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sábado, 19 de junho de 2021

São Paio, Melgaço (1832) - Um salteador volta à sua terra

 


Há quase 200 anos, Melgaço vivia tempos bastante complicados fruto do clima de terror provocado por bandos de salteadores como o do Tomás das Quingostas, natural de São Paio. Em 1829, foi, pela primeira vez, preso e julgado pelo assassínio de um homem em Prado, tendo ido cumprir pena para a antiga Cadeia da Relação no Porto, junto à torre dos Clérigos. 

Quando as tropas liberais entraram no Porto, em Julho de 1832, foram libertar os presos políticos, tendo o Tomás das Quingostas, no meio da confusão, sido libertado.

O que aconteceu ao Tomás das Quingostas depois de sair da prisão?

Segundo ESTEVES, A. (1952), “Saído «das cadeias do Porto em 1832 pela entrada do Senhor D. Pedro naquela cidade» e, na verdade todos os historiadores daquele período da luta fratricida confirmam terem as forças desembarcadas em Pampelido, à sua chegada ao Porto, aberto as prisões e soltado os presos, indultando-os assim, veio o Tomaz para S. Paio, sem aguardar para a escápula a caricata aventura de Carlos Napier. 

Sua mãe tinha no lugar de Baratas uma casinha onde fora feito, dizia-se, o património do primo do seu filho, o P. Manuel António Pereira Codeço, morador no lugar do Cruzeiro, mas comprada pelo seu marido era ainda solteiro. 

O Tomaz, ao chegar à terra, fôra-se logo com machadas e verrumas, cravos e martelos à referida casa e, à valentona, lhe cravára as portas, ficando até, alegou o padre, dentro fechadas umas suas sobrinhas. 

Com este acto de violência parece ter atemorisado muita gente e especialmente aquele clérigo, pois sempre ele se disse receoso de perder a vida às mãos do parente. 

Perde-se lhe a pista no resto daquele ano, mas não repugna a suposição de ter gasto esses meses na formação de uma guerrilha ou a reorganizar a malta de facinorosos e atrevidos ladrões, acusada como já existente nos tempos anteriores à prisão. 

Perto das Baratas vivia o Cirurgião de Real, Manuel José de Caldas, casado e com filhos, a prestar os seus serviços por aquelas redondezas em troca das avenças dos fregueses, quase todas em milho, e por isso havia bom passadio no seu lar.  

Ora em Janeiro de 1834 o Tomaz das Quingostas exigiu do cirurgião quarenta e sete alqueires e meio de milho e em Julho do ano seguinte mais cincoenta alqueires e tres quartos. 

Poucos dias antes desta última data a Prefeitura do Minho iniciara a caça ao Homem, oficiando aos sub inspectores de Melgaço e de Monção para lhe ser feita guerra de morte, com «a suspeita que sejão um fermento de guerrilha notrindo rellaçõens com os faciosos do reino vizinho» e no princípio do último trimestre deste mesmo ano secundara a caça o Governo Civil de Viana, mas confessando, abertamente, haverem-se «tornando infructíferas todas as medidas adoptadas para este fim, pelo auxílio que os mesmos Povos dão a este chefe, fazendo-se por isso tão cúmplices como os referidos Salteadores…» 

Tomaz das Quingostas nem assim transferiu o seu quartel general para outra região, mas os acontecimentos políticos desenrolados no país e, sobretudo no distrito, dele distraíram as atenções dos diversos dirigentes da nação, durante o ano de 1836.  

À vontade, portanto, o Tomaz continuou a campear em Melgaço e em 7 de Maio de 1836 fez ao cirurgião Caldas a nova exigência de setenta e dois alqueires de milho e, como tantos não havia em casa, levou-lhe o rol das avenças e foi cobrar a maior parte do cereal à casa dos próprios fregueses. 

O Tomaz das Quingostas foi então perseguido pela tropa e, desconfiando do cirurgião, considerando-o único espia dos seus actos, recebeu em Agosto como indemnização; um cavalo, levado das Baratas pelo seu companheiro bem conhecido pela alcunha «O Casal de Sante» e em Outubro um touro, tangido desde ali pelo João Ferreiro, de Barata. 

Dias antes perseguido outra vez pela tropa, fôra ele encontrado no caminho de São Bento do Cando, em 11 de Julho. Apanhada a guerrilha de surpresa, poude ela, contudo, escapar-se das garras da força pública, mas deixou ficar no sítio vários objectos e um cavalo, que a tropa apreendeu. 

Este insucesso foi também imputado ao cirurgião e, para salvar a vida, remiu-o pagando uma segunda indemnização; 99$800 reis. 

Mas como a tal luta de morte não acabara ainda, nos primeiros dias de Fevereiro do ano seguinte o Comandante da 4ª Divisão Militar, com o conhecimento e aplausos do Governo de Sua Magestade a Rainha, anunciou às autoridades locais que, brevemente, uma força militar sob o comando do Major de Caçadores 4, José de Figueiredo Frazão «vai occupar esse Concelho, o de Monsão e Valladares, com o importante fim de conseguirem o extermínio ou dispersão da Quadrilha de salteadores que tantos males tem causado aos seus infelices habitantes, e de que é chefe o malvado Congostas».  

Poucos dias volvidos sobre este aviso, Paderne foi ocupado por trinta baionetas da Ordem, de propósito mandadas por autoridades superiores para efectuarem o extermínio da fera humana. 

Por este mesmo tempo, no monte de Montrigo, na própria freguesia de São Paio, casualmente vieram à fala Tomaz Codeço e Manuel de Caldas e dessa conversa saiu o empréstimo de cinco libras em ouro, feito por aquele para este governar a sua vida. 

Em Março de 1838 «com muita violência e ameaças de vida» foram-lhe ainda exigidos mais sessenta alqueires de milho. 

Não contente com este canastro, segundo parece sempre aberto para fornecer de brôa os guerrilheiros, em 26 de Agosto recebeu o Tomaz das Quingostas cento e cinco mil reis por um cavalo, que lhe levara o Izidoro, alferes de voluntários e, em 17 de Outubro, uma clavina, entregue pelo Caldas na sua própria casa ao buscador Caetano Manuel Meleiro, da Granja. 

Como sempre o Caldas de Real foi o bode expiatório: por aquele cavalo apreendido pelo alferes de voluntários tinha-lhe sido pedida a avultada indemnização de 207$800 reis e para tanto lhe não pagar «se valeu de alguns amigos que o compuzeram pella quantia de sento e sinco mil reis e huma clavina de vallor de sinco mil reis.» 

Roubado, perseguido, procurado de dia e de noite, o cirurgião Caldas resolveu sair de São Paio e refugiou-se na vila, porque o Tomaz era «Homem destemido, ladrão e matador, que roubaba de dia e de noite e quando se lhe não desse ou fezesse o que elle queria logo entimava a penna de vida e assim o executava» e «depois de indultado se fez mais temível cometendo mortes e vários roubos como foi na romaria da Sr.ª da Peneda em 7 de Setembro de 1838, Riba de Mouro, andando em todo o monte temível, muito armado e com a cometiva da sua quadrilha que a todos ameação e todos temião pellas suas dezordens 

Mas se tudo isto assim se articulou no tribunal, nos mesmos autos se escreveu, que entre Tomaz Codeço e o Cirurgião tinha havido toda a familiaridade e bom entendimento e, por vezes, dos dinheiros do Tomaz se valeu o Caldas nas suas aflições."

  

  

 Extraído de: 

 

  • ESTEVES, Augusto C. (1952) - Melgaço e as Invasões Francesas. Edição do autor. Melgaço. 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

O assalto ao Castelo de Melgaço (1828)


Durante o primeiro terço do século XIX, vivem-se tempos de extrema tensão em terras de Melgaço e no país em geral. Depois das invasões francesas, veio a questão da sucessão da coroa, a revolução liberal e por fim a guerra civil. 
Para a Praça de Melgaço, em 29 de Setembro de 1817, foi nomeado governador, pelo marechal de campo João Wilson, governador das armas da Província, Estevão de Queiroz. Tomou posse em 9 de Outubro, pois a 4 desse mês havia sido essa nomeação aprovada pelo marechal general Marquês de Campo Maior. Foi promovido a tenente-coronel do exército, ficando às ordens do governador das armas do Minho, por portaria do governo de 5 de Março de 1821, publicada na ordem do dia n.° 40 da Secretaria do ajudante general do Exército em 7 de Março do mesmo ano.  
Estevão de Queiroz estava no governo da praça de Melgaço quando sucedeu no Porto o levantamento de 16 de Maio de 1828. D. Miguel fora aclamado rei absoluto em Melgaço a 5 de Maio, por ele governador e pelo juiz de fora Manuel José de Pinho Soares de Albergaria, que mandou reunir a Câmara às 4 horas da tarde, havendo Te-Deum na igreja matriz e dando a guarnição três descargas. No dia 20 do mesmo mês, recebeu na sua Casa do Hospital, em Monção, um ofício participando os sucessos do Porto, e logo outro no dia seguinte do ajudante da praça, dizendo que em Melgaço tinha havido distúrbios e desordens aproveitando-se da sua ausência e também da saída do destacamento do Regimento 21 que guarnecia a Praça de Melgaço e que fora chamado a Valença. Eis os termos desse ofício que conta um episódio histórico local hoje esquecido: «À meia noite deste dia chegaram às portas desta praça uma corporação de realistas armados, bateram para lhes abrirem as portas, o que o sargento Manuel Joaquim, Comandante interino do destacamento de veteranos, de guarda, não teve remédio senão fazer, para evitar desordens. Uma vez dentro, prenderam o escrivão Luiz Manuel da Costa Pinto, e o escrivão Thomaz José Gomes d’Abreu e outro que levaram para o Paço do Concelho, voltando a entrar na manhã de 21 na praça, soltando os presos, e levaram consigo o escrivão Gomes d’Abreu com a chave do paiol da pólvora do castelo, e fizeram ao ajudante da praça aprontar lhe a chave do castelo. Tiraram do paiol 3 500 cartuchos e mais alguns maços, não deixando pólvora alguma»Por aqui se vê como começava nesta região o reflexo desse terrível período de lutas civis que dividiram em fações a grande família portuguesa. Estevão de Queiroz logo que recebeu o ofício, recolheu a Melgaço, mas no dia 25 à noite não respeitaram a sua autoridade e vendo-se em dificuldades insuperáveis para a assegurar a ordem por deficiência de força (na praça só havia 14 soldados veteranos impossibilitados) e com a vida ameaçada, foi aconselhado a retirar-se por todos os seus amigos, o que fez nessa noite, entregando o governo da praça ao ajudante Francisco Manuel Osório Coutinho, dando comunicação ao juiz de fora dos motivos que a tanto o obrigaram. Refugiou-se na Casa da Amiosa, em Valadares, a 1 quilómetro da sua Casa do Hospital com tenções de logo se apresentar, mas um ferimento que fizera numa perna ao sair de Melgaço, deteve-o muito tempo de cama. Os seus inimigos, acoimando-o de inimigo do absolutismo, não desanimavam nem descansavam e conseguiram uma ordem do juiz ordinário de Valadares para o prender e a seu filho Joaquim de Queiroz (depois barão do Hospital, capitão agregado de milícias dos Arcos, e ambos foram conduzidos para a cadeia de Valadares a 17 de Agosto de 1828. Principiava para ele um grave período de perseguição rancorosa e violenta. A 18 foi interrogado e mandado para a Guarda Principal de Valença. A 9 de Dezembro foi-lhe feito sequestro dos bens que possuía na comarca de Valença, julgado do Valadares, e a 9 de Fevereiro do ano seguinte nos que tinha na comarca de Guimarães. A 5 de Março de 1829 removeram-no para a prisão da vila de Valença e a 26 do mesmo mês e ano saiu dali para a cadeia da Portagem, em Coimbra, onde chegou a 4 de abril conservando se aí até 11 de Agosto, em que foi mandado para a Principal da Praça de Almeida, chegando lá a 21 do mesmo mês. A 14 de outubro de 1830 foi removido para a Relação do Porto a seu pedido e, dando entrada nessa cadeia a 23 do mesmo mês, tratou logo de promover o seguimento do seu processo, afim de ser julgado e poder mostrar a sua inocência. A 18 de Março de 1831 foram-lhe assinados 5 dias para dizer de facto e direito e a 6 de julho foi publicado o acórdão da gia Comissão da alçada, mandada ao Porto, sendo lhe dada por expiada a culpa com o tempo de prisão sofrida desde 17 de Agosto de 1828, relaxado o sequestro dos seus bens e, ficando sujeito por um ano à vigilância da polícia do corregedor da comarca de Lamego. Conseguiu ser mandado para a vigilância do corregedor de Barcelos por acórdão assinado pelo presidente da alçada, que era Victorino José Cerveira Botelho do Amaral, a 29 do mesmo mês. Foi solto a 14 de Julho.  Em consequência desse veredicto foi viver Estevão de Queiroz para a sua quinta dos Machados, em Carapeços, Barcellos, vindo aí a falecer a 9 de Abril de 1833, com 58 anos incompletos.