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sexta-feira, 24 de maio de 2019

O histórico cruzeiro da vila de Melgaço




O cruzeiro que hoje podemos contemplar junto à capela de S. Julião, nos arredores da vila de Melgaço, não se encontra na sua localização de origem nem tem qualquer relação com a dita capela. O citado cruzeiro tem cerca de 500 anos de antiguidade e esteve durante cerca de dois séculos nas Carvalhiças, no chamado Côto da Pedreira, a sua localização de origem, de onde foi removido para o Campo da Feira de Fora para que lá se construísse a capela de Nossa Senhora da Pastoriza no início do século XVIII. Todas as procissões da vila iam lá dar a volta e em documentos antigos é citado como o cruzeiro da vila de Melgaço.
O saudoso Augusto César Esteves, no jornal “Notícias de Melgaço”, conta-nos mais acerca deste cruzeiro e de como ele foi parar ao largo da capela de S. Julião : “No pequeno alfoz da sua freguesia quatro cruzeiros houve outrora Melgaço e embora alguns tenham sido mudados de local, ainda hoje todos se conservam eretos à veneração dos fiéis. Um, e é o principal por mais lindo, mais trabalhado e mais artístico, tem a forma da Piedade, pois numa das faces da cruz está esculpida a imagem de Cristo crucificado e na outra a de Nossa Senhora com o filho morto deitado no regaço. Representa o descimento da cruz. A coluna esbelta, elegante, está lavrada com alguns primores de arte e na base tem esculpida a figura da morte, representada por caveira humana.
Ignora-se infelizmente o nome do artista lavrante e o do quem lhe encomendou ou pagou o primoroso trabalho, pois no referido monumento nem a mais escassa informação se colhe. Em 1779 estava erguido no Campo da Feira de Fora, junto de uma morada de casas, cuja escadaria exterior dificultava a passagem das procissões à sua volta. Depois foi mudado para o Campo da Feira de Dentro e ficou mais ou menos no centro do largo.
Daqui o transferiu a junta de paróquia em 1867 para o adro da capela de São Julião, onde ainda hoje se conserva exposto à veneração de todos os fiéis, tendo sido declarado há anos monumento nacional. É este o cruzeiro da vila.
Assim foi conhecido sempre e ainda hoje essa designação tem e lhe pertence. Vem de longe, do século XVII, se é que não foi trabalhado nos fins do século XVI por qualquer daqueles artistas trazidos à terra pelo juiz de fora Gil Gonçalves Leitão para fazerem muitas coisas aqui não havidas e talvez nem sonhadas.
E isto se avança porque este cruzeiro estava situado no Coto da Pedreira, que era monte baldio pertencente à Câmara do termo, ali à entrada das Carvalhiças, e outro cruzeiro assim não havia. De mais a mais quando em 1703 Frei Domingos Gomes de Abreu quis erguer uma capela em honra de Nossa Senhora da Pastoriza escreveu em requerimento estas palavras, aliás com aparência de serem descabidas ao intento: «…quer este fazer-lhe a capela no Coto da Pedreira desta freguesia por ser lugar público onde costumam irem os clamores desta vila não havendo neste lugar mais do que uma cruz…»
Mas esta cruz era o cruzeiro da vila. Quem o diz nesse processo organizado na Mitra bracarense são os sucessivos párocos da vila então no uso do múnus de cura de almas: o P. João Dias dos Santos e o P. António Soares Falcão.
Aquele fá-lo por estas palavras: «…Digo que ao sítio vamos com as ladainhas aonde está o Cruzeiro desta vila fora da muralha…»
E este assim o diz: «Pretende o instituidor edificar a capela de que fez promessa no sítio chamado o Coto da Pedreira, que fica extra muros desta vila, onde está um cruzeiro ao qual vão em procissão nas ladainhas…»
Ora como a capela da Nossa Senhora da Pastoriza ocupou o sítio do Cruzeiro e as obras da construção, por circunstâncias várias, só vieram a fazer-se entre 1725 e 1727 esta obra nova acabou por impor a mudança do cruzeiro. Foi, possivelmente, por esta época que o Cruzeiro da vila veio das Carvalhiças para o local assinalado por documentos conhecidos, mas muito mais recentes: o Campo da Feira de Fora.”
Trata-se, como já foi referido, de um cruzeiro da vila de construção quinhentista de assinalável qualidade e feitura erudita. Possui base esculpida com uma caveira, numa alusão ao Monte Gólgota, local de crucificação de Cristo, fuste galbado, com o terço inferior liso e o restante estriado com decoração boleada, capitel de acantos e cruz terminada em botão com representação escultórica em ambas as faces. Na face frontal tem a imagem de Cristo, numa figuração naturalista e de pés sobrepostos, e na face oposta, a Pietá, de acentuado dramatismo. A representação de Cristo, a decoração do capitel e do fuste, surgem copiadas num outro cruzeiro de características populares erguido na mesma vila, em local não distante daquele onde este cruzeiro poderia estar colocado antes de ser trasladado para São Julião.



Informações extraídas de:
-ESTEVES, Augusto C. (2003) - Obras Completas. Nas páginas do Notícias de Melgaço. Volume I, Tomo 2; Edição da Câmara Municipal de Melgaço.

sábado, 17 de novembro de 2012

A Capela de Nossa Senhora da Pastoriza II: traços arquitetónicos


Pequena capela de linhas sóbrias terminada em frontão triangular de ângulos inferiores abertos e rasgada no frontispício por vãos encimados por cornijas salientes. Nos cunhais, a sobreposição das cornijas das pilastras. São notórias certas semelhanças com a Capela de Santo António, também em Melgaço. O retábulo, de estilo nacional mas com laivos posteriores, como seja a posição dos anjos e das mísulas gomeadas, levou preparação, mas acabou por não levou o "bolus arménio"; está profusamento entalhado revelando uma exuberância decorativa. Encimando o sacrário e enquadrando a tribuna encontram-se anjos músicos, denotando um certo carácter profano que o entalhador quis transmitir a esta obra, porventura relacionado com a ligação do barroco à festa. O retábulo ostenta um significativo conjunto de imagens, de madeira, de boa execução artística. A cornija que suporta o tecto e o frontal de altar apresentam os mesmos motivos decorativos que estão entalhados no retábulo. A pintura oitocentista do tecto possui um carácter mais popular.

Fachada principal

Planta longitudinal, de corpo único rectangular. Massa simples com cobertura homogénea em telhado de duas águas. Fachadas rebocadas e caiadas, percorridas por embasamento avançado e terminadas em friso e cornija, com cunhais apilastrados coroados por pináculos tipo pêra ou piramidais sobre plintos e cruzes latinas de braços quadrangulares sobre acrotério no remate das empenas. Fachada principal virada a Oeste, terminada em frontão triangular sem retorno, com cornija fortemente moldurada, apresentando no tímpano cartela de moldura recortada. É rasgada por portal de verga recta, encimado por friso e cornija recta e por duas janelas quadrangulares laterais, de moldura terminada em cornija, e gradeadas. Fachada lateral esquerda cega e a oposta, virada a S. rasgada por janela rectangular de capialço na zona do retábulo-mor. Fachada posterior cega e terminada em empena. Interior rebocado e caiado, com pavimento cimentado e lajeado e tecto de madeira, de perfil curvo, sobre cornija em madeira, entalhada, pintado com cartela central, de moldura recortada, com imagem de Nossa Senhora da Pastoriza ladeada por anjos que seguram uma tarja com as inscrições: "ESTA CAPELLA FOI MANDADA FORRAR / E PINTAR NO ANNO DE 1884. POR LIBORIO JOSE DA CUNHA." e "EM VIRTUDE DE UM GRANDE MILARE QUE A VIRGEM / NOSSA S.A DA PASTORIS LHE FES". Coro-alto assente em trave de madeira, com balaustrada entalhada. O lado da Epístola possui pia de água benta ovóide, gomada e com toro superior boleado, encimada por cartela rectangular, moldurada, com a inscrição "IHS", relevada, e nicho de remate em arco pleno. Sobre supedâneo, com acesso por três degraus, surge o retábulo-mor de talha em branco e policroma, de planta recta e três eixos definidos por colunas torsas ornadas de pâmpanos e aves, assentes em mísulas com acantos e anjos e de capitéis coríntios; no eixo central abre-se nicho, em arco de volta perfeita, interiormente albergando imagem do orago, rodeada de anjos encarnados; no intercolúnio côncavo surgem mísulas com imaginária; nos eixos laterais existem nichos à face, em arco de volta perfeita sobre pilastras, decoradas de acantos, com mísulas sustentando imaginária; sobre o entablamento, decorado de acantos, anjos e querubins, desenvolve-se o ático, adaptado ao perfil da cobertura, de várias arquivoltas unidas no sentido do raio, e com cartel a central sustentada por dois anjos. Altar paralelepipédico, com frontal marcado por sebastos e sanefa, decorados por acantos enrolados, e tendo ao meio cartela polilobada, anjos e acantos enrolados.

Altar principal

Informações recolhidas em:
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9380