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sexta-feira, 18 de maio de 2018

As águas curativas de Melgaço em meados do século XVIII





Melgaço é conhecido desde fins do século XIX como terra de águas milagrosas. Das nascentes da estância termal do Peso, nasce uma água com caraterísticas ímpares em Portugal, especialmente no tratamento da diabetes e que foi descoberta há cerca de 130 anos.
Todavia, desde há várias séculos, há referências a nascentes de águas com caraterísticas medicinais que os fregueses sempre acreditaram que curavam determinadas doenças. Noutros artigos anteriores, já aqui fiz referências às Caldas de Fiães e Paderne e outras nascentes em outros pontos do concelho.
No século XVIII, temos as Memórias Paroquias como uma das mais importantes fontes históricas para nos ajudar a compreender como era Melgaço na época. Mas o que são as memórias Paroquiais de 1758?
Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Desta forma, estas Memórias Paroquias correspondem a um conjunto de respostas dadas a esse inquérito.
Um dos itens sobre os quais os párocos eram questionados, era a existência ou não nas paróquias de nascentes de águas curativas bem como as suas caraterísticas e prescrições.
Em Melgaço, vários párocos fazem referências a nascentes nas suas memórias paróquias em 1758. Um deles é o pároco de Castro Laboreiro que nos conta que na chamada Ribeira do Porto dos Asnos existe uma “(...) água que tem virtude para curar as chagas, e forragem da boca nos meninos lactantes, em que mais comumente se acha este dano”. Tais virtudes das águas desta ribeira são confirmadas no livro do Padre Carvalho da Costa no seu livro “Corografia Portuguesa” (1706) quando este afirma que “quando himos do Porto dos Asnos, ou Cavalleiros, passamos outro limitado ribeiro, pelo qual foy a pé o Santo Arcebispo Dom Frey Bertholameu dos Martyres a visitar aquella Igreja. Tem virtude esta água para curar a boca lixosa às crianças e outras enfermidades”.
Por outro lado, o pároco de Penso, também nos fala de uma fonte de nascente junto ao rio Minho que é conhecida há séculos como a Fonte Santa. O sacerdote escreveu nas Memórias que “(...) se lhe cha­ma por tradição antiga a Fonte Santa, tem a água dela várias vir­tudes. Tem a água desta fonte um cheiro de enxofre mas no sabor não tem mau gosto. É muito clara e muito fresca, somente o cheiro de enxofre tem a circunstância que lançando-se na dita água alguma prata a põe em breves instantes amarela como perfumada de ouro e logo se tira da água esfregando-a com os dedos da mão se alimpa e fica como dantes limpa. Por donde corre água da dita fonte deita um limo pelo rego da cor do mesmo eixofar”. O padre escreve ainda que a água emanada desta fonte era indicada “(...) especialmente para queixas de destemperança de fígado, lepra e outras mais queixas que procederam de humores quentes. Tem mais a virtude que quem beber da água dela lhe abre a vontade de comer se tiver fastio (...) e lavando alguma ferida com a água dela são especialmente se for presidida deste […] do fígado tem sido muita gente que vem tomar banhos a ela recuperando a saúde perdida de água milagrosa”.
Podemos ainda ler nas Memórias Paroquiais de Chaviães, onde o vigário nos fala de umas águas que nascem nas margens do rio Minho ou emergem no meio deste. O dito sacerdote carateriza essas águas como “Salutíferas, medicinais, asidulas por passarem por minerais de ferro (…) e costumam onde nasce, correr pouca água, deixar por cima um lasso prateado com algumas feses douradas”. O vigário fala-nos que estas águas “tem virtude eficaz para curar feridas porque são um conjunto de vá­rias águas e muitas delas são sulfúreas que nascem pela borda do dito rio e outras nasceram no centro dele e pelas áreas de ouro”.
Ainda em relação às águas do rio Minho, o vigário de Chaviães escreve nas Memórias Paroquiais que “hum célebre médico castelhano, (…) D. Jozé Lavandera (…) fez nelas suas experiências e foi maravilhado dellas, dizendo que tinham a mesma virtude que as de [Prixmoni?], em Inglaterra”.
Como vemos, as crenças nos poderes curativos das águas de diversas nascentes no nosso concelho de Melgaço é muito mais antigo que o conhecimento das virtudes das águas do Peso…                    

segunda-feira, 18 de junho de 2012

As águas termais do Peso


Folheto publicitário do início da década de 70 do século passado.

As águas termais do Peso têm efeitos benéficos o tratamento de diabetes e das suas complicações, inclusive da retinopatia diabética, estados hipercolesterolémicos, disquinésias biliares e da pequena insuficiência hepática (Anuário,1963),  obesos pletóricos,  insuficiência hepática infantil, anemias, gota e hipertensão arterial (Almeida, 1988), entre outras maleitas.
“A presença do cálcio e do Magnésio, minerais importantíssimos em várias funções do corpo humano, explica, em parte, os seu efeitos benéficos na diabetes, na hiperuricemia (gota) e nas alterações das gorduras do sangue. Os bicarbonatos e o teor moderado do gás carbónico da água de Melgaço são, por sua vez, as causas das melhorias sentidas nas perturbações do aparelho digestivo, mas também do sistema osteoarticular (inflamação, rigidez com ou sem dor das articulações e coluna vertebral) e do aparelho respiratório (rinite, sinusite, faringite, Bronquite crónica), conforme foi comprovado recentemente em Estudo Médico realizado nestas Termas” (Folheto, Unicer, s.d.).

As duas nascentes (Fonte Principal e Fonte Nova ou Galeria Nova), a monumental Buvete, o Balneário, e a Oficina de Engarrafamento, fazem parte harmoniosa de um Parque Termal de frondosa e variada vegetação cortado pela ribeira da Bouça Nova.

Monumental buvete (in Acciaiuoli, 1944)
É sem dúvida a Buvete da Fonte Principal o ex-libris das Termas de Melgaço, obra desenhada pelo Engenheiro Luís Couto dos Santos, terminada em 1915. Trata-se de um pavilhão monumental da arquitectura do ferro, construído sobre a captação. De planta quadrada a nível mais baixo do que o solo, para o qual se desce por 3 largas escadarias para o centro, no qual se encontra a nascente.





Todo este conjunto encontrava-se em obras de recuperação a quando da visita, num Relatório da UNICER de 27/8 de 2003, surge uma verbal de 2 milhões de euros dedicados à recuperação das termas, dos quais 250 mil euros eram destinados á recuperação de buvete.

O Balneário ficou concluído em 1924, mas já no ano anterior funcionara metade dele, como se depreende do relatório de 1923 citado por Acciaiouli (1944). Pertence à mesma escola arquitectónica embora sem a monumentalidade da Buvete, é uma espaçosa construção em 2 corpos laterais a um central de entrada, que correspondia, quando da construção à divisão por sexos dos tratamentos balneoterápicos.
A oficina de engarrafamento é uma discreta construção industrial, ao lado da buvete, concluída em 1927.

A cerca de 80 metros desta oficina, e no meio da vegetação do parque encontra-se o pavilhão da Fonte Nova, actualmente desactivada, é uma construção da década de 30, um telheiro em arcos abertos para o exterior.
Anexo ao parque do seu lado poente encontra-se a propriedade do Hotel do Peso, construído em vários corpos onde não falta a capela, é actualmente uma nostálgica ruína a lembrar outros tempos em que foram mais frequentadas estas termas.
Breve histórial das Termas do Peso
Francisco da Fonseca Henriques autor do Aquilégio Medicinal (1726), cita as Caldas do Convento de Paderne, do qual resta a igreja do século XII. Para Almeida (1988) estas referências não coincide com as da Quinta do Peso, pois: “… ficavam a uma distância tal das nascentes do Peso de que não resta duvida que nada tinham a ver com estas
As águas do Peso só foram assinaladas em 1884, quando da cura da mulher do médico de Vila Nova Cerveira, que sofria de uma doença de estômago. A fama das águas depressa se espalhou e em 1885 Bonhorst efectuou as primeiras análises, ano em que também foi construída uma oficina de engarrafamento, em madeira, sobre a fonte Principal.
Lopes (1892) descreve essa construção e o projecto de uma nova exploração: “Pensa-se, porém, em constituir uma companhia que lhe desenvolva a exploração. Hoje são em grande número as garrafas transportadas para diversas terras do Minho e principalmente para o Porto, onde existe um depósito especial, bastante afreguesado.”(344)
Em 1889 começou a exportação desta água para as colónias e Brasil.
Nesse mesmo ano um emigrante regressado do Brasil, de nome Guerreiro Ranhadas, natural de Vilar de Mouros, curou com esta água uma doença hepática o que o levou a interessar-se pela exploração das Caldas, construiu um hotel. Depressa a fama das águas espalharam-se por terras minhotas e galegas, atraído a clientela das vizinhas termas galegas Mondariz. (Almeida, 1988).

A concessão foi dada em 1893, a favor da sociedade Santos & Sobral e C.ª. Nos relatórios de inspecção do médico Tenreiro Sarzedas em 1902 e 1906, publicados respectivamente em 1903 e 1907, o Médico Inspector relata no primeiro que quando da sua visita: “ cuidava-se ao tempo de instalar de novo a buvete”. Na segunda visita esta buvete tinha sido modificada: “Mudou de um dos lados do pavilhão, em que assentava para o centro deste, em forma apropriada, embelezando consideravelmente a edificação em que assenta, que foi também beneficiada em decoração, pela abertura de quatro escadórios amplos e espaçosos, que no conjunto prestam à instalação a aparência condigna do valor terapêutico das águas”(167). Neste relatório é reproduzida uma fotografia dessa mesma buvete, trata-se de um espaço ao ar livre de planta quadrada onde em cada lado se abre os “escadórios” para um plano mais baixo ao centro da qual se encontra a nascente protegida por um telheiro cónico. O curioso desta fotografia é o espaço definido por esta buvete, o mesmo que anos mais tarde seria coberto pelo monumental pavilhão em ferro terminado em 1915.
Analisadas por Lepierre em 1907 que as classificou de gasocarbonicas, bicarbonatadas mistas ( Cálcica, sódica, magnésia, férrea, litinica, arsenical manganesifera).
Artur Araújo (1912) na sua visita a esta estância como estudante do último ano de medicina da Faculdade do Porto, faz o seguinte comentário sobre a estância:: “ quinta do Peso, onde desde 1885 vem sendo aproveitado o precioso manancial… concluída a nossa visita às modernas instalações, ali mesmo o Dr. Sousa nos quis falar, como director clínico das águas, das suas indicações e dos seus efeitos terapêuticos…”
Mas nada acrescenta sobre o que considerava ser essas “modernas instalações”, numa altura em que a Buvete ainda não estava concluída e faltavam 8 anos para a construção do Balneário.
Em 1920 iniciou-se a construção do balneário terminado em 1924. Ano este em que a exploração das águas de Melgaço passou para a sociedade exploradora das nascentes Vidago & Pedras Salgadas, passando a designar-se Sociedade Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas.
Em 1929 a estância contava com um laboratório de análises clínicas, na década seguinte era seu director o médico e investigador Mark Athias, já então famoso fisiologista, de que Acciaiouli (1941, 183) publicou parte de uma entrevista concedida aquando da sua visita em 1939: “ Por agora podemos afirmar que as águas desta estância dão excelentes resultados nos estados hepáticos e nas formas diabéticas em que a terapêutica hidromineral está indicada. Não pretendemos, continua o mesmo clínico, curar a diabetes nem substituir a insulina por águas minerais, mas afirmamos que os diabéticos beneficiam todos com o uso das águas, inclusive os que não podem prescindir da insulina. A estes continuamos a aconselhar a medicação pela hormona, tentando diminuir as doses diárias o que muitas vezes conseguimos, após um certo número de dias de tratamento hidromineral, havendo alguns que têm mesmo deixado de a usar durante a estadia no Peso”.




Mark Athias deixou uma vasta produção cientifica, com estudos sobre vários tipos de cancros, da raiva, da sexualidade e da reprodução entre outros, os seus estudos sobre a aplicação das águas minerais foram feitos no Laboratório de Melgaço O estudo experimental das águas medicinais nos doentes e nos animais (1937) e Les etats apasmodiques de la musculature lisse et crenotherapie, (1930), este último em colaboração com o médicos Cascão de Anciães, que veio a ser professor na faculdade de Medicina de Lisboa, afastado da docência por oposição a Salazar em 1946.
Em meados da década de 40 o balneário contava, com: “20 salas para banho de água mineral ou mista, em duas das quais o banho pode ser antecedido ou seguido de duche; em duas outras são aplicados duches subaquáticos e noutros quatro tomam-se banhos carbogasosos. Há ainda, duas salas de duches com sete cabines cada. (Acciaiouli, 1944,IV. 13).
Estas águas foram novamente analisadas por Lepierre em 1933, por Herculano de Carvalho em 1944 e 1963.
No final da década de 80 as termas encontravam bastante deterioradas. A década seguinte é marcada pela passagem da Sociedade Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas para os grupos económico Sousa Cintra e Jerónimo Martins. No final da década a situação não se tinha modificado e Câmara Municipal de Melgaço propões a compra da parte termal da estância a essa sociedade, sobre esta proposta acrescenta Mangorrinha (2002, 198): “Não tendo sido concretizado esta vontade da autarquia local, a empresa proprietária das termas[…], prevê actualmente a criação de um Centro de Diabetologia para curas com internamento, procurando atingir o lugar de «estância termal de diabetes, por excelência»”.
Em 2000 o projecto camarário de renovação do património construído dentro das termas candidata-se ao programa europeu “Projectos integrado turístico estruturante de base regional”. Em 2002 a Sociedade foi adquirida pela Unicer, numa época em que o complexo termal tinha já verbas aprovadas para a sua renovação, mas as obras de renovação foram sempre adiadas, os prazos de candidatura foram prolongados até Junho de 2005. O presidente da autarquia Rui Solheiro em entrevista ao jornal de Viana (6/5/2004), afirmava sobre a situação: “ … escapa à vontade da autarquia que, apesar da constante preocupação e das sucessivas tentativas no sentido de promover e apoiar a sua recuperação, pouco mais pode fazer, já que se trata de um espaço privado, pertencente à empresa, também detentora da exploração da linha de engarrafamento de águas.”
Em Novembro de 2004 a Unicer garantia a conclusão da recuperação da buvete até à abertura da época termal de 2005 (DN-13/11/2004), o que veio a acontecer, espera-se agora que a recuperação dos restantes equipamentos termais se concretize em breve.


Oficina de engarrafamento

  Foto, pelas informações que tenho, será da década de 60 do século passdo.

Informações extraídas de:
 - http://www.unicer.pt
- www.aguas.ics.ul.pt/viana_peso.html