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terça-feira, 17 de março de 2020

Reportagem da RTP em Castro Laboreiro (1995)



Recuamos 25 anos. Recordamos uma reportagem da rubrica "Crónica Portuguesa" da RTP (1995) em Castro Laboreiro, onde muitos castrejos ainda viviam entre as brandas e inverneiras, onde se protegiam dos rigores do inverno. Nesta reportagem, o antigo pároco de Castro Laboreiro fala-nos do modo de vida em terras castrejas e do relacionamento entre camarros e gorrions...

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Castro Laboreiro, 2ª metade do séc. XIX - Entre as Brandas e as Inverneiras



O escritor Alfredo Campos, algures na segunda metade do século XIX testemunhou o modo de vida das gentes de Castro Laboreiro e observou como os castrejos passavam parte do ano numa casa e depois passavam a outra parte do ano numa outra habitação. Então conta-nos que uma das casas assenta nalgum lugar da região de Castro Laboreiro, e é nela que o castrejo e sua família vivem os nove meses das estações da Primavera, Verão e Outono, lugares a que dão os nomes de brandas. A outra é situada para o lado dos Arcos de Vale de Vez, num vale profundo, denominado as inverneiras, e é ali que ele passa a estação rigorosa. Foge deste modo à aspereza do Inverno, procurando esse clima mais temperado pela situação, dias mais amenos e temperatura mais regular. Deste sistema de vida resulta que, sobretudo, nos meses de Novembro, Dezembro e Janeiro, o forasteiro que percorrer os lugares de Castro Laboreiro, encontrará a maior parte das habitações e propriedades fechadas e desertas, parecendo que aquela região foi abandonada por efeito de uma força qualquer superior. A mudança para as inverneiras opera-se, pouco mais ou menos, depois de meio de Novembro, e há para isto um dia determinado ou combinado, porque nesse é que emigram quase todos os que deixam a montanha pelo vale. 
Conta-nos também que "Eu assisti em Castro Laboreiro, ponto forçado para o termo das inverneiras, à passagem da extensa caravana. Parecia-me aquilo um longo comboio de viveres e materiais, em tempo de guerra. Estava nevoento o dia, e havia pronúncios de que, uma vez abertas as cataratas do céu, a chuva seria abundante, copiosa e fria. Logo ao romper da madrugada começou a passar a extensa fila de carros de bois, chiadores, vagarosos, monótonos, balanceando-se, segundo as depressões do caminho, conduzindo ao mesmo tempo a família, homens, mulheres, crianças, cães, gatos, galinhas, caixas de pau com presunto, todos os acessórios enfim, indispensáveis para o estabelecimento nas inverneiras, e muito semelhantemente ao que praticam muitas famílias do Minho, quando partem para o mar, a uso de banhos. Era curioso e digno de ver-se aquele espectáculo original, que durava desde manhã até ás duas ou três horas da tarde. Não sei porquê, mas tudo aquilo me produzia uma certa tristeza, que eu atribuo, sem duvida, à ideia de que, tendo de demorar-me, ia ficar só em Castro Laboreiro - ou pelo menos quase só. Com efeito, nas minhas excursões posteriores à partida para as inverneiras, tive ocasião de reconhecer, não só quanto tinha de natural o meu sentimento, mas quanto era justificada aquela emigração da montanha, a que poucos podiam resistir – por diferentes circunstâncias. Os povoados tornam-se desertos, é certo, semelham-se a lugares por onde passou o archanjodos flagelos, pondo tudo em fuga e deixando tudo envolto num céu de extrema melancolia. Mas o rigor do Inverno que nada deixa fazer, a neve, que chega em certas ocasiões a ter a altura de meio metro, a intercessão dos caminhos, as dificuldades nas comunicações, e muitas outras circunstâncias de igual peso e não menor grandeza, justificam muito bem a mudança daqueles montanheses, que, pela maior parte, nem vinho provam! Há povoados e lugares de vinte a vinte e cinco proprietários, em que, quando muito, só ficam três, como vigiando e fiscalizando os seus haveres e os dos emigrantes também. Nestas ocasiões, a gente percorre um, e outro, e outro ponto, sem encontrar uma única pessoa! Um deserto, com toda a sua cor sombria o seu triste desolamento! Parece que a vida humana, do mesmo modo que a vida da vegetação, pára, tornando o quadro tristemente impressionador. E no entretanto a neve vai caindo em cada dia, sobrepondo camada sobre camada, o frio redobra de intensidade, os dias tornam-se diminutos, as noites mais que muito longas, e, em vez dos latidos dos cães que guardavam o gado, dos pios dos passaritos, das vozes mais ou menos alegres da natureza, apenas se ouve, de dia, o estampido das cachoeiras que descem da montanha em ondulações tortuosas e irregulares, e de noite, os uivos dos lobos famintos, que se aventuram até ás portas das cabanas, procurando assim a preza apetecida!”

sábado, 29 de junho de 2013

Os castrejos e os lordes ingleses (2ª metade do século XIX)

Castrejas



  • Alfredo Campos, escritor (1847 - 1906), dizia, na segunda metade do século XIX, acerca de Castro Laboreiro e dos castrejos:

  • “Em Castro Laboreiro, todo o proprietário, por muito diminuto que seja o seu património, tem, como qualquer lord inglez, duas habitações – uma de verão e outra de Inverno.
  • A primeira assenta nalgum lugar da região de Castro Laboreiro, e é n’ella que o montanhez e sua família vivem os nove mezes das estações da primavera, verão e outomno; a segunda é situada para o lado dos arcos de Vale de Vez, n’um valle profundo, denominado as hinverneiras, e é ali que elle passa a estação rigorosa. Foge d’este modo à aspereza do Inverno, procurando esse clima mais temperado pela situação, dias mais amenos e temperatura mais regular.
  • D’este systema de vida resulta que, sobretudo, nos mezes de Novembro, Dezembro e janeiro, o forasteiro que percorrer os lugares de Castro laboreiro, encontrará a maior parte das habitações e propriedades fechadas e desertas, parecendo que aquella região foi abandonada por effeito de uma força qualquer superior.”

Extraído de: http://www.castrolaboreiro.com/a-aldeia-de-castro-laboreiro/