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domingo, 7 de julho de 2024

Branda da Aveleira (Gave), 27 de Julho de 1650...


O velhinho e extinto concelho de Valadares abrangeu, durante vários séculos, várias das atuais freguesias de Melgaço, entre as quais a Gave. Esta confrontava, em tempos antigos, com terras pertencentes ao extinto concelho de Soajo.

Recuamos quase 400 anos e concentramo-nos num manuscrito lavrado na Branda da Aveleira, na freguesia da Gave, em 27 de Julho de 1650. Nestas terras altas, o uso dos pastos pelo gados das gentes dos diferentes lugares obedece a usos e costumes antigos ainda que sempre fossem, com alguma frequência, fonte de conflitos entre as populações, tanto antigamente como na atualidade. Assim, junto a uma escritura de delimitação dos limites do desaparecido concelho de Valadares com o vizinho Soajo, encontramos uma sentença relativa a um litígio entre o povo da Gave e do Soajo por causa de conflitos relacionado com os pastos do gado e direitos de passagem

Este interessante documento refere o seguinte:  

“Demarcação do termo desta vila de Valadares enquanto parte com o concelho de Soajo 

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e seiscentos e cinquenta anos, aos vinte e sete do mês de Julho do dito ano no lugar e sítio da Aveleira, termo desta vila de Valadares, aonde foi vindo o Doutor Francisco Pinto da Veiga do desembargo de Sua Majestade que Deus guarde, juiz comissário deste tombo com alçada pelo dito Senhor, com assistência do licenciado Manuel de Barros Girão, agente do dito Senhor em o dito tombo, e em sua companhia Afonso de Castro Araújo juiz ordinário, Francisco Pereira da Lomba de Santo Antão, Sebastião Fernandes Conde Araújo de Ceivães, Francisco Cordeiro de Penso, vereadores, e Francisco Rodrigues da Costa de Riba de Mouro, procurador do concelho, todos oficiais da Câmara deste vila de Valadares para efeito da demarcação que se há-de fazer, e fazia neste tombo na forma dos mais, com o termo de Soajo, e enquanto dizia seu distrito somente, onde chegaram também Domingos Dias de Ermelo, Francisco Rodrigues, vereadores da vila e termo de Soajo, os quais vieram citados a requerimento do dito agente como constou da citação precatória que o juiz do tombo mandou passar para esse efeito o que eles confessaram ser-lhe feita em suas pessoas e em razão dele vinham assistir à dita demarcação, e estando todos presentes se começou a fazer pela maneira seguinte: Foram ter ao outeiro chamado de Parte-Águas onde começa esta demarcação com Soajo, e dali indo do nascente foram andando para o poente direito pelo cume do monte até chegar ao sítio chamado os Poços de João Barqueiro, sempre alto da serra pelo rota do Bico da Serra direito até chegar ao outeiro da Pedra Donzela, até chegar ao outeiro chamado garganta de Mouros, sempre águas vertentes do norte deste termo, indo pelo Forno do Chedeiro direito aos Aguilhões da Peneda descendo pela Lomba dos (???) direito ao Monte e colado da Barreteira, todo outrossim águas vertentes aonde se escavou um marco novamente com umas letras no rosto que dizem Rey e outras de algarismos por baixo que dizem  mil seiscentos e cinquenta o qual marco fica com o rosto e letras sobreditas para o norte e termo desta vila de Valadares, e com as costas para Soajo, e deste marco vai correndo adiante a demarcação para o mesmo poente até chegar ao Lombo chamado da Cesta até dar ao marco do cabeço do Cando que está levantado e daqui vai direita aos outeiros chamados os Golados, outrossim águas vertentes como acima, e daí vai direita ao marco do Vilchão(??) que fica levantado e dele vai andando na mesma direitura na cabeça da Pieira a daí vai dar à Portela da Vida sempre águas vertentes, daí vai dar ao marco do Porto do Buziconde (??) que fica levantado, o qual marco de Buziconde fica partindo com o concelho dos Arcos e Soajo, aonde acabou de partir este termo de Valadares com o termo do dito concelho de Soajo, e começa aí a partir este de Valadares com o termo da vila dos Arcos de Valdevez, a qual demarcação entre os termos desta dita vila e Soajo vai feita e continuada com a maior clareza que pode ser e não houve medição dela por ser por montes de serras mui ásperas aonde não costuma haver medição, e declararam os ditos oficiais da Câmara desta vila e de Soajo que porquanto até agora sempre vizinharam bem de parte e parte no que tocava a pastar seus gados que eram contentes que daqui em diante pastassem do mesmo modo antigo como de antes pastavam, sem aversões mais de uma parte nem de outra, e por esta maneira houve o dito juiz esta demarcação por finda e acabada em que  as Câmaras se conformaram e convieram de comum consentimento e aplauso à vista de seus tombos antigos por concordarem um com o outro e o juiz julgou esta demarcação por sentença mandando que se cumprisse e guardasse inteiramente, e por assim o outorgarem e haverem por bem fiz este auto que todos assinaram  com as testemunhas que foram presentes Domingos de Sousa e André da Silva criados dele juiz; João de Figueiredo escrivão do tombo que o escrevi; Francisco Pinto da Veiga, Manuel de Barros Girão, Domingos Esteves, juiz do Soajo; Diogo Dias vereador; Francisco Rodrigues, vereador; António Lopes procurador, Francisco Rodrigues, André da Silva, Domingos de Sousa, Bastião Fernandes, Sebastião Ferreira de Macedo.” 

A este documento de demarcação dos respetivos concelhos neste setor, segue-se uma reclamação dos fregueses da Gave contra os do Soajo no tocante às pastagens em comum, de que se fala no documento. 

“E junta assim a dita petição que despacho como dito é, que atrás fica, logo por eles suplicantes, moradores da freguesia da Gave, Domingos Álvares da Baldosa, o Velho, Francisco Marques, João Covelhe e outros, e disseram que ele juiz do tombo lhe deferisse a sua petição, dizendo que mais tinham que apontar, e logo apareceram Domingos da Soenga, juiz ordinário, Francisco Rodrigues vereador e António Lopes procurador do concelho, todos oficiais da câmara da vila de Soajo, notificados pelo precatório atrás, e disseram que era costume antigo haver na freguesia de Parada uma coutada quanto dizia das veigas da Bouça dos Homens a Prado Seco até chegar a partir com a Galiza que se cortava para não entrar nela cousa alguma desde o dia primeiro de Maio até  ao dia de Santiago, e que esta coutada havia pessoas que a  arrendavam, as quais davam a renda à dita câmara do Soajo, a qual pagava a sua Majestade a terça parte dos ditos arrendamentos e quando não havia arrendamentos na dita Câmara de Soajo em tal caso nela elegiam conteiros que seguiam o mesmo que se fossem rendeiros e outra renda não tinham nela, e que isto assim neste monte coutado da Peneda que era seu termo se entendia com os moradores da freguesia de Parada, Lamas de Mouro e Cubalhão, e se entende que em a Aveleira e Campelo era o requerimento dos moradores da Gave, convindos todos de parte e parte se vieram a conformar e concordar na maneira seguinte: que no tombo que agora se faz, ficará que se pastassem os gados de parte e parte mixtamente como antigamente e que sobre a dúvida movida, daqui por diante pastassem dessa maneira, com declaração que os moradores de Soajo  não abrissem as novidades [culturas] dos moradores deste termo por Aveleira e Campelo, nem os destruíssem com seus gados, nem falassem mal palavras descompostas a nenhum dos moradores deste termo, nem menos viessem ao termo deste Vila lavrar cachar monte para semear, senão cada um no seu termo, nem quitarão os de Soajo a landre, nem carvão, nem tudo o mais aos moradores de Valadares, e somente usarão do pasto de seus gados com a condição acima, a achando que algum faz o contrário, em tal caso não pastarão mais neste dito termo, e ficarão cada um pastando no seu limite pela parte dos ditos lugares da Aveleira a Campelo, e ele juiz e vereadores de Soajo eram obrigados assim a assentarem em Câmara, com graves penas que lhes parecer contra estes que fizerem os ditos danos e insultos, de que mandarão certidão a esta Câmara e que no acórdão que fizerem porão que nesta de Valadares sejam as ditas pessoas do Soajo que fizerem este danos nesta Câmara castigadas e executada a dia pena, contrato e condição, e que não lavrarão somente pão também os de Valadares nos limites do Soajo, salvo os que verandam na Bouça dos Homens e os que têm obrigação de fazer como os de Parada em Bouça dos Homens, e esta confissão assinaram eles juiz, vereadores, procurador do concelhlo de Soajo, como corpo da Câmara que representava todo o povo, e que os juízes e vereadores e procurador do concelho desta vila assinalassem também esta composição que se fez perante ele juiz do tombo que o julgou por sentença e assinou ele, que foram testemunhas João Esteves das Bouças e João da Bouça, ambos de São Martinho, este termo. João de Figueiredo tabelião o escrevi. Francisco Pinto da Veiga, Domingos Esteves juiz de Soajo, António Lopes procurador, Francisco Pires vereador, João da Bouça testemunhas João Esteves, Francisco Rodrigues, Francisco Cordeiro, Afonso de Castro Araújo, Francisco Pereira da Lomba, Sebastião Fernandes.”





quarta-feira, 17 de abril de 2013

Miguel Torga por terras de Castro Laboreiro



Miguel Torga, vulto da literatura portuguesa do século XX, era um apaixonado por Castro Laboreiro e pelo seu modo de vida. Esteve em terras castrejas várias vezes.
A prová-lo, escreveu: "Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal.
Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça. A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.
– Conhece esta cantiga?
– Ãhn?
Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.
– É legitimo este cão?
– É cadela.
Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda...
– A Peneda?
A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram-se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso. Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo, acolhedor e fraterno.
Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes."


Fonte:

http://www.arraianos.com/Arraianos%20n1%208-2004%20Web.pdf

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Esta reportagem conta-nos como era Castro Laboreiro e o Soajo em 1911 (parte II)


O único logar onde encontrei uma recepção pouco amavel foi em Penêda. Este povo selvagem e intratável, vê em todos os desconhecidos um inimigo, e cconstitue-se na obrigação de d’elle se desembaraçar.
Não sei se eles me tomaram por conspirador ou por carbonário; nem tenho desejo em sabel’o.
Basta-me o facto de me terem preparado uma cilada, onde o menos que poderia perder era a vida.



O regedor da Penêda, com sua filha


Devido á chegada, no momento psychologico, de Domingos Avelino Lourenço, regedor da freguesia, consegui escapar d’esta vez.
O certo, é que eu não conto voltar á serra da Penêda, emquanto não tiver obtido a certeza de que se modificaram os sentimentos fraternaes d’aquelle povo.
O sr. Avelino Lourenço e sua exmª família, prepararam uma recepção hospitaleira, que foi verdadeiramente um raio de luz nas trevas da montanha. Penêda, é o logar mais selvagem que encontrei na minha expedição. Afastada léguas dos centros civilizados, falta á população todo o sentimento de cultura. Não se compreende como o grandioso santuário de Nossa Senhora, se perdeu por aqui. Se os romeiros são recebidos com a mesma gentileza e atenção que nos dispensaram, duvido que algum estranho á terra, volte a estas paragens.
Se tivesse alguma duvida ácêrca da gravidade da minha situação, o sr. Avelino afastou-as no dia seguinte, acompanhando-me durante duas léguas, e dizendo-me na despedida agora é que v. exª está salvo.
Durante o trajecto, tive ocasião de experimentar a eficácia de um instrumento desconhecido a incultos povos. N’uma d’estas aldeias, cujo nome não me ocorre, tirei da algibeira um copo de viagem de alumínio, forma de telescopio que causou o espanto de toda a povoação, e que frequentemente tive de fechar e abrir sob este sol abrasador, para satisfazer a curiosidade ingenua d’esta pobre gente, antes de pode beber uma gota de agua, tão necessária á minha garganta ressequida.
Estou convencido de que, ainda por muito tempo, será o copo do estrangeiro, o thema da conversação dos aldeãos, a maior parte dos quaes desconhece estradas de macadame ou mesmo um caminho de ferro.
O caminho segue sempre entre serras selvagens, talhadas para servirem bem n’uma guerra de guerrilhas; todavia será necessário que os contendores conheçam bem o terreno para evitar qualquer surpresa. Infeliz d’aquelle que cahisse n’uma cilada n’estes abysmos tenebrosos! De longe, n’um planalto rodeado de altos montes, depara-se á vista uma aldeia maior, é o Suajo, estação intermédia entre Penêda e Arcos de Val-de-Vez.




Uma rua no Suajo


Aqui, o meu salvo-conducto, assingnado pelo ilustre ministro do interior, valeu-me uma grande manifestação de sympathia; era um bom republicano que chegava, visto que só como tal poderia o dr. António José d’Almeida, conceder a um estrangeiro a protecção incondicional garantida no documento referido. O povo do Suajo é relativamente culto.




O interior de uma habitação no Suajo. A casa do Juiz de Paz
A maior parte dos homens conhecem Lisboa, por ser tradicional a sua emigração para esta cidade, onde se empregam, de preferência, no mister de moços de padaria. O aspecto da povoação é estranhamente pitoresco.




Typo de casa no Suajo


Na praça principal, ergue-se um antigo pelourinho, encimado por uma horrenda carranca, que faz lembrar, pela sua factura primitiva e ingenua, qualquer trabalho gentílico. Infelizmente, o sol ardente, opunha-se a immortalisar a tal obra na pellicula photographica, bem como os curiosos palheiros, construídos de pedra, em forma de cadela, e todos eles encimados por uma cruz. A gravura, mostra um grupo de aldeãos, entre palheiros, construídos de verga e cobertos de palha. Não lembra, este aspecto, uma scena do continente negro?



Palheiros do Suajo


Á sahida do Suajo, foi a nossa caravana augmentada com o cabo da guarda fiscal, de espingarda ao hombro, cavalgando uma pequena mula; um padeiro de estatura gigantesca, que, n’uma montada egual, quasi arrastava as pernas pelo solo, uma mulher candongueira de estatura avantajada e com um rosto ainda de uma beleza, que há vinte anos devia ser extraordinária.




A nossa caravana à sahida do Suajo


A tia Maria, conduzia ao hombro a espingarda do padeiro, e uma sua sobrinha que a acompanha, não ficava, em formosura, muito áquem de sua tia. Imaginem esta caravana, caminhando penosamente entre os estreitos valles da serra, e comprehenderão, facilmente, que eu me julguei n’uma viagem de exploração, por mares nunca d’antes navegados. No caminho, encontrámos um patrulha de caçadores 5 que me fez lembrar que a minha missão, era talvez assistir a alguma lucta sangrenta, mas, infelizmente, nenhum sangue correu se não o meu, na ocasião de me barbear deante de um espelho, que só poderia prestar bom serviço a um cego. O sol someçava a desaparecer no horisonte, e nós comecámos a acelerar a marcha para podermos chegar antes da noite aos Arcos de Val-de-Vez, deixando o guarda fiscal e o padeiro regressar com os caçadores para o Suajo.




O rio em Arcos de Val-de-Vez


Anoitecia quando entrámos nos Arcos, e a minha aparição, envergando o fato quasi militar, polainas, esporas e pistola, deu ocasião a que umas mulheres espalhassem o boato de que o Paiva Couceiro tinha chegado. Todavia, quando uma hora depois me viram passeando com o comandante Simas Machado, as suspeitas desvaneceram-se por completo.



O banho dos cavallos


Devido á amabilidade do sr. Tenente coronel Simas Machado, tive ocasião de acompanhar uma força de tenente que se ía installar na Portella do Extremo, como posto avançado, para assegurar a estrada de Monsão-Arcos-Braga.



Nos Arcos de Val-de-Vez


A força aquartelou-se no cemitério da aldeia, romanticamente situado entre dois alcantilados montes, coroados por restos de fortificações das campanhas da guerra da independencia.




Um posto avançado na Portella do Extremo


A pequena igreja foi fundada no anno de 1741, por cavalleiros da Ordem de Malta, conforme indica uma cruz d’essa ordem, esculpida sobre fundo azul, na base da qual se encontra a palavra Malta e a era. O cemitério apresenta um aspecto pouco vulgar; não existem lapides, cruzes, jazigos ou mesmo simples indicação sobre as sepulturas.



O meu almoço com o commandante do posto da Portella do Extremo, tenente Velloso


Uma pequena elevação de terra preta sobre a qual repousa uma pequena tigela de agua benta, é a única indicação de que ali descançam das fadigas da vida os que labutaram n’este solo ingrato. Não obstante esta vizinhança pouco convidativa para quem deseja repousar-se um pouco da fadiga de uma jornada extenuante e de uma trovoada formidável que parecia inflamar o ceu, e que encheu o estreito valle com o ruído monumental dos seus trovões, dormimos sobre o feno, cobertos com as mantas dos cavallos, até que, aos primeiros alvores da madrugada, os relinchos e o escarvar das patas dos cavallos, nos chamaram ao cumprimento do dever do dia.





A capella dos cavalleiros de Malta na Portella do Extremo. Ao fundo, veem-se os restos das fortificações levantadas em 1640


No regresso aos Arcos aluguei um trem, que, sem mais incidentes, me conduziu a Braga. Resta-me, talvez, expor a idéa de que n’esta região se podia estabelecer um centro de tourismo, para aquelles cujo estado de saúde não permite a permanência nas altitudes. Encontrariam os doentes n’estas condições, uma situação que lhes permitiria o exercício de pequenas excursões de montanha ainda inexplorada, bastava que se estabelecessem hotéis que proporcionassem as comodidades q que, em geral, estão habituados os que costumam empregar o seu tempo e dinheiro em taes distrações. Creio também, que será proveitoso mandar explorar esta região archeoloca e geologicamente, porque, sestou convencido, que aqui se encontrariam valiosos elementos para a historia dos primitivos habitantes do paiz.




Texto e Clichés de Bruno Buchenbacher
Fonte: Illustração Portugueza, nº 284, de 31 de Julho de 1911

Extraído de:
Blogue do MInho

domingo, 23 de setembro de 2012

Esta reportagem conta-nos como era Castro Laboreiro e o Soajo em 1911 (parte I)




Há cerca de cem anos, mais precisamente em 1911, um jornalista do jornal “O Século” viajou até as montanhas agrestes da Peneda e do Soajo e contatou de perto com as populações locais, mormente Soajo e Castro Laboreiro. Dessa digressão, Bruno Buchenbacher deixou-nos um registo na revista “Illustração Portugueza”, publicação ligada àquele periódico republicano dirigido por Magalhães Lima.

Na realidade, não foi a curiosidade do etnólogo que motivou a deslocação do jornalista a esta região. Ele próprio o confessa: “Não era simples curiosidade de touriste nem tão pouco um espírito de aventura, que me conduziu, n’estes dias caniculares do sol inclemente, áquellas serras abandonadas e desconhecidas, mas sim o dever jornalístico”.
O dever jornalístico consistia em acompanhar os esforços das forças republicanas, do Exército e da Carbonária, numa zona fronteiriça que tinha sido transposta pelas forças realistas sob o comando de Paiva Couceiro ou seja, as chamadas incursões monárquicas. Mas, fiquemo-nos com o registo e com as suas impressões, sobretudo em relação às gentes do Soajo.


COMO EU VISITEI AS SERRAS DO SUAJO E DA PENEDA

Os motivos que me levaram a visitar as regiões do norte de Portugal, compreende-se facilmente.
Não era simples curiosidade de touriste nem tão pouco um espírito de aventura, que me conduziu, n’estes dias caniculares do sol inclemente, áquellas serras abandonadas e desconhecidas, mas sim o dever jornalístico.
Antes de entrar no assumpto, cumpre-me o dever de agradecer publicamente a todas as auctoridades civis e militares a deferência e amabilidade que dispensaram ao visitante, nem sempre commodo e agradável.
Constatei, igualmente, com grande surpresa e satisfação, a hospitalidade carinhosa que quasi sempre me foi dispensada.
A região que percorri, fica afastada dos meios de conducção geralmente empregados. Não há estradas, e os próprios caminhos, são, na verdade, simples caminhos de cabras, onde unicamente estas e a mula, ponney da montanha, transitam com relativa segurança.
A primeira parte da excursão, levou-me de Melgaço a Alcobaça e Castro Laboreiro.
Em todo o caminho, até ás alturas de Alcobaça, perto do Cruzeiro que representa a gravura vêem-se as montanhas pedregosas da Galliza, pobremente arborizadas, manchadas aqui e álem de pequenos núcleos de pastagens e matto.


O cruzeiro de Alcobaça, a 500 metros da Fronteira


O nome Alcobaça, faz-nos recordar as luctas sangrentas travadas entre os fundadores da monarchia e os mouros.
Pelos vestígios que se encontram espalhados pela região vê-se que os combates não pararam n’estas serras quasi inacessíveis. Perto de Alcobaça, existe um logar que o povo chama Lamas de Moiros; a etymologia da palavra indica-nos facilmente como lagrimas de moiros, dando-nos uma prova lendária de sangue derramado – ad majorum dei Gloriam.


A “praia” em Castro Laboreiro


Chegado a Castro Laboreiro, divaga o pensamento por tempos mais remotos, tempos em que um povo glorioso conquistou á força de armas toda a orbe, até que a onda implacável do destino o afogou no mar do esquecimento.
Mas, a tradição do nome romano Castram Laborarum, quer dizer acampamento de trabalhadores, ficou como característico da povoação. São os seus habitantes trabalhadores incansáveis, existindo n’esta aldeia serrana, até o gérmen de uma industria que me causou pasmo e admiração.
Encontram-se no Crato, como os habitantes chamam á sua aldeia, duas fábricas de chocolate! E, em verdade, direi que já encontrei nas minhas viagens, qualidades muito peores n’este artigo de alimentação.


Uma serrana de Castro Laboreiro


A fabricação é, principalmente, para exportação, ramo de negócio muito difícil e até perigoso, atendendo à falta de meios de transporte e á dificuldade de transito pela raia secca.


O “leão das montanhas”: Comendador Mathias de Sousa Lobato, professor oficial de instrucção primaria


Devido á amavel recomendação do administrador do concelho de Melgaço, fui recebido com fidalga hospitalidade pelo sr. Comendador e cavaleiro fidaldo, Mathias de Sousa Lobato, professor oficial de instrucção primaria.
Este cavaleiro, que sacrificou 28 annos da sua vida ao bem estar d’este povo, merece bem, pelo seu aspecto venerando, o cognome de rei das montanhas, que lhe foi conferido pelo falecido Hintze Ribeiro.
Os serviços relevantes prestados ultimamente ao novo regímen, levaram o sr. Dr. Alfredo de Magalhães a transformar a antiga designação autocrática, na mais popular denominação, de Leão das Montanhas. Mas, mesmo assim, sempre rei…


O comício em Castro Laboreiro, em que falou ao povo o jornalista Hermano Neves


N’uma pyramide de rocha que se eleva a pouco mais ou menos a 1:200 metros acima do mar, encontramos, por assim dizer, um livro de historia.
Sobre fundamentos inegáveis de origem romana, elevam-se as ruínas de um castello moiro, de grande área.


A porta das ruínas do Castello dos Mouros em Castro Laboreiro


Foi conquistado e destruído por D. Affonso Henriques, e reedificado por D. Sancho I, o povoador, como indica a inscripção ilegível de uma lapide, que a muito custo foi decifrada pelo comendador Mathias.
As ruínas conservam ainda s suas duas entradas, destinadas a peões e cavalleiros.
Uma terceira porta de comunicação, foi destruída há pouco pelos castrejos, persuadidos que encontrariam um tesouro entre os escombros.
A ex-séde de concelho, de há meio seculo, distingue-se também por dois característicos notáveis: lindas cachopas e formidáveis cães, ambos de recear…


Casas em Castro Laboreiro


Ancioso por continuar a excursão pela serra, conseguiu-me o meu hospitaleiro amigo, uma desembaraçada \Castreja, que simplesmente justificou a segunda das afirmações contidas no período precedente.
Apenas sahido da aldeia, perde-se o caminho entre as penedias da serra.


Um grupo de castrejas


Mas a Castreja conhece os recônditos da montanha, e, ora subindo, ora descendo, por sítios em que um passo em falso da montanha representava a morte certa para o cavaleiro, fômo-nos aproximando da parte peor do caminho, o “Peito do Sagasta”.


A descida do Peito do Lagarto, a caminho da Penêda


Ali, o caminho é constituído por pedras quasi polidas, n’um declive tão acentuado que a cavalgadura mais patina do que anda. É impossível ficar sobre o selim. Mal tinha descido, quando o macho escorregou e cahiu, batendo com a espadua nos rochedos, o que veiu confirmar a minha previdência.
(CONTINUA)


Texto e Clichés de Bruno Buchenbacher
Fonte: Illustração Portugueza, nº 284, de 31 de Julho de 1911

Extraído de:
Blogue do MInho