terça-feira, 21 de março de 2017

Voando sobre Parada do Monte (Melgaço)



Imagens recolhidas dos céus sobre Parada do Monte. Um vídeo muito belo que nos dá uma bonita panorâmica desta freguesia melgacense...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Soldados monárquicos ocupam o castelo de Castro Laboreiro (1911)


Em 5 de Outubro de 1910 era implantada a República em Portugal substituindo a Monarquia. Contudo, a transição para o novo regime não seria pacífica. Existia uma falange de apoio ao regime monárquico que iriam organizar a resistência contra a República. Chefiados pelo General Paiva Couceiro, as forças realistas iriam-se refugiar nas montanhas do norte do país e na Galiza e o ambiente nas fronteiras de Melgaço era tenso na época. Existiam rumores que se estaria a organizar uma invasão a partir de vários pontos da fronteira norte portuguesa, com o objetivo de voltar a implantar a monarquia.
Na realidade, pouco mais de seis meses depois da implantação da República, fala-se nos jornais no Brasil que estes combatentes estariam algures nas montanhas de Castro Laboreiro e na serra da Peneda. Tal informação é reiterada no jornal “O Pharol”, na sua edição de 28 de abril de 1911:
“Pelas mais recentes notícias do norte, sabe-se que as forças realistas que haviam tomado posição no ponto mais alto da serra da Peneda e em S. Gregório, marcharam para sul, fazendo o trajeto pelos pontos mais elevados da serra, vindo acampar nas vizinhanças de Castro Laboreiro, província do Minho, a poucos quilómetros da fronteira com a província espanhola de Orense.
Dizem os conhecedores daquela região que a posição das forças realistas tem grandes vantagens estratégicas mas poucos materiais para ser sustentada por muito tempo.”
Como se vê, a notícia diz-nos que existiriam combatentes monárquicos a acampar nas proximidades de Castro Laboreiro. Uma outra notícia da época que encontrei no jornal, também brasileiro, “Correio da Manhã”, na sua edição de 25 e Outubro de 1911, fala-nos de um acampamento de soldados monárquicos que estariam estacionados nas ruínas do castelo de Castro Laboreiro:
Portugal em plena revolução

Uma coluna de realistas apossou-se do castelo de Castro Laboreiro, no Minho

Telegrama recebido ontem de Lisboa diz que um grupo de forças realistas está acampado nas proximidades de Castro Laboreiro em magnífico ponto estratégico que está a 15 quilómetros de Melgaço, e a vila fica situada em um alto. Próximo à vila, há um castelo muito antigo edificado sobre uma rocha de dificílimo acesso à distância de 400 metros. Esta rocha já é um castelo natural. É um gigante coroado de pedra de cantaria. É inacessível e seria inexpugnável, se não fora uma espécie de istmo muito estreito que a põe em comunicação, embora bem dificilmente, com o exterior.
Referindo-se ao castelo, diz um cronista: “Os muros são baixos, parecendo presidir à sua construção mais o agradável do que as necessidades da guerra. Tem duas portas, uma para o sul e outra para o norte. Por aquele, dizem que outrora, ainda que arriscadamente, se podia entrar a cavalo. Para a do norte, que dá para o tal istmo de rocha viva, custa a ir de gatas, porque sendo esta rocha tão inclinada e resvaladia, foi preciso abrir-lhes a peão uns toscos e estreitos degraus para subir por eles.
Ma o perigo não está ali, está no chegar à tal porta, ou antes fresta, pois que é tão estreita que pouco passará de 60 centímetros.
Ainda o visitante vai arrepiado do perigo que venceu, mas na esperança de recuperar a serenidade, quando um novo susto, porém mais horrível, mais sem nome, se apodera dele. Destaca-se-lhe à direita um penedo, que terá, quando muito, três metros de alto, ali posto pela natureza, de figura rigorosamente cónica, o que fica mesmo fronteiro à porta e a tão pouca distância que qualquer homem em outro sítio que não fosse este, a poderia salvar de um salto, mas aqui está a morte!
É um abismo profundíssimo que terá aproximadamente 350 a 400 metros que é a distância que tem de percorrer o ousado curioso se porventura tiver a infelicidade de se lhe escorregar um pé ou de se assustar”.
Tal é local onde atualmente se encontra uma das colunas do exército de Paiva Couceiro. Muito se tem falado das forças de Paiva Couceiro, dizendo uns que ele apenas tem um exército de maltrapilhos, composto por algumas centenas de assalariados, levando outros os seus cálculos a alguns milhares de soldados.”
Vem por isso a propósito transcrever o “Diário de Notícias” de Lisboa: “O Faro de Vigo” tráz notícias importantes relativas às forças de Paiva Couceiro, dizendo que se compõem de duas divisões, uma de 2000 homens, comandados por Paiva Couceiro, com 12 peças de artilharia e uma outra de 1800 homens, com quatro peças e quatro metralhadoras.
Estas forças dividem-se em batalhões de 300 homens com oficiais e sargentos, médico, farmacêutico e capelão. Os soldados são todos portugueses, não querendo Paiva Couceiro aceitar os muitos oferecimentos de gente estrangeira”.
As informações, quanto à dimensão do exército de Paiva Couceiro, não são muito claras. No artigo “Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República”, de Bruno Marçal, diz-se que na realidade, este suposto exército não chegava a mil homens.
Paiva Couceiro só seria preso em 1938 em Arbo, quando ia passar a fronteira rumo a Melgaço.

Fontes consultadas:
- Jornal “Correio da Manhã”, edição de 25 e Outubro de 1911;
- Jornal “O Pharol”, na sua edição de 28 de abril de 1911;
- MARÇAL, Bruno José Navarro - (2010) - Governo de Pimenta de Castro - Um General no Labirinto da I República. Universidade de LIsboa, Faculdade de Letras, Departamento de História. 


Página do jornal “O Pharol”, edição de 28 de abril de 1911 com a notícia citada (clique na imagem para ampliar)

Página do jornal “Correio da Manhã”, edição de 25 e Outubro de 1911 com a notícia citada (clique na imagem para ampliar)

quarta-feira, 15 de março de 2017

sexta-feira, 10 de março de 2017

Reportagem televisiva da RTP em Lamas de Mouro (Melgaço) em 1974



Reportagem televisiva da RTP em Lamas de Mouro (Melgaço) em 1974. Nesta entrevista, podemos algumas imagens da Porta do Parque Nacional Peneda-Gerês na época. Podemos ver também entrevistas ao Diretor do PNPG ao Presidente da Junta de Freguesia, Sr. Manuel Domingos, a um elemento da GNR de Melgaço e ao Sr. Elias Lima, regente agrícola. Na reportagem, fala-se dos problemas do Parque e do relacionamento com as populações de Lamas de Mouro, por causa das pastagens e do gado...


sexta-feira, 3 de março de 2017

"Manolo, o Dente de Ouro" e os guerriheiros antifranquistas em Castro Laboreiro (1939-1943)


Com a ascensão de Franco ao poder em Espanha, muitos militantes antifranquistas afetos à causa republicana atravessaram as fronteiras e refugiaram-se em França e outros em Portugal. Entre eles está Victor Garcia, que em terras gaulesas colabora na organização do Partido Comunista Espanhol com a ajuda de muitos milicianos vencidos. Algum tempo depois, por mandato da Internacional Comunista, regressou à Península Ibérica com a missão de criar e organizar a resistência clandestina, no norte de Portugal e Galiza, contra as ditaduras fascistas ibéricas.
Uma vez instalado clandestinamente em Portugal de acordo com o mandato da Internacional Comunista, Victor Garcia adotou uma série de identidades falsas pelas quais se faziam passar em diversos locais e contextos. Ele faz-se passar por cidadão português e atuava na zona norte do nosso país, tendo a sua base logística no Porto.
Durante a Guerra Civil Espanhola, desde 1936, a situação na linha de fronteira melgacense em Castro Laboreiro é muito delicada. Sabe-se que havia um número significativo de militantes de esquerda espanhóis escondidos em terras castrejas que tinham atravessados a fronteira clandestinamente. A posição de Salazar e de Franco é de cooperação no que toca a esta temática. O acordo previa a entrega dos esquerdistas portugueses capturados em Espanha e Portugal entregava a Franco os militantes de esquerda apanhados deste ldo da fronteira. Além da apertada vigilância que as autoridades policiais portuguesas e espanholas moviam a esta zona raiana, havia ainda os grupos de falangistas que por vezes atuavam sem qualquer controlo e por conta própria. A prová-lo está um episódio ocorrido a 6 de Dezembro de 1936. Neste dia, a Guarda Fiscal de Ameixoeira (Castro Laboreiro) impediu, de forma violenta, a violação do território nacional por parte de uma esquadra de falangistas que entraram em Portugal, ameaçando de morte a população raiana de Ribeira de Baixo. Os falangistas vinham a esta povoação à procura de esquerdistas aqui refugiados.
No ano de 1939, em data que não se pode precisar, chegava a Castro Laboreiro (Melgaço) um tal de Manolo, conhecido como o “Dente de Ouro”, por causa desse pormenor físico. Em terras castrejas, vivia entre a Várzea Travessa e o Ribeiro. Segundo dizem, era muito hábil e chefiava um bando de militantes de esquerda fugidos, sobretudo da Galiza, à repressão franquista. Além de assumir múltiplas identidades, dizia-se que era um especialista em sair ileso de situações muito difíceis como se comprova numa tentativa para o capturar, por parte da Guarda Fiscal, no Ribeiro de Baixo (Castro Laboreiro) em 1943, de que falarei mais à frente.
Na realidade, o homem conhecido em terras castrejas como o Manolo era Victor Garcia. Era também conhecido como António, o “Brasileiro” por ter estado emigrado no Brasil, além de vários outros tantos nomes que utilizava na sua vida clandestina tais como Estanillo, Manuel Brasileiro, António Ortiz Risso, Manuel Garcia, António Garcia, entre outros. Com a chegada dele a Castro Laboreiro, inaugura-se um novo paradigma de articulação entre os fugidos ao franquismo assentado numa clara definição política da situação. Segundo dizem, ele propôs unir-se aos refugiados escondidos em terras castrejas e ajudarem-se mutuamente pois não estavam ali como bandidos mas por motivos que tinham a ver com o facto de serem militantes de esquerda e opositores ao regime franquista, estando alinhados com a causa republicana e a Frente Popular.
Foi desta forma que o Brasileiro, ou o ”Dente de Ouro” criou o primeiro grupo guerrilheiro organizado na região, contando com a fronteira castreja para se movimentar com relativo à vontade em terras castrejas.
Segundo depoimento de outros refugiados, Manolo parava sobretudo em Castro Laboreiro e o grupo tinha bastante armamento. A este respeito, numa Comunicação Interna da Guarda Fiscal de Valença para a PVDE datada de 1938, encontra-se documentado a confissão de um galego antifranquista fugido e escondido em Melgaço. Quando foi capturado em Alvaredo (Melgaço), foi repatriado e entregue às autoridades espanholas. O mesmo acaba por confidenciar às autoridades em Espanha que perto da Ameixoeira (Castro Laboreiro) já nessa altura, havia escondidos cerca de trezentos foragidos galegos e que se encontravam bem armados com Mauser e pistolas metralhadoras.
Segundo o depoimento da castreja Rosa, mais conhecida na terra como a “Africana”, moradora no lugar de Ribeiro de Cima, esta tinha vários filhos já crescidos na época e a sua casa era habitualmente frequentada por guerrilheiros. Rosaura Rodriguez chegou a declarar, durante um interrogatório a que foi submetida, que os filhos da “Africana” acompanhavam frequentemente Manolo, o “Dente de Ouro”.
Numa primeira fase, os principais guerrilheiros do grupo davam pelos nomes de Paramo, Ramón Yañez, Rosario Rodriguez, Gabriel Hernández González, Saturnino Darriba, O Rizo, entre outros. O combatente conhecido como O Rizo, apesar de ser o mais novo do grupo, o Luisiño reconhecia-lhe um papel de lugar  tenente do Manolo, o “Dente de Ouro”, que era o chefe indiscutível.
Por esta altura, a repressão por parte dos regimes fascistas aos militantes de esquerda era muito dura, quer do lado espanhol, quer do lado português. Em 2 de Maio de 1943, à noite, em Castro Laboreiro, depois de um jantar conjunto em que participava Manolo, o “Dente de Ouro”, um guarda fiscal tentou detê-lo. Segundo o depoimento de Domingos Alonso, próximo dos guerrilheiros, houve um diálogo prévio:
- Senhor Manolo, considere-se preso! – afirmou o guarda fiscal.
- Deixe-me em paz, se não quer ter problemas. – respondeu-lhe Manolo.
O diálogo finalizou quando Manolo, sentindo-se encurralado, lhe disparou desde o o bolso da sua gabardina e o matou. De seguida, fugiu para o lugar do Ribeiro de Cima, e se refugiou em casa de Rosa Alves, a “Africana”. Provavelmente, neste incidente participou também o militante conhecido como “Enrique” (Ramón Yañez). Estando em Ribeiro de Cima na casa da “Africana”, Manolo foi cercado por uns 25 guardas fiscais. Primeiro saiu “Enrique” por um buraco feito na parede da casa, com acordo prévio de cobrir logo de seguida a saída do Manolo da casa. Contudo, “Enrique”, ao ver-se acossado pelos guardas fiscais, acabou por fugir. De seguida, sai Manolo, não pelo buraco na parede, mas por uma porta da casa que dava para o caminho e gritou aos guardas fiscais:
- Dispararei ao primeiro que se mexa!
- Oh senhor Manolo. Você não deve fazer isso! – respondeu o guarda fiscal que comandava a operação.
A localização da casa ao pé do caminho e o facto de este ser muito estreito, proporcionou a Manolo que lhe pudesse apontar a arma aos guardas fiscais. Incrivelmente, Manolo foi-se afastando passo a passo sem que ninguém lhe tivesse disparado. Apenas quando já se encontrava longe dos guardas é que estes abriram fogo.
Manolo nunca mais foi visto em Castro Laboreiro. Dizia-se inclusivamente que os guardas fiscais lhe tinham medo dada a estranha dificuldade em premirem os gatilhos neste episódio.
Vitor Garcia acabaria assassinado em 1948 por militantes comunistas e o seu corpo apareceu em Silleda (Pontevedra, Galiza). Tratou-se, ao que tudo indica, de um ajuste de contas entre fações opostas dentro do Partido Comunista Espanhol.

Fontes consultadas:
- http://blocs.tinet.cat/lt/blog/victor-garcia-g.-estanillo-el-brasileno/
- Arquivo Histórico-Militar, Ofício da Guarda Fiscal de Melgaço, 6 de Dezembro de 1936;
- Comunicação Interna/Documento confidencial nº 31/938 ao Secretário Geral da PVDE, endereçado pelo Posto da Guarda Fiscal de Valença;
- OLIVEIRA, César (1988) -  Salazar e a Guerra Civil de Espanha. Lisboa;