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sábado, 17 de janeiro de 2026

Acerca das capelas de São Paio de Melgaço em meados do século XVIII...

 


Em tempos muito antigos e até 1141, as terras de São Paio pertenciam a uma extensa freguesia designada de "São Paio de Paderne", que incluía os territórios das atuais freguesias de Paderne, Remoães, São Paio, Paderne, Prado, Cousso e Cubalhão, e que se encontrava associada a um primitivo mosteiro.

A referência mais antiga a esta primitiva freguesia remonta a quase mil anos de antiguidade. De facto, há um documento datado de 1043 onde se diz que em 17 de Março desse ano, um tal abade Aloito e os seus irmãos doaram ao mosteiro de Celanova muitos bens e propriedades, incluindo “in ripa Minei ubi dicent Prato, sic alio monasterio de Sancto Pelagio”. Nesta escritura faz-se referência a Prado, cujas terras pertenciam, na época, ao mosteiro de São Paio de Paderne, tal como se refere na transcrição.

Em meados do século XVIII e desde o século XVII, a freguesia de São Paio, tal como outras da região, há um aumento significativo da população. Este incremento demográfico levou a que se construíssem novas capelas. Note-se que em São Paio, à exceção da capela do Regueiro, as restantes capelas foram construídas entre os séculos XVII e XVIII. De facto, enquanto que as capelas de Barata e Barral foram fundadas em meados do século XVII, as capelas de Santo André e de Cavaleiro Alvo são de meados do século XVIII.

Em 1753, o padre Domingos Gomes, pároco da freguesia na época, pediu ao Arcebispo de Braga para que autorizasse a colocação, em todas as capelas da freguesia, de confessionários. Tal podemos conferir num documento da época que abaixo se encontra transcrito. 

No documento antes citado, numa primeira fase, enumera-se as capelas que existiam na freguesia e a que distância ficavam da igreja. Neste sentido, diz-se que "...sua freguesia há a capela do Glorioso Mártir S. Paio sitta no lugar de Cavalleyro Alvo distante da igreja Matriz três quartos de légoa pouco mais ou menos, e no lugar do Pinheiro há a capella do Glorioso Apóstolo Santo André distante da igreja Matriz hum quarto de légoa pouco mais ou menos, em o lugar de Varata há a capela da Senhora do Bom Despacho distante da igreja matriz meyo quarto de légoa, e no lugar do Barral há a capella da senhora do Amparo distante da igreja Matriz meio quarto de légoa pouco mais ou menos...".

A razão para este pedido do padre de São Paio ao Arcebispo de Braga prende com o facto de haver em lugares mais distantes da igreja, muitas pessoas que lhes custava muito a deslocarem-se até à igreja, especialmente idosos e doentes, tal como se lê no documento: "...em todos os lugares assima declarados há muitas pessoas velhas impedidas que não podem vir ouvir missa nem confessar-se à igreja Matriz pella sua incapacidade em que se acham actualmente e por essa cauza não podem vir à igreja Matriz confessar-se de sua pecados pello decurso do anno quando lhe he precizo pela quietação das suas consciências e salvação das sua almas o que somente fazem pela obrigação da quaresma o que se tem exprimentado o suplicante [o padre] há muitos annos quando vay ou manda desobrigallos pelas suas cazas no período da quaresma..." Como o caro leitor pode constatar, o padre costumava ir pelas casas na quaresma confessar os fregueses que não se podiam deslocar à igreja.

Neste documento diz-se que o padre se comprometia com o arcebispo a vir às capelas todos os meses para ouvir em confissão os fregueses, tal como se pode conferir na transcrição: "...dezeja o suplicante [o padre] dar todos os mezes do anno o pão espiritual às suas ovelhas confessando-as e sacramentando-as por si ou outro de seu mando nas ditas capelas para cujo efeito se necessita de hum confessionário em cada huma das ditas capelas o que não pode fazer sem a Licença..."

A licença para se colocarem os ditos confessionários foi passada em 16 de Maio de 1753 nestes termos e com algumas condições explícitas nesta transcrição: "Dom José (...) Arcebispo e Senhor de Braga Primaz das Hespanhas (...) lhe concedemos Licença para que nas capelas de que trata possam por confessionário na forma das nossas Pastorais para nellas poder confessar seus fregueses nas ocazioens expressadas com condição que as ditas confissoens se farão de dia e com a porta da capela aberta e pello sim havemos por bem mandamos passar a prezente (...) aos dezassette de Mayo de mil e sette centos e sinquenta e três..."

Abaixo se disponibiliza a transcrição do documento citado neste artigo: 

Registo de Provisão de colocação de confessionários a favor de Domingos Gomes, abbade de S. Payo de Melgaço 

Sereníssimo Senhor: 

Diz Domingos Gomes, Abbade de S. Payo de Melgaço, comarca de Vallença, Arcebispado de Braga Primaz, que na sua freguesia há a capela do Glorioso Mártir S. Paio sitta no lugar de Cavalleyro Alvo distante da igreja Matriz três quartos de légoa pouco mais ou menos, e no lugar do Pinheiro há a capella do Glorioso Apóstolo Santo André distante da igreja Matriz hum quarto de légoa pouco mais ou menos, em o lugar de Varata há a capela da Senhora do Bom Despacho distante da igreja matriz meyo quarto de légoa, e no lugar do Barral há a capella da senhora do Amparo distante da igreja Matriz meio quarto de légoa pouco mais ou menos e em todos os lugares assima declarados há muitas pessoas velhas impedidas que não podem vir ouvir missa nem confessar-se à igreja Matriz pella sua incapacidade em que se acham actualmente e por essa cauza não podem vir à igreja Matriz confessar-se de sua pecados pello decurso do anno quando lhe he precizo pela quietação das suas conciências e salvação das sua almas o que somente fazem pela obrigação da quaresma o que se tem exprimentado o suplicante há muitos annos quando vay ou manda desobrigallos pelas suas cazas no período da quaresma e aceita desta necessidade e dezeja o suplicante dar todos os mezes do anno o pão espiritual às suas ovelhas confessando-as e sacramentando-as por si ou outro de seu mando nas ditas capelas para cujo efeito se necessita de hum confessionário em cada huma das ditas capelas o que não pode fazer sem a Licença (...) // Pede se digne conceder Licença ao suplicante para por em cada huma das ditas capelas assima declaradas hum confessionário fechado (...) para benefício das almas e glória de Deus. (...) Domingos Gomes, Abbade de S. Payo de Melgaço, passe provisão, Braga, Mayo desasseis de mil e setecentos e sincoenta e três. (...) Dom José (...) Arcebispo e Senhor de Braga Primaz das Hespanhas (...) lhe concedemos Licença para que nas capelas de que trata possam por confessionário na forma das nossas Pastorais para nellas poder confessar seus fregueses nas ocazioens expressadas com condição que as ditas confissoens se farão de dia e com a porta da capela aberta e pello sim havemos por bem mandamos passar a prezente (...) aos dezassette de Mayo de mil e sette centos e sinquenta e três..."


sábado, 29 de maio de 2021

O lugar de Lobiô (Rouças - Melgaço) e a desaparecida capela de São Paio

 


Lobiô é um lugar da freguesia de Rouças situado junto ao limite administrativo com a vizinha freguesia de São Paio e relativamente próximo da cabeceira da Ribeira de São Lourenço que separa, desde tempos muito antigos, estas duas freguesias do concelho de Melgaço.  

A origem do topónimo Lobiô é germânica, sueva, muito antiga, e deriva do termo primitivo “Laubjo” que significa “alpendre” ou “alboio”, palavra antiga e em desuso para designar um coberto. Contudo, o termo citado tem um significado alternativo que é o de “emparrado de pouca altura”, segundo o Dicionário da Real Academia Galega. Posto isto, não dispomos de bases documentais para apontar com precisão a origem do topónimo devido à sua antiguidade.

Na Galiza, temos, por exemplo, Lobios, ou Lobio, que derivam da mesma raiz evolutiva. É provável que se tenha aplicado este substantivo para se referir a este lugar devido à presença de construções com alpendres ou alboios. Todavia, chama-se à atenção para o facto de o topónimo se apresentar no singular o que não será irrelevante. 

Trata-se sem dúvida de um topónimo muito antigo. Ainda que em relação a este lugar, não tenhamos menções em documentação medieval, na Galiza, em topónimos de origem similar tais como Lobios, temos referências desde o século XII. (VILLAR, 2014) 

Um pouco acima do lugar de Lobiô, até inícios do século XVIII, existia uma capela dedicada a São Paio.  Nessa época, esta ermida estava arruinada e os visitadores já tinham chamado à atenção anteriormente para o seu estado de avançada degradação.  

O ilustre e já saudoso cónego José Marques, natural da freguesia desta Rouças, num artigo escrito no jornal “Voz de Melgaço”, refere-se às últimas ruínas desta ermida que ainda chegou a contemplar, na sua infância, e fala-nos dos “restos das paredes, emergentes do solo, até à altura de uns cinquenta ou sessenta centímetros, muitas vezes vimos, quando menino e moço, com os nossos companheiros, depois das sementeiras dos campos, íamos bem cedo, por causa do calor, apascentar os gados para o monte baldio da encosta de S. Paio, cuja designação lhe adveio da presença da capela...” (MARQUES, J., 2019). Sabemos que, em 1707, a capela de São Paio já estava em ruína e por determinação do padre visitador, deveria ser reedificada junto do lugar de Lobiô, como deixou determinado o pároco de Rouças, Brás Andrade da Gama, Doutor em Direito Canónico e Civil no livro “Livro que serve para os Títulos das Sepulturas, Capellas, Altares e Irmidas desta Freguezia de Santa Marinha de Rouças”, rubricado e assinado, nos serviços arquidiocesanos de Braga, no dia 26 de outubro de 1707.  

Segundo MARQUES, J. (2018), a capela que o visitador mandou erigir junto de Lobiô, acabou por ser construída no local onde atualmente se encontra o Santuário de Santa Rita, praticamente implantada, dentro da cabeceira desta nova igreja.  

No documento do pedido de licenciamento para a construção da nova capela de São Paio em Vilela, datado de 26 de Junho de 1739, explica que a velha capela em Lobiô, estava em muito mau estado e que o caminho de acesso era muito difícil e tinha sido construído pelos moradores do lugar. No dito documento, pode ler-se: “… Diz Manuel da Cunha Lira, abade de Santa Marinha de Rouças, termo de Melgaço, comarca de Valença que havendo em a dita freguezia huma capella da invocassam de Sam Paio há tempo emmemorial sita em o lugar de Lovio que fica distante da egreja huma mea legoa e serra montuosa e caminhos empraticaveis fabricada pelos freiguezes por ser muito necessária para adeministrassam dos sacramentos para o sobredito lugar e outrossim, digo, e outro ser convizinho chamado Vilella que consta de sessenta vizinhos a sobredita  capela [em Loviô] por estar em parte desabrigada e sujeita às tempestades se foi arruinando; e vendo os Reverendos Vezitadores a grande necessidade que dela havia para os lugares sobreditos e desamparo do sítio, mandaram que os freguezes a reedificassem em milhor sítio e mais abrigado…” No documento, também se refere que a capela existia desde tempos imemoriais o que pressupõe que devia ser bastante antiga. 

MARQUES, J. (2012), acrescenta ainda que depois de “demolida a antiga capela de S. Paio, outrora, frequentada também pelas gentes de Cavaleiro-Alvo, os moradores dos seus dois lugares – o de Cá e o d’Além – construíram, a meia distância entre os dois aglomerados populacionais, a capela de S. Paio, que lá conservam, renovada e, recentemente, enriquecida com estrutura indispensável, na atualidade.  

A memória da utilização comum da antiga capela de S. Paio, demolida na sequência da referida legislação eclesiástica, deu origem a duas novas capelas a ele dedicadas: uma, em Rouças, no lugar da Eira – agora igreja de Santa Rita –, outra, comum aos dois lugares de Cavaleiro-Alvo, e, além de sobreviver no imaginário das populações dos lugares de Lobiô e de Cavaleiro-Alvo, vizinhos, mas de freguesias diferentes, traduz-se, anualmente, na gentileza dos moradores de Cavaleiro-Alvo, que levam a procissão da festa de S. Paio, realizada no primeiro domingo de Julho, até ao cruzeiro, donde se avista o lugar de Lobiô, situado na encosta fronteira, e ali aguardam, enquanto os moradores de Lobiô correspondem e agradecem a visita do Santo protector, com uma sessão de fogo, em sua honra, custeada por todos os habitantes”. 

Seguramente, o lugar de Lobiô é habitado desde tempos muito antigos. Sabemos com segurança que o povoado é, desde relativamente extenso, pelo menos desde o século XVII.  

Lobiô é referido nas Memórias Paroquiais de 1758 no rol dos lugares povoados. Podemos inclusivamente afirmar que teria dos povoados mais extensos da freguesia de Rouças, de acordo com a contagem de batismos e óbitos para os períodos analisados. Podemos ter uma ideia da dimensão do universo populacional de Lobiô ao longo dos últimos séculos na tabela seguinte: 

 


Por volta de 1885, passou no lugar de Cabana, desta mesma freguesia, o autor do célebre livro “O Minho Pittoresco”, José Augusto Vieira, deixando breve nota, na sua obra, de quando avistou este lugar de Lobiô: “Passamos em Cabana e vemos na baixa as pastagens de Lobiô, dum verde esmeralda macio e tenro.  

Estes lugares pertencem a ROUSSAS, cuja paroquial igreja nos fica à direita.” (VIEIRA, 1886). 


Fontes consultadas:

MARQUES, José (2012) – O culto de S. Paio em Portugal e em Melgaço. In: Jornal “A Voz de Melgaço; Edição de 1 de Junho de 2012.


MARQUES, José (2018) - De Rompecilha para Rouças - 1362. In: Jornal “A Voz de Melgaço; Edição de 1 de Março de 2018.


MARQUES, José (2019) – Origem da nova capela de São Paio – depois Santa Rita – em Rouças. In: Jornal “A Voz de Melgaço; Edição de 1 de Março de 2019.


VIEIRA, José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco, Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.