domingo, 16 de outubro de 2022

Melgaço, 16 de Outubro de 1892: Era inaugurado o Hospital da Misericórdia de Melgaço

 



Recentemente, completaram-se 130 anos da inauguração do Hospital da Misericórdia de Melgaço. O sonho da construção de um Hospital da Caridade em Melgaço remonta a meados do século XIX. Foi uma ideia lançada pelo Provedor Frei António Joaquim de Santa Isabel Monteiro em 1860 mas que demorou alguns anos a germinar. De facto, apenas em 1872 é que a Santa Casa da Misericórdia de Melgaço consegue obter um terreno com vista à edificação do mesmo. O mesmo foi doado pelo Ministério da Guerra e situava-se dentro da antiga fortificação na zona da chamada obra córnea, junto à então Rua Nova da vila. A dita doação foi levada ao Parlamento, proposta e defendida por Antonio Correia Caldeira, deputado pelo círculo n.º 2, Monção e Melgaço, no debate parlamentar de 14 de Março de 1872. Nas atas dessa sessão parlamentar, podemos compreender a forma e os argumentos usados pelo deputado para convencer a câmara: 

Senhores, há muitos anos que na villa de Melgaço se tem feito sentir a necessidade de um hospital de caridade, onde os desgraçados possam encontrar um abrigo quando, acommetidos pelas enfermidades, lhes seja impossivel continuar sua vida laboriosa. A irmandade da Misericordia desta villa, compenetrada de tais sentimentos e também convencida de que o exercício da caridade, a maior e a mais augusta das virtudes evangélicas, constitui o principal fim da sua instituição, deliberou erigir na dita vila um hospital de caridade, dependente da mesma irmandade, para o que já obteve a necessaria autorização do governador civil do distrito, a qual lhe foi concedida por alvará de 28 de Novembro de 1860. 

Para a construção de tão útil estabelecimento, e atendendo aos escassos recursos destinados à mesma, a mesa da Santa Casa da Misericórdia da vila e Praça de Melgaço solicitou e obteve do governo a concessão da pedra de uma parte da antiga e arruinada muralha do castello daquella vila, que lhe foi concedida por Portaria de 6 de Agosto de 1863. 

Têm decorrido alguns anos, durante os quais a referida irmandade, coadjuvada por uma comissão expressamente nomeada para promover a realização de tão útil melhoramento, tem para este fim empregado os maiores esforços, chegando a conseguir das irmandades e confrarias do concelho, a aplicação de parte dos seus rendimentos para a sustentação do projectado hospital, e ajuntar alguns meios, ainda que poucos, para acorrer às despezas de construção. 

Ouvidos os facultativos do concelho acerca do local mais apropriado para levantar o respectivo edificio, e ouvida também a opinião de mais dois facultativos, bem como a opinião do conselho de distrito, assentou-se que a construcção do hospital de que se trata deveria efectuar-se no terreno pertencente ao ministério da guerra, onde existiu a antiga obra córnea da Praça, a qual confronta ao norte e nascente com terras do Francisco Joaquim Lobato, do poente com o quintal de Joaquim Maria de Magalhães e casa em construção do médico João Luiz de Sousa Palhares, e do sul com a Rua Nova da villa, medindo de superficie 1 381,8 m2. 

Atendendo, pois, a que a importância militar de Melgaço é tão diminuta, que pouco se pode esperar que, de futuro se empreendam nas suas fortificações melhoramentos, a respeito dos quais possa vir a dar-se inconveniente em ter cedido o terreno pedido; atendendo igualmente a que o rendimento que o Estado deixará de receber, concedendo-se o aludido terreno para o fim indicado, é realmente tão limitado que não vale a pena, só para o não perder, em obstar a que se realize o louvável empenho da mencionada irmandade, tenho a honra de submeter à vossa apreciação o seguinte projeto de lei: 

Artigo 1.° É o governo autorizado a conceder à mesa da Santa Casa da Misericórdia da Vila e Praça de Melgaço, 1 381,8 m2 do terreno em que assentava a antiga obra córnea da dita Praça, para ali ser edificado um hospital de caridade. 

Artigo 2.° A indicada extensão de terreno será única e exclusivamente destinada para o fim mencionado no artigo antecedente, devendo reverter ao Estado se no prazo de cinco anos, contados da publicação deesta lei, as obras não estiverem de tal modo adiantadas, que não reste dúvida sobre a sua verdadeira aplicação. 

Artigo 3.° Fica revogada a legislação em contrário. 

Sala das sessões da camara dos deputados, 14 de Março de 1872. Antonio Correia Caldeira, deputado pelo circulo n.º 2, Monsão e Melgaço. 

Foi admitido e enviado à respetiva comissão.” 

Por esta ação do deputado, em 1872, a 3 Abril, o Provedor José Cândido Gomes de Abreu propôs aos irmãos da Mesa um voto de louvor ao "Exmº Snr. António Correia Caldeira, representante do Círculo de eleitores por em catorze de Março findo ter representado  na Câmara dos Senhores Deputados da Nação um projecto de lei para à Misericórdia ser concedido gratuitamente um terreno pertencente ao Ministério da Guerra para nele se construir o Hospital da Caridade”. 

Em 1873, a 16 Julho, concretiza-se a tão almejada assinatura da escritura de doação do terreno no interior da praça da vila pelo Ministério da Guerra. A dita escritura foi lavrada na vila de Valença, na Secretaria do Governo Militar e o Provedor da Santa Casa de Melgaço foi representado por José Joaquim Lopes, morador naquela vila.  

Após este sucesso, nas vésperas do Natal desse ano, em 23 de Dezembro, Justino Augusto de Amorim Azevedo e José Cândido Gomes de Abreu, respetivamente, Administrador do concelho e Provedor da Misericórdia de Melgaço, na qualidade de membros da Comissão Promotora do Hospital de Caridade, compram por 30$000 réis a João Manuel Marques e mulher Plácida Antónia Alves o terreno ocupado por uma pequena casa térrea sita na Rua Nova de Melo, entre a área cedida pelo Ministério da Guerra para o levantamento do hospital e a casa, ainda em construção, do médico João Luís de Souza Palhares. 

Em Fevereiro de 1876, seria lançada a primeira pedra deste Hospital da Caridade de Melgaço, muito impulsionada pelo notável José Cândido Gomes d'Abreu... 

Em 1874, a fim de obter fundos para as obras, José Cândido Gomes de Abreu tinha levado os irmãos a reduzirem o número de missas fixado para os sufrágios pelos irmãos falecidos.  

Assim, em Outubro de 1875, depois de reunidos os fundos e vencidos os obstáculos burocráticos, inicia-se finalmente a construção do hospital. Iniciaram-se os trabalhos de pedreiro, que foram dirigidos pelo famoso Manuel José Gomes, o “Mestre do Regueiro”, que era assim conhecido na época por ser natural deste lugar da freguesia de S. Paio. 

Mais tarde, foi contratado também o mestre João Manuel Esteves, morador na vila de Melgaço mas natural de Messegães, e foi encarregado de dirigir as obras de carpintaria.  

Na cartela alusiva ao início da construção da fachada lateral direita lê-se: 

 

FOI LANÇADA A PRIMEIRA PEDRA PARA ESTE EDIFÍCIO EM (?) 

DE FEVEREIRO DE 1876, SENDO PROVEDOR DA MISERICORDIA  

JOSE CANDIDO GOMES D’ ABREU 

 

O Hospital da Misericórdia de Melgaço demorou quase duas décadas a ser concluído e posto a funcionar. Passados cerca de oito anos do início das obras, o jornal “O Economista”, na sua edição de 18 de Abril de 1883, contava-nos, numa notícia breve, que “Segundo referem de Melgaço em 1 do corrente, têm tomado grande desenvolvimento as obras da casa destinada ao novo hospital.” 

Entretanto, como a enfermagem era exercida por religiosos, o Padre Francisco Castro, natural da freguesia de São Paio e abade de Riba de Mouro, pediu ao provedor para mandar fazer dentro do hospital uma capelinha privativa para o pessoal e doentes internos, pagando ele todas as despesas da obra. Devido a este gesto, viria a ser nomeado irmão da Confraria da Misericórdia em 2 Janeiro de 1893, ficando isento do pagamento da joia de entrada. A dita capela apenas viria a ser inaugurada a 16 de Abril de 1893, com celebração da primeira missa pelas 6 horas da manhã. 

Entretanto, no Outono de 1892, o Hospital da Caridade de Melgaço estava concluído e pronto para abrir portas. Assim, em 16 de Outubro de 1892, um domingo, é feita a inauguração do Hospital da Caridade, com mais de 300 pessoas de todo o concelho e vizinhos percorrendo demoradamente as enfermarias e outras dependências. Nas palavras de Augusto César Esteves, “a energia indomável de José Cândido Gomes de Abreu patenteou aos olhos de todos o grande milagre da sua geração, inaugurando nesse memorável dia o Hospital da Caridade” e refere-se ao então Provedor como “o primeiro e mais representativo melgacense dos seus séculos” (ESTEVES, A., 1957). 

A inauguração do novo hospital é assinalada na imprensa regional e nacional. Aqui se apresentam algumas das alusões a tão desejada abertura deste hospital na comunicação social escrita da época. Por exemplo, no periódica “Commercio do Minho”, na véspera do dia da inauguração (na edição de 15 de Outubro de 1892), anuncia “Hospital - Inaugura-se festivamente amanhã o Hospital da Misericórdia de Melgaço”. 

No jornal nacional “Diário Illustrado”, na edição de 16 de Outubro do referido ano de 1892, anuncia-se a cerimónia que ia decorrer naquele dia nos seguintes termos: “Inaugura-se hoje o novo Hospital de Melgaço 

  

  Cabeçalho e notícia, no jornal “Diário Illustrado” (16 de Outubro de 1892) 

 

Nesse mesmo dia, no jornal “O Economista”, podia ler-se: “Monção, 13 – Na villa de Melgaço, abre no próximo dia 16 do corrente o novo Hospital da Misericórdia, um magnífico edifício que por falta de recursos se conservava fechado desde a sua conclusão e que devido a uma importante doação ultimamente feita pello falecido reverendo Manuel Lyra, vae enfim ser aberto ao público. 

Para a sua administração interna chagaram alli já três irmãs hospitaleiras. 

É um importante melhoramento para os melgacenses a nova casa de beneficência”. 

É importante referir que esta notícia nos ajuda a compreender a razão pela qual o Hospital da Caridade apenas ficou pronto para abrir portas cerca de dezassete anos após o início das obras, que se poderá explicar pelas limitações de ordem financeira para financiar a conclusão da obra. Conforme se pode ler na notícia, a abertura do hospital apenas foi possível por um importante donativo por parte do Padre Manuel Lyra, no seu testamento, que permitiu dotar o hospital de tudo o necessário para o seu funcionamento. Convém ainda salientar que, tal como se refere na notícia, as irmãs que foram responsáveis pela gestão do hospital nos primeiros anos, pertenciam à “Congregação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres Pelo Amor de Deus”, fundada em 1871 e que chegaram a Melgaço em Setembro de 1892. Tinham também a seu cargo a gestão de outros hospitais tais como os de Lamego, Vila Real, Viana do Castelo, Penafiel, Santarém, Ponte de Lima, Elvas, entre outros. 

Fazemos referência a uma última notícia já de 22 de Outubro desse mesmo ano no “Commercio do Minho” onde se pode ler: “Melgaço, 16 – Inaugurou-se officialmente hoje a abertura do Hospital da Misericórdia de Melgaço, com uma numerosa concorrência de povo, ávida de conhecer minuciosamente com todos os seus pormenores, a estrutura do edifício. 

Presidiu ao acto o Sr. José Cândido Gomes de Abreu, activo provedor da Misericórdia”. 

O hospital da Caridade de Melgaço manteve-se em atividade um pouco menos de um século... 

sábado, 8 de outubro de 2022

Termas do Peso (Melgaço), Agosto de 1918...

 



Viajamos até Agosto de 1918. Em Melgaço, como na generalidade do país, as condições de vida eram muito difíceis devido à guerra e à muito difícil situação económica mundial. Da nossa terra, tinham partido dezenas de homens para combaterem os alemães nas trincheiras de França e em África. Contudo, no Peso, corria a habitual temporada termal e ali afluíam numerosas personalidades ilustres para procurarem a cura nestas termas.  

O Peso, na época, era uma espécie de um “mundo à parte”. Enquanto que no resto do concelho se vivia numa realidade muito difícil, o Peso assemelhava-se a um clube de ricos, imune à crise e à guerra. 

A afluência de visitantes de classe social privilegiada tinha como efeito atrair ao Peso numerosos pedintes que procuravam nos visitantes uma pequena ajuda para a sua miserável condição de vida. Tal realidade é-nos mostrada numa notícia no jornal “A Manhã”, na sua edição de 25 de Agosto de 1918 onde podemos ler o seguinte: 

PESO, MELGAÇO, 19 – Deu-nos ontem o prazer da sua visita o nosso querido amigo João Pinho. Saiu pela tardinha da sua formosa quinta dos Milagres, em Monção, com a sua esposa e seu cunhado, e veio até aqui. E, depois de um adorável cavaco de três horas, a que a política não foi estranha - político impenitente como é João Pinho – o antigo governador civil substituto de Viana, retirou-se, prometendo-nos, para breve, com a sua hospitalidade gentil e carinhosa, compensar-nos dos amargores que, à vinda, sofremos em Monção. (…) 

Como já lhes referi, a mendicidade aqui nestas termas constitui uma enorme legião. À entrada do pavilhão das águas, pelas estradas, em frente dos hotéis, em todos os cantos, enfim, a peregrinação dos indigentes é um verdadeiro flagelo. Entre os hóspedes do Ranhada, fez-se, há dias, uma quête, que, rendendo 26$00, serviu a contemplar cinquenta e dois desses desgraçados. 

Agora, uma outra iniciativa benemérita, partida de algumas senhoras que se encontram em uso de águas, constituídas em comissão, a qual tem à sua frente as senhoras D. Vitória Sardinha, D. Amélia de Sousa e D. Laura Borralho, vêm em socorro da indigência do Peso e de Melgaço. Essa comissão está, afanosamente, angariando, entre os hóspedes dos diferentes hotéis, objectos para uma quermesse que deve, talvez, inaugurar-se na próxima quinta feira e produzir, decerto, atento o simpático fim, avultado rendimento. Têm essas senhoras, além do nosso insignificante auxílio material, todo o nosso aplauso moral. 

Aqui lho deixamos, gratamente, consignado. 

 

 

Extraído de: Jornal “A Manhã”, edição de 25 de Agosto de 1918. 

domingo, 25 de setembro de 2022

Notícias sobre a feira de Melgaço em Outubro de 1920

 



No início dos anos 20 do século passado, as condições de vida em Melgaço e na generalidade do país eram muito difíceis. Além da guerra, a nossa terra tinha sido fortemente atingida pela pandemia da Gripe Espanhola, numa altura de grave crise económica. Na edição do jornal “O Comércio do Porto” de 27 de Outubro de 1920, uma notícia fala-nos um pouco sobre os elevados preços praticados na feira de Melgaço e na falta de géneros. Eram tempos muito duros...

Na dita notícia, podemos ler: “MELGAÇO, 24 – Em virtude de o dia de hoje se apresentar chuvoso, a feira quinzenal que se realizou não foi concorrida como era de costume ser e a falta de géneros expostos à venda foi grande, vendendo-se os poucos que appareceram por preços altos, preços que só os novos ricos podem aguentar. 

O milho, que nesta quadra costumava vender-se por preço regular, tem-se vendido a 10$000 e 12$000 réis cada 80 litros, quando nos concelhos de Monsão, Valença e outros do districto se vendem os mesmos 80 litros a 6$000 réis. Feijão, batata e centeio, também atingiram já um preço que faz tremer os menos abastados, os que necessitam comprar e cujos rendimentos não chegam para fazer face a tão grossas despezas. E nos estabelecimentos como tudo sobe de dias para dia! É um horror! 

Desde que foi declarada a greve ferroviário, os géneros têm subido desmedidamente: o bacalhau, que se vendia antes a 1$600, passou logo a 2$000 e a 2$300 cada kilograma; o azeite, que se vendia a 8$000 o litro, passou a vender-se a 8$700! E os restantes géneros sobem de preço na mesma proporção. 

Era para isto que pediam a liberdade de commercio. 

Independentemente d’esta carestia, temos ainda a flagellar-nos os açambarcamentos dos géneros produzidos aqui, que os exportam para fora do concelho, a caminho da fronteira, passando-os para a Galliza, com a mira dos lucros que o preço do câmbio lhes dá. 

Se tivéssemos uma autoridade activa e cumpridora dos seus deveres, não sentiríamos a falta de muitos géneros nem seriamos tão explorados, com relação ao preço. Em todos os concelhos, as autoridades promovem que não haja falta de género, não deixando sahir o que faz falta: aqui, dá-se exatamente o contrário, tudo sai do concelho sem a mais leve oposição... 

 

 

Extraído de: Jornal “O Comércio do Porto”, edição de 27 de Outubro de 1920. 

domingo, 18 de setembro de 2022

O Mosteiro de Fiães em artigo do jornal "O Comércio do Porto" (1866)

 



Na edição do jornal “O Comércio do Porto” de 13 de Dezembro de 1866, encontrámos um artigo dedicado ao mosteiro de Fiães e ao seu antigo Couto e que recupera escritos extraídos do livro “Corografia Portuguesa” do Padre Carvalho da Costa, obra publicada em 1706. No dito artigo, podemos ler: “No mesmo Concelho de Valladares, ficando-lhe para o Norte o de Melgaço, para o nascente o Reyno de Galliza, sobre huns altos montes, ao pé de outros mais altos está o Convento de Fiães, fundado em tempo del Rey Ramiro Primeiro e de sua mulher a Rainha Dona Paterna, de que julgamos tomar o nome o valle de Paderne. Quando ella então não fosse a fundadora daquelle Morteiro, o seria do de S. Payo, que no termo de Melgaço houve. Foi este de Fiães de Monges Bentos com a invocação de S.Christovão, de que se acha noticia pelos anos de 851 e hum dos primeiros, que desta Ordem houve em Hespanha. Foi logo tão rico em seus princípios de rendas senhorios, que teve nesta Província, na de Trás os Montes e Galliza, que vulgarmentefe dizia não haver algum tão poderoso, como o Dom Abbade de Fiães, depois del Rey, pelo que se pode presumir ser obra sua. Ali viviam oitenta Frades de Missa, além dos Conversos, os quais em Lausperene assistiam continuamente no Coro de dia e de noite e com tão exemplar vida, que de todos eram chamados Santos e muitos faziam milagres pelo que se vinham aqui enterrar muitos príncipes, que lhe fizeram amplas doações. De três Infantes há noticia e de muitos fidalgos galegos, & portuguezes, Fernão Annes de Lima, pai do primeiro Visconde, está em sepultura levantada e magnífica com suas Armas junto da Capela de S. Sebastião. Tinha antigamente um banho, que por milagre de Nossa Senhora apareceu junto do Morteiro, e esta água era de tanta virtude, particularmente no dia do Bautista, que muitos doentes de várias enfermidades, e aleijoens incuráveis, que nele se vinham lavar, voltavam sãos. Mandou-se entupir há anos por mortes que houve entre os que haviam de entrar primeiro. Ainda hoje vem muitos buscar água, que dele emana e a levam a enfermos, que bebendo-a com fé , obra Deus por ela muitas maravilhas. Da imagem de S. Bento, que aqui está, e é visitada dos contornos em todo anno, particularmente em Teu dia, se contam grandes milagres. A fabrica deste Mosteiro, e celas dos Religiosos foi cousa grande, trezentos e tantos annos havia, que nele viviam estes Monges. Teve nesses tempos dois incêndios por desgraça, causa de sua total ruína, porque lhe queimarem os melhores títulos de suas rendas, com que se pôs em estado, que mal tem com que sustente oito frades, quanto mais para pagar à Capela Real quarenta mil reis, e vinte e cinco mil reis ao Convento do Desterro de Lisboa. Da primeira ruína o tirou a piedade Cristã de Afonso Paes, dois irmãos seus, que de novo o reedificaram e deram a Alcobaça. No ano de 1150 era tão grande a fama que corria da vida santa dos Frades Bernardos, que tinham vindo de França para este Reyno, que mandou o Dom Abade deste Mosteiro dois Monges ao de Alcobaça a pedir nova reformaçam dos institutos de Cister, e um Religioso para que melhor os instruísse pelo que haviam de obrar, ficando logo sujeitos àquela Real Casa, que de novo se ia edificando. Tanto que receberam a reforma, tomaram por Padroeira a Virgem Nossa Senhora, deixando a S. Christovão e se chama desde então Santa Maria de Feães, e em memória do grande gosto que tiveram de se mudarem a Bernardos, e da boa doutrina, que o novo Mestre lhes veio dar, puseram o nome de Alcobaça a uma aldeia arraiana, que então povoaram, e permanece. Donde seu princípio sempre teve Couto Cível, que lhe confirmaram EI Rey Dom Afonso Henriques, e seus sucessores; e o Dom Abade tem jurisdição Episcopal, Metropolitano imediato ao Papa, sem que o Arcebispo lhe visite os seus súbditos, e reconhece os Breves Apostólicos, ou o seu Provedor, que é hum Religioso da Casa, a quem o Abade escolhe, e deles appella para Roma, ou Núncio. A mesma jurisdição tem em Galiza no Bispado de Tuy além do rio Trancoso em dois lugares chamados Lapella e Azureyra, em que exercita a dignidade Episcopal por sentenças que teve cá e lá contra o Primaz, e Bispo, que ambos lho quiseram tirar, cousa que não sei haja em outra Diocese.” 

 

 

Extraido de: Jornal “O Comércio do Porto”, edição de 13 de Dezembro de 1866.