quinta-feira, 27 de abril de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Os soldados de Melgaço desaparecidos em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918)
Fez no passado dia 9 de Abril, 99 anos da página mais negra da participação portuguesa na 1º Grande Guerra. Durante a Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, na Flandres Francesa, centenas de portugueses tombaram e milhares foram dados como desaparecidos em combate. De Melgaço, 4 morreram em combate mas outros 9 melgacenses desapareceram durante a batalha.
Inicialmente, estes homens
foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às
famílias e aos jornais que publicavam listas de desaparecidos quase todos os
dias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a
Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que muitos destes desaparecidos
figuravam nas listas de prisioneiros de guerra e se encontravam dispersos em
vários campos na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das
suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo
por este país fora.
Na realidade, estes melgacenses
foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso,
de Santa Maria da Porta (Vila); António Fernandes, de Penso;
Abílio Alves de Araújo, natural de freguesia incógnita (Melgaço); Avelino
Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne;
Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. Paio; Justino Pereira,
de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da
Porta, Vila) e António Pires, de Roussas.
Um prisioneiro português conta-nos o caminho que fizeram desde a captura na Batalha de La Lys até ao campo de
prisioneiros. Na primeira noite, a noite de 9 para 10 de Abril, foi passada em
cenário de guerra. Ele conta que foram colocados num lamaçal cercados por uma
cerca de arame farpado. Diz que era como se guarda os animais no monte. Foram sentados todos lado a lado e aí foram
despojados dos seus bens. Tudo o que interessava aos soldados alemães era-lhes
retirado. E conta que eles de facto tentavam iludir os soldados, guardando os
objectos que mais valor tinham para eles, os seus relógios, os seus bens
pessoais, e depois trocavam esses bens por alimentos, tentavam corromper os
próprios soldados alemães.
Esta primeira noite é passada completamente ao relento. Estamos a falar de homens que há 24 horas que não comem nada e recebem a primeira refeição no caminho para a cidade francesa de Lille, no dia seguinte.
Esta primeira noite é passada completamente ao relento. Estamos a falar de homens que há 24 horas que não comem nada e recebem a primeira refeição no caminho para a cidade francesa de Lille, no dia seguinte.
Por essa altura, a
cidade de Lille estava já sob o domínio alemão desde o início da guerra e
portanto os próprios civis franceses eram eles próprios como que prisioneiros
dos alemães. Então, à chegada dos prisioneiros portugueses, os civis franceses
juntavam-se em multidões tentando encorajar os próprios soldados e
atirando-lhes pedaços de comida, que era o que eles aproveitavam para comer
nessas alturas. Obviamente que estas acções eram reprimidas pelos soldados
alemães.
Os soldados portugueses
passam a primeira noite num quartel em Lille, e depois seguem para a cidadela
de Lille, para uma fortaleza que servia como uma espécie de entreposto na
distribuição dos prisioneiros portugueses para os diferentes campos de
concentração alemães. Passam cerca de três dias em Lille e seguidamente recebem
ordem de marcha para o campo na Alemanha.
No caminho para a estação de comboio (eles viajaram de comboio), no caminho para essa estação, ele conta casos verdadeiramente comoventes dos seus compatriotas e dele próprio. Obviamente que tentavam furar as fileiras dos soldados alemães e nos campos agrícolas em volta tentavam retirar todos os alimentos, para assim conseguirem sobreviver.
No caminho para a estação de comboio (eles viajaram de comboio), no caminho para essa estação, ele conta casos verdadeiramente comoventes dos seus compatriotas e dele próprio. Obviamente que tentavam furar as fileiras dos soldados alemães e nos campos agrícolas em volta tentavam retirar todos os alimentos, para assim conseguirem sobreviver.
Mais tarde, apanham o
comboio com destino à Alemanha e viajam em carruagens sem o mínimo de
condições. Eram carruagens de transportar animais, portanto
sem o mínimo de condições de higiene e de segurança.
E então fazem o caminho longo de dois dias e duas noites, passando por Bruxelas até a
Alemanha. Na Bélgica eles não chegam a sair do comboio, ficam o tempo todo
dentro do comboio. São novamente incentivados pelos civis belgas e alimentados
por eles.
Quando entram na Alemanha, apercebem-se de que o seu destino ia mudar. Nota-se grande hostilidade por parte dos próprios civis alemães, agora em vez de os incentivarem, obviamente que os insultavam, em vez de lhes atirarem pão atiravam pedras à carruagem.
Então chegam ao campo de prisioneiros, que fica a norte da cidade de Colónia, um campo muito grande, com muitas infra-estruturas muito bem organizado, e que tinha inclusivamente até um jornal publicado pelos prisioneiros franceses.
Quando entram na Alemanha, apercebem-se de que o seu destino ia mudar. Nota-se grande hostilidade por parte dos próprios civis alemães, agora em vez de os incentivarem, obviamente que os insultavam, em vez de lhes atirarem pão atiravam pedras à carruagem.
Então chegam ao campo de prisioneiros, que fica a norte da cidade de Colónia, um campo muito grande, com muitas infra-estruturas muito bem organizado, e que tinha inclusivamente até um jornal publicado pelos prisioneiros franceses.
Aqui, eles eram
alimentados basicamente com uma alimentação à base de pão, água e de caldos com
ingredientes de origem muito duvidosa.
O que ele valoriza muito
é a acção dos franceses, em todos os campos onde ele esteve. Os franceses
partilhavam com os mais necessitados os bens alimentares e os bens de primeira
necessidade, principalmente com os portugueses, com os italianos, com os
russos, que eram os que viviam em piores condições.
Estes nove melgacenses foram espalhados pelos campos de prisioneiros de Dulmen, situado na região da Westefalia; Munster II,
situado na região da Renânia Norte - Westefália, a cerca de 40 Kms a norte da cidade de Dortmund; Friedrichsfeld, situado a cerca de 25 Kms a norte da cidade de Duisburgo, perto da fronteira com a Holanda; Senne, que fica próximo da cidade de Bielefeld, a cerca de 80 Kms da fronteira com a Holanda; Hameln, situado a cerca de 30 Kms a sudoeste da cidade de Hannover, a uma distância de cerca de 100 Kms da fronteira com a Holanda.
Em Novembro desse mesmo ano de 1918 chega o fim da guerra. Mais tarde, os prisioneiros são libertados. Nalguns casos, os campos são abandonados pelos próprios alemães deixando os prisioneiros à sua sorte. O regresso dos soldados portugueses é caótico. Não foi organizado pelas autoridades portuguesas um eficaz transporte destes milhares de soldados. Muitos deles viajam por conta própria até portos na Holanda ou então até Cherbourg, em França.
Felizmente, para estes nove prisioneiros de guerra melgacenses, regressaram todos vivos, tendo desembarcado em Lisboa entre Janeiro e Fevereiro de 1919.
Felizmente, para estes nove prisioneiros de guerra melgacenses, regressaram todos vivos, tendo desembarcado em Lisboa entre Janeiro e Fevereiro de 1919.
Da pesquisa que realizei, apesar das informações escassas, deixo
aqui algumas informações acerca do percurso de cada um destes soldados. Localizei na base de dados do Comité Internacional da Cruz Vermelha os cartões de identificações destes prisioneiros de guerra que são apresentados juntamente com as histórias individuais:
Prisioneiros
de guerra melgacenses capturados na Batalha de La Lys
(9 de Abril de 1918)
(9 de Abril de 1918)
1. Mário
Afonso, soldado do 2º Grupo de
Baterias de Artilharia, nascido em 12 de Agosto de 1891, filho de António Luiz
Afonso e Tereza de Jesus, natural do lugar de S. Julião, freguesia de Santa Maria
da Porta, casado. Embarcou para França em 20 Agosto de 1917 integrado no Corpo
Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 28 641.
Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril
de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros
de Dulmen situado na região da Westefalia (Alemanha), tendo estado também no Campo de Prisioneiros de Hameln. O soldado Mário Afonso
embarcou no navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de
1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.
2. António
Fernandes, 2º Cabo do 2º Grupo de
Baterias de Artilharia, nascido em 19 de Junho de 1891, filho de Agostinho
Fernandes e Maria Rosa Esteves Cordeiro, natural do lugar de Ranhol, freguesia
de Penso, casado. Embarcou para França em 17 Novembro de 1917 integrado no
Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº
33 557. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys
(9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de
Prisioneiros de Münster II (Alemanha). O soldado António Fernandes embarcou no
navio inglês "Northwestern Miller" em 31 de Janeiro de 1919 e
desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.
3. Abílio
Alves de Araújo, 1º Cabo do Regimento de Infantaria nº 29, 4ª
Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), filho de João Manuel de Araújo e Maria
Joaquina Alves, natural de Melgaço (data de nascimento e freguesia de
naturalidade desconhecidas), solteiro. Embarcou para França em 22 Abril de 1917
integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação
nº 46 998. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La
Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo
de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). O soldado Abílio de Araújo
embarcou no navio inglês "Northwestern Miller", na Holanda, em 31 de
Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.
4. Avelino
Fernandes, Soldado do Regimento de
Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 7 de
Novembro de 1893, filho de Francisco Fernandes e Libania Martins Peixoto,
natural do lugar de Ferreiros, freguesia de Alvaredo, casado. Embarcou para
França em 18 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português,
portador da chapa de identificação nº 49 462. Sobreviveu à guerra.
Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito
prisioneiro pelos alemães e internado no Campo de Prisioneiros de Dulmen (Alemanha).
O soldado Avelino Fernandes embarcou no navio inglês "Northwestern Miller"
em 12 de Janeiro de 1919, na Holanda, e desembarcou em Lisboa de 18 de Janeiro
de 1919. (Cartão de identificação de prisioneiro de guerra não localizado)
5. António
José Rodrigues, Soldado do
Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho),
nascido em data desconhecida, filho de José Manuel Rodrigues e Carolina Rosa
Rodrigues, natural da freguesia de Paderne, solteiro. Embarcou para França em
15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da
chapa de identificação nº 49 526. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em
combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos
alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Münster II (Alemanha). O
soldado António José Rodrigues embarcou no navio inglês "Northwest Miller"
em 31 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 4 de Fevereiro de 1919.
6. Justino
Pereira, Soldado do Regimento de
Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em data
desconhecida, filho de António Pereira e Maria Esteves, natural da freguesia de
Cubalhão, solteiro. Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no
Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº
49 544. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918).
Feito prisioneiro pelos alemães. A partir daqui, o percurso deste soldado é um
autêntico mistério. Desconhece-se o campo de prisioneiros onde esteve já que
não consta no seu boletim individual. Não consta na base de dados do Comité
Internacional da Cruz Vermelha. Sabe-se apenas que desembarcou em Lisboa em 3
de Janeiro de 1919, não se sabendo se embarcou na Holanda ou em Cherbourg
(França).
7. Inocêncio
Augusto Carpinteiro, Soldado do
Regimento de Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho),
nascido em 28 de Agosto de 1895, filho de Firmino Augusto Carpinteiro e
Joaquina Rosa Soares, natural da freguesia de S. Paio, lugar dos Barreiros, solteiro.
Embarcou para França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário
Português, portador da chapa de identificação nº 49 556. Sobreviveu à
guerra. Desaparecido em combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918).
Feito prisioneiro pelos alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Dulmen
(região da Renânia/Norte Westfalia, Alemanha, a cerca de 40 Kms a norte de Dortmund)
tendo estado também no Campo de Senne, que fica próximo da cidade alemã de
Bielefeld. O cartão de identificação do prisioneiro de guerra que em baixo se
mostra pertence ao campo de Senne. O soldado Inocêncio Carpinteiro embarcou no
navio inglês "Northwestern Miller" na Holanda em 12 de Janeiro de
1919, na Holanda, e desembarcou em Lisboa de 18 de Janeiro de 1919.
8. António
dos Reis, Soldado do Regimento de
Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 25 de
Junho 1892, filho de João Batista Reis e Lauriana Joaquina Esteves, natural da
Rua Direita, freguesia de Santa Maria da Porta, solteiro. Embarcou para França
em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da
chapa de identificação nº 49 563. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em combate
na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos alemães e
levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). O soldado
António dos Reis fez a viagem até Cherbourg (França) onde embarcou no navio inglês
"Orita" em 13 de Fevereiro e desembarcou em Lisboa de 16 de Fevereiro
de 1919.
9. António
Pires, Soldado do Regimento de
Infantaria nº 3, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), nascido em 8 de
Julho de 1894, filho de pai incógnito e Dolores Pires, natural do lugar do Paço,
Roussas, solteiro. Embarcou para França
em 22 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da
chapa de identificação nº 49 837. Sobreviveu à guerra. Desaparecido em
combate na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Feito prisioneiro pelos
alemães e levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha). O
soldado António Pires embarcou no navio inglês "Northwestern Miller"
em 12 de Janeiro de 1919 e desembarcou em Lisboa de 18 de Janeiro de 1919.
Bibliografia:
- Arquivo Histórico do Exército;
- OLIVEIRA, Maria José (2011) – “Deste triste viver"
– Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial.
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Unoversidae Nova de Lisboa, Lisboa;
- MARQUES, Isabel Pestana, op. cit., p. 389;
AFONSO, Aniceto, 2008, Grande Guerra. Angola, Moçambique e Flandres.
1914/1918, Lisboa, Quidnovi, Col. Guerras e Campanhas Militares, p. 106;
- TEIXEIRA, Nuno Severiano, 1992, “A Fome e a Saudade. Os
Prisioneiros Portugueses na Grande Guerra”, in Penélope. Fazer e Desfazer a
História, Lisboa, nº 8, p. 102;
- http://www.rtp.pt/noticias/portugal-na-1-grande-guerra/antonio-santos-saga-de-um-prisioneiro-da-flandres-a-prussia-oriental_es891158;
- PRISONNIERS
DE LA PREMIÈRE GUERRE MONDIALELES ARCHIVES HISTORIQUES DU CICR (https://grandeguerre.icrc.org/fr).
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Cevide (Cristóval - Melgaço) no programa Agora Nós" da RTP (13-04-2017)
No programa "Agora Nós" da RTP 1 de 13 de Abril de 2017, falou-se do lugar de Cevide, na freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço. Aqui começa Portugal. Destaque para as lindas imagens destes local e para as entrevistas de Mário Monteiro, grande impulsionador da divulgação deste lindo recanto, e do Presidente da Câmara de Melgaço... Veja o vídeo do programa!
sexta-feira, 7 de abril de 2017
Os soldados de Melgaço na Batalha de La Lys (1918): Os caídos em combate
Foi há cerca de 100 anos que os
primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França
na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Com base nos dados de que disponho, de
Melgaço, partiram para a guerra 69 homens, oriundos das diversas freguesias.Estes
homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma
guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 13 homens, Penso, com
11 homens e Vila, 10 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuiram
em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham
todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre
1891 e 1895).
Assim, entre Janeiro e Novembro
de 1917, partiram estes homens do porto de Alcântara, rumo ao porto de Brest
(França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona
sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em
Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de
comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do CEP.
E foi num clima
agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que
estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de
um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem
“familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas
da guerra que iam conhecer de perto.
Na guerra, dos 69 homens de
Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas
como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António
Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro
de 1917 na Flandres (França).
Quatro dos caídos em combate,
faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). São eles os
soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José
Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, da freguesia de
Paços (Melgaço), António José da Cunha, natural da freguesia da Santa
Maria da Porta (Vila – Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo
de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de
Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a maioria dos soldados melgacenses, e já tinha
conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe
ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em
Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se
encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos
alemães na dita batalha de La Lys. Faz amanhã, 9 de Abril, 99 anos...
MELGACENSES MORTOS NA BATALHA DE LA LYS (LEVANTIE, FLANDRES FRANCESA)
- João José Pires, soldado da 2.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 28 de Abril de 1893 no Outeiro, lugar da freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires; solteiro e morador em Paços; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.
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Sepultura do soldado João José Pires
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)
|
- José Narciso
Pinto, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria
n.º 3; nascido a 3 de Março de 1893 na Igreja, lugar da
freguesia de Santa Maria Madalena
de Chaviães, filho de Manuel António Pinto e de Cândida Maria
Alves; casado e morador em Chaviães; embarcou para França integrado no
Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à
Brigada do Minho. Falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de
Abril de 1918. Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué
(França), Talhão D, Fila 3, Coval 24.
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Sepultura do soldado José Narciso Pinto
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)
|
- António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha, segundo-sargento do Regimento de Obuses de Campanha; nascido a 28 de Julho de 1892 na Rua Direita, vila e freguesia Santa Maria da Porta de Melgaço, filho de António José Ferreira Pinto da Cunha e de Carlota Amália Cardoso; solteiro e morador na vila de Arcos de Valdevez; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 20 de Agosto de 1917, onde pertenceu ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras. Participou na Batalha de La Lys. Inicialmente dada com desaparecido em combate. Mais tarde considerado morto em combate na dita batalha a 9 de Abril de 1918. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.
Nesta investigação, fui
descobrir uma carta que este Segundo Sargento Pinto da Cunha, escrita algures na primeira metade de 1917, à data estudante
no liceu de Guimarães, escreveu a uma pessoa influente para que esta intercedesse
junto do ministro da Guerra, Bernardino Machado, no sentido de obter dispensa
do curso de sargentos até Julho de 1917, para poder frequentar o liceu e fazer
exame do então 5º ano. Argumentava que já no ano anterior não tinha podido
terminar este nível dos estudo por ter sido chamado ao quartel. Desconheço a resposta a esta missiva.
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Carta de António José Cardoso Ferreira Pinto da Cunha |
- José Cerqueira Afonso, soldado da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 3; nascido a 14 de Março de 1892 nas Fontes, lugar da freguesia de São Salvador de Paderne, filho de Inácio José Afonso e de Maria Cerqueira; casado e morador em Paderne; embarcou para França integrado no Corpo Expedicionário Português a 22 de Abril de 1917, onde pertenceu à Brigada do Minho; falecido em combate na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918.
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Sepultura do soldado José Cerqueira Afonso
(Cemitério Militar de Cemitério de Richebourg l`Avoué, França)
|
Esta batalha foi um dos maiores
desastres de toda a História Militar portuguesa. A mesma é contada por um
soldado português que nela esteve envolvido numa carta enviada à família. Na
mesma, datada de 11 de Julho de 1918, o soldado tentou reconstituir, em breves
palavras, os acontecimentos daquela noite: “Às quatro horas da manhã do dia
9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento por parte do inimigo, coisa
essa que nós, à primeira vista, não estranhámos, visto que já estávamos
habituados a tudo isso, mas o prazo desse bombardeamento foi-se prolongando e
as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes
tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso
fogo, continua o grande bombardeamento com uma tal violência que ao fim de
algumas horas o chão estava todo voltado com o debaixo para cima, um completo
horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham
desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para
jamais serem vistos”.
De manhã, chegara a hora de
contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora
maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais).
Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo por este país fora.
Fontes consultadas:
Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Chegaram-se a fazer funerais sem corpo por este país fora.
Quem foram os soldados melgacenses desaparecidos em combate? De que freguesias eram? Em que campos de prisioneiros estiveram? Como regressaram a Portugal? E muitas outras respostas...
Conto-vos na próxima publicação!
Fontes consultadas:
- Arquivo Histórico do Exército;
- OLIVEIRA, Maria José (2011) – “Deste triste viver"
– Memórias dos prisioneiros de guerra portugueses na primeira Guerra Mundial. Faculdade
de Ciências Sociais e Humanas, Unoversidae Nova de Lisboa, Lisboa;
- MARQUES, Isabel Pestana, op. cit., p. 389;
AFONSO, Aniceto, 2008, Grande Guerra. Angola, Moçambique e Flandres.
1914/1918, Lisboa, Quidnovi, Col. Guerras e Campanhas Militares, p. 106;
- TEIXEIRA, Nuno Severiano, 1992, “A Fome e a Saudade. Os
Prisioneiros Portugueses na Grande Guerra”, in Penélope. Fazer e Desfazer a
História, Lisboa, nº 8, p. 102.
::::::::::::::::::::::::::::::::::::CONTINUA:::::::::::::::::::::::::::::::::::::
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