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terça-feira, 11 de abril de 2023

MELGAÇO, 1947 - O Sporting de Melgaço num jogo de futebol a favor do Hospital da Misericórdia de Melgaço


 

Nos anos quarenta do século passado, existiram em Melgaço, vários clubes de futebol, todos de existência efémera, ou seja, não duraram mais do que alguns anos. Um dos principais era o Sporting Club de Melgaço. 

Se dermos uma vista de olhos nos jornais melgacenses, encontramos algumas notícias sobre essa coletividade, nomeadamente, jogos realizados. Na edição da “Voz de Melgaço” de 1 de Dezembro de 1947, encontramos uma notícia relativa a um jogo de futebol entre o Sporting Club de Melgaço, que recebeu os galegos do Atlético Club de Cortegada, encontro realizado no dia 24 de Novembro. A receita do jogo reverteu a favor do Hospital da Misericórdia de Melgaço. Na dita notícia, podemos ler: 

Numa “partida de amizade”, portugueses e espanhóis, realizaram uma importante partida de futebol, que terminou empatada a 3 bolas 

SPORTING CLUB DE MELGAÇO, 3 - ATLÉTICO CLUB DE CORTEGADA, 3 (Ao primeiro tempo: 1 – 1) 

Em benefício do Hospital da Misericórdia de Melgaço, foi no último domingo realizado no campo do Monte de Prado um desafio entre as primeiras categorias do Sporting Club de Melgaço, que recebeu a visita dum grupo de Espanha, o Atlético Club de Cortegada, da província de Orense, que depois de uma bela luta, terminaram empatado a 3 bolas. 

Começou o encontro. A bola de saída pertenceu aos visitantes que desde logo mostraram serem rápidos e com passes bem feitos. Porém, os leões, atacam e aos 14 minutos, Augusto recebe a bola e sem preparação, dispara um tiro, a qual foi inútil a bela estirada do guarda-redes galego. Os visitantes voltam a dominar e aos 38 minutos veem alcançado o seu êxito. Sanchez, rematou a conta e estabeleceu a igualdade do primeiro tempo. 

Recomeçado o encontro, o domínio volta de novo aos visitantes. Porém, os portugueses insistem e  assim aos 15 desta parte, Bermudes a conta a segunda bola dos leões. Contudo, os galegos voltam à sua toada do jogo rápido e passes largos. Aos 24 minutos, um defesa portuguez concede canto. Suarez encarregado da sua transformação, mete diretamente a bola nas redes, e consegue de novo o empate. 

Agora, o domínio volta para os donos do campo. Aos 36 minutos, Oliveira recebe a bola, dribla três adversários e num estupendo remate, alcança o terceiro tento. Prestes a terminar o encontro, de novo, o domínio é dos visitantes, que assim aos 44 minutos, pelo seu avançado centro Bein, estabelece o empate. Os jogadores do Sporting tentam a vitória mas inutilmente. O árbitro deu por terminada a partida. 

Se não fosse a bela exibição do guarda-redes do grupo português, estes tinham sido batidos. O grupo do Sporting, formou com: Fernando, Moreira e Alberto I, Armindo, A. Esteves e Armando, Alberto II, Augusto, Araújo, Bermudes e Oliveira. Jogadores a salientar e que fizeram um bom jogo: Armindo, A. Esteves, Armando e os interiores. 

Pelos galegos, alinharam: Rizos, Campante e Pror, Cezario, Alfonso e Torrez, Gerónimo, Lito, Bein, Suarez e Sanchez. Destes há que destacar o seu guarda-redes, o médio centro e esquerdo, e o centro avançado. 

A arbitragem foi correcta e excelente. O Sr. Torcato Domingues, agradou plenamente. 

No futebol melgacense, há dois caos para resolver: o primeiro é o campo. Este fica bastante longe, por caminhos que neste tempo, são impróprios pra se passar neles. Segundo consta, o Ex.mo Sr. Provedor do Hospital, Dr. Júlio Esteves, vai mandar construir um campo perto da vila, cujo terreno é do hospital. A ser, que seja o mais breve. 

Vamos ao segundo caso: os jogadores melgacenses não treinam. Vão para o campo e depois acusam destreino e assim não se faz um bom jogo. É preciso notar que a maior parte dos jogadores já vai a caminho dos 30 anos. Para que são os jovens?  

À noite, em sua honra, foi realizado um baile, que decorreu brilhantemente, e pela madrugada os nossos visitantes fizeram a sua retirada, levado de Melgaço, as suas melhores recordações. 

Breve consta o Sporting poder retribuir a visita."

sábado, 25 de abril de 2015

A Revolução dos Cravos noticiada em "A Voz de Melgaço" (1974)



Na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, iniciou-se um golpe militar que viria a ditar o fim do Estado Novo.
Na edição do jornal "A Voz de Melgaço" de 1 de Maio de 1974, podemos ler: "Na madrugada de 25 de Abril, eclodiu uma revolta militar que vingou, nesse mesmo dia, tendo os revoltosos criado a Junta de Salvação Nacional, que ficou assim constituída: capitão de fragata António Rosa Coutinho, capitão de mar e guerra José Batista Pinheiro Azevedo, general Francisco da Costa Gomes,  general António de Spínola, brigadeiro Jaime Silvério Marques, coronel Carlos Calvão de Melo e general Manuel Diogo Neto.
Os componentes da Junta de Salvação Nacional compareceram na Televisão à 1 e 24 do dia 26, e o presidente, general António de Spínola leu a seguinte proclamação ao país:
“Em obediência ao mandato que acaba de lhe ser confiado pelas Forças Armadas, após o triunfo do Movimento em boa hora levado a cabo, pela sobrevivência nacional e pelo bem-estar do povo português, a Junta de Salvação Nacional a que presido, constituído por imperativo de assegurar a ordem e de dirigir o país para a definição e consecução de verdadeiros objetivos nacionais, assume perante o mesmo o compromisso de:
 - Garantir a sobrevivência da nação como pátria soberana no seu todo pluricontinental;
 - Promover desde já a consciencialização dos portugueses permitindo plena expressão a todas as correntes de opinião em ordem a acelerar a constituição das associações cívicas e a polarizar tendências e facilitar a livre eleição, por sufrágio direto, duma assembleia nacional constituinte e a sequente eleição do Presidente da República;
- Garantir a liberdade de expressão e de pensamento;
- Abster-se de qualquer atitude política que possa condicionar a liberdade de eleição e a tarefa da futura assembleia nacional constituinte e, evitar, por todos os meios, que outras forças possam interferir no processo que se deseja eminentemente nacional;
- Pautar a sua ação pelas normas elementares da Moral e da Justiça, assegurando a cada cidadão os direitos fundamentais estauidos em declarações universais e fazer respeitar a paz cívica, limitando o exercício da autoridade à garantia da liberdade dos cidadãos;
- Respeitar os compromissos internacionais decorrentes dos tratados celebrados;
-  Dinamizar as suas tarefas em ordem a que, no mais curto prazo, o país venha a governar-se por instituições de sua livre escolha;

- Devolver o poder às instituições constitucionais logo que o Presidente da República eleito entre no exercício das suas funções.”


Para ver a 1ª Página do jornal "A Voz de Melgaço" de 1 de Maio de 1974, (clique para ampliar) 

Fonte: Jornal "A Voz de Melgaço", edição de 1 de Maio de 1974.

domingo, 30 de setembro de 2012

O eterno Padre Aníbal Rodrigues de Castro Laboreiro


Deixo aqui um texto transcrito da edição de Maio de 2003 d' "A Voz de Melgaço". Porque é um bom texto e porque a memória e o legado do Padre Aníbal merece que não esqueçamos...

"Sacerdote exemplar, homem insigne, historiador dedicado e arqueólogo de valor, tudo isto foi o Pe. Aníbal.
Com o seu desaparecimento, ficamos todos mais pobres. Resta-nos prestar-Ihe o nosso respeito, a nossa admiração, a nossa homenagem pela obra magnífica, que realizou como padre e como cidadão, sempre defendendo os interesses dos seus paroquianos e o progresso da sua "vila de Castro Laboreiro". Podemos afirmar que na religião também há heroísmo. O Padre Aníbal foi um herói. Entregou toda a sua vida A causa da Igreja, por ela lutou, abnegadamente. Percorreu veredas e caminhos para visitar enfermos, para prestar assistência religiosa aos necessitados aquém e além fronteiras. No dia do mercado, via-mo-lo, na vila, sempre atarefado, com a pasta pesada na mão, talvez com documentos para auxiliar algum seu paroquiano com problemas, financeiros, do tribunal, do fisco, camarários ou outros. Era incansável, recebia a todos com um sorriso, sem distinções, com simplicidade. Pessoa humilde, estava sempre pronto em obras de caridade, obras em prol dos mais carenciados, a todos confortando com palavras de fé e esperança. A sua vida foi de batalhas sucessivas. Quando começou a paroquiar, Castro Laboreiro era a freguesia mais esquecida de Melgaço. Faltava-lhe tudo. Com ele conheceu o progresso e hoje tem orgulho de ser das freguesias do concelho com melhores vias de comunicação, melhores infra-estruturas e melhor urbanização. Castro é, actualmente, terra de grande procura por turistas nacionais e estrangeiros. O padre Aníbal é conhecido internacionalmente. Deixou uma herança, riquíssima, o seu bom nome, que é preciso saber perpetuar como bom exemplo a seguir, numa época tão pobre de valores espirituais. Soube ser bom sacerdote, bom samaritano, e como cidadão soube mover a sua influência, contra as injustiças da sociedade moderna.
O Pe. Aníbal venceu todas as batalhas. E foram muitas. Recordo aqui uma delas, que se passou comigo, em Castro Laboreiro. Estava eu na Guarda Fiscal em Melgaço e recebi uma ordem para embargar a instalação da electricidade portuguesa na Assureira (Azoreira), povoado espanhol, a cerca de duzentos metros do lugar raiano de Alcobaça, daquela freguesia. Subi a Castro e disseram-me que o Padre Aníbal tinha pedido à EDP, que andava a electrificar o lugar de Alcobaça, para por mais uns metros de fio de cobre até a Assureira (Azoreira), de modo à luz eléctrica, chegar, também ali. A EDP fez a ligação. Fui à residência paroquial, onde encontrei o Pe. Aníbal já ao corrente da situação. Logo me tranquilizou, que iria a Viana do Castelo expor o assunto ao Sr. governador civil e que tudo se arranjaria pelo melhor. Que informasse os meus comando da iniciativa, que estava a tomar e que aguardasse mais um dia a solução deste caso, que ele considerava de caridade cristã.
O que é certo é que no dia seguinte, recebi nova ordem para não interferir na dita electrificação, por as formalidades legais, já, estarem a ser respeitadas. Não fora a sua pronta intervenção, a Assureira (Azoreira) não teria electricidade tão cedo. Envolveria os Ministérios dos Negócios Estrangeiros, de ambos os países, as Alfândegas e a Guarda Fiscal e o caso arrastar-se-ia por muitos anos, com as burocracias da praxe.
Para terminar e em sua memória, vou transcrever uma passagem de um seu trabalho literário sobre Castro Laboreiro, onde demonstra o seu grande amor àquela terra, que o viu nascer:
- "( ... ) Quem numa manhã fresca de Primavera ou quente de Verão, percorrer a estrada nacional de Melgaço a Castro Laboreiro, observa paisagens lindas, cheias de beleza e verdura, cobertas de flores de variadas cores, num anfiteatro de uma indefinida magia. Em cada curva daquela via a serpentear pela encosta de elevados declives o cambiante das cores, tons e panoramas vão-se modificando à medida, que nos vamos afastando dos vales ribeirinhos e nos aproximamos das altitudes serranas (...)”.


In: A Voz de Melgaço, Maio de 2003



Não termino sem deixar um poema da sua autoria dedicado ao Castelo de Castro Laboreiro:

«Castelo, pastor Amigo
Das rezes da velha Grei
Deixa-me falar contigo,
Ouvir coisas que eu não sei.

O teu arnês de guerreiro,
Há quanto tempo o não vejo;
Mudaste-o em pegureiro,
Ou deixaste-o n'algum brejo.

Tua cabeça branquinha,
Parece o lírio do campo,
Inclinada à tardinha
à espera do descanso.

A bela lança d'outrora,
Arrogante e combativa,
Já se oxidou por fora,
Por dentro está combalida.

Teu olhar embaciado,
Quem o há-de conhecer?
Parece o sol nublado,
Pouco antes de morrer.

A tua voz de trovão
Sufocou-se na garganta,
Já não comanda o pelotão,
Não se ouve na Infanta.

A tua face enrugada
Não é dum velho Gigante
Que enfrentou a montanha,
Com aspecto arrogante.

A tua flauta tão linda,
Não se ouve como outrora,
No alto da Cartelinda,
Pelas quebradas em fora,
A chamar as ovelhinas,
Ao sol pôr e vir d'aurora.»

Pe. Aníbal Rodrigues