó todo de origem granítica. Esta povoação é abundante em água e de boa qualidade. S. Gregório é saudável e o seu clima é temperado na estação invernosa e quente durante a calmosa. Para exemplo diremos que, no dia 26 de Junho ás 2 horas da tarde estando a atmosphera bastante carregada de electricidade, dentro de casa marcava o thermometro 30° C. O quarto onde fiz esta observação thermometrica tinha duas janellas voltadas para o norte e estavam com as vidraças abertas. Na mesma occasião fiz a leitura do meu aneróide o qual marcava 738 mm. 
A cultura principal de S. Gregório e povoações limítrofes é a vinha, milho, batata, algum centeio e os prados. A videira é toda cultivada em parreiras ou ramadas, mas estabelecidas a pouca distancia do solo, isto é, em média a cerca de 1 metro e meio d'altura. 
O vinho é magnifico e achamo-lo muito mais agradável ao paladar do que o affamado de Monsão. Árvores fructíferas observamos a cerejeira, em grande quantidade, pereiras, macieiras, ameixoeiras, pessegueiros, laranjeiras, etc. N'outro tempo cultivava-se ali a oliveira, mas como a producão era muito incerta os lavradores foram-nas arrancando, de sorte que hoje esta árvore é ali rara. Talvez valesse a pena introduzir as variedades hespanholas de maturação precoce e próprias dos climas septentrionaes do paiz. 
Enquanto árvores florestaes encontram-se: o carvalho, castanheiro, pinheiro, vidoeiro, amieiro e alguns salgueiros. 
Próximo a uma azenha que fica junto à ribeira de Trancoso e não muito distante de S. Gregório, vimos um lindo exemplar de vidoeiro com o tronco muito direito. Teria uns 20 metros de altura por 60 centímetros de diâmetro na base. As essências florestaes abundam principalmente na parte inferior da serra, próximo aos ribeiros e corgas. A parte elevada tem pouco ou nenhum arvoredo e só matto rasteiro, e este mesmo não apparece em todas as localidades. 
Em 1894, a velha Ponte Internacional de S. Gregório foi reconstruída em madeira ainda que apresentasse algumas peças da estrutura em ferro. Esta ponte foi destruída ainda na década de 1930. 
Em final de Abril de 1935, foi inaugurada a nova Ponte Internacional de S. Gregório, não muito longe da antiga ponte. 
O lugar é descrito na época pelo escritor Júlio Dantas que parece ter visitado S. Gregório mais do que uma vez. Sobre o lugar, escreve: “Dez minutos ainda de caminho, e avistamos as primeiras casas de São Gregório, cabrejando na rocha, escoando-se por dois córregos estreitos gorgolejantes de água, íngremes como calejas de velho burgo medieval, que vão dar abaixo, ao rio, conduzindo à ponte internacional de madeira que nos separa da vizinha povoação galega de Puente de Bárzia. É curioso o contraste entre as duas povoações, que testam uma com a outra, de cá e de lá da fronteira. Puente de Bárzia limita-se a um punhado apenas de casebres, de proporções humildes e de nenhum interesse. São Gregório, pelo contrário, é relativamente grande, tem alguns bons edifícios e certo aspecto de prosperidade, expressão de uma actividade comercial que, sobretudo na primeira metade do século passado, parece ter sido considerável. Há nove anos, quando pela primeira vez visitei estas paragens, ainda se encontravam de pé as ruínas de umas casas antigas, com muralhas de fortaleza, refúgio outrora de contrabandistas que, por vezes, se defendiam a tiro. Esta diferença no desenvolvimento das duas povoações fronteiriças é facilmente explicável. O comércio local de São Gregório enriqueceu, noutro tempo, com o que vinha de Espanha, mais do que o de Puente de Bárzia prosperou com o que ia de Portugal. 
Há pouco tempo ainda, a estrada de rodagem parava no cimo da povoação. Quem queria descer até ao rio e pisar os últimos palmos de terra portuguesa era obrigado a meter por um quebra-costas de lajedo que estreitava em congosta enfiando até à ponte, entre pocilgas de porcos e jorros de água cachoantes. Não pode afirmar-se que seja propícia a descida, e, muito menos, a subida. Mas a natureza tem, neste rincão minhoto, belezas compensadoras. Muitas vezes me lembrei do grande e saudoso Malhoa, ao transpor alguns recantos viçosos de parreirais em que o sol projectava sombras violetas, e alguns hortejos onde, na polpa das couves galegas, faiscava em gotas a água viva das nascentes. Agora, alcança-se o extremo de São Gregório pela estrada, prolongada há três anos até Espanha, no intuito de estabelecer ligação com a estrada espanhola começada a abrir, nas lombas dos montes galegos vizinhos, por iniciativa de Primo de Rivera. O troço português está pronto. O espanhol parou a pouca distancia da fronteira. Em todo o caso, já pude, de automóvel, atingir o extremo nordeste de Portugal, até ao rio Trancoso, que no verão leva pouca água e que os garotos transpõem de um salto. Parei, durante alguns momentos, nessa «terra última» em que se apoia um dos pilares da nova ponte internacional acabada de construir. De um lado e de outro, as culturas são as mesmas: campos de milho e vinhedos, dispostos em latada, à portuguesa. Ouvia-se, em terras de Espanha, uma voz alegre de mulher cantar em português. Os pardais revoavam, de uma para outra banda, sem respeito pelas determinações da polícia de emigração, e sem pensar que, num simples bater de asas, mudavam de país. 
Hoje, S. Gregório mudou bastante...  


Inauguração da Nova ponte Internacional de São Gregório (26 de Abril de 1935).


Complexo Fronteiriço de S. Gregório em 1951


Complexo Fronteiriço de S. Gregório em meados do século XX







Fontes consultadas: 
- ALMEIDA, Carlos Alberto Brochado de (2002) – O sistema defensivo da Vila de Melgaço: dos castelos da reconquista ao sistema abaluartado. Melgaço, Câmara Municipal. 
- COSTA, Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I, Valentim da Costa Deslandes, Lisboa. 
- DANTAS, Júlio (1936) - Viagens em Espanha. Livraria Bertrand, Lisboa.
- MOLLER, Adolfo Frederico (1894) - Excursão à serra de S. Gregório. in: Annaes de Sciensias Naturaes, Volume Primeiro, publicado por Augusto Nobre. 
- PINTOR, Bernardo (1975) - Melgaço Medieval. Augusto Costa & Comp. Lda. Braga.
- VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa. 

sábado, 4 de abril de 2020

As mais antigas referências documentais às terras de Cristóval (Melgaço): a primitiva vila de Doma



As mais antigas referências aos lugares da atual freguesia de Cristóval datam de há quase 800 anos e constam em documentos do mosteiro de Fiães que pertencem ao chamado Livro de Datas. Nos documentos mais antigos, fala-se da vila de Doma, nome atual de um dos lugares da freguesia. Este lugar, em tempos antigos, deve ter sido o mais importante desta terra, já que dava nome ao atual rio Trancoso. Nesse tempo, chamavam-lhe rio Doma, sendo que apenas no século XVII encontramos documentos com a designação de Ribeira ou Rio das Barges para este curso de água. A designação de Rio Trancoso é apenas usada de forma vulgar desde há pouco mais de um século. Ainda hoje, a localidade do lado galego, em frente a S. Gregório, se chama Ponte Barxas, tal como se chamava ao local, do lado português, onde se situava a antiga ponte internacional se dava o nome de Ponte das Várzeas. 
Nesta freguesia também se localiza o lugar mais a norte de Portugal: Cevide. A origem do seu nome devemos procurá-la relacionando-o com o sítio do outro lado do Trancoso chamado Acibido. Este deve ter relação com nomes de outras localidades na Galiza como AcevedoAceredo ou, em Portugal, Azevedo. Ainda no século XVIII ou início de XIX, este lugar da freguesia de Cristoval era chamado de Cevido. Qual o significado de Azevedo no português arcaico? Significa “terreno com azevos”, ou seja, com arbustos espinhosos.  
Como se disse atrás, Doma seria o lugar mais importante desta terra mesmo antes de o nome da freguesia começar a aparecer nos documentos que conhecemos. Contudo, em meados do século XVIII, o pároco diz-nos que na época S. Gregório era já o lugar mais extenso da freguesia. 
O padre Bernardo Pintor, no seu livro “Melgaço Medieval”, mostra-nos o conteúdo dessas referências mais antigas aos lugares desta freguesia e em particular à vila de Doma. O documento mais antigo que cita Doma data de 1142, ou seja é anterior à nacionalidade portuguesa. Nesse ano, a 12 de Dezembro, um tal Fernando Tedão, tendo entrado para o convento de Fiães, fez-lhe doação do seu casal e herdade em Doma. Para evitar futuras dúvidas, historiou as andanças da propriedade por diversos donos durante os últimos cinquenta anos. Já naquele tempo, ele mandou escrever no documento estas palavras: “os actos dos antepassados extinguir-se-iam se não fossem escritos para conhecimento dos vindouros. 
Doma é terra que nos aparece referenciada muitas vezes através dos tempos e deve ter sido importante em recuados tempos como no-lo prova o facto de o regato, atualmente Trancoso, ter sido conhecido pelo nome de Doma, sendo desde sempre linha de fronteira neste setor. 
Nos documentos do mosteiro de Fiães, voltamos a ter referências a Doma. No ano de 1162, um tal Pelágio Furtado fez doação ao convento de Fiães do seu casal em Doma chamado Rando. Nesta época, encontramos diversos documentos que atestam que o mosteiro de Fiães aumentou muito o seu património em termos de terras na atual freguesia de Cristóval.  
Assim, além dos citados, tem dois documentos em que pela primeira vez se referem a Cristóval explicitamente. O mais antigo é de 1182 em que um tal Mendo Gonçalves testa a Fiães a sua herdade que jaz na vila de Cristóval com os seus termos e lugares, com a sua parte na igreja de S. Martinho de Cristoval, com as pesqueiras e tudo o mais que lhe pertence, incluindo o seu quinhão de Quintã do outro lado de Monte Redondo (Galiza). Mendo Gonçalves devia ser uma pessoa importante para ter uma parte na igreja. 
Um outro documento data de 1189 em que um tal Pedro Gonçalves, com a sua mulher, filhos e filhas, vendeu ao mosteiro de Fiães por oitenta moios a sua herdade vinda de seus antepassados e situada em Cristóval, sob o Monte de Aveleira, junto do rio Doma a correr para o Minho, excetuando a parte eclesiástica e a pesqueira da Touça. Possivelmente, as duas pessoas citadas nos documentos seriam irmãos a julgar pelo apelido e pelo facto de ambos terem quinhão na igreja e pesqueiras, dando-se o contraste de um incluir e outro excluir a parte da igreja e pesqueiras. 
Além dos citados, outros dois documentos nos falam de Doma, ambos datados de 1190. No primeiro, uma tal de Sancha Pais e o seu filho João Raimundo cedem ao mosteiro de Fiães meio casal em Doma, chamado Rando com os lugares e termos antigos e mais todas as pertenças. Num outro documento do mesmo ano, um tal Mendo Pais, cede um casal em Doma chamado Lama. Ambos situados sob a igreja de S. Martinho de Cristóval. A indicação “sob” nem sempre se pode entender por situação mais baixa. Aparece-nos em documentos antigos a explicar uma subordinação. Aqui pode interpretar-se pela situação das propriedades no âmbito da igreja de S. Martinho, ou seja, na sua paróquia. 
Ainda do século XII, temos um outro documento onde se cita Cristóval. Em 1195, um tal Soeiro Afonso vendeu a D. Pedro, abade de Fiães, e ao seu convento, a sua herdade que recebeu de seu pai. Entrega-a com todos os seus termos e lugares, sita no lugar chamado Cristóval, sob o monte da Aveleira, correndo o rio Doma para o Minho. Recebeu de preço um cavalo avaliado em onze morabitinos e cem soldos e uma capa, e pela róbola, um carneiro. 
Um outro documento de 1202 fala-nos de Cristóval. Uma tal Onega Rodrigues. Mór Rodrigues e Maria Rodrigues, juntamente com seus filhos e filhas, fizeram a D. João, abade de Fiães, e seu convento, carta de venda da sua herdade própria que receberam de seus pais e avós. Venderam-na com os seus termos, lugares antigos, montes e fontes. 
Temos ainda um documento de 1210, muito importante para a história de Cristóval, pois fala-nos do Paço, que era onde morava o senhor da vila. Naquele, João Raimundo e sua mãe doaram ao mosteiro de Fiães uma herdade situada em Doma, chamada de Palacio, nome que geralmente deriva para Paço. O Paço era a morada da autoridade que poderia ser de toda a terra de Cristóval ou apenas da vila de Doma. Atualmente, não existe nesta freguesia nenhum lugar ou sítio chamado Paço. 
A dita doação foi feita em sufrágio de suas almas, de seus antepassados e de todos os fiéis defuntos em louvor de Santa Maria de Fiães, e para construir a igreja por mão do abade, seu convento e cabido.  
Aqui tem os investigadores referência à construção da igreja de Fiães, de que restam a capela mor e as das naves laterais com abóboda de cantaria.  
Uma outra escritura data de 1217. Nesse ano, um tal Munho Fernandez, juntamente com as suas irmãs Maria, Urraca e Guncina, vendeu ao mosteiro de Fiães a sua herdade chamada Doma, que lhe veio de sus avós, com saídas e entradas, montes, águas, pedras móveis e imóveis, culto e inculto. O preço foi cinquenta soldos, e de róbora um cabrito muito bom. 
Há outro documento deste mesmo ano que tem por objeto parte da herdade do documento acabado de referenciar. O abade D. Diogo, com o seu convento e cabido de Fiães fez uma troca com Urraca e clérigos de S. Pedro de Crecente (Galiza). Fiães deu uma sexta parte de um casal que tinha por compra feita a Munho Fernandez e suas irmãs, casal esse em Doma, sem as árvores e seus quinhões em Pico, e recebeu a porção que os outros tinham em Pico a partir com Agro-Longo, Agro de Galinhas e via pública. Ambas as escrituras foram lavradas em Março, não referindo o dia. 
Vejamos ainda um outro documento interessante de 1223. Nele, um tal Nuno Fernandez e sua irmã Urraca, doaram ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, na pessoa do seu abade D. Gonçalo, metade de um casal na vila chamada Doma, quanto tinham na igreja de Cristóval, na igreja de Padrenda, em S. João de Crespos e S. Miguel de Britamil e quanto tinham em todos os termos das vilas das mesmas igrejas. Urraca Fernandez recebeu 7 soldos pela róbora do documento. Deram mais seus quinhões nas pesqueiras do rio Minho. No fim, menciona-se o rei de Leão e não o de Portugal naturalmente por serem em terras galegas as três igrejas mencionadas a par com a de Cristóval. 
Temos ainda referência à vila de Doma num documento de 1226. Nele D. Pedro, abade de Celanova e seu convento cederam a D. Gonçalo, abade de Fiães e seu convento, um casal em Doma legado por um tal Álvaro Munhós, militar, recebendo em troca o casal de Gandarela que Fiães recebera de D. Elvira Joanes em sufrágio pela alma do seu marido e por 280 soldos que lhe deram e mais toda a herdade que teve em Orga o monge de Fiães, Mendo Dias. 
É importante também fazer alusão a um documento de 1243. No mesmo, se menciona Cristóval com categoria de paróquia. Fernando Pires, filho de um tal Pedro Maravilhas, vendeu ao mosteiro a sua parte no Pomar de Onego que lhe adveio por sucessão de seu pai. Vendeu-o “com todos os seus direitos e pertenças em toda a paróquia de Cristóval”, pelo preço de 30 soldos e de róbora um sesteiro de pão. 
Faço alusão a um último documento que provam que o mosteiro de Fiães foi progressivamente alargando as suas posses de terras em Cristóval. Nesse sentido, em 1246, um tal Lourenço Martins e sua mulher Guncina Vidal venderam ao abade João e convento de Fiães quanta herdade tinham cerca da vila de Cristóval, no lugar chamado Lédaro, herdade que lhes havia dado o concelho de Melgaço por dinheiro que lhe devia.  
Em 1258, quando se fizeram as inquirições de D. Afonso III, era pároco de Cristóval um tal Martinho Rodrigues. Ele e outros homens importantes da freguesia disseram que as terras da mesma eram reguengas, ou seja, do rei, as terças de Cristóval e Doma fazia parte do couto de Melgaço. 
Nas primeiras inquirições de D. Dinis, feitas em 1290 viu-se que Doma não era um lugar privilegiado. 
Nas inquirições de D. Dinis de 1307, foi de novo notado que lugares como Doma, e a granja que o mosteiro de Fiães aí tinha, era lugar devasso, isto é sem privilégios quanto a impostos, todo o lugar de Doma. 
Desta forma, através de documentos pertencentes ao mosteiro de Fiães, ficamos alguns conhecimentos acerca dos registos documentais mais antigos com referências a lugares de Cristóvalparticularmente Doma, sendo este durante bastante tempo o lugar mais importante por estes lados. Contudo, é importante ter presente que poderá essa antiga vila não corresponder exatamente ao lugar com esse nome que existe na atualidade nem sabemos a sua delimitação geográfica. 
Sabemos, contudo, que o atual rio Trancoso é desde a independência de Portugal, a linha de fronteira. Nos documentos de Fiães, sempre apareceram mencionadas as autoridades portuguesas nas escrituras que referem propriedades em Cristóval, e são mencionadas as de Leão em duas escrituras de Padrenda, freguesia galega que confronta com Cristóval do outro lado do outrora chamado Rio Doma. 
Com a consolidação da fronteira, a importância de S. Gregório cresceu e tornou-se como o maior lugar da freguesia. Se observarmos as Memórias Paroquiais de 1758, verificamos que o número de fogos em S. Gregório é destacadamente superior em relação a qualquer um outro. Prosperou até à abertura das fronteiras já em tempos recentes...