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sexta-feira, 23 de março de 2018

A paróquia de Lamas de Mouro (Melgaço) descrita no século XVIII



A igreja paroquial de Lamas de Mouro terá pertencido, em tempos medievais, aos templários, e ainda hoje apresenta vestígios românicos tendo por função ser o baptistério das aldeias circundantes. Os detalhes do românico encontram-se tanto nas portas, especialmente a lateral de norte, como nas próprias paredes, cujas pedras estão pejadas de siglas.
Segundo uma confirmação de 21 de Abril de 1355 feita pelo pároco ao bispo João de Tui, a igreja de Lamas de Mouro tinha como padroeiros os cavaleiros de S. João do Hospital.
Pelo Censual de Dom Manuel de Sousa (1545-1549), a Igreja de S. João foi avaliada em 10.000 reis. No Censual de D. Frei Baltazar Limpo (1551-1581) aparece como pertencendo à “Terra de Melgaço” sendo da colação do Arcebispo. A comarca de Valença obtinha dela um benefício de 3.000 reis.
Chegados ao século XVIII, dispomos de duas importantes fontes históricas para traçarmos uma quadro realista sobre a realidade de Lamas de Mouro nesta centúria. Uma dessas fonte de informação é a obra “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal”, do padre Carvalho da Costa, publicada em 1706, diz-nos que “S. João de Lamas de Mouro é Abbadia do Ordinario, rende quarenta mil réis, tem quarenta vizinhos, que são privilegiados de Malta pela Commenda de Távora, a que pagão muito foro, não sendo a terra por ruim capaz de tanto. Dizem que algum tempo foy esta Igreja de Templários e delles, quando se extinguiram, passou aos aos Maltezes. O como saiu deles para o Ordinário não alcançámos, que naquelles tempos os mais dos contratos eram verbaes. Aqui nasce o rio Mouro, nome que tomou daquelle poderoso, ou régulo , de que já falámos, e que neste monte tinha sua coutada de recreação para caçar. O rio ainda que pequeno, dá saborosas trutas, e se engrossa com o da Mendeira, que pouco abaixo lhe entra.”
Uma outra importante fonte que nos ajuda a conhecer esta terra são as Memórias Paroquiais de 1758, datadas de 22 de Maio desse ano. Nelas, o pároco de Lamas de Mouro à época, Constantino Dias, respondeu ao Inquérito afirmando que na freguesia viviam “dezoito vizinhos, carenta e cinco pessoas de sacramento, menores cinco, tem mais treze de sacramento…” Neste caso, o termo “vizinhos” não se refere ao número de pessoas mas sim ao número de fogos (agregados familiares).
É curioso a forma como o abade explica a origem do topónimo “Lamas de Mouro”. Segundo o mesmo, “chama-se a esta freguesia Lamas de Mouro e tomou o apelido “de Mouro” porque dezião os antigos que fora aqui mesquita de mouros”. Não se conhece documentação ou prova arqueológica que suporte esta anotação. Atualmente, aceita-se que o nome da freguesia e paróquia se deva ao facto de aí nascer o rio Mouro. A origem para o pequeno curso de água  se designar de “Mouro”, leva-nos, segundo Pinho Leal, ao tempo da presença dos mouros na Península Ibérica, que, nesta região, nunca foi significativa. No livro “Portugal Antigo e Moderno”, volume 4, publicado em 1874, o autor refere que por aqui um mouro chamado Jusão tinha uma coutada para caçar. Na memória paroquial, o pároco refere que “nasce na freguesia um rio chamado de Mouro que principia na Serra do Lagarto e corre no estreito desta freguesia, vagaroso, tem um pontilhão chamado a Ponte de Mouro, tem três moinhos (…). Nesta freguesia não tem senão hum pontilhão de pedra e no sítio chamado de Porta Trabaços tem humas passadiças de pedra.” 
O abade refere-se também àquilo que se cultivava na paróquia, mencionando que “Os frutos da terra hé centeio, não se recolhe outro fruto senão linho (…) As terras são poboadas de hurzes, carrameijas, carqueijas, tojo e penhascos, em algumas partes da serra se semea nellas chamados labores, não dá senão (centeio) … Cream-se nesta terra gados grandes, cabras e obelhas, lobos, jabalizes, veados, coelhos, perdizes, codornizes e rollas”. Claro que tais aspetos estavam relacionados com o ritmo climático ao longo do ano. A este respeito, o padre carateriza o tempo em Lamas da seguinte forma: “A qualidade do seu temperamento é no tempo do Verão quente e no Inverno (…) cair muita neve que nella permanece mais de oito dias, dez, doze e quinze.”
A paróquia de Lamas de Mouro seria, neste século XVIII, uma comunidade pequena vivendo da agro-pastorícia e alguma caça. Os seus rendimentos eram poucos e deles tinham de retirar o valor 35.000 réis de foro que pagavam aos religiosos da Ordem de Malta.
O pároco refere ainda que a igreja tem “três altares”, sendo “o principal de S. João Baptista, outro a Senhora dos Remédios e outro de S. Gonçalo” acrescentando que a paróquia “não tem irmandades”.
A paróquia “não tem correyo e serve-se do correyo de Monção que dista della coatro legoas”.


Fontes Consultadas:
- Memórias Paroquias de Lamas de Mouro, Valadares (1758);
- COSTA, Carvalho (1706) - Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal. Lisboa.
- LEAL, Augusto Pinho (1874) - Portugal Antigo e Moderno. Volume IV; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A Igreja paroquial de Lamas de Mouro: origens históricas deste antigo mosteiro dos Templários



A igreja paroquial é de um antigo mosteiro de templários da Idade Média, com vestígios românicos que tinha por função ser o baptistério das aldeias circundantes. Os detalhes do românico encontram-se tanto nas portas, especialmente a lateral de norte, como nas próprias paredes, cujas pedras estão pejadas de siglas.
A igreja de Lamas de Mouro não aparece referida no documento existente na Torre do Tombo e que, segundo José Anastácio de Figueiredo, teria servido de ‘lembrança’ para a elaboração das ‘Inquirições’ de 1258 (Costa, 1981: 158). Assim, não consta deste levantamento mandado efectuar por D. Afonso III para determinar a situação da propriedade régia e os dos outros senhores. Continua a ser omitida na relação de 1320 fixando a taxa a pagar pelas igrejas a D. Dinis, pelos benefícios eclesiásticos até então recebidos pelo Cabido de Tui (Idem, ibidem: 163) e que, após a cisão da Igreja, foram concedidos pelo Papa de Avinhão ao nosso rei ‘por tempo de três annos para subsídio da guerra contra os mouros’(Domingues cit. Fortunato de Almeida, 1999: 15).
Segundo uma confirmação de 21 de Abril de 1355 feita pelo pároco ao bispo João de Tui, a igreja de Lamas de Mouro tinha como padroeiros os cavaleiros de S. João do Hospital (Domingues, 1999: 15).
Pelo Censual de Dom Manuel de Sousa (1545-1549), a Igreja de S. João foi avaliada em 10.000 reis (Costa, 1981: 202). No Censual de D. Frei Baltazar Limpo (1551-1581) aparece como pertencendo à ‘Terra de Melgaço’ sendo da colação do Arcebispo. A comarca de Valença obtinha dela um benefício de 3.000 reis (idem, ibidem: 207).
Em 22 de Maio de 1758, o abade Constantino Dias respondeu ao Inquérito afirmando que na freguesia viviam “dezoito vizinhos, carenta e cinco pessoas de sacramento, menores cinco, tem mais treze de sacramento… Os frutos da terra hé centeio, não se recolhe outro fruto senão linho… As terras são poboadas de hurzes, carrameijas, carqueijas, tojo e penhascos, em algumas partes da serra se semea nellas chamados labores, não dá senão (centeio) … Cream-se nesta terra gados grandes, cabras e obelhas, lobos, jabalizes, veados, coelhos, perdizes, codornizes e rollas” (IANTT, 1758: 193-196).
Lamas de Mouro seria, assim, uma comunidade pequena vivendo da agro-pastorícia e alguma caça. Os seus rendimentos eram parcos e deles tinham de retirar 35.000 réis de foro que pagavam aos religiosos de Malta (idem, ibidem). O pároco, era“abbade aprezentado por Bullas Apostólicas de Roma. Tem de renda setenta mil réis” (idem, ibidem).
Com adro e espaço envolvente murado e ajardinado, a igreja insere-se no centro de um conjunto urbanizado rodeado de espaço agrário de montanha.
Igreja derivada de um primitivo templo medieval posteriormente remodelado e reconstruído.
Desenvolve-se longitudinalmente em nave única e cabeceira rectangular tendo adossado, do lado sul, um corpo arquitectónico servindo de sacristia. Coberturas diferenciadas a uma e duas águas.
Paramentos em cantaria autoportante de granito aparente, de aparelho regular e juntas argamassadas.
Na fachada principal, voltada a poente, a porta axial, em arco de volta perfeita, é precedida de dois degraus. Junto ao arranque esquerdo do arco existe um conjunto escultórico constituído por “duas figurinhas atarracadas - uma masculina e outra feminina - que dizem os naturais serem Adão e Eva, mas que a nós pareceram ser restos de modilhões da primitiva igreja. Um pouco acima, há uma ave sob duas volutas jónicas, talvez restos de um capitel” (Alves, 1987: 45). O coroamento da fachada é rematado por cimalha angular com cruz latina no vértice, planificada no encontro com o cunhal coroado por pináculo. Todavia, até 1668, terão existido cápeas sobre o remate angular da frontaria e da cabeceira que serviriam para suster o travejamento do colmaço de revestimento da cobertura, conforme refere um capítulo de visitação de 18 de Agosto daquele ano (Domingues, 1999: 66).
A torre, em dois registos separados por cornija, insere-se à esquerda da frontaria possuindo uma sineira dupla, pois a inferior serve de base a uma outra alojada no bloco granítico de remate da primeira, com acesso por escadaria adossada à parede do lado norte.
Do Românico do exterior da primitiva construção resta a entrada lateral norte, com vão muito estreito em arco quebrado pouco pronunciado, coroado por três arquivoltas ornamentadas e tímpano liso sobre impostas. Na decoração esculpida empregaram-se encordoados, quadrifólios e motivos lanceolados.
Uma outra reminiscência do templo medieval encontra-se nas siglas inscritas em alguns silhares do interior.

Informações recolhidas em:
ALVES, Lourenço - Arquitectura Religiosa do Alto Minho. I - Igrejas e Capelas do séc. XII ao séc. XVII, Viana do Castelo, 1987.

CAPELA, J. Viriato (Coord.) - As Freguesias do Concelho de Melgaço nas «Memórias Paroquiais» de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2005 (IANTT - Memórias Paroquiais, mem. 38, vol. 19, p. 193-196).
COSTA, Avelino de Jesus da - A Comarca Eclesiástica de Valença do Minho (Antecedente da Diocese de Viana), in Separata do 1º Colóquio Galaico Minhoto, Associação Cultural Galaico-Minhota, Ponte de Lima, 1981, Vol. 1, p. 69-235.
DOMINGUES, José – O Couto de S. João de Lamas de Mouro: Suplemento Histórico, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 1999.