terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O Padre Raimundo Prieto, de São Paio (Melgaço) - de dirigente da União Nacional à prisão da polícia política.

 



Apenas os mais velhos terão memória do padre Raimundo na freguesia de São Paio e as circunstâncias da parte final da sua vida. Foi ele quem mandou reformar a igreja por volta de 1930 e que deu à mesma a configuração que tem na atualidade. Foi também complexo o seu posicionamento ideológico perante o Estado Novo. Foi dirigente da União Nacional de Melgaço mas também foi preso pela polícia política.

O padre Raimundo Prieto era filho de Francisco Prieto e de Maria Joana Lamosa, oriundos de São Bartolomeu de Lamosa, Galiza. Nasceu na Peneda, Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez em 9 de Agosto de 1878. Antes da viragem do século, já morava com a família em Cousso, neste concelho de Melgaço. Andou no Seminário em Braga e foi ordenado padre em 1901.   

Foi pároco da freguesia de Cousso, passando em 1928 para São Paio, onde foi pároco um pouco mais que uma década. Da sua passagem pela freguesia de São Paio ficou a profunda reforma que realizou ao nível da igreja cujas obras decorreram 1930, conforme data inscrita na parede frontal 

A transformação na igreja foi bastante criticada, tendo sido demolidos os arcos no interior da igreja e que a dividiam em três naves. A este propósito, o padre Bernardo Pintor escreveu "Por acanhada e insuficiente para a vida da paróquia, foi reconstruída pelo falecido P.e Raimundo Prieto, (...) que inconscientemente praticou um crime de lesa-arte, mas teve o bom gosto de conservar um dos pórticos da frente e o melhor de seus altares de estilo renascença.” E acrescenta que Quando se procedeu à inauguração da nova igreja, tive a confiança de dizer ao P.e Raimundo: “julgo que foi mal feito alagar a velha igreja! Ele teve a franqueza de responder: “Não é só você a dizer-me isso, mas agora não tem remédio!”. A igreja, reconstruída em 1930, foi solenemente inaugurada em 20 de setembro de 1931. 

Em termos ideológicos, o Padre Raimundo esteve ligado ao regime do Estado Novo, chegando a desempenhar o cargo da vice-presidência da comissão concelhia da União Nacional de Melgaço. Contudo, na parte final da sua vida chegou a ser preso pela polícia política, a PVDE, e levado para a Delegação do Porto. Fomos vasculhar os registos da polícia política e encontramos a ficha de preso do Padre Raimundo. Segundo o mesmo,  “Preso pelo Posto do Peso em 24 – 06 – 1939, por incubridor, usando de má fé para com todas as autoridades. Arranjando forma de documentar ilegalmente um súbdito espanhol, fugido do seu paiz, conseguindo-lhe um passaporte paraguayano e um bilhete de identidade de nacionalidade portuguesa, recolhendo à cadeia civil daquela comarca (OS – 179). Transferido para a Delegação do Porto em 29 – 06 – 1939 (OS – 184). Restituído à liberdade em 24 – 7 – 1939 (OS – 208)”.

ROCHA (2011) no seu “Dicionário Enciclopédico de Melgaço” alude que o Padre Raimundo também terá albergado em sua casa esse indivíduo que lutara na guerra civil de Espanha contra as forças do Franco ainda que este aspeto não venha descrito do documento transcrito. 

Note-se que entre Salazar e Franco havia um pacto para entregar os opositores aos regimes que fugissem para o outro lado da fronteira. Em Melgaço, foram muitos os espanhóis opositores a Franco que se refugiaram nesta terra, sobretudo em Castro Laboreiro. Uns foram capturados e entregues na fronteira às autoridades espanholas. Outros, como este caso, entrando em Portugal como indocumentados, conseguiam documentos falsos para fugirem de Portugal, neste caso para o Paraguai.

O padre Raimundo apareceu morto no dia 5 de Dezembro de 1939, uma terça feira, na residência paroquial de São Paio. O seu funeral realizou-se no dia sete, dois dias depois da sua morte. Encontra-se sepultado no cemitério de São Paio.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

São Martinho de Alvaredo (Melgaço) - 20 de Outubro de 1939



A igreja de São Martinho de Alvaredo é bastante antiga e resulta provavelmente da reconstrução de um templo primitivo.

Em Outubro de 1939, o telhado da igreja desabou ficando a estrutura bastante afetada. Fomos procurar notícias do sucedido nos jornais melgacenses e no periódico “Notícias de Melgaço”, na sua edição de 23 de Outubro dessa ano, podemos ler: “No dia vinte do corrente, pelas seis horas da manhã, quando o pároco de Alvaredo se dirigia à sua igreja para proceder aos exercícios do Santo Rosário, já se encontrava junto à igreja e verificou que lhe era completamente impossível entrar dentro do templo, visto que naquele momento tinha sido reduzido a escombros. O tecto desabou na sua maior parte; as paredes ficaram muito danificadas, e bem assim alguns altares que também sofreram. A derrocada, na nossa opinião, poder-se-ia ter evitado se os paroquianos de Alvaredo se tivessem guiado pelos conselhos do seu pároco, que muitas vezes os aconselhou que era preciso tratar de evitar o desastre que agora se deu, mas não foi só o reverendo pároco que aconselhou os paroquianos a tratarem da reconstrução daquele templo sagrado, que estava já há muito a ameaçar ruínas, foi também o Notícias de Melgaço que ainda há pouco tempo pediu por caridade aos paroquianos que não deixassem ao abandono a casa de Deus, que fossem mais zelosos, que iniciassem as obras da igreja antes de principiar o Inverno e se assim não fizessem, a derrocada era certa, como aconteceu. E graças a Deus, que foi muito misericordioso, porque se a derrocada se dá pouco depois, os fiéis que estavam a assistir ao Santíssimo Rosário ficariam subterrados nos escombros, mas Deus não quis que houvesse a lamentar tão grande desastre. Agora, segundo nos informam, brevemente vão principiar as obras de reconstrução da casa de Deus.” 

As obras de reconstrução foram concluídas em 5 de Julho de 1942, abrindo de novo as suas portas ao culto em 1943. Numa das paredes exteriores, é possível encontrar a placa comemorativa da obra realizada e o ano em questão.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nos primórdios da freguesia de São Martinho de Alvaredo (Melgaço)

 



Por norma, é frequente afirmarmos que as paróquias mais antigas em Melgaço tiveram os seus primórdios nos séculos XI e XII. Todavia, houve, em tempos muito mais recuados uma paróquia em terras do atual concelho de Melgaço cuja igreja sede se situava no atual lugar de Canda, integrado na atual freguesia de Alvaredo. Da mesma, apenas temos referências documentais da sua existência.

Na realidade, a mais antiga citação a uma paróquia constituída nesta terra remonta ao século VI dC, ao tempo das primeiras comunidades cristãs organizadas na região. Para tal, temos que dar atenção ao importantíssimo cartulário Liber Fidei, que, entre outros manuscritos, contem o designado Parochiale Sueuorum (Paroquial Suevo) ou Divisio Theodemiri (divisão realizada durante o reinado do rei suevo Teodomiro). Este é um importante manuscrito da segunda metade do século VI dC, onde se apresenta a organização administrativa e eclesiástica do Reino suevo da Galécia, obra de S. Martinho de Dume, contendo uma relação das 132 paróquias, agrupadas em treze dioceses. Entre estas, encontra-se descrita a diocese de Tui com as suas paróquias. Integrada na diocese tudense, a única paróquia sita nas atuais terras de Melgaço e que já se encontrava formalmente constituída na época era a paróquia de Canda, que hoje em dia é apenas um lugar da freguesia de Alvaredo. FERNANDES (1997), no seu livro “Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas”, refere-se a esta primitiva paróquia nestes termos “... Canda situa-se abaixo da famosa Cividade de Paderne (assim chamada por ser Paderne a sede de freguesia mais vizinha e não porque haja sido o seu nome), a qual «cividade» é que devia ter sido a civitas Canda. Nesta freguesia de Paderne existiu, desde muito antes da Nacionalidade, a igreja de Santa Maria e S. Salvador - recordando-se na titular a ecclesia mater de Sancta Maria de Canda e, no titular, a respetiva cemiterial. Quanto à ecclesia baptismalis da paroécia, é lembrada, logo ao lado de Canda, em S. João Baptista (Remoães). Também ao lado, o título patronal S. Martinho (Alvaredo) pode ser um eco da Suévia paroecitana, num tal conjunto de concorrências. Assim, o autor considera que existia neste lugar uma «ecclesia mater», ou seja, uma igreja sede de paróquia, muito provavelmente, designada de Santa Maria de Canda. Para além desta importante alusão documental, nada mais sabemos acerca desta paróquia. Temos que ter em conta que no século VIII, se verifica a entrada dos mouros na Península Ibérica e o processo de consolidação dos territórios eclesiásticos fica, naturalmente, interrompido.    

Apenas voltamos a ter referências documentais destas terras no século XII, e já não aludem à paróquia de Canda, mas à freguesia de São Martinho de Alvaredo e ao Couto de São Vicente. Não sabemos se a paróquia de Canda desapareceu durante a ocupação muçulmana da península ou se simplesmente houve, entretanto, uma transferência da sede da antiga paróquia do lugar de Canda para o local onde atualmente se situa a igreja de São Martinho. É preciso termos em conta que temos aqui um largo hiato temporal de cerca de 600 anos entre a referência documental à paróquia de Canda (século VI dC) e a primeira referência a São Martinho de Alvaredo. Durante este período acontece a reconquista cristã e a independência.

Como já referimos no parágrafo anterior, a menção documental mais antiga a esta freguesia de São Martinho de Alvaredo remonta ao século XII, a tempos anteriores à independência de Portugal. Em 13 de Abril de 1118, uma tal Onega Fernandes fez uma doação à Sé de Tui da quarta parte da igreja de São Paio de Paderne, o equivalente da igreja de São Martinho de Valadares e outro tanto da vila chamada de São Vicente e da sua igreja.  Segundo PINTOR (1948), a referida vila e desaparecida freguesia de S. Vicente “...era couto, ou melhor constituída por dois coutos, o do centro paroquial e o do lugar de Vilar. 

Conforme dissemos antes, esta freguesia fazia parte, naquela época, da terra de Valadares. Esta era senhoreada por um tal Soeiro Aires, um dos cavaleiros das lides da Reconquista favorecidos com carta de Couto da povoação de S. Vicente concedida por D. Afonso Henriques. Em contrapartida, este e outros senhores ficavam “responsáveis pela defesa do território contra possíveis invasões do outro lado do rio Minho” (MATTOSO, 1988). Soeiro Aires, nascido por volta de 1140, fidalgo e cavaleiro medieval, tomou parte na batalha de Ourique, ao lado de D. Afonso Henriques e aparece referido em documentação da época como Tenente de Riba Minho em 1173. Surge mencionado nos arquivos da Corte do rei D. Afonso I de Portugal entre os anos de 1169 e de 1179. 

Ainda segundo PINTOR (1948), “as Inquirições [de 1288] mencionam o clérigo Pedro Martins, mas não trazem o nome do pároco. Segundo juramento dos moradores, a localidade [São Vicente] foi coutada por D. Afonso Henriques a D. Soeiro Aires (de Valadares), que havia trocado com o Bispo de Tuy, e estava delimitada por marcos de pedra, de que havia documento, mas que, contudo, não foi mostrado. O padre Bernardo Pintor acrescenta que “o lugar de Vilar também era couto, mas não tinha limites demarcados, nem documentos, nem [os moradores] souberam dizer quem lhe conferiu tal privilégio. Estes dois coutos não satisfaziam quaisquer tributos. Para os leitores que ainda não saibam, devo explicar que coutos eram terra que tinham obtido do Rei, ou por vezes de fidalgos poderosos, certos privilégios relativos a impostos públicos e isenção do fisco real. (…) 

O referido lugar de Vilar devia ser um que existe entre Paderne e Alvaredo, mieiro das duas freguesias. Nas imediações devia ficar a igreja paroquial e povoação de S. Vicente cuja localização ainda não pude averiguar.” (idem) Na atualidade, conservam-se, na toponímia, a herança histórica dessas terras coutadas por D. Afonso Henrique, através dos lugares de S. Vicente e Vilar, este último junto ao limite com o antigo Couto do Convento de Paderne. 

Em 25 de Fevereiro de 1312, D. Dinis anexou a Melgaço toda a terra de Valadares, mediante a renda anual de 300 libras em trocas dos direitos reais que ficavam a reverter para o concelho (PINTOR, 2005). Os moradores do termo de Valadares reclamaram ao rei e este voltou a conceder-lhes autonomia. Foi-lhe dada carta de foral, em Lisboa, a 1 de Julho de 1317 e em 1 de Junho de 1512 recebeu o Foral Novo de D. Manuel I.

Alvaredo manter-se-ia integrado no concelho de Valadares até à extinção deste pelo decreto de 24 de Outubro de 1855. 


Fontes consultadas:

- FERNANDES, A. de Almeida (1997) - Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas. Arouca.

- MATTOSO, José (1988) -Identificação de um País. Composição, Ed. Estampa, Lisboa, 1988, Vol. 2.

- NIZA, Paulo Dias de (1748) - Portugal sacro-profano, ou, Catálogo alfabético de todas as freguezias dos reinos de Portugal, e Algarve… Officina de Miguel Manescal da Costa, Lisboa. - NOÉ, Paula (2003) – Igreja Paroquial de Alvaredo/Igreja de São Martinho. Em linha em http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9021. (Consultado em 24 de Agosto de 2024. - Parochiale sueuum. Itineraria et Alia Geographica. In Corpus christianorum. CLXXV: p, 411-420. Typography Brepols Editores Pontificii, 1965. - PINTOR (1948) – XXIX – Antigas freguesias que desapareceram. In: A Voz de Melgaço, edição de 15 de Agosto de 1948.