sábado, 9 de maio de 2020

Sobre a fama das Bandas de Música melgacenses do século XX

Banda de Música de Melgaço


No início do século XX, existiam em Melgaço pelo menos duas bandas filarmónicas ainda fundadas no século XIX. Uma dessas filarmónicas, chegou a atuar para o rei de Espanha em 1904 em Arbo. À parte destas, Melgaço teve durante o século passado duas prestigiadas bandas de música que gozavam de renome na região.
A mais antiga era a Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Melgaço fundada pouco tempo depois da criação da corporação de bombeiros melgacenses em 1927. Teve cerca de duas décadas de vida e seria dissolvida em 1948 e daria mais tarde origem à Banda de Música de Melgaço que seria extinta no final da década de 60 do século passado e da qual ainda uns quantos se lembrarão.

Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Melgaço

Nos tempos tempos áureos da corporação melgacense, quer os Bombeiros Voluntários quer a sua Banda de Música, gozavam de enorme fama. A esse propósito, nos falam os escritos de Aldomar Soares no livro “Padre Júlio apresenta Mário” relativamente à participação da corporação melgacense numa convenção em Valença ainda na década de trinta do século passado: “Haviam-se reunido em Valença, em convenção, representações das corporações de Bombeiros Voluntários de toda a região. A corporação dos Bombeiros de Melgaço, claro que também esteve presente, e com destaque principalmente pela sua famosíssima Banda de Musica. Os Bombeiros de Melgaço, aliás, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, denominação pomposa e bem representativa do carácter daquele povo simples e bondoso, foi fundada em 1927 (...), em condições precárias e material rudimentar, por inspiração do jovem advogado melgacense, Dr. Augusto César Esteves. De quando a ida a Valença tinha o seu quartel instalado no rés-do-chão daquele casarão do Rio do Porto de Cima, na estrada nacional.
Pois os Bombeiros de Melgaço naquela época gozavam de um prestígio jamais alcançado por instituições congéneres na região, quiçá de todo o País. Acontecera do outro lado do Rio Minho, ali na Galiza, bem em frente à Vila de Melgaço o mais trágico e pavoroso acidente de caminho de ferro de que havia noticia. O comboio expresso “Madrid-Vigo” descarrilou num trecho bem perto do rio que naquela época corria bem cheio e caudaloso.”
Da ida a terras valencianas e da participação da Banda de Música dos Bombeiros de Melgaço nessa tal Convenção em Valença, fala-nos com mais pormenor, Manuel Félix Igrejas, num texto publicado na “Voz de Melgaço” onde nos conta que: “Pois, foi ainda à sombra dos lauréis daquele acontecimento glorioso para os Bombeiros de Melgaço ocorrido seis anos antes, que a corporação melgacense se apresentou na Convenção na Vila de Valença. Era um domingo frio e chuvoso, clareava o dia. Os briosos Bombeiros vinham chegando impecavelmente vestidos com seu fardamento de cotim cinzento, bem lavado e passado, o dolman apertado até ao pescoço com botões de metal dourado, sapatos pretos engraxados. No quartel apanhavam os cinturões com as machadinhas, e o capacete. Como eram bonitos aqueles capacetes de metal dourado, reluzentes, com o emblema da corporação encimado por uma águia também em metal sobreposto na frente. Do capacete descia um cordão vermelho de veludo que ia até ao cinturão. Também da platina do ombro até ao bolso do peito pendia um cordão vermelho em curva sobre o peito, e para completar a gala do fardamento luvas brancas. Que maravilha! A Banda de música com a mesma galhardia no vestir, em vez de capacetes usavam bonés. Foram em duas camionetes da carreira. Naquela época ainda não tinham o famoso carro da bomba, jóia de artesanato, por eles construído em cima do chassis do Buick modelo 1928, que o Simão Araújo doara; mas isso é outra história.
Na caravana para Valença, o Manelzinho do Augusto do Félix também foi. Disseram que era o mascote, o Lucas, o cunhado, era um dos comandantes e o Gú, o irmão, era um dos briosos bombeiros. O mascote deu-se mal na viagem; como sempre acontecia quando para mais longe ia de carro. Enjoou e vomitou várias vezes. Chegados a Valença, o Manel para se refazer das agruras da viagem ficou na casa da irmã Graziela, só à noite foi ao concerto musical. Ficou o dia todo brincando com o Manel da Graziela, quase da mesma idade, filho adoptivo e por isso sobrinho postiço do Manelzinho. Também… choveu o dia todo. A Graziela morava já algum tempo em Valença, talvez desde o casamento. Sendo uma vila de fronteira com ponte internacional de carros e caminho de ferro, era intenso o tráfego entre Valençe e Tui, Vigo e outras cidades da Galiza. A Espanha estava numa fase de “vacas gordas”. O Sabariz, marido da Graziela, era o chofer e havia convencido o sogro, o Augusto do Félix, a conseguir dinheiro emprestado para comprar um automóvel que ele iria explorar na praça de Valença que era a mina de ouro da época argumentava. O dinheiro ganho nos fretes iria saldar as parcelas e ainda sobraria muito. Sogro apenas seria o fiador. E assim foi! Não sendo abastado e não tendo outros rendimentos que os do seu trabalho de alfaiate, apenas a sua comprovada honorabilidade lhe bastou para conseguir vinte contos a altos juros, do Zé Borne, um dos pioneiros emigrantes na França.
Comprou o Sabariz um Pontiac, novo em folha o mais moderno modelo dos automóveis americanos que existiam e foi radicar-se em Valença. As agonias que o Augusto do Félix passou para pagar as letras do empréstimo, não vêm ao caso, basta dizer que por ter de adiar as parcelas principais, só de juros pagou o dobro do empréstimo. Deixa para lá!... Mas Valença era toda festa naquele domingo chuvoso. Os Bombeiros de Melgaço no desfile e não sei mais o que, não fizeram lá grande figura, mas a Banda de Música, sim senhores, que figuraça. O Mestre Morais não abria mão da disciplina, militar que fora, fazia questão que fosse cumprida nos mínimos detalhes, além da capacidade musical que transmitia aos executantes, autênticos virtuosos. O Mestre Morais além de emérito regente e disciplinador, entre vários instrumentos tocava violino.
Pois a Banda Musical dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, não obstante o mau tempo, à hora marcada, iniciou o desfile atacando um dos seus famosos ordinários. Fizesse calorão ou chovesse picaretas, na hora estipulada fazia-se presente, já fora assim em Braga, noutra memorável participação. À noite, no salão de espectáculos, a Música de Melgaço demonstrou toda a sua classe erudita. Mimoseou a plateia numerosa com um magistral concerto sinfónico onde incluiu a suite do 1812. Essa performance do Mestre Morais e seus pupilos foi aplaudida e comentada nos jornais da região.
O povo de Melgaço mais uma vez ficou orgulhoso e feliz. O tema das conversas durante muito tempo passou a ser a Banda de Música e de uma maneira tão apaixonada que em alguns sujeitos virou fanatismo, como o Flórido que sempre que se emborrachava, e isso acontecia todo o fim de semana, desandava a cantarolar as árias, ordinários, valsas e todo o repertório da Música. E a gente miúda, a canalha, participava do delírio musical regionalista reinante.
O Manelzinho trouxera de Valença uma corneta de lata e um tambor comprados em Vigo. Coisa bonita e de verdade, nunca em Melgaço uma criança da classe dele tivera aquilo. A corneta emitia através de uma palheta bonito som que podia ser modulado com os dedos nos buraquinhos. O tambor, com duas batéculas rufava ou marcava o compasso marcial igual aos soldados. Tão valioso era aquele brinquedo que as pessoas da família não deixavam o rapaz levá-los para a rua. Mas um dia o Manel condicionou a sua ida à horta com a mãe a levar os instrumentos. E levou.
Segundo os escritos e as memórias de alguns, boa parte do prestígio das Bandas de Música melgacenses (a dos Bombeiros e a Banda de Música de Melgaço), devia-se à competência do Mestre Morais, assim conhecido no seu tempo.

Mestre Morais


Do Mestre Morais nos fala o livro “Padre Júlio apresenta Mário” nestes termos: “Conhecido e admirado na nossa terra como «Mestre Morais», Manuel Rodrigues de Morais era um amante da música: aprendeu-a, cultivou-a, amou-a, e deixou discípulos e admiradores.
Nos grandes acontecimentos locais, fossem festivos, fossem lutuosos, estamos a ver a Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, a desfilar garbosa ou em passo cadenciado em marchas fúnebres com que se associava às lágrimas de familiares que choravam os seus, ou dos amigos que sentiam a perda de alguém que estimavam.
Era de porte austero e solene, e sabia ensinar os seus colaboradores musicais.
Mestre Morais deu glória à sua terra e levou o nome de Melgaço a terras longínquas de Portugal.
Manuel Rodrigues de Morais, filho de João Lúcio de Rodrigues de Morais e de Maria Basteiro, nasceu em Golães, Paderne, no ano de 1890.
Até aos 18 anos, frequentou a Casa Maria Pia, em Lisboa, onde aprendeu música e tirou o curso comercial e com essa idade ingressou, voluntário, no Exército, chegando, como músico, ao posto de sargento. Mais tarde foi para a Marinha de Guerra, sendo promovido a 1º sargento.
Quando a marinha homenageou Gago Coutinho e Sacadura Cabral, foi ao Brasil.
Em serviço, esteve, durante alguns anos, em Lourenço Marques e ainda na América do Norte.
Tirou o curso de violino no Conservatório de Música.
Reformou-se e regressou a Melgaço, tendo vivido até à morte no lugar de Bacelos, em Paderne.
Na terra natal, deu à mesma o concurso do seu talento e do seu amor bairrista: refundou, ensaiou, e regeu a Banda dos Bombeiros Voluntários, que tanta glória deu à nossa terra e muito concorreu para a formação musical de verdadeiros artistas.
O resto da vida passou-o na sua casa de Bacelos, onde faleceu a 3 de Maio de 1971, e donde assistiu desgostoso à morte da sua querida Banda, lamentando-se do abandono a que a Direcção dos Bombeiros a votara e, ainda, do desrespeito e da indisciplina de alguns músicos.”
De facto, conforme se refere atrás, a Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, dissolvida por volta de 1948, viria a dar origem à Banda de Música de Melgaço.

Banda de Música de Melgaço

Na foto, a Banda de Música de Melgaço, foi, segundo o blogue “Melgaço do Passado e do Presente”, “criada depois da dissolução da Banda dos Bombeiros Voluntários que se deu em 1948. Inicialmente, era dirigida por Mestre Morais, de Golães (que também dirigira a dos BVM), e depois por José Eugénio Gonçalves Pereira, a banda, apesar de afetada pela emigração crescente, aguentou-se até fins dos anos sessenta. A senhora que se vê na fotografia é a mãe de Amadeu Abílio Lopes que contribuiu pecuniariamente para a aquisição de fardas e instrumentos. Por detrás dela, do lado esquerdo (na foto), encontra-se o Zé Gorro; do lado direito, o Herculano; encostado ao lado direito da porta, o Toneca; e, entre a porta e a janela, agarrado ao caibro, o Zezinho Gorro. Estes quatro músicos faziam, simultaneamente, parte da orquestra "Os Ferreiras".
Quando é que Melgaço voltará a ter uma Banda de Música?
Realisticamente, nos próximos tempos não será certamente...





Fontes consultadas:
- Blogue “Melgaço do Passado e do Presente”;
- Jornal “A Voz de Melgaço”;
- VAZ, Pe. Júlio (1996) – Pe Júlio apresenta Mário, Edição do autor.

sábado, 2 de maio de 2020

Os lugares de Melgaço no mais antigo mapa de Portugal (1560)




O mapa de Portugal mais antigo conhecido até hoje tem quase 500 anos e foi elaborado em 1560. O seu autor é o cartógrafo Fernando Álvares Secco.
Trata-se de um mapa com um grau de pormenor bastante elevado e onde podemos encontrar a representação de diversos lugares e linhas de água. Uma outra particularidade é que o mapa aparece orientado de forma diferente daquela a que estamos habituados a ver. Assim o Oeste aparece posicionado para o topo da página, ou seja, em vez de vermos Portugal continental posicionado “na vertical” com o norte voltado para o topo do mesmo, o território aparece-nos numa posição “horizontal” tal como se pode observar no mapa integral.

Mapa original e integral
" A Descrição atual e precisa de Portugal, antiga Lusitânia"
de Ferando Álvares Secco (1560)
Ficheiro de grande resolução
clique AQUI

No mapa, podemos encontrar assinalados diversos lugares de Melgaço e, além do rio Minho, os traçados dos rios Trancoso e Laboreiro ainda que não se encontrem referidos os seus nomes. O traçado dos dois pequenos rios encontram-se, contudo, desenhado com pouco rigor: Por um lado, o seu traçado é desenhado dentro do território português e não representam a linha de fronteira como seria o correto. Por outro lado, no mapa, o rio Trancoso, à época chamado de Ribeira das Bárzias, é local de desembocadura das águas do rio Laboreiro. Assim, no mapa, o rio Laboreiro em vez de correr em direção ao rio Lima, vai encontrar-se com o Trancoso e as suas águas vão em direção ao rio Minho. Daqui se nota que o autor do mapa não tinha o mínimo conhecimento do terreno da nossa região. No mapa, o rio Laboreiro, além de ser um afluente do Trancoso, é colocado com a nascente na serra do Soajo.
No mapa, aparece traçado também o rio Mouro e representada a Ponte do Mouro. O autor achou importante marcar a localidade onde nasce o dito curso de água, Lamas de Mouro, mas inscreveu-o com a designação de “Mouco” em vez de “Mouro”. Aparentemente, parecem tratar-se de erros de transcrição e não formas arcaicas dos topónimos.
Chamo à atenção que neste mapa, apesar de aparecerem assinalados vários lugares dos, à época, concelhos de Melgaço e Castro Laboreiro, a vila de Melgaço não merece nenhuma referência, ao contrário da vila castreja. Também Paderne ou Fiães não aparecem assinalados. Ao contrário, encontram-se marcados no mapa, próximos do rio Minho, de Oeste para Este, a Várzea (próximo do Peso, à época era freguesia), Remoães (no mapa “Ramoas”), Prado (no mapa “Prados”) e S. Paio.
Curiosamente, S. Paio aparece assinalado de forma errada como situado próximo da margem do Minho, tal como Remoães e Prado. Este erro pode ser explicado da seguinte maneira. Durante séculos, as igrejas de Remoães e Prado eram subordinadas à de S. Paio e por alguma razão o autor foi induzido em erro colocando S. Paio na margem do Minho.
No território do antigo concelho de Castro Laboreiro, além da vila, aparece representada a Branda do Rodeiro. Temos ainda inscrito um lugar designado de “Os Viduais”. Não sabemos se o autor se queria referir ao lugar ao atual lugar do Vido, mesmo sabendo que a localização não é muito rigorosa.
Aparecem ainda inscritos no mapa dois outros locais situados, aparentemente em terras de Castro Laboreiro: “Corvelhe” (local totalmente desconhecido em terras castrejas nunca citado, creio, em documentos antigos). Será algum erro de transcrição e quereria o autor inscrever o lugar da “Corveira” (forma antiga de “Curveira”)?
O mesmo tipo de observação podemos fazer para outro local identificado no mapa como “Carvalher”. Quereria o autor escrever “Carvalheira”, lugar que se desconhece em documentos antigos como topónimo em terras castrejas? Ou estaria a tentar referir-se ao Porto dos Cavaleiros (Cavaleiros), antigo lugar situado entre Castro Laboreiro e Lamas de Mouro? É mais plausível esta segunda hipótese mas não passa de uma conjetura.
Uma última nota para a designação que é dada à unidade de relevo a que pertencem as terras altas de Melgaço. Hoje em dia, damos nomes vários às várias unidades de relevo situadas dentro do atual território de Melgaço tais como a Serra do Laboreiro, Serra da Peneda ou Serra do Pomedelo. Tal como podemos ver neste mapa, todas as terras altas, a sul do rio Minho, dentro dos concelhos (à época) de Melgaço e Castro Laboreiro são designadas como a “SERA (Serra) DA STRICA”. Essa designação é replicada em mapas posteriores durante o século XVII e XVIII.
Parece ser um equívoco do autor. Na atualidade, ainda temos o sítio e localidade de Estrica que fica perto de Sistelo, no vizinho concelho de Arcos de Valdevez. Em mapas do século XVIII e XIX, encontramos a designação da Serra da Estrica atribuída a uma unidade de relevo a sudoeste de Castro Laboreiro e dentro de terra arcuenses. Creio contudo que este nome da serra se encontra em desuso, existindo contudo o lugar de Estrica.
Uma última nota para este mapa que não se pretende criticar com este pequeno apontamento. Temos que ter em conta que estamos em meados do século XVI e elaborar este mapa foi certamente uma tarefa monstruosa. Por isso, é um marco na cartografia em Portugal e é o mais antigo mapa do nosso país até hoje conhecido.
Hoje, a arte da Cartografia é incrivelmente mais fácil com todos os meios que temos ao dispor.
No tempo de Fernando Álvares Secco tudo era diferente.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Os brasões de armas do concelho de Melgaço: o antigo e o atual

Câmara Municipal de Melgaço em meados do século XX,
com os brasões (anterior a 1935, à esquerda e o posterior à direita)

Sabemos muito pouco acerca dos antigos brasões do concelho de Melgaço. Na realidade, apenas conhecemos com precisão o antigo brasão que transitou do século XIX, além do atualEsse antigo brasão continha como figura de destaque um pelicano e era totalmente diferente do atual. Não se conhece a razão de o pelicano integrar com tanto destaque o velho brasão do município de Melgaço, ainda que mais à frente se indique uma possível pista.
Em meados do século XX, o Dr. Augusto César Esteves chegou a investigar os antigos brasões do município, mas como ele refere “nem de pergaminhos nem de papéis constam as armas de Melgaço, pois quer de uma espécie, quer de outra, nenhum documento chegou com elas intactas à nossa idade. 
Um único documento emanado da Câmara Municipal nos fins do século XVI vi com o sinal evidente de ter ostentado o selo usado pelos antigos vereadores de Melgaço. 
Sim, vi; mas vi apenas o sítio onde fora posto, porque o selo, esse desaparecera há muito tempo, só Deus sabe quando. 
Mas infeliz fui noutro dia, por onde vi, não o sítio, mas a própria obra de papel a ostentar, a mostrar o selo dos meados do século XVIII; somente o selo estava cego, por que à força do papel andar comprimido com os outros desapareceu o gravado e apenas ficaram visíveis os dois riscos paralelos da oval, sendo inúteis os meus esforços para a sua leitura fazer. 
Entretanto as velhas armas de domínio de Melgaço, por conformes com a tradição, estariam esculpidas em pedra, obra de quadra indeterminada, mas da época ou posterior a D. João II, raridade que outrora se ostentava por cima duma das portas das muralhas da vila e hoje se admira no átrio dos paços do concelho. 
Não indica a cor do campo nem a dos metais, por que mostra apenas em um ninho um pelicano e dois pelicaninhos. E como os camaristas de Melgaço nem se responder à circular da Câmara Municipal de Lisboa de 25 de Setembro de 1855, quando a mesma a propósito das festas da coroação de D. Pedro V procurou organizar e publicar uma obra sobre heráldica de domínio, decerto não saberemos ler hoje o velho brasão de Melgaço, se o mesmo não andasse já na tradição e não figurasse em várias colecções como a Colecção de Brasões da Província do Minho com as armas das principais vilas cidades, uma folha com 92 brasões, que pertenceu à biblioteca do grande heraldista Afonso Dornelas. 
Essas armas liam-se assim: “Em campo de prata um pelicano castanho-escuro em ninho esverdeado, picando o peito, que goteja sangue para alimentar os filhos. Coroa de oiro ducal, de cinco folhas de aipo, com coronel ornado de gemas (vermelha, azul e verde) 
Com a proclamação da República portuguesa em 1910algumas câmaras municipais modificaram logo as suas armas, numa justa compreensão do seu simbolismo. As de Melgaço, não foram modificadas nessa época e foi preciso intervir a Direção Geral da Administração Política e Civil, enviando às câmaras uma Circular publicada em 14 de Abril de 1930, para Melgaço ser levado a realizar um estudo das suas armas de domínio com vista à elaboração de novas armas. 
A Associação dos Arqueólogos Portugueses encarregou-se do estudo e o genealogista e heraldista Afonso Dornelas ignorou completamente os elementos das velhas armas e aproveitando os feitos da História local melgacense, organizou-as de novo, como consta deste seu parecer ponderado e digno de ser lido: 
Vila de Melgaço 
(Distrito de Viana do Castelo) 
Parecer apresentado por Afonso Dornelas à Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses Portugueses e aprovado em sessão de 7 de Maio de 1935 
Desejando a Câmara Municipal da Vila de Melgaço que se estudassem as suas armas, foram colhidos os elementos julgados necessários para formular o parecer seguinte:  
Para marcar os seus impressos tem a Câmara Municipal usado uma bandeira que inclui um pelicano dentro de um escudo e este escudo encimado por uma coroa de fantasia. 
Nas antigas muralhas de Melgaço, que já não existem, estavam sobre a porta voltada ao nascente, dois esculpidos na mesma pedra, incluindo as quinas de Portugal do tempo de D. João II ou posteriores, tendo a quina do chefe acompanhada por dois castelos, sendo escudo encimado por uma coroa aberta. Ao lado, outro escudo com um pelicano de perfil, poisado num ninho, alimentando os filhos.  
Este escudo também era encimado por uma coroa aberta. Temos a certeza de que estas armas do pelicano não foram ali colocadas com a intenção de representarem município em forma de escudo encimado por uma coroa aberta. Nessa época, quando se esculpiam os símbolos municipais eram sempre em forma de bandeira e não em forma de escudo e, além disso, tratando-se do município, nunca aparecia a coroa. 
A coroa simbolizava o rei, os príncipes, os titulares e nada mais. 
Este escudo ainda poderia ser atribuído à família Gomes, se não tivesse uma coroa real aberta, pois as armas desta família têm um pelicano alimentando os filhos. 
O ilustre escritor Dr. Figueiredo da Guerra, no seu trabalho sobre os castelos do distrito de Viana do Castelo, diz que na primeira dinastia foram alcaides de Melgaço membros da família Gomes de Abreu. 
Mas, tudo isto cai pela base, visto que as armas ali esculpidas têm coroa real e como as quinas que estão no escudo ao lado, são de D. João II ou posteriores, porque estão todas pendentes, temos a certeza de que o pelicano que ali se vê não é mais que o emblema particular de D. João II, que era colocado em todas as obras que construiu como sucedeu depois no tempo de D. Manuel com a esfera armilar e como sucedeu também com o camaroeiro no tempo da rainha D. Leonor, Viúva de D. João II.
A muralha foi naturalmente reconstruída ou melhorada, ou aberta a porta onde estavam as armas. Aquele escudo marca a época de D. João II e marca uma obra do seu tempo. Ainda para justificar esta razão, temos o que sucede na fortaleza vizinha, de Monção. A mais antiga obra que conheço, que trate de armas municipais, é da autoria de Rodrigo Mendes da Silva e chama-se “Toblacion General de España sus trofeos, blasones, etc.” Madrid – 1645. Sobre Monção, diz: – … D. Dinis … la aumentó, y cercó de murallas, fabricando el castillo. A que añadió el Rey D. Juan II otra cerca  troneras, y barbacanasponiendo en la puerta dicha Baluarte, el Pelicano de su divisa. 
Ora, se D. João II construiu outra cerca em Monção, onde foi colocado o se emblema particular, é natural que ali tam próximo, em Melgaço, tivesse também construído outra muralha, o que parece fora de dúvida, visto que ali figura também o emblema particular deste Rei. Por conseguinte o pelicano é erradamente usado pelo Município de Melgaço, visto que nada tem com a sua história guerreira ou económica. Melgaço está na fronteira, tendo o seu castelo ajudado a manter a integridade portuguesa. Portanto, o mesmo castelo deverá figurar nas suas armas. Reza a tradição que Melgaço fica no local do Castelo do Minho, fortaleza árabe que já estava deserta no início da fundação da nacionalidade, vindo portanto, deste castelo a nome da região. Teve esta vila vários forais e grandes privilégios para si e para os seus habitantes que durante séculos se mantiveram em permanente pé de guerra, entrando nas respectivas lutas com o pais vizinho, sendo a heroicidade hereditária nas famílias de ali naturais. Foi ainda Melgaço a primeira praça de guerra portuguesa que expulsou os soldados de Napoleão. 
Enfim, a história guerreira de Melgaço merece bem que fique perpetuada nas suas armas, salientado bem o espírito heroico dos seus naturais. 
E assim, proponho a seguinte ordenação heráldica para as armas, bandeira e selo desta vila: 
ARMAS – De prata com um monte de negro, sustendo um castelo de vermelho aberto e iluminado do campo e acompanhado por dois leões de vermelho armados e linguados do mesmo, sustidos no monte, afrontados e sustendo, em chefe, nas mãos, uma quina antiga de Portugal de azul e com onze besantos de prata. Em contra-chefe, três faixas ondadas, duas de prata e uma de azul. Coroa mural de prata de quatro torres. Listél branco com os dizeres “Vila de Melgaço”. 
BANDEIRA – De vermelho. Cordões e borlas de prata e de vermelho. Lança e haste douradas. 
SELO – Circular, tendo ao centro as peças das armas sem indicação dos esmaltes. Em volta, dentro de círculos concêntricos, os dizeres “Câmara Municipal de Melgaço”. 
Como as peças representativas da história local são de vermelho, a bandeira é desta cor. Quando destinada a cortejos e outras cerimónias, deve ela ter a área de um metro quadrado e é bordada em seda. 
A coroa mural de prata de quatro torres é a que está oficialmente estabelecida para caracterizar as vilas. O campo, o aberto e iluminado do castelo e as faixas do rio, são de prata porque este metal significa heraldicamente humildade e riqueza. 
 O castelo, representando o valor da praça de guerra, e os leões, representando a heroicidade e patriotismo dos seus naturais, são de vermelho que é o esmalte que heraldicamente simboliza a força e a vida e significa vitórias, ardis e guerras. 
O negro do monte simboliza a terra e significa firmeza, obediência e honestidade. 
Os rios são representados heraldicamente por faixas ondadas de prata e azul. O Rio Minho fica, portanto, aqui representado. O azul significa zelo e caridade. 
E assim a história local e o valor dos naturais ficam simbolicamente representados. 
Se a Câmara Municipal de Melgaço concordar com este parecer, deverá transcrever na acta respectiva a descrição das armas, bandeira e selo, enviando uma cópia autenticada, acompanhada de desenhos rigorosos da bandeira e selo, ao Sr. Governador Civil, com o pedido de o enviar à Direcção Geral da Administração Política e Civil do Ministério do Interior para, no caso do Sr. Ministro aprovar, ser publicada a respectiva portaria. 
Lisboa, Abril de 1935 
Affonso de Dornellas “. 
  A Comissão Administrativa desta Câmara, concordando em absoluto com o parecer transcrito, aprovou-o por unanimidade, ficando encarregado o Sr. Presidente de mandar elaborar os desenhos rigorosos da bandeira e do selo, a-fim-de ser pedida a aprovação ministerial e consequente publicação da devida Portaria no Diário do Governo.  
A mesma foi publicada em 17 de Dezembro de 1935 cujo teor mostramos aqui. 
(Clica na imagem para ampliar)

Fontes consultadas: 
- Diário do Governo, I Série, Nº 293, 17 de Dezembro de 1935.
- ESTEVES, Augusto C. (1957) - Melgaço, Sentinela do Alto Minho; Tipografia Melgacense; Melgaço.