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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1969 (Parte 2)

Cão de Castro Laboreiro
Partilho com vocês a segunda parte da reportagem sobre o Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1969. "Ouço os juízes na suas conversas de peritos e acompanho-os no seu vaivém por entre os cães, na pequena praça de terra solta e pedregulho. Têm papéis nas mãos e chamam pelos cães e pelos respectivos proprietários. Adianta-se uma mulher, um vulto negro, os tamancos abater, a capa descendo pelas costas, o rosto emergindo a custo do lenço negro. À trela, o seu cão. No pescoço do bicho, uma coleira com pregos. Há lobos na serra.
É o «Mondego».
- Este tem boas mãos - diz um dos juIzes - o osso é bom, mas não acredito que tenha só seis meses...
- Juro-lhe, Senhor. Seis meses. Se quiser, vou buscar a vacina...
- Os juizes cochicham:
«Este bicho deve ter passado fome, tem sido mal tratado. Três meses, sim, é o que parece que tem».
Outro cão. Os mirones - quase tudo gente da terra e uma vintena de «pessoas da cidade» que subiram à serra por gosto do espectáculo e na mira de poderem comprar um exemplar - escutam em silêncio ou falam em voz baixa. Os juízes continuam.
-Corra lá com o cãozinho até àquela cruz... Isso. Agora, venha para cá. Mostre-me os dentes do cãozinho... Assim, não: com os beiços fechados. Pronto, pode ir para ali e esperar.
Passou o «Mondego», passou o «Leão». Depois, o «Bobby», o «Lírio», a «Jóia», a «Lula»... E também um cão - imagine-se - chamado «Mundano de Giela» !
-Faça o favor de ir até à cruz.
-Quantos anos disse que ele tinha ?
-Abra a boca do cão, por favor. .. Obrigado.
Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro
Mais cochichos dos juízes: «Este é um rico cachorro. É pena ter aquelas brancas». E em voz alta:
- Ora mostre lá os grãos do cãozinho...
Os dois Juizes sabem o que fazem. Andam para cá e para lá, conversam, escrevem coisas nos papéis, dividem os cães para um e outro lado. E dizem: «A cabeça deste é boa, as orelhas caem bem, são placadas, a ossada é boa...» Ou então: «Este está muito bem para a idade. Só é pena ter a cauda um bocadinho fina, a enrolar na ponta, exactamente por ser fina. Depois, aquelas malhitas nas pernas. É pena...»
O dinheiro que vem de França entra nas arcas, nos bancos, transforma-se em casas. As casas «dos franceses», aquela gritante, maquiavélica orgia de cores que não há, casas de telha francesa e não de colmo, como antigamente. Do meio da praça, vejo uma única casa coberta de colmo. As outras são modernas e feias. Falta saber, na serra, iuntar a beleza ao conforto. Mas a culpa não é dos franceses, pois não ?
Um dos lados da praça - o Largo do Eirado, informa-me o padre Aníbal - é tapado por uma igreia de pedra. Estilos misturados. Há um sino grande, novo - parece-me. A primeira pedra da igreia tem mais de oito séculos; a torre, a capela-mór e o coro são do século dezoito (exactamente de 1755, o ano do terramoto de Lisboa). E a pia baptismal é uma relíquia com 800 anos.
Não se imagina a quantidade de história que há naquele largo e naqueles montes cheios de nevoeiro e de vento, povoados por javalis e lobos e onde outrora se acoitavam poderosos ursos. Quanto à presença humana, sabe-se - julga saber-se - que, nas suas origens mais remotas, o povo daqueles montes e vales teria pertencido a um fabuloso continente desaparecido sob as águas, a Atlântida;  muitos anos mais tarde, a gente da serra descendia de estraménios, serpes, brácaros e galécios (ou galegos). E as casas de então permaneceram iguais durante séculos, umas, redondas, outras, quadrangulares. Todas cobertas de colmo.
Um dia, foi construido um castelo nas alturas - e ainda lá está - e nos registos da terra podem encontrar-se, ligados a este ou àquele acontecimento, e para aquém dos conquistadores romanos, nomes como o de D. Afonso III, e de D. Dinis, ligado com a transformação da Ordem de Cristo (1314)... Quanta história naquele pequeno Largo do Eirado !
As viúvas estão ao lado dos seus cães. Os senhores juizes chamam pelos nomes dos bichos e dos proprietários premiados. Os mirones aplaudem. As mulheres de negro sorriem. Uma recebe a taça, a medalha, aperta a mão ao senhor doutor, à moda da cidade. De resto, todas aquelas pessoas parecem ter muito boas maneiras. E, sobretudo, uma enorme tranquilidade. O dinheiro, por enquanto, só terá estragado a arquitectura.
Uma pessoa da cidade pergunta:
- Então como se chama o seu cão ? -«Leou».
- «Leou»? Você não quer dizer «Leão»?
- Não, senhor. Quando o bicho era pequenino, pensámos que era uma cadelinha e pusemos-lhe o nome de «Leoa». Depois, vimos que era um cachorro... E ficou «Leou».
As pessoas da cidade passam a história de umas para as outras e riem, com medida. As pessoas da cidade não podem ser menos educadas do que a gente da serra. A gente da serra vive do dinheiro que vem de França mas também cuida dos seus rebanhos, o excelente gado barrosão, e colhe batata e centeio.
E tem um costume curioso: divide o ano entre o tempo das verandas e das inverneiras, correspondendo o primeiro aos meses de bom clima e o segundo aos de frio, neve e chuva. 500 fogos civis e umas 2000 almas em Castro Laboreiro, que depende do arciprestado de Melgaço e da diocese de Braga. O presidente da Junta, o regedor da freguesia e o padre são as autoridades da terra.
O Largo do Eirado vai ficando vazio de gente. As pessoas da terra partiram com os seus cães, premiados ou não, as pessoas da cidade metem-se nos seus automóveis e descem pela estrada que acaba e começa em Castro Laboreiro.
Caía o pano (o nevoeiro, a noite) sobre as casas de telha francesa, sobre o Concurso de Cães de Castro Laboreiro. No primeiro ano, tinham aparecido apenas dois bichos autênticamente daquela raça, mas, de ano para ano, o número aumenta. E para que serve tudo aquilo? É fácil responder: o objectivo é manter nas raças caninas indígenas as suas características étnicas e as suas aptidões rácicas, tendo-se em conta que «evoluções impostas por necessidades fisiológicas ou de trabalho, por alterações das condições ambienciais ou outras, podem modificar, funcional ou morfológicamente, as raças e provocar correcções nos seus standards ou levar, até, à criação de novas raças ou ao ressurgir de raças desaparecidas». Alguém poderá duvidar da utilidade de concursos como este de Castro Laboreiro?
O nosso grupo foi o último a deixar o Largo do Eirado. O padre Aníbal, no seu riso de Fernandel (ou D.Camilo ? ...Ah, falta-lhe o Peppone !), acena-nos um até ao ano. Mas já sabemos: o dia do concurso tem de ser antes da abertura da caça: ele, padre Aníbal, não quer voltar a perder outra jornada sem uns tirinhos aos pássaros.
E a noite fechou-se sobre o Largo do Eirado, sobre a igreja, sobre a história. Sobre uma amachucada bola de plástico; toda suja de lama, num canto, em Castro Laboreiro.

In Jornal “O Mundo Canino” – Novembro de 1969.

Para ler a Parte 1, CLIQUE AQUI

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1969 (Parte 1)

Concurso do Cão de Castro Laboreiro (1969)
A publicação "O Mundo Canino", numa edição de 1969, conta-nos numa reportagem, como foi o Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro desse ano, realizado nesta localidade. Na dita peça jornalística, podemos ler que "Aquele ia ser um dia diferente, mesmo dentro da concepção do que deve ser o quotidiano de um jornalista: observação, retenção, descrição - e, eventualmente, crítica - de acontecimentos vários, originais, inesperados. E ia ser diferente porque não é vulgar, no contexto multimodo da profissão, um jornalista ocupar toda a sua jornada de trabalho com uma reportagem em que o cão é o assunto. Mais do que o cão, um cão. E por causa de um cão específico me levantei mais cedo e jordaneei, pela fresca, Portugal acima, rolando com o mar à esquerda, até chegar ao ponto onde um rio é fronteira e, depois, acompanhando o rio no sentido leste, rumar à vila de Melgaço, onde começaria a trepar para a povoação de Castro Laboreiro. Era aí que me esperava o meu cão.
Concurso do Cão de Castro Laboreiro (1969)

A viagem, com muitos atractivos paisagísticos e a breve paragem para o almoço, num afamado restaurante de Monção, foram pormenores acessórios da empresa; o objectivo era Castro Laboreiro e a anunciada cerimónia em que os cães que da terra tiveram o nome iriam ser vedetas.
Por isso, e contra o que seria normal, não demos ouvidos à voz do mar, ignorámos as sugestões da folhagem cor-de-fogo e dos povos de casas baixas, antigas e sólidas, atentámos no nevoeiro apenas porque a sua presença em farrapos húmidos nos permitia, unicamente, visões parceladas do caminho e, quando o destino estava próximo, um contacto mais íntimo com as fugidias pessoas e coisas que já sabíamos fazerem parte do «habitat» do nosso «herói» da jornada, o Cão de Castro Laboreiro.
Mas que ia passar-se, afinal, em Castro Laboreiro? Para quê toda esta história de viagem com fim determinado, na senda de um cão?
Tudo principiara com uma conversa, uma alusão, um convite. Em Castro Laboreiro, lá para a serra, ia reallzar-se um concurso anual de cães. Não um desses certames muito reclamados e muito elegantes onde o desfile das damas e donzelas pretende rivalizar, em porte, elegância, distinção e raça, com o próprio desfile dos galgos, dos «caniches», dos «podengos», dos «danois» e dos «foxes». Este era um concurso especial, tão puro como a serra, tão inocente como as pessoas, que com os cães, iriam desfilar. Tal promessa me houvera sido feita, na véspera deste dia diferente em que subi aos píncaros de Castro Laboreiro, acima do nevoeiro e para lá - ou antes - da civilização e dos seus complicados rituais.
E pronto, eis-nos chegados ao fim da estrada, ao cume da terra, à povoação pendurada chamada Castro Laboreiro, que é onde um certo cão «tem o seu solar» e «donde tirou o nome».
O padre Aníbal, abrindo um sorriso com tantos dentes como há nos sorrisos de Fernandel, dirigia a festa.
 Após as apresentações, ficou-se a saber que o padre Aníbal era um apaixonado pela Natureza, um devoto de Santo Huberto («Dou os meus tirinhos, gosto de os dar - aos pássaros, não às pessoas, evidentemente!», dizia o padre, num grande sorriso) e um dos responsáveis pelo brilho já tradicional daquele concurso quase ignorado.
Quase ignorado, é verdade, mas sem que isso impeça que o Concurso de Cães de Castro Laboreiro se realize há dezasseis anos consecutivos, e com progressivo aumento de interesse e repercussão. Conforme se pode ler no Regulamento do Concurso, este é «organizado pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, de acordo com o Regulamento Oficial de Exposições Caninas e com o patrocínio do Clube Português de Canicultura, na sede da freguesia de Castro Laboreiro, do concelho de Melgaço», admitindo a inscrição de cachorros (entre 6 e 12 meses de idade) e de todos os animais da raça «Castro Laboreiro» com idade superior a 12 meses, estes numa «classe aberta».
E ali estava eu, no meio duma praça de aldeia, debaixo dum céu de chumbo e rodeado de nevoeiro aos farrapos, a olhar o povo aglomerado, na expectativa da função. Os cães, esses entretinham o tempo com o que é próprio dos cães: davam ao rabo, esticavam as trelas e conversavam, ladrando.
Seriam vinte, talvez vinte e cinco. À primeira vista, um leigo diria serem todos iguais, ou quase todos, mas o mesmo sucede quando a gente vê desfilar, sem preocupação de pormenor, as «misses» de um qualquer Concurso de Belezocas: todas tão certinhas e tão «misses» como se da mesma forma houvessem saído, para venda nos bazares a um preço fixo.
O caso é que - manda a lógica pensá-Io - se concurso havia, existiriam diferenças. Como com as «misses». E já se veria.
Os juizes eram dois: o Dr. António Cabral, presidente do Clube Português de Canicultura, que tinha vindo expressamente de Lisboa para o efeito, e o Dr. Teodósio Antunes, veterinário em Viana do Castelo. Eles decidiriam quais os bichos que mereceriam distinção gradual e prémio consentâneo. Sim, porque ali havia taças, medalhas e dinheiro à vista em disputa.
Agora, os concorrentes. Vinte, disse? Vinte e cinco? Por aí. E todos rigorosamente «Castro Laboreiro», de pelo grosso, liso curto, na cor mais habitual e preferida...
Os cães estavam pela mão dos donos. Coisa curiosa: percentagem esmagadora de mulheres, dois homens, e um rapazinho. Os homens eram velhos, cansados, lentos. As mulheres estavam todas (bem, menos uma) vestidas de preto, saia e blusa, capa barrosã pelos ombros e meias pretas (em certos casos, protegidas com uma espécie de safões curtos); nos pés, umas botinas de couro, rijas e cardadas, com aspecto de intermináveis. Coisa para gastar os trilhos da serra.
E as caras dessas mulheres, dessas raparigas, dessas meninas sem idade! Todas com menos anos do que poderia supor-se pelas caras queimadas, marcadas, riscadas de rugas, modeladas pelo vento, pelo frio pelo nevoeiro, pela monotonia, pela espera...
Pela espera de quê? De quem?
Dos homens delas, dos pais delas, dos filhos delas. Em 1918, após a Primeira Guerra Mundial, os homens de Castro Laboreiro desceram a serra, encafuaram-se no comboio e foram para França. As primeiras centenas de escudos ganhos com o suor do emigrante vieram como compensação das ausências e como chamariz de mais homens. As mulheres foram ficando sozinhas. E começaram a vestir-se de preto.

A certa altura, os homens deixaram-se ficar descansados na serra. Depois, voltaram a partir. Hoje, quase todos os homens de Castro Laboreiro estão em França a fazer casas muito altas, a calcetar ruas, a sonhar e a ganhar fortunas. As mulheres deles, em Castro Laboreiro, são todas viúvas. Não só as mulheres-esposas: também as mulheres-filhas, as mulheres-mães. Viúvas, todas elas, viúvas de homens vivos..."    (CONTINUA)

Extraído de: O Mundo Canino (1969)

sábado, 16 de maio de 2015

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1971 (Parte II)

A proprietária do "Paris" recebe o prémio correspondente ao melhor exemplar do concurso

"Os cães, em número de 25, a ser presentes aos juízes, Drs. António Cabral presidente do Clube Português de Canicultura, e Teodósio Antunes, foram dispostos por classes: de cachorros, destinada aos exemplares que, à data do concurso, tenham mais de seis e menos de 12 meses de idade; e aberta, destinada a todos aqueles com mais de um ano.
Enquanto os bichos eram minuciosamente observados, com muito mais minúcia do que as «misses» num concurso de beleza, pois eram apalpados de todas as formas e feitios, incluindo grãos e dentes, os mirones da cidade (Lisboa, Porto, Évora, Faro), que ali se haviam deslocado propositadamente, procuravam estabelecer contactos com toda aquela gente, que nos pareceu, contudo, pouco receptiva a satisfazer a curiosidade geral.
O repórter afadigou-se em formular perguntas, mas, quase sempre, esbarrou com muralhas de mutismo. Então quando lobrigava obter resposta, era do género. «Não sei». «Para que quer saber?», «Vá perguntar ao Inferno». Não saiam disto.
Deixarem-se fotografar foi problema ainda mais difícil. Sempre que o camarada fotógrafo apontava a máquina e elas davam conta disso, era certo e sabido virarem, ostensivamente, as costas. Indignavam-se mesmo. «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós. Já toda a gente sabe que «semos» bonitas. A gente não precisa disso». Não fora a perícia do Orlando e a reportagem não conseguiria fixar as suas expressões.
As casas circulares cobertas do colmo, durante séculos características da região, foram substituídas pelas casas de telha
«francesa». Com o dinheiro que amealha na estranja, o natural de Castro Laboreiro começa por mandar construir a sua própria casa. Depois, investe na cidade, comprando andares em regime de propriedade horizontal.
Apesar disso, naquela aldeia serrana, o forasteiro, nas primeiras impressões, fica com a ideia de que os naturais vivem com extrema dificuldade. O aspecto humilde das pessoas, de cara queimada e enrugada, precocemente envelhecidas, leva exactamente a supor de que subsistem em função do que ganham com a enxada na mão. De parcos recursos, portanto. Pois ali, mais do que em qualquer outro lado, pode dizer-se que assentou arraiais a decantada sociedade de consumo.
Dizia-nos quem mais e melhor está informando acerca de Castro Laboreiro, que é precisamente o Padre Aníbal que lá nada falta. «Televisores, torradeiras, máquinas de lavar e de barbear, gravadores, aspiradores, aquecedores. Tudo aquilo que a técnica
criou para facilitar a vida de cada um, há cá na terra.»
Alguém de fora, mas que por funções profissionais vai muitas vezes a Castro Laboreiro, dizia-nos depois: «É formidável, de facto, como esta gente tem tudo». Um sorriso. Uma dúvida, como que se interrogando a si próprio se havia ou não, de dizer-nos o resto.
Tal estado de coisas tende, contudo, a acabar, dado que os filhos dos emigrantes (e eles próprios quando estão de «vacanças») frequentam as Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa e o Seminário, tendo a terra já os «seus» doutores.
A proprietária do "Paris" recebe o prémio correspondente ao melhor exemplar do concurso. As pessoas que ali se haviam deslocado propositadamente para adquirir um cão de «Castro Laboreiro», e para isso atravessaram o país de lés-a-Iés, percorrendo mais de mil quilómetros (!!!) procuravam ouvir aquilo que os juizes cochichavam acerca do interesse de cada cão julgado, para depois abordarem o respectivo proprietário antes de serem conhecidas as classificações. E é fácil saber porquê. Evidentemente que desde a altura em que o proprietário soubesse que o seu animal havia sido premiado, acto-contínuo faria «render o peixe», que no caso era pedir mais dinheiro pelo animal, elevado à categoria de vedeta. Cão com diploma e medalha é mais caro. A propósito julgámos que a melhor altura para o negócio não seria aquela. Talvez por isso, há «peregrinações» a Castro Laboreiro, «santuário» da raça do mesmo nome, durante todo o ano, ainda que os meses de Março e Abril sejam aqueles que mais gente atraem.
Pois por cachorros de um mês, portanto ainda «imberbes» para participarem no concurso, os donos pediam entre os 200 e os 250$00. Mas já o bicho considerado o melhor do certame, de seu nome «PARIS», propriedade de Manuel Gonçalves Loureiro, ausente no Canadá e apresentado por sua mulher Benezinda Gonçalves, teve cotação de seis mil escudos. Muito dinheiro, convenhamos, segundo o nosso ponto de vista pessoal, naturalmente.
Observámos à «ti» Benezinda: «Não tem vergonha de pedir seis contos pelo cão ?»
-Oh home, deixe-me ficar o bicho em paz. Não o quero vender. Vocês é que mo querem comprar.
A despachar-nos: «Daqui a algum tempo isto (e apontou para o cachorro) não é um cão. É um elefante. E foi-se.
«TI» Benezinda, acompanhada do seu "PARIS" considerado o melhor cão do concurso, diz-nos «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós», E virou-nos as costas.

«TI» Benezinda, acompanhada do seu "PARIS" considerado o melhor cão do concurso.

Facto curioso é que os possíveis compradores antes de entrarem em negociações procuravam catequizar o Padre Aníbal a fim dele dar a sua opinião sobre o cão em causa, pois, como já referimos, é um estudioso profundo das raças nacionais, e ao mesmo tempo servir de medianeiro para que o preço não ferrasse demasiadamente. Já se vê a sua dificuldade em aguentar-se entre os dois fogos de interesses díspares. Defesa do paroquiano e amabilidade para com o forasteiro.
Após os julgamentos, ouvimos o Dr. António Cabral:
-A impressão geral é bastante boa. A fixação das características étnicas está garantida. O lote de cães este ano foi muito bom! Muito bom!
Antes da distribuição de prémios, o Dr. Teodósio Antunes «falou às massas». Depois de ter historiado a razão do concurso, disse: «Cada vez temos de ser mais exigentes. Temos de combater as malhas brancas. Não devem existir mais cães de «Castro Laboreiro» com malhas brancas. Há que evitar o cruzamento com outras raças. Prendam as vossas cadelas na altura do cio..."

Texto extraído de:
- Jornal “O Mundo Canino” – Novembro de 1971, por Aurélio Cunha (textos) e Orlando Soares (fotos)

Para ler a PARTE I deste texto clique A Q U I

sábado, 9 de maio de 2015

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1971 (Parte I)

(PARTE I)

Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro de 1971

O Concurso Tradicional do Cão de Castro Laboreiro é realizado desde 1914, sendo dos mais antigos realizados em Portugal.
O concurso de 1971 foi alvo de uma reportagem na publicação “O Mundo Canino”, na sua edição de Novembro desse mesmo ano. Nesse número podemos ler:

“EM CASTRO LABOREIRO – TERRA DE EMIGRANTES E DE CÃES FAMOSOS
Aldeia serrana donde os homens abalaram e as mulheres, «viúvas de vivos» (como Ihes chamam) deles recebem anualmente cerca de 36 mil contos (!!!) vive como nenhuma outra terra portuguesa o «Cinco de Outubro». (...) Nesse dia, em tal povoado, em que o padre é a «alma-mater» das mulheres-de-negro-vestidas, a politica é outra. Politica que nada tem a ver com pessoas, pois é de cães. Cães que, juntamente com os braços humanos, são exportados para todos os lados, correm mundo. E se foi a terra que baptizou a raça, foi a raça que tornou a terra falada, que a projectou para além do seu castro. CASTRO LABOREIRO é o seu nome e o seu solar.
Melgaço foi o local de encontro das pessoas de Lisboa, do Porto e de Viana que iriam superintender no concurso. Depois de almoçadas, ei-las pela estrada acima, na subida duma trintena de quilómetros. Quando os juízes e demais comitiva lá chegaram já os concorrentes aguardavam impacientemente a chegada daqueles que iriam ditar a sorte dos seus exemplares. Para os menos avisados no assunto, como o repórter, logo ressaltaram vários pormenores que chamaram a sua atenção. O certame realizava-se na «artéria» principal da povoação - Largo do Eirado - mesmo defronte da igreja (cuja primeira pedra remonta de há mais de oito séculos) e à porta das principais autoridades da terra: abade, presidente da junta e regedor. Pois para além da circunstância do concurso se realizar na via pública (a fazer lembrar um «passarelle» em plena Praça da Liberdade...), pormenor que igualmente nos despertou a curiosidade foi o facto dos exemplares se apresentarem como que «descalços» e as donas de avental à cinta e lenço pela cabeça. Com efeito, no Estoril, no Porto e em Lisboa, estávamos habituados a ver desfilar no ringue exemplares cuidadosamente tratados e o sexo feminino primar pela elegância, vestindo pelo último figurino, de tal modo que o assistente menos dado à canicultura não sabe que mais admirar, se o garbo do cão concorrente ou a distinção de quem o conduz pela trela. Pois em Castro Laboreiro os cães eram presos por nagalhos e cordas, raramente por coleira. Puxados e não exibidos por gente «fardada», de tamancos ou de botas, por mulheres «uniformizadas» de preto. De preto porque ali predomina o luto, de tal forma que até se diz que em Castro Laboreiro as mulheres são viúvas de homens vivos. Terra onde não há pobres. Disse-nos o pároco da freguesia, Rev. Padre Aníbal Rodrigues: «A emigração aqui é habitual. É tão antiga como a própria terra. O homem de Castro Laboreiro nunca se sujeitou a um nível baixo. Foi sempre sua ambição ganhar muito.» Por isso, aquela freguesia é uma comunidade de mulheres. Mulheres que, durante a ausência do pai, do marido, dos filhos, se vestem, dos pés à cabeça, de negro. É tradição de há longa data. Só quando os «homes» regressam as vestes escuras dão lugar a outras de cores garridas. 
O Padre Aníbal Rodrigues, "alma-mater» de Castro Laboreiro, confidencia as suas impressões ao repórter. Prosseguiu o nosso interlocutor: «Primeiramente os homens de Castro Laboreiro emigraram para todo o país. Depois, a grande atracção foi a Espanha e agora a França. Mas hoje não há terra onde não haja gente nossa: Brasil, Argentina, México, Taiti, Turquia, Gibraltar, Estados Unidos, Holanda, Austrália, Paquistão. Em toda a parte. Os nossos operários são altamente especializados em betão armado. De tal modo conceituados que, quando do rebentamento de diques na Holanda, foram para lá especialmente contratados. Outro exemplo elucidativo da categoria da nossa mão-de-obra: nas bases americanas na Turquia há gente daqui.»

O Padre Aníbal Rodrigues prestando declarações aos jornalistas

 O cão da raça «Castro Laboreiro» é um extraordinário cão de pastor «ai de quem toque no gado!» e cão polícia. Mas deixemos o Padre Aníbal Rodrigues, personalidade altamente credenciada na matéria, falar sobre aquela raça: «É um cão excepcional, quer em faro, quer em inteligência em valentia e docilidade. Como companhia, também não há melhor. É duma fidelidade a toda a prova. Tem um sentido de justiça que impressiona. Se o dono o castigar sem razão o animal nunca mais lhe liga, pois o cão de Castro Laboreiro tem grande aversão à injustiça». Pois esta tão «sui-generis» raça nacional, que o Exército presentemente utiliza como cães-polícias (ainda há pouco recrutou 50 naquelas paragens) e desperta o interesse dos canicultores de todo o país, esteve em vias de desaparecer, tal como acontece presentemente com o «Serra da Estrela». A raça, através dos tempos, foi-se degenerando pelo cruzamento com outras espécies. Foi então que desde há 17 anos, em Castro Laboreiro - o solar da raça - vêm sendo realizados concursos, promovidos pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, em estrita colaboração e com o apoio técnico do Clube Português de Canicultura com sede em Lisboa, (entidade que no nosso país superintende na canicultura nacional) exactamente com a finalidade de fomentar e preservar aquela variedade. Dizia-nos o Dr. Teodósio Marques Antunes, Intendente Pecuário de Viana, que ao primeiro concurso estiveram presentes apenas nove animais e desses só dois eram exemplares mais ou menos característicos. «Tudo o resto era uma salada russa».
Coisa esquisita também, que chamou a nossa atenção, é o nome que a gente põe aos seus cães. Quando alguém pergunta o seu nome, a resposta é do género: «Que lhe diga ele», «Não se diz», «Pergunta-Ihe», «Como a ti», etc.
O «Cinco de Outubro» é dia de festa na freguesia, festa sem foguetes nem procissão. Prato melhorado ou saia nova. Mas festa. A mulher de Castro Laboreiro vê em tal dia a promoção dos seus cuidados no mundo canino. Data que é um chamariz à terra, de gente de todos os lados e culturas. Dia em que os naturais contactam mais de perto e se familiarizam com as pessoas da cidade.
- Hoje já não se interessam pelos prémios pecuniários - disse-nos aquele pároco.
-Só lhes interessam as taças e as medalhas ganhas pelos seus cães para as exibirem no melhor canto da casa. E o dinheiro dos prémios não lhes interessa porque em Castro Laboreiro todos vivem muito bem. Não há pobres. A nosso pedido, o «chefe espiritual» daquele povo esclareceu-nos: -Para esta pequenina terra, os emigrantes enviam mensalmente à volta de três mil contos. Esboçamos uma reacção de surpresa. O Padre Aníbal, então, à muita insistência nossa, acedeu em pormenorizar:
-Cada um remete para a família uma média de cinco a seis mil escudos. Mas há quem remeta todos os meses meia centena de contos, garantiram-nos; aquele sacerdote não desmentiu. O seu sorriso antes, confirmou. E nós próprios falámos com a esposa do proprietário da estalagem de Castro Laboreiro, na qual foram gastos três milhões de escudos, que, depois de muito instada, acabou por confessar que o marido lhe mandava de França trezentos contos anuais, ou seja, uma mensalidade de 25!” (...)

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- Jornal “O Mundo Canino” – Novembro de 1971, por Aurélio Cunha (textos) e Orlando Soares (fotos)

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