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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Sobre descobertas arqueológicas em Melgaço no primeiro terço do século XX


 

A presença do ser humano nas terras que constituem o atual concelho de Melgaço remontam a vários milhares de anos atrás e de forma comprovada. Existem achados arqueológicos em vários pontos do concelho desde a área da Ribeira Minho até ao planalto de Castro Laboreiro. 

Algumas das mais antigas escavações arqueológicas em terras melgacenses foram levadas a cabo na viragem para o século XX e no primeiro terço do século XX. Esses achados foram descobertos, nessa época, em terrenos não muito distantes da margem rio Minho, por exemplo no Peso, Remoães ou na Cividade, Paderne. Não é alheio o facto de estas escavações se terem concretizado em períodos de veraneio nas Termas do Peso por parte de distintos académicos como Leite de Vasconcelos ou Rocha Peixoto, assíduos frequentadores da estância termal melgacense na época.

Num trabalho recente, com o título “O Paleolítico em Melgaço”, os autores fazem um ponto de ordem acerca do conhecimento sobre a presença do ser humano em terras de Melgaço na Pré-História e referem-se aos muitos achados arqueológicos: “Melgaço é neste domínio um concelho particularmente privilegiado pela variedade e riqueza do seu património, impondo-se, pois, nesse contexto identificar, estudar e divulgar os vestígios mais antigos de tal realidade: os testemunhos materiais da passagem pelo seu território dos primeiros homens que chegaram ao Noroeste da Península Ibérica. Procurando neles vislumbrar o que nos trazem de novo para o conhecimento do comportamento destes nossos longínquos antepassados e em que medida tais vestígios podem e devem contribuir para a própria valorização do já rico património de Melgaço. 

Não é um desafio fácil para um território que abrange 10 Monumentos Nacionais, outros tantos Imóveis de Interesse Público e um Sítio de Interesse Público. Onde se integra a monumentalidade do Castelo e das Muralhas da Vila de Melgaço, a rusticidade do Castelo de Castro Laboreiro ou as românicas igrejas dos seus medievais conventos. Para não falar, em termos mais arqueológicos, da Cividade de Paderne, enquanto testemunho de um povoado da Idade do Ferro, com manifestos indícios de ulterior romanização, e da necrópole megalítica do planalto de Castro Laboreiro, com mais de seis dezenas de monumentos megalíticos e vestígios de arte rupestre associáveis às remotas sociedades neolíticas do IV e V Milénios a.C. E isto se nos limitarmos apenas a referir Imóveis e Sítios classificados. 

Os dados até há pouco conhecidos sobre a presença de vestígios paleolíticos em Melgaço eram bem parcos. Como já anteriormente se referiu, a sua existência tinha sido pela primeira vez publicitada com a divulgação das peças líticas talhadas encontradas por Abel Viana no início dos anos trinta no Peso, Melgaço. Depois disso apenas se conhecia, por referências indiretas, a descoberta de materiais similares em Fiães e, mais recentemente, assinalara-se a pontual recolha por José Maia Marques, nos anos oitenta, de materiais líticos de cronologia paleolítica em Remoães. 

Este breve relato dos primeiros achados de vestígios paleolíticos no Concelho de Melgaço necessita, porém, de ser revisto. De acordo com a Resenha Histórica da Freguesia de Prado, hoje integrada na União de Freguesias do Prado e Remoães, “Rocha Peixoto aí encontrou vestígios de cerâmica ornamentada em alguns sítios arqueológicos desta freguesia e particularmente no Monte do Prado sobranceiro ao rio Minho. São peças em pedras lascadas, da Idade da Pedra, e objetos em cerâmica com ornamentações ou outros utensílios, de épocas também longínquas mas posteriores”. Embora a descrição de tais factos não se encontre documentada nas publicações que Rocha Peixoto (1866-1909) nos legou, certo é que ela serviu de base temática para a definição das armas da freguesia de Prado pela Comissão Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses. 

Daí resultou a definição de um “Escudo verde, com grelha de ouro, acantonada de duas pedras lascadas, postas em pala, e duas peças de cerâmica castreja, tudo de prata. Coroa mural de prata de três torres”. Realidade esta bem peculiar, de que desconhecemos qualquer outro paralelo.  

Sendo António Augusto da Rocha Peixoto (1866-1909) um reconhecido arqueólogo e etnólogo, ligado à formação da Sociedade Carlos Ribeiro e à edição da histórica revista Portugália, não deixa de ser aparentemente estranho que não tenha divulgado os achados por ele putativamente realizados no Monte Prado. A existência, o significado e a importância de tal tipo de materiais não eram por ele ignoradas.  

Na própria Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes, editada pela Sociedade Carlos Ribeiro, havia, aliás, associado um estudo publicado pelo arqueólogo Fonseca Cardoso (1865-1912) sobre uma “estação cheleana do Vale de Alcântara”, em Lisboa, entre o que ele expressivamente designava por “estudos de paleo-etnologia” (Veiga de Oliveira,1966). 

Por outro lado, nos seus múltiplos trabalhos sobre várias regiões do país não são poucas as suas referências a Castro Laboreiro e a Melgaço. Por lá terá passado nas suas explorações etnológicas e aí se documentou para alguns dos estudos que publicou. Assim sucedeu, por exemplo, com as fotografias de casas tradicionais de Castro Laboreiro e Melgaço que inseriu no estudo sobre A Casa Portugueza, que publicou em 1905 (Peixoto, 1905), ou com as referências e ilustrações a trajes de Castro Laboreiro que integrou no seu posterior artigo sobre “O Traje Serrano” (Peixoto, 1907). Numa publicação póstuma de Rocha Peixoto sobre a sobrevivência de regimes comunitários em Portugal conhecem-se ainda referências do autor a atividades económicas da população de Castro Laboreiro, que à época lhe propiciavam relações com populações vizinhas, nomeadamente de Melgaço (Peixoto, 1909).  

Sabe-se também que se terá deslocado mais do que uma vez para o Peso, em Melgaço, procurando tratamento nas águas termais locais. Numa carta endereçada ao Etnólogo elvense António Tomás Pires, com quem se correspondeu, dessa mesma intenção dava conta em 2 de agosto de 1905, solicitando que o envio de correspondência lhe fosse dirigido para o Hotel Esteves, onde se instalaria (Gama, 1966). De forma mais documentada conhece-se ainda a sua posterior vilegiatura no Peso, em agosto de 1908, pelo testemunho que um dos seus convivas locais dela deixou mais tarde, num artigo memorialista publicado no jornal Estrella Povoense, da Póvoa de Varzim, após a morte de Rocha Peixoto (A.D., 1909). Esse pequeno grupo de convivas, que Rocha Peixoto gostava de designar por Academia, ocupava o seu tempo após os tratamentos aquistas em animadas conversas onde se destacava a erudição e fluência do etnólogo e arqueólogo, organizando ainda “digressões de recreio e de estudo” pelas redondezas, visitando frequentemente alguns dos elementos patrimoniais mais relevantes aí existentes. 

Não será, pois, de estranhar que a recolha dos vestígios arqueológicos no Monte de Prado tenha ocorrido numa destas digressões. E que Rocha Peixoto desde logo tivesse distinguido entre tais achados a presença de “cerâmica ornamentada” e de pedras lascadas mais antigas, que terá associada à Idade da Pedra, designação então comummente usada para referir os primeiros tempos da humanidade paleolítica. E se a inesperada e prematura morte de Rocha Peixoto alguns meses depois, em maio de 1909, terá obstado à divulgação destas descobertas, não se poderá deixar de reconhecer que a ele se deve certamente não só a descoberta dos primeiros vestígios do Homem paleolítico não apenas em Melgaço, mas também no próprio vale do rio Minho. 

O que em nada desvaloriza a descoberta por Joaquim Fontes, quinze anos depois, da jazida pré-histórica de Camposancos. Nem tão pouco diminui o valor da posterior publicação das recolhas de materiais líticos talhados de cronologia paleolítica realizadas, poucos anos mais tarde, por Abel Viana no Peso, em Melgaço.  

Tendo procurado estribar a sua formação como autodidata no contacto com arqueólogos de nomeada da época, Abel Viana estabeleceu com José Leite Vasconcelos uma expressiva troca epistolar (Cardoso e Coito, 2014-2015). Numa dessas cartas dá testemunho entusiasmado destes novos achados na região do Minho e em particular em Melgaço, demonstrando a intenção de os mostrar pessoalmente a Leite de Vasconcelos, para o que se terá deslocado a Lisboa entre 21 e 23 de abril de 1930. Na sua visita ao Museu Etnológico não se conseguiu encontrar, porém, com o antigo Diretor do Museu, já então aposentado, tendo sido recebido por Manuel Heleno (1894-1970), na companhia de Félix Alves Pereira (1865-1936), levando consigo as “três peças da estação paleolítica que descobri em 14 do mês passado [abril], no Peso, Melgaço”. 

Na publicação posterior de tais achados, que vai dar à estampa no mesmo ano na revista Portvcale, refere que “Em 14 de Abril, deste ano, tive ocasião de explorar parte dos terrenos, à beira rio, algumas centenas de metros a Sul das importantes nascentes minero-medicianais de Melgaço” (Viana, 1930, p. 34), descrevendo em seguida os “três instrumentos chelenses” que aí encontrou, de que inclui cuidados desenhos no próprio artigo. Enganou-se, porém, manifestamente na coordenada geográfica que indica para o sítio onde realizou os achados, pois se este estivesse a sul das termas, como diz, estariam bem longe do rio, a meia encosta da Cividade de Paderne. Muito provavelmente a sua situação seria a oposta, correspondendo à zona das veigas adjacentes ao rio Minho, que surgem logo após este passar por um troço do seu vale bem encaixado, marcado na margem esquerda por uma vertente particularmente abrupta.  

Em todo caso, estaria longe da área onde Rocha Peixoto teria recolhido as primeiras peças talhadas da Idade do Gelo, que corresponderia a uma elevação situada um pouco mais para montante e não muito longe da Vila de Melgaço, numa zona que até há bem pouco tempo correspondia ao território da freguesia de Prado. Desconhecendo certamente Abel Viana tal realidade, tanto mais que as relações entre Rocha Peixoto e o seu venerado Mestre José Leite Vasconcelos nunca foram de grande proximidade e de mútuo apreço (Pereira, 1993-1994). 

Terá sido também pela mesma altura que se encontraram materiais de “tipo chelense” em Fiães, “próximo de Castro Laboreiro” [?] (Paço, 1934). Desconhece-se, porém, o sítio exacto da descoberta, bem como as características, o número e a quantidade de peças recolhidas. Tão pouco se sabe quem as terá encontrado. Apenas se admite que o achado ocorreu na altura em que Abel Viana encontrou no Peso as mencionadas três peças lascadas ou pouco despois, pois Afonso do Paço, que notícia a sua descoberta em 1934, menciona explicitamente que o seu estudo estaria a ser desenvolvido por Rui de Serpa Pinto, que não o terá levado por diante com a sua prematura morte, em 1933.  

Mas depois destes primeiros achados de materiais paleolíticos em Melgaço nada mais se adiantou de significativo sobre o conhecimento da presença do homem paleolítico no concelho.  

As primeiras descobertas caíram mesmo no esquecimento, dispersando-se algumas das peças então exumadas pelas prateleiras de alguns museus nacionais, onde surgem como pouco mais do que um testemunho da presença de vestígios (residuais) do homem paleolítico no extremo setentrional do país, a par das publicações que sobre elas nos foram deixadas.  

E pouco se alterou esta situação com a isolada descoberta de peças líticas talhadas na área do Monte de Remoães, nos anos oitenta (Maia Marques, 1986). Numa área não muito distante daquelas onde anos antes se haviam encontrado artefactos em pedra talhada associáveis ao Paleolítico – entre o Monte Prado a nordeste, e as veigas de Remoães, a este - José Maia Marques recolheu no Monte de Remoães “vários núcleos, lascas e, sobretudo, seixos afeiçoados e bifaces”, com as superfícies e arestas de talhe não muito alteradas, que associou à eventual presença de um terraço do rio Minho. Mas 

se a descoberta se revelava promissora para o seu autor, tais trabalhos não tiveram a continuidade desejável e dela nos resta também a breve descrição do achado e desenhos de alguns dos bifaces encontrados.” 

Nos últimos anos, foram realizadas novas escavações em vários pontos do concelho, particularmente na zona ribeirinha e no planalto de Castro Laboreiro foram encontrados vestígios de um dos maiores acampamentos romanos de que há conhecimento. 

 

 

Fontes Bibliográficas citadas: 

- Cardoso, J. L. e Coito, L. C. (2014-2015), Correspondência de Abel Viana a José Leite de Vasconcelos: Do mérito ao reconhecimento, O Arqueólogo Português, Série V, 4/5, p. 21‑83; 

- Paço, A. do (1934), Carta paleolítica e epipaleolítica de Portugal, Trabalhos da Associação dos Arqueólogos Portugueses Lisboa, I, p. 43-47; 

- Peixoto, R. (1905), A Casa Portugueza, Serões, 2ª série, vol. I, p. 106-110, 209-214 e 318-322; 

- Peixoto, R. (1907), O Traje Serrano, Portugália, Tomo II, fasc. 3, p. 360-389. 

- Peixoto, R. (1908), Formas de Vida Communalista em Portugal. Sumario de uma monografia inédita, Notas sobre Portugal, Exposição Nacional do Rio de Janeiro em 1908. Secção Portuguesa, Vol. I, Lisboa, p. 73-83; 

- Veiga de Oliveira, E. (1966), Rocha Peixoto e a Etnologia Portuguesa, Boletim Cultural. Número Comemorativo do I Centenário do Nascimento de Rocha Peixoto, Edição da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, p. 165-214; 

- Viana, A. (1930), Estações Paleolíticas do Alto Minho. Portvcale, vol. III, nº 15, Porto, p. 6-51. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Recuamos aos tempos da ACADEMIA no Peso (Melgaço, 1908)

Peso (Melgaço) - Início do século XX

A 2 de Maio de 1909, António Rocha Peixoto, notável naturalista, professor, antropólogo, etnólogo e escritor faleceu em Matosinhos, vítima de tuberculose aguda seguida de uma crise.
Em 1908, passou uma temporada em Melgaço, nas Águas do Peso, onde fundou um grupo de tertúlia e reflexão que ele chama de Academia. Depois da sua morte, em 23 de Maio desse mesmo ano, o seu amigo Avelino Dantas escreve no jornal poveiro “Estrella Povoense” um texto de homenagem onde recorda a marcante passagem por Melgaço no ano anterior e as animadas sessões da Academia. O texto diz o seguinte:
“Faz um ano em Agosto que, no local da nascente das Àguas Minerais do Peso de Melgaço, encontrei o abalisado homem de ciência Rocha Peixoto.
Feito os meus cumprimentos, a que ele correspondeu, risonho, com um acolhedor “Viva, amigo”, perguntou-me logo por notícias da sua terra e, em seguida, quis que eu lhe dissesse o motivo que me levava ali. Disse-lho, e como quer que ele visse em mim sintomas de neurastenia, aconselhou-me a que viajasse e visitasse de preferência lugares, onde há muito que admirar e aprender.
Ao mesmo tempo, estava na pitoresca estância de águas minhotas um considerado médico de Chaves, o Dr. Teixeira de Sousa, com quem Rocha Peixoto falava muito e de que o saudoso extinto me disse gostar pelo seu feitio gracejador e leal de transmontano.
Dias depois apareceram, um quase após outro, primeiro o Dr. Silva Gaio, secretário da Universidade de Coimbra e festejado homem das letras e, posteriormente, o distinto pintor portuense António Carneiro, que Rocha Peixoto cumulava de atenções, tratando-o como a pessoa de valor e a que se rende culto.
Todos os dias, de manhã e à tarde, à hora de tomar as águas, era certo o grupo dos quatro em animada palestra, que só se interrompia para confortar o estômago e para dormir.
Ordinariamente, quem mais falava era Rocha Peixoto. Erudito e fluente, dispondo, como se sabe, de uma soma enorme de conhecimentos bem assimilados e, o que não é vulgar em homens de ciência, expondo tudo com muita facilidade e clareza, todos o ouviam com manifesto prazer, e só se separavam quando ele dizia que a sessão ficava interrompida por tantas horas, isto é, o espaço de tempo decorrido desde o almoço até à hora do tomar águas, de tarde, e desde o jantar até ao dia seguinte, de manhã cedo.
Às vezes, a sessão interrompia-se por momentos. Era quando se efetuavam-se digressões de recreio e de estudo, mas mais de estudo do que de recreio, aos templos românicos dos concelhos de Melgaço e Monção. Neste: a matriz da vila e a igreja de S. João de Longos Vales; em Melgaço, a matriz da vila, a igreja de Paderne e a capela de Nossa senhora da Ourada.
Como é óbvio, essas digressões, de que jamais me esquecerei, eram planeadas pelo insigne português Rocha Peixoto e feitas por ele, os cavalheiros acima citados e pelo autor destas linhas, ao grupo dos quais Rocha Peixoto graciosamente chamava a Academia.
Era de ver o carinho e o entusiasmo com que o ilustre homem de ciência preleccionava sobre os característico do estilo românicos nos templos de Monção e Melgaço que visitamos. Nestes expressava a sincera indignação com que verberava o obra dos bárbaros restauradores, quando acaso nesses monumentos se lhe deparavam semelhantes provas de falta de educação cívica e carência de perfeito sentimento artístico.
Uma vez, no alto do Castelo de melgaço, onde subiu a Academia para gozar o lindo panorama que dali se descobre e, sobretudo, para se remontar a uma época em que a força era tudo, Rocha Peixoto, em conversa com dois padres que lá estavam, disse-lhes que eles podiam fazer muito em prol da conservação do nosso espólio artístico sobrevivente do passado, opondo-se a que as juntas da paróquias, na sua fúria inovadora, ultrajassem, estragando, o que tão digno é de respeito.
Dotado de invulgares faculdades de trabalho e de uma força de vontade inquebrantável, nem mesmo ali, naquela estância de Melgaço, onde os outros vão apenas para fazer a sua cura de águas, o saudoso homem da ciência descansava.
Vendo-o, assim, todo votado à sua tarefa de gigante, quem diria que, em menos de um ano, ele sucumbiria ao peso dessa mesma tarefa, que afinal tão demasiada era para a sua compleição!
Ah! Como, por vezes, é triste a realidade das coisas! Como é cruel!
Ainda há pouco, nos primeiros dias de Fevereiro, ele me disse em Matosinhos, que era preciso que a Academia se reunisse este ano em Melgaço para continuarmos as nossas palestras e as nossas digressões, e nem pela cabeça me passou a ideia de que era essa a penúltima vez que o via vivo... “

Rocha Peixoto no jardim de sua casa

Extraído de:

- DANTAS, Avelino (1966) – Rocha Peixoto (Depoimentos e Manuscritos). Edição da Câmara Municipal de Matosinhos, Matosinhos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rocha Peixoto: um vulto da ciência com estreitas ligações às Termas do Peso



António Rocha Peixoto

1866-1909
Naturalista, etnógrafo, arqueólogo e bibliotecário


António Augusto César Octaviano da Rocha Peixoto nasceu a 18 de Maio de 1866 no n.º 20 da antiga Rua da Silveira (actual Rua Rocha Peixoto), na Póvoa de Varzim.
O 11.º dos 12 filhos de António Luís da Rocha Peixoto, médico, cirurgião e militante miguelista, natural de Arcos de Valdevez, e de Constança Amélia da Costa Pereira Flores, de Vila do Conde, foi baptizado na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, a 21 de Maio.
Em 1874 ficou órfão de pai, acontecimento que dificultou grandemente a sua vida, obrigando-o a trabalhar para prover o sustento da mãe e de três irmãs, ainda antes de completar a formação académica.
Em criança tinha um aspecto frágil que o ajudava a esconder um carácter dotado de grande força de vontade. Estudou no Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto, e, aos 15 anos de idade, ajudou a fundar a revista estudantil "Boletim Litterario. Revista Académica Mensal", que produziu 3 números.
Em 1883, com dezasseis anos e sob o nome de Augusto César, publicou artigos críticos sobre os Jesuítas no jornal da Póvoa de Varzim, intitulado "A Independência", em resposta a Afonso dos Santos Soares, defensor confesso da Companhia de Jesus.
No ano seguinte, já estudava no Instituto Escolar de S. Domingos (depois convertido na Escola Académica), nas proximidades da Rua da Sovela, no Porto, tendo por condiscípulos António Nobre e Alexandre Braga.
Aquando da mudança da Escola Académica para a Quinta do Pinheiro, conviveu com Hamilton de Araújo, Fonseca Cardoso e Ricardo Severo, organizadores do "Grémio Oliveira Martins".
Em 1887, na Academia Politécnica do Porto, fundou com Fonseca Cardoso, João Barreira, Ricardo Severo e Xavier Pinho a "Sociedade Carlos Ribeiro". Este grupo, ao qual se juntou Basílio Teles, António Arroio, António Nobre e Augusto Nobre, reunia-se numa casa na zona do Moinho de Vento para debater a crise nacional. Destas reuniões resultou a publicação da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes", entre 1890 e 1898, dirigida por Rocha Peixoto, Ricardo Severo e Wenceslau de Lima.
Nesses tempos de estudante, Rocha Peixoto publicou artigos a folhetos sobre a degradação do Museu Municipal do Porto, colaborou em opúsculos e jornais, como "O Primeiro de Janeiro", do Porto, e "O Século", de Lisboa, e também participou em tertúlias musicais, tocando guitarra, tendo mesmo chegado a compor uma valsa intitulada "Lavandisca".
Rocha Peixoto participou na Tumulto de 31 de Janeiro de 1891, como nos conta Basílio Teles na sua obra "Do Ultimatum ao 31 de Janeiro: esboço d' historia política". Nela refere que Peixoto e Ricardo Severo, na manhã desse dia histórico, o convocaram para aparecer na Foz para o pôr a par dos acontecimentos. Os três vistoriaram o centro do Porto, para se inteirarem das movimentações das tropas fiéis ao Governo, e Rocha Peixoto escreveu um manifesto dirigido à população civil, em especial ao operariado, com o intuito de instigar a agitação social e assim perturbar a Guarda Municipal. Com a consciencialização do fracasso desta sublevação, Basílio Teles e Ricardo Severo deixaram Rocha Peixoto e centraram-se na busca de auxílio para os revoltosos.
Foi secretário da "Revista de Portugal" (1891-1892), dirigida por Eça de Queirós, organizou o "Catálogo de Mineralogia, Geologia e Paleontologia: Extracto do Annuário de 1890-91", da Academia Politécnica do Porto. Em 1893 passou a ser sócio da Academia das Ciências e desempenhou o cargo de bibliotecário no Ateneu Comercial do Porto (1893-1900).
Em 1895 começou a colaborar com a "Revista d'Hoje" e recebeu o diploma de académico da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais.
Pela altura da extinção do grupo "Sociedade Carlos Ribeiro" e da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes" (1898), Rocha Peixoto leccionava Geografia e Ciências Físico-Naturais na Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto.
Em 1899 associou-se à nova revista "Portugália", de carácter nacionalista, que tomou o lugar da "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes". Esta publicação, dirigida por Ricardo Severo, contava com Fonseca Cardoso, como secretário, e com Rocha Peixoto, como redactor-chefe e articulista.
Em meados de 1900 foi nomeado Conservador do Museu Municipal do Porto, então instalado num edifício da Rua da Restauração, e, em 28 de Junho desse ano, acumulou esse cargo com o de Director da Biblioteca Pública Municipal do Porto, de que foi Director Interino entre 1900 e 1904 e Director Efectivo entre 1904 e 1909.
A sua relação com o Museu Municipal era anterior à sua entrada na instituição, pois, ainda estudante na Academia Politécnica do Porto, escrevera sobre o seu estado ruinoso, no título "O Museu Municipal do Porto (História Natural)" e no artigo "O Museu da Restauração" publicado n' "O Primeiro de Janeiro", em 1893. Em 1894, no mesmo jornal, sugeriu que a edilidade portuense comprasse a colecção de faiança de Guerra Junqueiro e, em 1897, integrou uma comissão de estudo da reorganização do museu e da sua instalação num novo edifício.
Durante a comissão de serviço no Museu, organizou as diversas secções do acervo desta instituição, a saber, a de Mineralogia, de Paleontologia, de Etnografia, de Arqueologia, de Artes Decorativas e de Numismática, melhorou os espólios de pintura e de azulejo e promoveu obras no edifício. Em 1902, com Joaquim de Vasconcelos, criou o "Guia do Museu Municipal do Porto", iniciou a transferência do Museu para as suas novas instalações, anexas à Biblioteca (1902-1905), e dotou-o de peças provenientes do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde, iniciativa que levantou alguma polémica.
No período em que presidiu aos destinos da Biblioteca, fomentou profundas obras de restauro do edifício, a reorganização dos seus serviços e a reforma e modernização da classificação e catalogação dos livros. Criou três pequenas bibliotecas no Porto (no Bonfim, em Cedofeita e na Foz, com título modernos existentes em duplicado na B.P.M.P.), favoreceu doações às bibliotecas da Póvoa de Varzim e de Ponte de Lima e, ainda, mandou colocar nas paredes do claustro da Biblioteca Pública (antigo claustro do convento de Santo António da Cidade) azulejos quinhentistas e barrocos, oriundos de extintos conventos do Norte de Portugal (de Santa Clara e de São Bento de Ave Maria, do Porto, de Santa Clara e de S. Francisco, de Vila do Conde, de Grijó, em Vila Nova de Gaia, etc.).
No final de 1901 foi nomeado naturalista-adjunto da secção de Mineralogia da Academia Politécnica do Porto e, em 1903, foi enaltecido pelo Ministro Luís Augusto Pimentel Pinto, juntamente com os outros responsáveis da revista "Portugália".
Em 1908 passou uma temporada nas termas do Peso de Melgaço, onde fez amizade com um grupo de utentes da estância termal, entre os quais se destacavam o Dr. Teixeira de Sousa, de Chaves, o Dr. Silva Gaio, Secretário da Universidade de Coimbra, e o artista portuense António Carneiro. A esse grupo chamou "Academia".
Apesar da ligação académica, cultural e profissional ao Porto, Rocha Peixoto nunca deixou de manter um forte vínculo à sua terra natal, comprovado pelos estudos sobre o património arqueológico, histórico, e etnológico da Póvoa de Varzim. Foi responsável pelas primeiras escavações da Cividade de Terroso, do Castro de Laúndos e da vila de Martim Vaz, envolveu-se na questão da naturalidade de Eça de Queirós e empenhou-se na defesa da comunidade piscatória poveira, que influenciou, entre outros, os trabalhos de Fonseca Cardoso (estudo antropológico sobre os pescadores da Póvoa, editado na "Portugália", em 1908), de Cândido Landolt (livro sobre o Folk-Lore da Póvoa de Varzim, de 1915) e de António dos Santos Graça ("O Poveiro", de 1932). Não é, portanto, de estranhar, que tenha legado a sua biblioteca, constituída por mais de 2.000 títulos, à Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim.
Este notável naturalista, professor, antropólogo, etnólogo e escritor faleceu em Matosinhos, vítima de tuberculose aguda seguida de uma crise, a 2 de Maio de 1909.
Na altura da sua morte trabalhava no Porto como naturalista-adjunto da Academia Politécnica, como Director da Biblioteca Pública e do Museu Municipal do Porto e, ainda, como professor de Geografia e de Ciências Físico-Naturais da Escola Industrial Infante D. Henrique.
Do Cemitério de Agramonte, no Porto, onde foi sepultado, o seu corpo foi trasladado para o Cemitério da Póvoa de Varzim, em 16 de Maio de 1909, a pedido da Câmara Municipal poveira.

Fonte: Universidade Digital / Gestão de Informação, 2010