Recuamos 25 anos. Recordamos uma reportagem da rubrica "Crónica Portuguesa" da RTP (1995) em Castro Laboreiro, onde muitos castrejos ainda viviam entre as brandas e inverneiras, onde se protegiam dos rigores do inverno. Nesta reportagem, o antigo pároco de Castro Laboreiro fala-nos do modo de vida em terras castrejas e do relacionamento entre camarros e gorrions...
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terça-feira, 17 de março de 2020
Reportagem da RTP em Castro Laboreiro (1995)
Recuamos 25 anos. Recordamos uma reportagem da rubrica "Crónica Portuguesa" da RTP (1995) em Castro Laboreiro, onde muitos castrejos ainda viviam entre as brandas e inverneiras, onde se protegiam dos rigores do inverno. Nesta reportagem, o antigo pároco de Castro Laboreiro fala-nos do modo de vida em terras castrejas e do relacionamento entre camarros e gorrions...
sábado, 7 de março de 2020
O Padre Aníbal Rodrigues e a restauração do Pelourinho de Castro Laboreiro
Castro
Laboreiro deve muito ao saudoso Padre Aníbal Rodrigues. Uma das
dívidas ao seu antigo pároco prende-se com a recuperação do seu
histórico pelourinho, desaparecido desde 1860 e restaurado mais de
um século mais tarde.
O
pelourinho de Castro Laboreiro data de 1560 e foi desmontado três
séculos mais tarde para permitir a construção da chamada "Casa
Grande” tendo as suas peças sido levadas para diversos pontos da
vila castreja. Em 1917, o Major Fernando Barreiros, de visita a
Castro Laboreiro, é informado sobre o paradeiro de algumas peças e
de como ele era, levando-o a elaborar um desenho reconstitutivo.
Durante
décadas, o incansável Padre Aníbal investigou o paradeiro das
restantes peças e moveu montanhas para que o histórico monumento
reaparecesse na vila castreja. Escreveu cartas para o Ministro das
Obras Públicas como esta de 1970 onde pede ao governante a
restauração do pelourinho com medo que o mesmo se perca para
sempre:
“Castro
Laboreiro, 16 de Julho de 1970
Ex.mo
Senhor Ministro das Obras Públicas e Comunicações
Lisboa
Excelência:
Apresentando
a V.ª Ex.ª os meus respeitosos cumprimentos, venho por este meio
dirigir-me a V.ª Ex.ª a fim de lhe expor o seguinte: – Em 27 de
Maio do corrente ano pedi a V.ª Ex.ª a restauração do Peloirinho
de Castro Laboreiro com o objectivo principal de evitar a sua
destruição, quer pela acção corrosiva do tempo, quer pela maldade
dos homens. Sei perfeitamente que este problema devia ser posto a V.ª
Ex.ª não por mim, que sou pároco, mas sim pelas entidades civis,
isto é, pela Junta de freguesia de Castro Laboreiro ou pela Câmara
Municipal de Melgaço. Nem sempre infelizmente estas entidades têm
pessoas com preparação cultural e patriótica para se interessarem
pela solução racional deste problemas de arte e de um valor
histórico extraordinário, como é o Peloirinho de Castro Laboreiro,
cuja data de construção e existência é do ano de 1560. Foi
declarado Monumento Nacional e criada a respectiva zona de protecção
pela portaria publicada no Diário do Governo, série 2, n.º 231,
páginas 8363, de 2/10 de 1959. Apesar de todo o meu interesse na
restauração condigna de tão valioso Monumento Nacional, que marca
o apogeu da grandeza da antiga Vila de Castro Laboreiro e bem assim a
sua hegemonia política e autonomia administrativa, não tive a
subida honra de receber de V.ª Ex.ª uma resposta à minha
exposição, dirigida a V.ª Ex.ª em 27/5/1970, relativamente à
restauração do Peloirinho em referência. Venho pois mais uma vez
solicitar de V.ª Ex.ª todo o interesse e carinho para a boa solução
deste problema que me vem preocupando, há já muito tempo, não só
como filho de Castro Laboreiro e pároco desta freguesia, mas também
como dedicado cultor destas obras de arte, relíquias sagradas do
antigo Município de Castro Laboreiro, que por forma alguma ou
circunstância de qualquer espécie deixarei destruir ou lançar no
olvido, como objecto sem valor. Se à Direcção Geral dos Monumentos
Nacionais não lhe for possível restaurá-lo ou esteja
desinteressada em fazê-lo pelo achar de pouca valia, ficar-lhe-ei
profundamente reconhecido a V.ª Ex.ª, se tiver a amabilidade de me
dizer o que se lhe oferecer a fim de que eu possa tomar as
providências que julgar convenientes para evitar a sua destruição
e levar a efeito a respectiva restauração. Pedindo desculpa desta
minha longa exposição e esperando para ela o melhor acolhimento,
com a máxima consideração subscrevo-me de V.ª Ex.ª at.º Ven.or
grt.º e obg.º
A
Bem da Nação.
[assinatura]
(Padre
Aníbal Rodrigues, pároco de Castro Laboreiro)”
E
teve sucesso...
Em
1979, o Padre Aníbal Rodrigues, conta-nos como, após décadas de
buscas, conseguiu localizar as peças do antigo pelourinho e
conseguiu que o mesmo fosse reconstruído. Num artigo da publicação
“Cadernos Vianenses”, escreve: “(…) Embora Castro
Laboreiro fosse erecta Vila e sede de concelho por foral concedido
por D. Afonso III, em 1271, o que correspondia ao direito de
pelourinho, o actual monumento, desta antiga Vila, data de 1560,
tendo-lhe sido concedido novo foral por D. Manuel I em 1513.
Constituído por três degraus, uma base, fuste, gola e capitel,
rematado por pequena pirâmide, presidiu aos destinos desta região
desde 1560 a 1860, data na qual foi apeado do seu legítimo lugar e
dispersos todos os seus elementos para naquele local se construir uma
casa particular.
Os
degraus desapareceram para sempre, não havendo possibilidade da sua
recuperação. A base consegui descobri-la a fazer parte do muro de
um quinteiro.
![]() |
| Peças do pelourinho de Castro Laboreiro dispersas por algumas casas e quinteiros da vila (Fotos de 1967) |
O
fuste encontrei-o a servir de lintel ou padieira na chaminé da casa
construída onde ele se encontrava antes de ser destruído.
Preocupado com a sua restauração continuei sempre em investigações
para descobrir o seu capitel. Depois de numerosas pesquisas, fui
encontrá-lo a servir de óculo de luz numa casa em ruínas, a uns
trezentos metros num muro dobrado e de alvenaria irregular.
Facilitou-me o seu reconhecimento o facto de ser trabalhado a pico
fino e de ter a gola circular voltada para fora. Somente em 1978 me
foi possível desmontá-lo do respectivo muro com auxílio dos
pedreiros reconstrutores das muralhas do castelo. Depois do mesmo se
encontrar no solo pude averiguar que era verdadeiramente o capitel do
antigo pelourinho de Castro Laboreiro, pelo facto de na face interior
ostentar uma gola circular com a espessura de 5 centímetros
aproximadamente; e na superior um rebaixe de uns 4 centímetros, onde
poisava a pirâmide que rematava este pelourinho. Não me foi
possível descobrir a pequena pirâmide.
Os
trabalhos de investigação para reunir os três elementos desta
preciosa relíquia do passado, prolongaram-se durante vinte e quatro
anos. Mas como saber o estilo e forma deste pelourinho para a total
identificação dos seus elementos e sua restauração?
Mercê
dos trabalhos de investigação do estudante Soeiro de Carvalho no
Arquivo Distrital de Viana do Castelo, conseguiu descobrir-se um
esboço muito perfeito deste pelourinho, efectuado pelo Sr. Coronel
Fernando Barreiras, em Julho de 1917, data em que fez uma visita de
estudo a Castro Laboreiro; e que servindo-se das preciosas
informações do Castrejo Sr. Melchior Gonçalves, que ajudara a
desmontar e destruir este antigo pelourinho em 1860, conseguiu com
muita precisão representar a lápis este monumento no artístico
esboço de todas as peças constitutivas do mesmo, descrevendo com
bastante aproximação as respectivas medidas de cada um dos seus
elementos (...).
Foi
com esse referido esboço e memória descritiva de todas as peças de
que este monumento constava que consegui levar a Direcção dos
Edifícios e Monumentos Nacionais do Norte a reconhecer como
autênticos todos os elementos descobertos podendo solicitar àquela
entidade a sua imediata restauração.
Quero
manifestar publicamente o meu sincero agradecimento a todos os donos
das propriedades urbanas, onde as peças em referência se
encontravam, pela cedência voluntária das mesmas. Não posso deixar
de expressar, como filho de Castro Laboreiro e humilde estudioso
destes monumentos, raízes desta região, o meu eterno agradecimento
aos meus estimados amigos, Sr. Dr. Oliveira e Silva, digníssimo
Governador Civil de Viana do Castelo; ao Sr. Eng.º José Maria
Moreira da Silva, digníssimo Director do Parque Nacional da
Peneda-Gerês; ao Sr. Arquitecto Roberto Leão, do Planeamento do
Porto; ao Sr. Professor Carlos Alves, digníssimo Presidente da
Câmara Municipal de Melgaço, e ao Sr. Adelino Esteves digníssimo
Presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro, por todo o
auxílio e apoio que tiveram a bondade de me dispensar, patrocinando
uns, a sua imediata restauração; e outros, além do seu contacto
com as entidades responsáveis, a oferta do seu auxílio pecuniário.
Bem hajam por todo o interesse que me concederam. A imediata
restauração de tão belo e histórico monumento será a recompensa
bem merecida de todos estes auxílios e trabalhos a bem da cultura
nacional, que tão precisada anda de trabalhos de tamanha monta.”
domingo, 30 de setembro de 2012
O eterno Padre Aníbal Rodrigues de Castro Laboreiro
Deixo aqui um texto transcrito da edição de Maio de 2003 d' "A Voz de Melgaço". Porque é um bom texto e porque a memória e o legado do Padre Aníbal merece que não esqueçamos...
"Sacerdote exemplar, homem insigne, historiador dedicado e
arqueólogo de valor, tudo isto foi o Pe. Aníbal.

Com o seu desaparecimento, ficamos todos mais pobres.
Resta-nos prestar-Ihe o nosso respeito, a nossa admiração, a nossa homenagem
pela obra magnífica, que realizou como padre e como cidadão, sempre defendendo
os interesses dos seus paroquianos e o progresso da sua "vila de Castro
Laboreiro". Podemos afirmar que na religião também há heroísmo. O Padre
Aníbal foi um herói. Entregou toda a sua vida A causa da Igreja, por ela lutou,
abnegadamente. Percorreu veredas e caminhos para visitar enfermos, para prestar
assistência religiosa aos necessitados aquém e além fronteiras. No dia do
mercado, via-mo-lo, na vila, sempre atarefado, com a pasta pesada na mão, talvez
com documentos para auxiliar algum seu paroquiano com problemas, financeiros,
do tribunal, do fisco, camarários ou outros. Era incansável, recebia a todos
com um sorriso, sem distinções, com simplicidade. Pessoa humilde, estava sempre
pronto em obras de caridade, obras em prol dos mais carenciados, a todos
confortando com palavras de fé e esperança. A sua vida foi de batalhas
sucessivas. Quando começou a paroquiar, Castro Laboreiro era a freguesia mais
esquecida de Melgaço. Faltava-lhe tudo. Com ele conheceu o progresso e hoje tem
orgulho de ser das freguesias do concelho com melhores vias de comunicação,
melhores infra-estruturas e melhor urbanização. Castro é, actualmente, terra de
grande procura por turistas nacionais e estrangeiros. O padre Aníbal é
conhecido internacionalmente. Deixou uma herança, riquíssima, o seu bom nome,
que é preciso saber perpetuar como bom exemplo a seguir, numa época tão pobre
de valores espirituais. Soube ser bom sacerdote, bom samaritano, e como cidadão
soube mover a sua influência, contra as injustiças da sociedade moderna.
O Pe. Aníbal venceu todas as batalhas. E foram muitas.
Recordo aqui uma delas, que se passou comigo, em Castro Laboreiro. Estava eu na
Guarda Fiscal em Melgaço e recebi uma ordem para embargar a instalação da
electricidade portuguesa na Assureira (Azoreira), povoado espanhol, a cerca de
duzentos metros do lugar raiano de Alcobaça, daquela freguesia. Subi a Castro e
disseram-me que o Padre Aníbal tinha pedido à EDP, que andava a electrificar o
lugar de Alcobaça, para por mais uns metros de fio de cobre até a Assureira
(Azoreira), de modo à luz eléctrica, chegar, também ali. A EDP fez a ligação.
Fui à residência paroquial, onde encontrei o Pe. Aníbal já ao corrente da situação.
Logo me tranquilizou, que iria a Viana do Castelo expor o assunto ao Sr.
governador civil e que tudo se arranjaria pelo melhor. Que informasse os meus
comando da iniciativa, que estava a tomar e que aguardasse mais um dia a
solução deste caso, que ele considerava de caridade cristã.
O que é certo é que no dia seguinte, recebi nova ordem
para não interferir na dita electrificação, por as formalidades legais, já,
estarem a ser respeitadas. Não fora a sua pronta intervenção, a Assureira
(Azoreira) não teria electricidade tão cedo. Envolveria os Ministérios dos
Negócios Estrangeiros, de ambos os países, as Alfândegas e a Guarda Fiscal e o
caso arrastar-se-ia por muitos anos, com as burocracias da praxe.
Para terminar e em sua memória, vou transcrever uma
passagem de um seu trabalho literário sobre Castro Laboreiro, onde demonstra o
seu grande amor àquela terra, que o viu nascer:
- "( ... ) Quem numa manhã fresca de Primavera ou
quente de Verão, percorrer a estrada nacional de Melgaço a Castro Laboreiro, observa
paisagens lindas, cheias de beleza e verdura, cobertas de flores de variadas
cores, num anfiteatro de uma indefinida magia. Em cada curva daquela via a
serpentear pela encosta de elevados declives o cambiante das cores, tons e
panoramas vão-se modificando à medida, que nos vamos afastando dos vales
ribeirinhos e nos aproximamos das altitudes serranas (...)”.
In: A Voz de Melgaço, Maio de 2003
Não termino sem deixar um poema da sua autoria dedicado ao Castelo de Castro Laboreiro:
«Castelo, pastor Amigo
Das rezes da velha Grei
Deixa-me falar contigo,
Ouvir coisas que eu não sei.
O teu arnês de guerreiro,
Há quanto tempo o não vejo;
Mudaste-o em pegureiro,
Ou deixaste-o n'algum brejo.
Tua cabeça branquinha,
Parece o lírio do campo,
Inclinada à tardinha
à espera do descanso.
A bela lança d'outrora,
Arrogante e combativa,
Já se oxidou por fora,
Por dentro está combalida.
Teu olhar embaciado,
Quem o há-de conhecer?
Parece o sol nublado,
Pouco antes de morrer.
A tua voz de trovão
Sufocou-se na garganta,
Já não comanda o pelotão,
Não se ouve na Infanta.
A tua face enrugada
Não é dum velho Gigante
Que enfrentou a montanha,
Com aspecto arrogante.
A tua flauta tão linda,
Não se ouve como outrora,
No alto da Cartelinda,
Pelas quebradas em fora,
A chamar as ovelhinas,
Ao sol pôr e vir d'aurora.»
Das rezes da velha Grei
Deixa-me falar contigo,
Ouvir coisas que eu não sei.
O teu arnês de guerreiro,
Há quanto tempo o não vejo;
Mudaste-o em pegureiro,
Ou deixaste-o n'algum brejo.
Tua cabeça branquinha,
Parece o lírio do campo,
Inclinada à tardinha
à espera do descanso.
A bela lança d'outrora,
Arrogante e combativa,
Já se oxidou por fora,
Por dentro está combalida.
Teu olhar embaciado,
Quem o há-de conhecer?
Parece o sol nublado,
Pouco antes de morrer.
A tua voz de trovão
Sufocou-se na garganta,
Já não comanda o pelotão,
Não se ouve na Infanta.
A tua face enrugada
Não é dum velho Gigante
Que enfrentou a montanha,
Com aspecto arrogante.
A tua flauta tão linda,
Não se ouve como outrora,
No alto da Cartelinda,
Pelas quebradas em fora,
A chamar as ovelhinas,
Ao sol pôr e vir d'aurora.»
Pe. Aníbal Rodrigues
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