Estamos em 1881, no último quarto do século XIX. Melgaço atravessava uma grave e longa crise que flagelou o concelho durante a quase totalidade dessa centúria. Para piorar o já delicado estado de coisas, em 27 de Janeiro desse dito ano de 1881, Melgaço é afetado por um episódio meteorológico extremo devastador e os estragos são imensos. Tal facto é contado, na primeira pessoa, numa notícia do jornal "O Valenciano": "Chegado de Melgaço, vou dar-lhe notícias daquela
vila que parece separada completamente do país e como esquecida. Não faltaram
ali sustos alaridos motivados pelo violento temporal do dia 27 do mês findo
(27/1/1881), das 8 para as 9 da manhã daquele dia. O vento fortíssimo que então
soprava levantou telhados, claraboias, chaminés, quebrando árvores e arrancando
outras; foi pequena a sua duração, de contrário deixaria muitas casas apenas
com as paredes. Em uma janela da casa onde se acha a repartição telégrafo-postal
daquela vila, quebrou vidros e caixilhos, sendo para lamentar que ainda esteja
sem eles e assim continue se o digno director da estação não pedir providências
porque, segundo dizem, o dono do prédio esmera-se tanto com as casas que tem
alugadas como se esmera com a sua; é como aqueles que estragam na farinha e
poupam no farelo. O tempo de rigoroso inverno que ali tem havido, muito tem
prejudicado os povos daquele concelho, que estará dentro em pouco a braços com
a miséria se mão divina não melhorar o tempo e mão humana não puser termo aos
actos de perfeita insensatez praticados pela municipalidade daquele concelho,
que secunda a intempérie do tempo com a rigorosa inflexibilidade com que lhe
exige o que ao tempo consegue escapar. A Câmara Municipal, para que os
habitantes daquele pobríssimo concelho, onde só prospera a calúnia, a vingança
e a miséria, não sintam tanto os males que a maior parte deles sofreram,
exige-lhes mais de quatro contos de réis, derrama de cinquenta por cento! A
medida não é má e pouco incomodativa. A criação de uma barca de passagem no rio
Minho, em frente à estação do caminho-de-ferro (Arbo, Galiza), disso não trata,
porque dá trabalho, e o rendimento da exploração é mais sólido e não fere os
interesses dos compadres. Todos os meios indirectos de aumentar a receita são
postos de parte para só os conseguir directamente, da algibeira dos
contribuintes, que não podem, se não mal, adquirir meios de subsistência. Em
outros concelhos recorre-se sempre, em último caso, àquele extremo e isto é não
só conforme com a justiça como com a lei. Mas a lei suprema daquela corporação
é o querer e poder; aquele meio directo, é o mais produtivo e o menos
incomodativo. Pague o povo e não bufe! Não tenha estradas, nem melhoramentos,
nem regalias algumas das que são concedidas aos outros povos, mas pague, como
eles ou mais do que eles! Melgaço, na escala das povoações, é sem dúvida a
última; conhece a civilização por ouvir falar nela; sabe que há estradas,
caminhos-de-ferro, todos os elementos de prosperidade, enfim, porque o ouve
dizer. Quanto a possuir, nem um desses elementos: ignorante e apática, os seus
deputados, em vez de a ligarem com o resto do país pela civilização e pelo
progresso, ligam-na pelo sofrimento e pelos sacrifícios!”
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
O sonho da luz elétrica em Melgaço há um século atrás
Em
Melgaço, os primeiros acessos à luz elétrica remontam há mais de
um século. Contudo, para a generalidade da população não passava
de um sonho nessa época. O Dr. António Augusto Durães, enquanto
administrador do concelho entre 1913 e 1914, terá sido dos primeiros
a pugnar pela luz elétrica para Melgaço ainda que nunca tenha
conseguido que tal se concretizasse durante o seu mandato.
O
Peso e Castro Laboreiro seriam dos primeiros locais, em Melgaço, a
possuir engenhos de produção de energia elétrica para diferentes
fins em meados da segunda década do século XX. Em terras castrejas,
foi Abílio Alves Carabel o primeiro a ter acesso a energia elétrica
na sua fábrica de chocolate. Até então, as primitivas instalações
que ocupavam parte do edifício em pedra do atual Núcleo Museológico
de Castro Laboreiro, não tinham ao tempo energia elétrica, e o
carvão, a que o pai Domingos Carabel sempre recorrera, onerava os
custos. Abílio Carabel consegue então autorização dos Serviços
Hidráulicos, onde chegou a trabalhar, para um barracão no rio
Laboreiro, e aproveita a força motriz da água para gerar energia
para a sua nova fábrica de chocolate.
No
Peso, em 1913, as termas e os hotéis estão muito concorridos
mas necessitam de se modernizarem. O complexo termal sonha com a luz
elétrica. No jornal "Correio de Melgaço", na sua edição
de 1 de Junho desse mesmo ano de 1913, podemos ler acerca de Cícero
Solheiro que aspirava a instalar no Peso um cinematógrafo para a
projeção de cinema e para isso precisava de energia elétrica: “Há
indivíduos que pela sua ilustração e inteligência se impõem à
nossa consideração e estima; outros, que pelo seu espírito
verdadeiramente regional e empreendedor se impõem à nossa
veneração. Neste caso está (…) Cícero Cândido Solheiro, que
heroicamente trabalha para o engrandecimento material deste concelho,
a quem adora, não se cansando de (…) lhe introduzir os
melhoramentos indispensáveis à vida provinciana. O ano passado
comprou (…) um magnífico camion para transporte de passageiros e
bagagens, de Valença a esta Vila, e vice-versa, melhoramento de
capital importância, já pela rapidez relativa da viagem, já pela
comodidade com que nos transportamos, estradas em fora, numa
distância de 42 kms. A sua actividade, porém, não parou aqui.
Cícero Solheiro, estendendo as suas vistas de águia, reconheceu a
necessidade de mais um camion, para quando houvesse grande movimento
para as Águas do Peso e além disso poder facultar aos (…)
hóspedes anuais digressões cómodas e agradáveis. Efectivamente,
mais um luxuoso e elegante “Berliet” foi adquirido por este nosso
amigo, melhoramento importante para o concelho, extraordinária e
vantajosa comodidade para os seus hóspedes, que se podem transportar
para onde lhes apraza, com a rapidez e conforto indispensáveis. Mas
o Peso, dizia o bom do nosso Cícero, não tem uma única distracção,
onde os aquistas possam relembrar a vida das cidades, onde passem
algumas horas de ócio, despreocupadas e alegres. O Peso não tem
outra distracção que não seja a beleza do nosso solo, tapetado de
verdura e coberto de luxuriante vegetação. Dotar o Peso com luz
eléctrica e um cinematógrafo era a ideia que mais o preocupava e
que pôs imediatamente em execução, mandando-o construir e
aplicar-lhe os mais aperfeiçoados aparelhos que a Companhia
Cinematográfica Portuguesa pode fornecer e com cujo mecanismo
fornecerá, de luz eléctrica, não só o salão cinematográfico,
mas também os hotéis e estância das águas, caso queiram tal
melhoramento, o que é muitíssimo plausível. Para deliciar os
amadores de música adquiriu um lindíssimo e completo piano
eléctrico, que também pode ser manual, ao qual adaptará belas
composições musicais, ficando assim o Peso, até aqui de uma
monotonia aldeã, transformado numa aprazível e encantadora
estância. Sabemos que em 15 de Junho (…) será inaugurado o
cinematógrafo, onde todos iremos, como verdadeiros regionais e
amantes do progresso deste lindo rincão, prestar a nossa homenagem
de consideração, veneração e estima, a esse novo, mas corajoso e
intrépido trabalhador, a quem Melgaço deve todos os melhoramentos
que possui. Mas a nossa veneração aumenta de intensidade ao
lembrarmo-nos que Cícero Solheiro se não fora o grande amor pela
sua terra (…), podia gozar despreocupado e sem canseiras, os seus
avultados rendimentos. Mas não! Cícero Solheiro quer melhorar a sua
terra, por cujo engrandecimento trabalha afanosamente, crendo nós
bem que não haverá nenhum melgacense que ao pronunciar o seu nome
não sinta por ele a veneração devida aos beneméritos da
sociedade. Receba o nosso Cícero os cumprimentos do “Correio de
Melgaço” pelo seu gesto dum verdadeiro patriota, dum sincero e
desprendido regional”.
O
sonho do Sr. Cícero Solheiro apenas se realizou em parte. Para tal,
podemos dar uma leitura no referido jornal “Correio de Melgaço”,
na sua edição de 24 de Agosto de 1913, que nos conta
que “Inaugurou-se ontem, no Peso, com extraordinária
concorrência, este belo salão cinematográfico… É uma bela casa
de recreio, dotada de todos os aperfeiçoamentos modernos e
requisitos indispensáveis a edifícios desta natureza; profusamente
iluminado a luz eléctrica e pintado com muito gosto artístico.
Admira-se ali um magnífico piano-concerto accionado a electricidade,
que também pode ser tocado por qualquer pianista – sensacional
novidade entre nós. Hoje há quatro sessões, que prometem muito,
pela variedade e importância das fitas: às 14, 16, 20 e 22 h, que
corresponderão à carreira de automóveis, entre a Vila e o Peso,
pelo preço de 50 centavos, ida e volta, com direito a uma sessão.
Há sessões todas as noites”.
Contudo,
o complexo termal do Peso apenas iria ter luz elétrica nos espaços
públicos e nos hotéis em 1931. Esse momento marcante é-nos contado
no jornal “Notícias” de Melgaço”, na sua edição de 17
de Maio desse mesmo ano onde nos relata a instalação da
electricidade em vários prédios desta estância: 500 lâmpadas no
Hotéis Rocha, Quinta do Peso e filiais, no Parque e avenidas da
empresa das Águas. Anunciava a inauguração para os primeiros dias
de Junho sendo a energia fornecida pela Companhia do Tambre com sede
na vila de Noia, província da Corunha, Espanha.
Amiudadas
vezes faltava a luz, como refere o correspondente no Peso daquele
jornal: “É raríssima a noite em que nesta localidade se
conserve a luz eléctrica toda a noute sem por vezes se apagar, o que
causa grandes prejuízos não só à casas particulares, como aos
hotéis, casas de pensão e casas comerciais… Assim é que os
hoteleiros e casas de pensão são obrigados a ter em depósito em
sua casa de caixas de velas”.
O
emprego da electricidade possibilitou a que se fizessem no balneário
aplicações de diatermia, para o que foi adquirido um aparelho;
ampliou-se também a secção de banhos carbo-gasosos. O balneário
ficou provido de um serviço completo de banhos de imersão,
carbo-gasosos, duchas escocesas e sub-aquáticas. Em 1935 começou a
direção clínica “a empregar sistematicamente as curvas
glicémicas como meio de investigação dos efeitos das águas na
diabetes”.
“Com
maior frequência o Parque, o Pavilhão das Águas, os salões dos
hoteis se animaram com as galas de iluminações nocturnas, as
harmonias de bandas de música e orquestras, a elegância dos bailes
e a alegria das quermesses. Era a beneficência, o melhor incentivo
das festas, segundo as boas tradições das estâncias portuguesas.
Contribuir para a filial que a Associação Protectora dos Diabéticos
Pobres, em 1931, instalou no Peso, contribuir para o hospital da
Misericórdia de Melgaço, contribuir para os pobres, tornou-se
pretexto para amiudadas festas”.
Em
28 de Agosto de 1932 o “Notícias de Melgaço” descrevia assim a
animação na estância que agora se prolongavam durante o período
noturno até à madrugada: “As 9 horas da manhã deu entrada no
Peso a afamada Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, com um
primoroso passo dóbli e depois de executar várias peças do seu
vasto reportório no Parque do Grande Hotel Ranhada, dirigiu-se para
o parque das Águas, e aí permaneceu até à noite, tendo início
dentro do Pavilhão das Águas e fora, um concorridíssimo baile que
se prolongou até às três horas do dia 29. Durante a tarde houve
jogos variadíssimos e diferentes divertimentos. A ordem era mantida
por uma patrulha de marinheiros fardados e devidamente armados,
comandada pelo Sr. E. P. de Mendonça, que devido à boa educação
de todo o povo que foi assistir a estes festejos, não foi alterada a
ordem da força acima referida”.
Três
dias depois houve, no Peso, um outro baile, “por iniciativa de
alguns hóspedes no Grande Hotel Ranhada e realizou-se a convite,
visto encontrarem-se ali as damas mais distintas não só da vila de
Melgaço como também desta localidade. O baile correu animadíssimo
até às 2 horas da madrugada; foi oferecido às damas à meia noute
um explêndido chá. A música constava de um quarteto composto de
uma concertina, violão, flauta e violino, dirigido pelo Sr. Dinis de
Brito, que fez executar com a inteligência e exactidão inumeráveis
peças do seu grande reportório”.
O
Parque do Grande Hotel do Peso conheceu também noites animadas como
a da ‘Festa da Caridade’ realizada em 17 de Setembro de 1932,
“por iniciativa das Ex.mas Sras. D. Judit Alheas, D. Maria José
Nascimento e D. Sara Brou da Rocha Brito que foi abrilhantada com
Iluminação, Bailes, Quermesses, Barracas de chá e petiscos
nacionais servido por gentis senhoras com trajes a carácter. As
Barracas muito originais e de um fino gosto artístico foram obra do
Ex.mo Sr. Lino do Nascimento tendo como auxiliar o incansável Ex.mo
Sr. Rocha Brito.
Às
vinte e duas horas, entrou com um primoroso passo doble a banda de
Valadares que depois de dar entrada no seu respectivo coreto, ali se
conservou executando inúmeras peças do seu vasto reportório até
às três da madrugada”.
No
concelho de Melgaço, além do Peso, em 1931, foi também montada a
iluminação pública com luz elétrica na vila de Melgaço. Até
esta altura, existia na vila de Melgaço ou em Castro Laboreiro,
iluminação pública fornecida por candeeiros a gás. Para instalar
luz elétrica nas ruas de Melgaço, a Câmara Municipal pediu
autorização, à Secretaria Geral das Finanças, para contrair um
empréstimo de 150 contos para financiar tal operação. Numa missiva
enviada pelo Governador Civil de Viana do Castelo ao Secretário
Geral do Ministério das Finanças em 9 de Janeiro de 1930, podemos
ler:
“Ex.mo
Sr. Secretário Geral do Ministério das Finanças
Tendo
sido autorizado por Sua Ex.a, o Ministro do Interior, um empréstimo
de 150.000$00 a contrair pela Câmara Municipal de Melgaço para a
instalação da iluminação pública na Vila sede de concelho e
encontra-se o respetivo processo nesse Ministério, venho solicitar a
Vossa Ex.a se digne mandar submeter este assunto a despacho com a
urgência que for possível.
Saúde
e Fraternidade.
Viana
do Castelo, 9 de Janeiro de 1930.”
O
empréstimo recebeu o aval do Secretário Geral do Ministério das
Finanças em 22 de Maio de 1930. A iluminação pública seria
inaugurada em 1931. A energia elétrica da rede pública será
assegurada pela empresa espanhola J. Valverde & C.ª. Esta
empresa galega, mais tarde, vai obter da Câmara Municipal a
concessão da exploração da rede elétrica no concelho. A energia
que alimentava esta rede elétrica era proveniente de Espanha através
de uma linha de transporte. A dita empresa manterá esta concessão
até Setembro de 1962, quando a Empresa Hidro-Eléctrica do Coura,
Lda, a empresa já concessionária em quase todo o distrito, assume
essa função.
A
luz elétrica só chegou à última aldeia de Melgaço já no século
XXI.
Fontes
consultadas:
-
Correio de Melgaço, edição de 1 de Junho de 1913;
- Correio
de Melgaço, edição de 24 de Agosto de 1913;
-
FIGUEIRA, João José (2012) - O estado da eletrificação
portuguesa. Dissertação de Doutoramento apresentado à Faculdade de
Letras da UC; Coimbra.
-
Notícias de Melgaço, edição de 17 de Maio de 1931;
- Notícias
de Melgaço, edição de 28 de Agosto de 1932;
-
Carta do Governador Civil de Viana do Castelo ao Secretário Geral
das Finanças.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
A criação do jornal "A Neve" e do "Primavera Sport Club" em Castro Laboreiro há 100 anos atrás
A
Família Carabel, de Castro Laboreiro, era mão para toda a obra.
Fundaram há cerca de 100 anos uma fábrica de chocolate em terras
castrejas. O fabrico de chocolates constituía uma das suas fontes de
rendimento, mas, tinham ainda uma loja aberta, em Castro Laboreiro
onde vendiam tamancos, miudezas e fazendas, e também tratavam de
caixões e funerais. Mais tarde, em 1920, começaram a publicar a
publicar um jornal, chamado “A Neve” e tiveram papel importante
na criação da coletividade castreja “Primavera Sport Club”. No
dito jornal, eram anunciados os seus esmerados chocolates. A
publicidade era também deliciosa nos dizeres: “Quereis um bom
casamento? – Tomai o chocolate da afamada fábrica “Caravelos”
de Castro Laboreiro, que atrai a simpatia”.
O
jornal e o “Primavera Sport Club” surgem já quando a fábrica
estava sob a gerência dos irmãos Abílio e Germano Carabel. Ambos
eram redatores do jornal, e tinham jeito para a escrita. Sobretudo, o
Abílio Alves Carabel. O diretor era um tal Abílio Domingos,
professor primário em Castro Laboreiro, que depois se radicou em
Braga, onde morreu. Seriam os três que financiavam o jornal, mas que
deixou de se publicar, quando Germano Carabel foi dirigir a filial em
Melgaço da Fábrica de Chocolates “Carabel, Sucessores”, antes
de ter viajado para o Brasil, com a mulher e filhos, onde permaneceu
alguns anos para gerir os bens da esposa.
A
criação do jornal “A Neve” teve como uma das principais
finalidades chamar à atenção da Câmara Municipal de Melgaço e
outras instituições para a necessidade de dar atenção a Castro
Laboreiro, nomeadamente à imperativa construção de uma estrada que
ligasse terras castrejas ao resto do país com vista a facilitar a
circulação de pessoas e bens.
A
criação do “Primavera Sport Club” visava fomentar um espaço de
convívio entre os castrejos bem como discussão pela defesa dos
interesse da terra.
Estes
pormenores são-nos contados, na primeira pessoa, num artigo
publicado no jornal “A Neve”, na sua edição de 18 de Novembro
de 1920: “Foi durante a viagem de Melgaço para Castro Laboreiro
que nasceu a ideia da fundação do “Primavera Sport Club” e da
criação do jornal “A Neve”.
Éramos
dois os viajantes ou por outra os caminhantes, pois a pé é que nós
tivemos de transpor essas montanhas que separavam Melgaço de Castro
Laboreiro. Saímos dos “Pereiras”, sito na Calçada, pelas 13
horas, em direção à nossa querida Montanha.
Até
ao cimo da Costa da Rolha, a nossa conversação recaiu sobre
assuntos vários, falando não raras vezes em Amor. A conversa foi
recaindo sobre Castro Laboreiro, nossa terra e digo nossa terra
porque me orgulho de ter nascido nesta terra onde à honradez ainda
se presta subido culto. Já acima de Fiães, diz-me o companheiro:
“Como me sentiria feliz se Castro Laboreiro possuísse um jornal
para defender os seus interesses e um club e aonde todos os
conterrâneos se reunissem divertindo-se e instruindo-se ao mesmo
tempo, incutindo uns nos outros o sagrado dever de pugnar pelos
interesses comuns que são os interesses desta terra que se despe de
todos os objectos para nosso interesse, tratando-nos como mãe.
Estava lançada a ideia. Como eu também ansiava pela prosperidade da
terra que carinhosamente susteve os meus primeiros passos!
Para
a realização dos nossos projectos, faltava-nos apenas realizar um
programa e o apoio dos conterrâneos. A nossa vontade de ferro tudo
conseguiu com muito diminuto espaço. Mas ainda não é tudo! A obra
está em princípio.
Triunfou
dos primeiros obstáculos e agora já não ameaça a morte: contudo é
preciso fortificá-la e fortificá-la-emos, pois agora pois agora é
esse o desejo geral de todos os castrejos sequiosos do Progresso.
Sinto-me
feliz e como eu se sentem todos oso que participaram deste trabalho
coroado de êxito.
Não
adormeçamos, fortifiquemo-nos para nos fazer respeitar.”
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
A excelência do Presunto de Melgaço ao longo dos tempos
Desde
há vários séculos, variadíssimos documentos históricos atestam as
virtudes do famoso Presunto de Melgaço. São destacados ao longo dos tempos aqueles que são feitos em Fiães e em Castro Laboreiro.
Há
cerca de 500 anos, o presunto de Melgaço já fazia parte dos
tributos a pagar ao rei D. Manuel I, conforme refere o foral
manuelino de 3 de Novembro de 1513 o que comprova o seu elevado valor. Neste foral, diz-se que o rei e
seus sucessores deviam receber por casais reguengos dispersos pelas
freguesias de Rouças e Chaviães três presuntos por ano.
Já
nesta altura, se faz referência ao facto de o presunto em Fiães não
se conservar no sal mas sim curado
e fumado.
A comprovar o que se refere, basta aludir ao tal contrato de
arrendamento das rendas do Mosteiro de Fiães, relativas ao ano
económico iniciado no S. João de 1483 e a terminar na véspera da
mesma festa do ano seguinte (1484), feito em 9 de Abril de 1483, pelo
comendatário, D. Frei Justo Baldino, bispo de Ceuta, ao abade de
Rouças, Álvaro Gonçalves, e ao padre Fernando Domingues, ambos
moradores da vila de Melgaço, pelas quais deveriam pagar vinte e um
mil reais brancos da moeda corrente “e mais uma dúzia de marrans
(presuntos)
secas e
curadas e
dezoito lampreas secas”.
No
século XVIII, é a vez do Padre António Carvalho da Costa no seu
livro “Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso
Reyno de Portugal”, publicado em 1706, fazer alusão ao nosso
presunto destacando, quando se refere a Melgaço, que “tem boas e
férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia
[designação antiga para o atual território da freguesia de
Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão
e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por
doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem
sal...”
Temos
ainda dizeres comprovativos da qualidade superior “É
effectivamente a carne mais saborosa de Portugal e o fiambre feito
d’estes presuntos, é óptimo” na A Gazeta de Lisboa, nº 1, de Janeiro de 1824. Aqui publicita-se a venda dos presuntos de Melgaço
em Lisboa “(…) na rua dos Franqueiros, loja de Sola nº 116, há
para venda presuntos de Lamego e Melgaço de superior qualidade (…)”
Lucas
Rigaud, cozinheiro real no tempo da rainha D. Maria I, refere na sua
obra maior “O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinhar”,
publicada em 1826, “(…) os presuntos que nos vem de Lamego,
Montalegre e Melgaço são excelentes (…)”. A monarca terá
provado o Presunto de Fiães (freguesia de Melgaço), do qual terá
dito que “… era um dos melhores manjares até aos dias d’
hoje…”
Na
publicação lisboeta “O Panorama”, em 1841, no seu volume V,
referindo-se à economia doméstica alude a uma “(…) receita para
preparar os presuntos de maneira que sejam iguais aos melhores de
Melgaço ou Lamego (…)”.
Se
consultarmos outros
jornais durante o século XIX, reparamos que o
presunto de Melgaço
também era vendido na cidade do Porto. Por
exemplo, no “Jornal do Porto”, na sua edição de 25 de Dezembro
de 1869 encontramos um anúncio com os seguintes dizeres: “Presuntos
de Melgaço – Próprio para Fiambre. Vendem-se na Travessa da
Picaria, nº 23”.
Desde
tempos recuados que os afamados presuntos de Melgaço atravessavam o
Atlântico rumo ao Brasil. Tal é comprovado no livro “Portugal
Antigo e Moderno”, publicado em 1875, da autoria de Pinho Leal,
quando este refere que “São justamente famosos os presuntos de
Melgaço, e do seu concelho, e se exportam em grande quantidade, para
todo o reino e para o Brasil.
A
comprovar a fama do presunto de Melgaço no Brasil, encontramos, na
publicação brasileira “Jornal do Agricultor”, em 1880, uma
receita de presunto de fiambre. Diz-se na receita, que para obter o
melhor resultado, devia-se utilizar presunto de Melgaço ou de origem
galega acrescentando que ”devem-se preferir destas
procedências
porque não precisam ser demolhados, nem de temperos para ficarem
gostosos”.
Ainda
no século XIX, é o grande Ramalho Ortigão que faz alusão ao
precioso manjar melgacense no seu livro “As
Praias de Portugal”, publicado em 1876. Quando nos fala de um hotel
em Vila do Conde, conta-nos que “o proprietário distrae a attenção
dos forasteiros (…) servindo-lhe magnífico vinho verde, admiráveis
presuntos de Melgaço, de primeira ordem,...”
O
mesmo
Ramalho Ortigão, no
seu livro “As
Farpas” (1882), escreve
que
“Todas as especialidades culinárias se anunciam em grandes doses:
os paios de Castelo de Vide, os presuntos de Melgaço (…)”. Neste
mesmo ano, um outro escritor, João Penha, na sua obra “Rimas”
faz um canto aos presuntos de Melgaço. O mesmo autor em 1893, dedica
novamente ao presunto melgacense um soneto no livro "Poetas
Minhotos".
Em
1886, José Augusto Vieira na obra “O Minho Pitoresco” escreve “O
Presunto de Melgaço! Que epopeia seria necessária para
descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor
rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra (...) o Presunto de
Melgaço, conhecido em todo o país é por assim dizer a syntese da
phisiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem
oxygenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno
destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de
ser entre estes vulgar a phrase de: - Ter a cara do Presunto de
Melgaço - quando se falla de alguém com as boas cores de saúde (…)
Apesar, porém, de todas as tuas deliciosas qualidades, ó apetitoso
quadril suíno, força é esquecer-te, como a todas as cousas boas ou
más d’este mundo(…)”.
No
mesmo livro, o autor acrescenta “O presunto, aquele magnífico
Presunto de Melgaço, cujas deliciosas qualidades te descrevi, leitor
amigo, é especialmente curado em Fiães, onde o preparam sem sal,
receita talvez d’algum monge epicurista...” De facto, o presunto
fazia parte de um conjunto de produtos de fabrico doméstico que
funcionavam como reserva alimentar e também como moeda de troca nas
trocas comerciais. Já nos séculos passados, Melgaço mantinha uma
relação muito estreita com a Galiza. José Augusto Vieira em 1886
dizia nas suas referências relativamente ao Presunto de Melgaço
“(...) fazendo-se bastantes transacções com a Galiza, e
exportando para todo o país os célebres presuntos e para os
concelhos próximos algum vinho, lãs, cereais e castanha”.
Na
viragem do século XIX para o século XX, a excelência do presunto
de Melgaço mantém-se bem visível. Atentemos nesta notícia datada
de 4 de Março de 1900 no jornal brasileiro “A Imprensa” onde se
fala
da presença do presunto de Melgaço na Exposição Universal de
Paris. Na notícia, pode ler-se que ”O proprietário do Hotel
Continental de Vigo e do Hotel Rio Minho, em Valença, pensa, de
sociedade com um dos principais vinicultores e proprietários de
Monsão, em instalarem restaurante durante a Exposição de Pariz, e
no local onde já se encontra outras casas do género de differentes
paízes, e onde serão servidas comidas minhotas, ou por outra,
cosinhados minhotos, onde não faltará o presunto de Melgaço...”
Na
década de 30 do século passado, a fama mantém-se como se atesta na
referência no Anuário do Distrito de Viana do Castelo, Vol. I, em
1932 onde se pode ler relativamente ao concelho de Melgaço: “São
afamados os presuntos, conhecidos no mercado sob a designação de
Presunto de Melgaço”.
Em
tempos menos recuados, continuamos a encontrar os merecidos elogios
ao Presunto de Melgaço. Na publicação “Vida Mundial”, na sua
edição de 20 de Maio de 1976, num
artigo intitulado “Gastronomia Portuguesa” destaca
de entre a gastronomia das várias regiões portuguesa, que “as
carnes do Norte são magníficas, e por isso os enchidos são
maravilhosas criações culinárias. O seu presunto de Melgaço, de
Chaves e Montalegre, o seu salpicão e o seu fiambre, (...) são um
prato digno dos deuses”.
Podíamos
aqui colocar muitas mais referências que podemos encontrar em outros
documentos em diversas épocas históricas. Os tempos mudaram ao
longo dos séculos mas a sabedoria da saber produzir presuntos de
excelência mantém-se intacta. Recentemente, estabelecimentos de
restauração em Melgaço começaram a fazer constar nos seus menus a
famosa e antiga receita dos
“Bifes de Presunto de Melgaço”. Uma atitude inteligente, quanto
a mim, já que, além de se contribuir para que não se perca esta
receita ancestral, é um prato confecionado com um produto distintivo
da nossa terra.
Fontes
consultadas:
-
“A
Imprensa” , edição de 4 de Março de 1900;
-
Anuário
do Distrito de Viana do Castelo (1932), Vol. I, 1932, Empresa
Gráfica do Notícias de Viana, Viana do Castelo;
-
COSTA,
Padre António Carvalho da (1706) - Corografia Portuguesa, tomo I,
Valentim da Costa Deslandes, Lisboa;
-
COSTA,
Padre António Carvalho da (1868) - Corografia Portuguesa 2.ª Ed.,
tomo I, Typografia de Domingos Gonçalves Gouvea, offerecido A El Rey
D. Pedro II;
-
“Gazeta de Lisboa”, n.º 1, Janeiro
de 1824, Lisboa;
-
“Jornal do
Agricultor”, edição de 3 de Março de 1880;
-
“Jornal
do Porto”, edição de 25 de Dezembro de 1869;
-
LEAL,
Augusto de Pinho (1875), Portugal Antigo e Moderno, Livraria
Editora de Mattos & Companhia, Lisboa;
-
MARQUES,
José (1996) – Em torno do termo marrã. Revista da Faculdade de
Letras da Universidade do Porto - História, Porto.
-
ORTIGÃO, Ramalho (1876) – As Praias em Portugal. Magalhães
& Moniz Editores; Livraria Universal, Porto.
-
ORTIGÃO,
Ramalho (1882)
- As Farpas – o país e a sociedade Portuguesa, Tomo V, Livraria
Clássica Editora, Lisboa;
-
“O Panorama” (1841), Vol. V, Typografia da Sociedade, Lisboa;
-
PENHA,
João (1882) - Rimas, Avelino Fernandes e Cª Editores, Lisboa;
-
RIGAUD,
Lucas (1826) - O Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de cozinhar. 5.ª
edição, Typografia Lacerda, Lisboa;
-
“Vida
Mundial”, edição de 20 de Maio de 1976;
-
VIEIRA,
José Augusto (1886) - O Minho Pittoresco,
Tomo I, Livraria de António Maria Pereira-Editor, Lisboa.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
Viagem à Capela da Senhora da Orada (Melgaço) em fotos de antigamente
A
capela da Nossa Senhora da Orada é um importante marco da
arquitetura religiosa medieval de Melgaço e de todo o Alto Minho.
Trata-se de um templo outrora associado a lendas e romarias que
remontam a vários séculos atrás aos tempos da peste. Acerca desta
capela, José Saramago, Nobel da Literatura, escreveu no seu livro
Viagem a Portugal: “Logo
adiante de Melgaço está a Nossa Senhora da Orada. Fica à beira do
caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa
e desatento, passa por ela, e ai minha Nossa Senhora, onde estás tu?
Esta igreja está aqui desde 1245, estão feitos, e já muito
ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as
palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjetivos, que são a
peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste
caso. Mas a Igreja da Nossa Senhor da Orada, pequena construção
românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que
as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos,
registos fotográficos que acompanhem o jogo de luz, a câmara de
cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar
o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos,
volutas, é dizer modilhões, tímpanos, aduelas, e isto está sem
dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça,
tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é.
O viajante pergunta aos ares de onde são os álbuns de arte que
mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e de todas as Oradas
que por este país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos
da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir.”
Proponho-vos
uma viagem à Nossa Senhora da Orada pelas fotografias dos últimos
120 anos e um raro desenho da capela com mais de 130 anos. Viaje no
tempo!...
![]() |
| Capela da Orada em 1886 (desenho no livro "O Minho Pittoresco). |
![]() |
| Capela da Orada em 1909 (foto que consta numa reportagem na revista Serões intitulada "A estrada de S. Gregório - A paisagem mais bonita de Portugal). |
![]() |
| Capela da Orada em postal de início do século XX |
![]() |
| Capela da Orada em postal de início do século XX |
![]() |
| Capela da Orada em foto de 1903 (Foto de Aurélio da Paz dos Reis). |
![]() |
| Capela da Orada em 1914 (cliché que Marque de Abreu) |
![]() |
| Capela da Orada em postal de início do século XX |
![]() |
| Capela da Orada em postal do primeiro quarto do século XX |
![]() |
| Capela da Orada em postal da década de 30 do século passado |
![]() |
| Pormenor da Capela da Orada fotografado em 1928 |
![]() |
| Capela da Orada em meados do século XX |
![]() |
| Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais) |
![]() |
| Pormenor do portal lateral da Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais) |
![]() |
| Pórtico Principal da Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais) |
![]() |
| Interior da Capela da Orada em 1954 (foto de Mário Novais) |
![]() |
| Capela da Orada em 1971 (Foto de Severino Costa). |
![]() |
| Portal de entrada da Capela da Orada em 1971 com a Senhora da Orada no exterior. (Foto de Severino Costa). |
![]() |
| Exterior junto à Capela da Orada em 1971 com a Senhora da Orada exposta (foto de Severino Costa) |
![]() |
| Capela da Orada em postal dos anos 70 do século passado |
![]() |
| Capela da Orada em postal dos anos 70 do século passado |
![]() |
| Capela da Orada em postal dos anos 80 do século passado |
![]() |
| Capela da Orada em postal dos anos 70 do século passado |
Subscrever:
Mensagens (Atom)


























