domingo, 17 de maio de 2020

Conhecer um pouco de Melgaço e Castro Laboreiro há 500 anos

Desenho do Castelo de Castro Laboreiro de Duarte de Armas em 1509- visto de Norte


Não são muitas as descrições dos lugares e dos caminhos da nossa terra de há quinhentos anos atrás. Os desenhos das fortalezas de Melgaço e Castro Laboreiro da autoria de Duarte de Armas, feitos em 1509, são alguns dos mais importantes documentos, para conhecermos as respetivas localidades. Na imagem acima, vemos todo o esplendor da velha torre de menagem do castelo de Castro Laboreiro, destruída por um raio no século XVII e que nunca mais seria reconstruida. 
Temos também raras descrições escritas de viagens nessa época como a de Álvaro Vaz, que fez o Numeramento de 1527, que também passou por Melgaço. Muito interessante é aquilo que escreve sobre Castro Laboreiro onde notou que os castrejos “vivem no Verão neste concelho (devia estar a referir-se à vila e lugares próximos) cem moradores porque no Inverno se vão viver fora por ser terra fria. Isto poderá indiciar uma questão: provará que há 500 anos os castrejos já praticariam alternância sazonal entre as brandas e as inverneiras, não sabendo nós quando que é este costume se iniciou. Álvaro Vaz foi a Castro Laboreiro e terá caminhado sem dúvida ao longo do vale do rio Mouro procedente da Ponte do Mouro e anotou ainda acerca de terras castrejas: “Este concelho de Castro Laboreiro é del-Rey Nosso Senhor (…) e tem um castelo sobre uma fraga, ermo, povoado de gralhas (…), no qual concelho não há povoação junta, somente por casais apartados..."

Desenho do Castelo de Castro Laboreiro de Duarte de Armas em 1509 - visto de Sul

O caso da obra de Duarte de Armas, enviado pelo rei para fazer um levantamento das fortalezas ao longo da linha da fronteira com Espanha, reveste-se ainda hoje de extrema importância. O seu legado, quer ao nível dos seus desenhos, quer da sucinta descrição que ele faz da sua viagem, permite-nos conhecer melhor alguns pormenores de Melgaço e Castro LaboreiroEm terras castrejas, Duarte de Armas fez não um, mas dois desenhos do seu castelo e povoação: um visto de norte e outro visto de sul 
Uma das investigadoras que se debruçou sobre o tema das viagens de Duarte de Armas, Álvaro Vaz e outros durante o século XVI, foi a investigadora Suzanne Daveau. No seu trabalho, “Caminhos e Fronteira na serra da Peneda” conta-nos que Além dos desenhos, Duarte de Armas deixou uma sucinta, mas preciosa descrição textual do itinerário que seguiu ao longo da fronteira entre Portugal e Castela, de Castro Marim até Caminha. Na região em estudo, depois de ter visitado e desenhado as fortalezas situadas a leste da Serra do Gerês, onde a fronteira era mal definida (fortalezas de Montalegre, Portelo e Piconha), ele ignorou sem explicação a fortaleza de Lindoso e cortou diretamente através da parte galega do vale do Minho. Atravessando “cinco léguas de serras e muitas ribeiras”, chegou a Castro Laboreiro, onde tirou a planta e duas vistas da fortaleza. A seguir, desceu para Melgaço, que desenhou também. 

Desenho do Castelo de Melgaço de Duarte de Armas em 1509

Dezoito anos mais tarde, outro funcionário foi encarregue pelo Rei de levantar a região, desta vez para descrever não a fronteira mas a implantação e organização administrativa dos moradores. Ao começar o Numeramento de Entre Douro e Minho, em Agosto de 1527, Álvaro Vaz saiu de Ponte da Barca (povoação com 100 moradores) para o concelho de Lindoso. Disse deste que “não tem vila nem lugar junto e tem somente um castelo ermo” e 41 moradores. Se a situação já era a mesma em 1509, como é provável, entende-se porque Duarte de Armas não foi pintar aquele castelo. Álvaro Vaz passou dali para o concelho e montaria do Soajo que “não tem castelo nem vila (…) e não tem lugar junto e vivem por casais apartados (…) 92 moradores”. Verifica-se quanto ao vale português do Lima a montante de Ponte da Barca era então pouco povoado. O concelho de Vale de Vez, que visitou a seguir, “tem somente junta a povoação de Arcos de Vez, em que se fazem as audiências”. A povoação era pequena já que a respetiva freguesia reunia apenas 36 moradores. Mas o conjunto do concelho era bem povoado (1653 moradores), como o era o concelho a seguir visitado, Coyra e Frayam (1067 moradores). 
Dali, Álvaro Vaz foi a Castro Laboreiro, caminhando sem dúvida ao longo do vale do rio Mouro. “Este concelho de Castro Laboreiro é del-Rey Nosso Senhor (…) e tem um castelo sobre uma fraga, ermo, povoado de gralhas (…), no qual concelho não há povoação junta, somente por casais apartados, vivem no Verão neste concelho 100 moradores, porque no Inverno se vão viver fora por ser terra fria”. Voltando a considerar o desenho de Duarte de Armas, parece que o autor á terá visto as gralhas de que irá falar 18 anos depois, e também que este último não considerou “lugar junto” as poucas cabanas agrupadas à volta da pequena igreja. Álvaro Vaz desceu depois até à vila de Melgaço, que é “cercada de muros e torres e tem um castelo com uma torre muito alta e forte (…) e jaz pegada com o rio Minho, quase na raia e vai o rio entre ela e a Galiza”. Havia então na vila 46 moradores, 301 no total no concelho. Ainda que viajando no Verão, este funcionário evitou por completo a travessia de sul para norte do maciço montanhoso, preferindo alongar bastante o percurso. 
Nova descrição itinerário será devida, poucos anos mais parte, ao monge francês Claude de Bronseval, que descreveu o percurso seguido pela comitiva que acompanhou o abade de Claraval na sua inspeção aos mosteiros dependentes da ordem de Cister. Os monges, que viajavam com cavalos próprios, tiveram de visitar, em pleno inverno, três conventos: Ermelo, Fiães e Júnias. 
Em 19 de Janeiro de 1533, chegando de Terras de Bouro, dormiram na Ponte da Barca. No dia seguinte, seguiram para leste, ao longo da margem norte do rio. Depois de uma légua, encontraram o comendatário do mosteiro de Ermelo, que chegava da sua residência, em Vale. Era acompanhado por uma tropa de homens armados. Seguindo um caminho pedregoso e perigoso, penetraram numa região deserta, entre montes escarpados. O mosteiro pareceu-lhe muito pobre e as casas dos camponeses, “tocas de ursos entre penedos”. Tiveram que almoçar ao ar livre, até que a chuva os obrigou a refugiar-se na capela. Discutiram então o caminho a seguir para Fiães, caminho com certeza bem conhecido do comendatário. A rota direta era apenas de 4 léguas (ou seja, cerca de 4 horas, se tivesse sido numa planície), mas atravessava montes escarpados, “frigidíssimos e desertíssimos”, e era considerada pouco segura, por se encontrar no limite entre Portugal e Galiza. Voltam, portanto, para trás e passam a noite em Vale. 
No dia 21, atravessam uma boa ponte para chegar a Arcos. O caminho é fácil, almoçam em Choças, com as provisões dadas pelo comendatário. Trepam até à Portela do Extremo por um caminho sinuoso e descem a seguir para uma região mais plana, entre “montes admiravelmente cultivados”. Na aldeia de Barbeita, um lavrador rico oferece-lhes generosa hospitalidade. No dia seguinte, chegam a uma ponte de pedra, apoiada em dois rochedos e dominando uma profunda e barulhenta torrente. Trata-se evidentemente da famosa Ponte do Mouro. Dali chegam a Melgaço, onde não conseguem comprar nada para comer, e trepam, com grande cansaço para os cavalos, até ao Mosteiro de Fiães, situado numa pequena planura entre montes cultivados. A noite irá ser muito fria, com vento gelado e neve. Bronseval admira-se que um mosteiro possa sobreviver numa região de fronteira, tornada insegura pela total impunidade os malfeitores, que ninguém persegue nem condena. Diz que os habitantes não se atreviam a sair de casa sem levar armas e que todos os viajantes andavam apavorados.  
No dia 26 de Janeiro, depois de subir durante uma hora por um caminho escarpado, andam durante duas léguas num vasto espaço estéril, com tempo horrivelmente chuvoso e frio. Atravessam com dificuldade um rio e uma região deserta, onde o vento sopra com tanta violência que os cavalos tem que lhe virar as costas. Saem afinal da montanha e vão dormir na aldeia galega de Vilarinho. Percorreram apenas quatro léguas em oito horas, sem ter podido parar para a sua pausa habitual ao meio dia. Não é difícil reconstituir o seu caminho através do alto planalto que domina a leste Castro Laboreiro, a mais de 1300 metros de altitude. O facto de não ter parado aí ao meio dia com firma o que Álvaro Vaz escreveu seis anos antes. Castro Laboreiro estava deserto porque os habitantes abandonavam então a montanha durante o Inverno. Mas o tráfego através da montanha não era interrompido por completo. Não foram apenas os monges estrangeiros que atravessaram a serra. Eles jantaram em Vilarinho com os víveres que o abade de Fiães tinha tido o cuidado de mandar antes, por uma mula carregada de vinho, pão e carne. 
No dia 27, continuando o mau tempo, atravessam os vales do Lima e do Salas, com a ajuda de um guia e utilizando pontes em mau estado. Depois de Requias, trepam até uma alta portela do Gerês e descem a Pitões, onde se abrigam para jantar e dormir uma casa sem chaminé, cheio de fumo. O abade teve ainda força de descer até ao vale, para visitar o mosteiro de Júnias”. 

Fonte consultada: DAVEAU, Suzanne (2003) - Caminhos e fronteira na serra da Peneda - Alguns exemplos no século XV e XVI e na atualidade. In: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Geografia; Volume XIX, Porto.

sábado, 9 de maio de 2020

Sobre a fama das Bandas de Música melgacenses do século XX

Banda de Música de Melgaço


No início do século XX, existiam em Melgaço pelo menos duas bandas filarmónicas ainda fundadas no século XIX. Uma dessas filarmónicas, chegou a atuar para o rei de Espanha em 1904 em Arbo. À parte destas, Melgaço teve durante o século passado duas prestigiadas bandas de música que gozavam de renome na região.
A mais antiga era a Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Melgaço fundada pouco tempo depois da criação da corporação de bombeiros melgacenses em 1927. Teve cerca de duas décadas de vida e seria dissolvida em 1948 e daria mais tarde origem à Banda de Música de Melgaço que seria extinta no final da década de 60 do século passado e da qual ainda uns quantos se lembrarão.

Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Melgaço

Nos tempos tempos áureos da corporação melgacense, quer os Bombeiros Voluntários quer a sua Banda de Música, gozavam de enorme fama. A esse propósito, nos falam os escritos de Aldomar Soares no livro “Padre Júlio apresenta Mário” relativamente à participação da corporação melgacense numa convenção em Valença ainda na década de trinta do século passado: “Haviam-se reunido em Valença, em convenção, representações das corporações de Bombeiros Voluntários de toda a região. A corporação dos Bombeiros de Melgaço, claro que também esteve presente, e com destaque principalmente pela sua famosíssima Banda de Musica. Os Bombeiros de Melgaço, aliás, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, denominação pomposa e bem representativa do carácter daquele povo simples e bondoso, foi fundada em 1927 (...), em condições precárias e material rudimentar, por inspiração do jovem advogado melgacense, Dr. Augusto César Esteves. De quando a ida a Valença tinha o seu quartel instalado no rés-do-chão daquele casarão do Rio do Porto de Cima, na estrada nacional.
Pois os Bombeiros de Melgaço naquela época gozavam de um prestígio jamais alcançado por instituições congéneres na região, quiçá de todo o País. Acontecera do outro lado do Rio Minho, ali na Galiza, bem em frente à Vila de Melgaço o mais trágico e pavoroso acidente de caminho de ferro de que havia noticia. O comboio expresso “Madrid-Vigo” descarrilou num trecho bem perto do rio que naquela época corria bem cheio e caudaloso.”
Da ida a terras valencianas e da participação da Banda de Música dos Bombeiros de Melgaço nessa tal Convenção em Valença, fala-nos com mais pormenor, Manuel Félix Igrejas, num texto publicado na “Voz de Melgaço” onde nos conta que: “Pois, foi ainda à sombra dos lauréis daquele acontecimento glorioso para os Bombeiros de Melgaço ocorrido seis anos antes, que a corporação melgacense se apresentou na Convenção na Vila de Valença. Era um domingo frio e chuvoso, clareava o dia. Os briosos Bombeiros vinham chegando impecavelmente vestidos com seu fardamento de cotim cinzento, bem lavado e passado, o dolman apertado até ao pescoço com botões de metal dourado, sapatos pretos engraxados. No quartel apanhavam os cinturões com as machadinhas, e o capacete. Como eram bonitos aqueles capacetes de metal dourado, reluzentes, com o emblema da corporação encimado por uma águia também em metal sobreposto na frente. Do capacete descia um cordão vermelho de veludo que ia até ao cinturão. Também da platina do ombro até ao bolso do peito pendia um cordão vermelho em curva sobre o peito, e para completar a gala do fardamento luvas brancas. Que maravilha! A Banda de música com a mesma galhardia no vestir, em vez de capacetes usavam bonés. Foram em duas camionetes da carreira. Naquela época ainda não tinham o famoso carro da bomba, jóia de artesanato, por eles construído em cima do chassis do Buick modelo 1928, que o Simão Araújo doara; mas isso é outra história.
Na caravana para Valença, o Manelzinho do Augusto do Félix também foi. Disseram que era o mascote, o Lucas, o cunhado, era um dos comandantes e o Gú, o irmão, era um dos briosos bombeiros. O mascote deu-se mal na viagem; como sempre acontecia quando para mais longe ia de carro. Enjoou e vomitou várias vezes. Chegados a Valença, o Manel para se refazer das agruras da viagem ficou na casa da irmã Graziela, só à noite foi ao concerto musical. Ficou o dia todo brincando com o Manel da Graziela, quase da mesma idade, filho adoptivo e por isso sobrinho postiço do Manelzinho. Também… choveu o dia todo. A Graziela morava já algum tempo em Valença, talvez desde o casamento. Sendo uma vila de fronteira com ponte internacional de carros e caminho de ferro, era intenso o tráfego entre Valençe e Tui, Vigo e outras cidades da Galiza. A Espanha estava numa fase de “vacas gordas”. O Sabariz, marido da Graziela, era o chofer e havia convencido o sogro, o Augusto do Félix, a conseguir dinheiro emprestado para comprar um automóvel que ele iria explorar na praça de Valença que era a mina de ouro da época argumentava. O dinheiro ganho nos fretes iria saldar as parcelas e ainda sobraria muito. Sogro apenas seria o fiador. E assim foi! Não sendo abastado e não tendo outros rendimentos que os do seu trabalho de alfaiate, apenas a sua comprovada honorabilidade lhe bastou para conseguir vinte contos a altos juros, do Zé Borne, um dos pioneiros emigrantes na França.
Comprou o Sabariz um Pontiac, novo em folha o mais moderno modelo dos automóveis americanos que existiam e foi radicar-se em Valença. As agonias que o Augusto do Félix passou para pagar as letras do empréstimo, não vêm ao caso, basta dizer que por ter de adiar as parcelas principais, só de juros pagou o dobro do empréstimo. Deixa para lá!... Mas Valença era toda festa naquele domingo chuvoso. Os Bombeiros de Melgaço no desfile e não sei mais o que, não fizeram lá grande figura, mas a Banda de Música, sim senhores, que figuraça. O Mestre Morais não abria mão da disciplina, militar que fora, fazia questão que fosse cumprida nos mínimos detalhes, além da capacidade musical que transmitia aos executantes, autênticos virtuosos. O Mestre Morais além de emérito regente e disciplinador, entre vários instrumentos tocava violino.
Pois a Banda Musical dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, não obstante o mau tempo, à hora marcada, iniciou o desfile atacando um dos seus famosos ordinários. Fizesse calorão ou chovesse picaretas, na hora estipulada fazia-se presente, já fora assim em Braga, noutra memorável participação. À noite, no salão de espectáculos, a Música de Melgaço demonstrou toda a sua classe erudita. Mimoseou a plateia numerosa com um magistral concerto sinfónico onde incluiu a suite do 1812. Essa performance do Mestre Morais e seus pupilos foi aplaudida e comentada nos jornais da região.
O povo de Melgaço mais uma vez ficou orgulhoso e feliz. O tema das conversas durante muito tempo passou a ser a Banda de Música e de uma maneira tão apaixonada que em alguns sujeitos virou fanatismo, como o Flórido que sempre que se emborrachava, e isso acontecia todo o fim de semana, desandava a cantarolar as árias, ordinários, valsas e todo o repertório da Música. E a gente miúda, a canalha, participava do delírio musical regionalista reinante.
O Manelzinho trouxera de Valença uma corneta de lata e um tambor comprados em Vigo. Coisa bonita e de verdade, nunca em Melgaço uma criança da classe dele tivera aquilo. A corneta emitia através de uma palheta bonito som que podia ser modulado com os dedos nos buraquinhos. O tambor, com duas batéculas rufava ou marcava o compasso marcial igual aos soldados. Tão valioso era aquele brinquedo que as pessoas da família não deixavam o rapaz levá-los para a rua. Mas um dia o Manel condicionou a sua ida à horta com a mãe a levar os instrumentos. E levou.
Segundo os escritos e as memórias de alguns, boa parte do prestígio das Bandas de Música melgacenses (a dos Bombeiros e a Banda de Música de Melgaço), devia-se à competência do Mestre Morais, assim conhecido no seu tempo.

Mestre Morais


Do Mestre Morais nos fala o livro “Padre Júlio apresenta Mário” nestes termos: “Conhecido e admirado na nossa terra como «Mestre Morais», Manuel Rodrigues de Morais era um amante da música: aprendeu-a, cultivou-a, amou-a, e deixou discípulos e admiradores.
Nos grandes acontecimentos locais, fossem festivos, fossem lutuosos, estamos a ver a Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, a desfilar garbosa ou em passo cadenciado em marchas fúnebres com que se associava às lágrimas de familiares que choravam os seus, ou dos amigos que sentiam a perda de alguém que estimavam.
Era de porte austero e solene, e sabia ensinar os seus colaboradores musicais.
Mestre Morais deu glória à sua terra e levou o nome de Melgaço a terras longínquas de Portugal.
Manuel Rodrigues de Morais, filho de João Lúcio de Rodrigues de Morais e de Maria Basteiro, nasceu em Golães, Paderne, no ano de 1890.
Até aos 18 anos, frequentou a Casa Maria Pia, em Lisboa, onde aprendeu música e tirou o curso comercial e com essa idade ingressou, voluntário, no Exército, chegando, como músico, ao posto de sargento. Mais tarde foi para a Marinha de Guerra, sendo promovido a 1º sargento.
Quando a marinha homenageou Gago Coutinho e Sacadura Cabral, foi ao Brasil.
Em serviço, esteve, durante alguns anos, em Lourenço Marques e ainda na América do Norte.
Tirou o curso de violino no Conservatório de Música.
Reformou-se e regressou a Melgaço, tendo vivido até à morte no lugar de Bacelos, em Paderne.
Na terra natal, deu à mesma o concurso do seu talento e do seu amor bairrista: refundou, ensaiou, e regeu a Banda dos Bombeiros Voluntários, que tanta glória deu à nossa terra e muito concorreu para a formação musical de verdadeiros artistas.
O resto da vida passou-o na sua casa de Bacelos, onde faleceu a 3 de Maio de 1971, e donde assistiu desgostoso à morte da sua querida Banda, lamentando-se do abandono a que a Direcção dos Bombeiros a votara e, ainda, do desrespeito e da indisciplina de alguns músicos.”
De facto, conforme se refere atrás, a Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, dissolvida por volta de 1948, viria a dar origem à Banda de Música de Melgaço.

Banda de Música de Melgaço

Na foto, a Banda de Música de Melgaço, foi, segundo o blogue “Melgaço do Passado e do Presente”, “criada depois da dissolução da Banda dos Bombeiros Voluntários que se deu em 1948. Inicialmente, era dirigida por Mestre Morais, de Golães (que também dirigira a dos BVM), e depois por José Eugénio Gonçalves Pereira, a banda, apesar de afetada pela emigração crescente, aguentou-se até fins dos anos sessenta. A senhora que se vê na fotografia é a mãe de Amadeu Abílio Lopes que contribuiu pecuniariamente para a aquisição de fardas e instrumentos. Por detrás dela, do lado esquerdo (na foto), encontra-se o Zé Gorro; do lado direito, o Herculano; encostado ao lado direito da porta, o Toneca; e, entre a porta e a janela, agarrado ao caibro, o Zezinho Gorro. Estes quatro músicos faziam, simultaneamente, parte da orquestra "Os Ferreiras".
Quando é que Melgaço voltará a ter uma Banda de Música?
Realisticamente, nos próximos tempos não será certamente...





Fontes consultadas:
- Blogue “Melgaço do Passado e do Presente”;
- Jornal “A Voz de Melgaço”;
- VAZ, Pe. Júlio (1996) – Pe Júlio apresenta Mário, Edição do autor.

sábado, 2 de maio de 2020

Os lugares de Melgaço no mais antigo mapa de Portugal (1560)




O mapa de Portugal mais antigo conhecido até hoje tem quase 500 anos e foi elaborado em 1560. O seu autor é o cartógrafo Fernando Álvares Secco.
Trata-se de um mapa com um grau de pormenor bastante elevado e onde podemos encontrar a representação de diversos lugares e linhas de água. Uma outra particularidade é que o mapa aparece orientado de forma diferente daquela a que estamos habituados a ver. Assim o Oeste aparece posicionado para o topo da página, ou seja, em vez de vermos Portugal continental posicionado “na vertical” com o norte voltado para o topo do mesmo, o território aparece-nos numa posição “horizontal” tal como se pode observar no mapa integral.

Mapa original e integral
" A Descrição atual e precisa de Portugal, antiga Lusitânia"
de Ferando Álvares Secco (1560)
Ficheiro de grande resolução
clique AQUI

No mapa, podemos encontrar assinalados diversos lugares de Melgaço e, além do rio Minho, os traçados dos rios Trancoso e Laboreiro ainda que não se encontrem referidos os seus nomes. O traçado dos dois pequenos rios encontram-se, contudo, desenhado com pouco rigor: Por um lado, o seu traçado é desenhado dentro do território português e não representam a linha de fronteira como seria o correto. Por outro lado, no mapa, o rio Trancoso, à época chamado de Ribeira das Bárzias, é local de desembocadura das águas do rio Laboreiro. Assim, no mapa, o rio Laboreiro em vez de correr em direção ao rio Lima, vai encontrar-se com o Trancoso e as suas águas vão em direção ao rio Minho. Daqui se nota que o autor do mapa não tinha o mínimo conhecimento do terreno da nossa região. No mapa, o rio Laboreiro, além de ser um afluente do Trancoso, é colocado com a nascente na serra do Soajo.
No mapa, aparece traçado também o rio Mouro e representada a Ponte do Mouro. O autor achou importante marcar a localidade onde nasce o dito curso de água, Lamas de Mouro, mas inscreveu-o com a designação de “Mouco” em vez de “Mouro”. Aparentemente, parecem tratar-se de erros de transcrição e não formas arcaicas dos topónimos.
Chamo à atenção que neste mapa, apesar de aparecerem assinalados vários lugares dos, à época, concelhos de Melgaço e Castro Laboreiro, a vila de Melgaço não merece nenhuma referência, ao contrário da vila castreja. Também Paderne ou Fiães não aparecem assinalados. Ao contrário, encontram-se marcados no mapa, próximos do rio Minho, de Oeste para Este, a Várzea (próximo do Peso, à época era freguesia), Remoães (no mapa “Ramoas”), Prado (no mapa “Prados”) e S. Paio.
Curiosamente, S. Paio aparece assinalado de forma errada como situado próximo da margem do Minho, tal como Remoães e Prado. Este erro pode ser explicado da seguinte maneira. Durante séculos, as igrejas de Remoães e Prado eram subordinadas à de S. Paio e por alguma razão o autor foi induzido em erro colocando S. Paio na margem do Minho.
No território do antigo concelho de Castro Laboreiro, além da vila, aparece representada a Branda do Rodeiro. Temos ainda inscrito um lugar designado de “Os Viduais”. Não sabemos se o autor se queria referir ao lugar ao atual lugar do Vido, mesmo sabendo que a localização não é muito rigorosa.
Aparecem ainda inscritos no mapa dois outros locais situados, aparentemente em terras de Castro Laboreiro: “Corvelhe” (local totalmente desconhecido em terras castrejas nunca citado, creio, em documentos antigos). Será algum erro de transcrição e quereria o autor inscrever o lugar da “Corveira” (forma antiga de “Curveira”)?
O mesmo tipo de observação podemos fazer para outro local identificado no mapa como “Carvalher”. Quereria o autor escrever “Carvalheira”, lugar que se desconhece em documentos antigos como topónimo em terras castrejas? Ou estaria a tentar referir-se ao Porto dos Cavaleiros (Cavaleiros), antigo lugar situado entre Castro Laboreiro e Lamas de Mouro? É mais plausível esta segunda hipótese mas não passa de uma conjetura.
Uma última nota para a designação que é dada à unidade de relevo a que pertencem as terras altas de Melgaço. Hoje em dia, damos nomes vários às várias unidades de relevo situadas dentro do atual território de Melgaço tais como a Serra do Laboreiro, Serra da Peneda ou Serra do Pomedelo. Tal como podemos ver neste mapa, todas as terras altas, a sul do rio Minho, dentro dos concelhos (à época) de Melgaço e Castro Laboreiro são designadas como a “SERA (Serra) DA STRICA”. Essa designação é replicada em mapas posteriores durante o século XVII e XVIII.
Parece ser um equívoco do autor. Na atualidade, ainda temos o sítio e localidade de Estrica que fica perto de Sistelo, no vizinho concelho de Arcos de Valdevez. Em mapas do século XVIII e XIX, encontramos a designação da Serra da Estrica atribuída a uma unidade de relevo a sudoeste de Castro Laboreiro e dentro de terra arcuenses. Creio contudo que este nome da serra se encontra em desuso, existindo contudo o lugar de Estrica.
Uma última nota para este mapa que não se pretende criticar com este pequeno apontamento. Temos que ter em conta que estamos em meados do século XVI e elaborar este mapa foi certamente uma tarefa monstruosa. Por isso, é um marco na cartografia em Portugal e é o mais antigo mapa do nosso país até hoje conhecido.
Hoje, a arte da Cartografia é incrivelmente mais fácil com todos os meios que temos ao dispor.
No tempo de Fernando Álvares Secco tudo era diferente.