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sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Misericórdia de Melgaço e a Procissão dos Penitentes no século XVI e XVII



Uma das principais cerimónias organizada pela Misericórdia de Melgaço em tempo de Páscoa era a procissão da Quinta Feira Santa, dos Penitentes ou dos Fogaréus, largamente difundida nos séculos XVI e XVII. Com antecedência, os irmãos reuniam-se e distribuíam os principais lugares da procissão e tomavam medidas para a sua realização. Na véspera, ornavam-se a igreja e as capelas da vila.
No dia, no final da tarde os "salta na criba", também designados de farricocos, andavam pelas ruas fazendo barulho com as matracas. Este ritual tem uma origem bastante antiga. Em tempos antigos, conforme a mentalidade de então, havia pessoas que percorriam as ruas chamando os pecadores públicos à sua reintegração na Igreja, depois de arrependidos e perdoados. Era a forma ao tempo, de entender a misericórdia para com os pecadores, aos quais tinha sido aplicada a indulgência. Actualmente, atribui-se-lhe um significado substitutivo e residual, de chamamento dos Irmãos da Misericórdia para a procissão da noite. O uso das ruidosas «matracas» para este efeito foi instituído em anos remotos para substituir o toque dos sinos, que nos dias maiores da Semana Santa ficavam silenciosos.
Às 20 horas, saía da igreja a procissão com todos os irmãos da Misericórdia, uns de opa preta, outros de fato preto em símbolo de luto. À frente ia o escrivão com a bandeira da Confraria, ladeado por dois mesários, cada um com tocha acesa ou com pinhas a arder (daí chamar-se procissão dos Fogaréus). Atrás vinha o provedor do ano findo com o crucifixo (quando estava ausente ou não podia comparecer, era o provedor em exercício), ladeado por dois irmãos com tochas acesas. Depois seguia o andor do "Ecce Homo" acompanhado por duas ou quatro lanternas acesas. Os penitentes entrecortavam as insígnías da Paixão do Senhor, que eram conduzidas por irmãos da Misericórdia entre a bandeira e o crucifixo. Os irmãos envergando opas e portando tochas acesas, contornavam o centro da vila, onde se juntavam encabuçados, depois de andarem pelas ruas do percurso e muito à frente da procissão cantando, em voz de falsete, os mexericos e segredos da terra de um ano inteiro. Caminhavam a seguir os capelães da Misericórdia, de sobrepeliz e atrás, de fato preto, os irmãos que não tinham capa e os homens estranhos à confraria, segurando todos eles velas na mão direita. Os padres rezavam a ladainha de todos os santos e o grupo ia respondendo. Durante o caminho e enquanto durava a procissão, os penitentes martirizavam-se. As mulheres, proíbidas de participar nestes ajuntamentos nocturnos, ficavam em casa, acendendo velas à passagem do cortejo. A procissão entrava primeiramente na capela de Santo António do Campo da Feira de Dentro, onde estavam dois irmãos. Depois seguia para a igreja de Nossa Senhora da Orada, onde mais dois irmãos pediam. Regressava, passando pela Matriz, para visitarem o Santíssimo Sacramento, e terminava na Misericórdia. O provedor mandava lavar e tratar com mezinhas as feridas dos penitentes, confortando-as com vinho, marmeladas e outros doces. A cerimónia terminava com o proferimento de um sermão.

Informações extraídas de:
- ARAÚJO, Maria Marta Lobo (2005) - Pedir para distribuir: Os peditórios e os mamposteiros da Misericórdia de Melgaço na época moderna. Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço;
- www.monumentos.pt.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O edifício do antigo Hospital da Misericórdia de Melgaço: referências históricas

Edifício do antigo Hospital da Misericórdia de Melgaço

Em 1860, o Provedor Frei António Joaquim de Santa Isabel Monteiro teve a ideia de construir um hospital, nomeando-se uma comissão composta por cinco elementos para fazer cumprir e custear as despesas. A ideia foi, no entanto, abandonada.
Mais tarde, em 1863, o Frei António voltou à carga e reuniu a Mesa com o objectivo de fixar as jóias a pagar pelos irmãos aquando da sua entrada na confraria e também para que fosse escolhida uma comissão executiva a favor do projectado hospital. Em 1864, a 12 Março, é conhecida essa comissão, sendo provedor José Cândido Gomes de Abreu, comerciante da terra, com grande espírito empreendedor, que logo começou a advogar a construção do hospital escrevendo a amigos, conhecidos, deputados do Círculo e a todos os que pudessem apoiar a causa.
Em 1867, o Governador Civil de Viana do Castelo envia alvará ao administrador do concelho de Melgaço autorizando a Misericórdia a incluir no seu orçamento 10% das receitas para a construção e manutenção do hospital, devendo também reorganizar e reforçar a comissão. Era ainda pedida uma relação dos donativos até então oferecidos e das contas da Santa Casa. Em 1872, a 3 Abril, o Provedor José Cândido propôs aos irmãos da Mesa um voto de louvor ao "Exmº Snr. António Correia Caldeira, representante do Círculo de eleitores por en catorze de março findo ter representado na Câmara dos Senhores Deputados da Nação um projecto de lei para à Misericórdia ser concedido gratuitamente um terreno pertencente ao Ministério da Guerra para nele se construir o Hospital da Caridade.
Em 1873, a 16 Julho, concretiza-se a assinatura da escritura de doação do terreno no interior da praça da vila pelo Ministério da Guerra. Em 1874, a fim de obter fundos para as obras, José Cândido levou os irmãos a reduzirem o número de missas fixado para os sufrágios pelos irmãos falecidos. Em 1875, inicia-se a construção do hospital, sendo Provedor José Cândido Gomes d'Abreu. Na cartela alusiva ao início da construção da fachada lateral direita lê-se:

"FOI LANÇADA A PRIMEIRA PEDRA PARA ESTE EDIFÍCIO EM (?) DE FEVEREIRO DE 1876, SENDO PROVEDOR DA MISERICORDIA JOSE CANDIDO GOMES D'ABREU."

Como a enfermagem era exercida por religiosos, o Pe. Francisco Castro, natural da freguesia de São Paio e abade de Riba do Mouro, pediu ao provedor para mandar fazer dentro do hospital uma capelinha privativa para o pessoal e doentes internos, pagando ele todas as despesas da obra. Devido a este gesto foi nomeado irmão da Confraria em 2 Janeiro 1893, ficando isento do pagamento da jóia de entrada. Em 1892, a 16 Outubro, é feita a inauguração do Hospital da Caridade, com mais de 300 pessoas de todo o concelho e vizinhos percorrendo demoradamente as enfermarias e outras dependências.
Em 1893, a 16 Abril, é inaugurada a capela, com celebração da primeira missa pelas 6H00 da manhã. Mais tarde, em 1944, em Outubro, as freiras que prestavam serviço no hospital queixavam-se à Mesa de não terem a assistência religiosa estabelecida no contrato. Para atender à reclamação, estabeleceu-se um contrato com o novo capelão Pe. Justino Domingues para que, além das missas que alternadamente eram celebradas na Igreja da Misericórdia e no Convento, fosse também dita na capela do hospital missa num dos dias da semana, pagando-se o vencimento de 1.200$000 anuais divididos em quatro prestações. Ficava ainda responsável pelas cerimónias da Semana Santa e a Festa de Nossa Senhora da Misericórdia. Por essa altura, é feita a inauguração da enfermaria de partos.
Por volta de 1944 ou 1945, é feita a realização da primeira e segunda Festa de Oferendas para a Santa Casa, tendo-se comprado roupas, louças, móveis, utensílios, aparelho de radiotermia e raios ultra-violetas.
Em 1948, a 10 Outubro, é feita inauguração das instalações de Raio X, oferecidas por um grupo de amigos da Misericórdia residentes no Brasil. Em 1949, é criada uma enfermaria para tuberculosos. Em 1954, a Misericórdia celebra acordo com Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos com o objectivo de criar em Melgaço uma "consulta dispensário", a fim de poder dar apoio médico aos tuberculosos. Em 1960, é feita a compra de ambulância, a primeira em Melgaço. Em 1961, tendo deixado de haver internamento de tuberculosos na Quinta de Eiró, os idosos passam do edifício do Hospital para aquela quinta. Nesta data, o hospital tinha apenas três médicos. Em 1962, no mês de Setembro, é publicada uma circular da comissão Inter-Hospitalar do Porto informando que o Instituto da Assistência à Família iria fornecer insulina, seringas e o pagamento da aplicação de injecções aos diabetes mais necessitados e ainda um subsídio para a sopa dos pobres.
Em 1975, após nacionalização dos bens, a Misericórdia perde o hospital. 

Informações recolhidas em:
- ESTEVES, Augusto César (2003) Obras Completas, vol. 1, tomo 1, Melgaço;
- ROCHA, J. Marques (1993), Melgaço de ontem e de hoje, Braga, 1993;
- Melgaço, Revista Municipal, nº 35, Abril 2005.
- www. monumentos.pt.

domingo, 4 de maio de 2014

A Igreja da Misericórdia (vila de Melgaço): referências históricas e notas arquitetónicas

Igreja da Misericórdia (vila de Melgaço)
(Foto de Vitor Oliveira)

A Igreja da Misericórdia resultou da adaptação de uma outra igreja pré-existente, com invocação de Santa Maria do Campo.
Trata-se de uma igreja de fundação medieval onde se instalaria a Confraria da Misericórdia, sendo a única do distrito que conservou a sua antiga estrutura. Na fachada sul, conserva dois cachorros românicos, testemunhos de uma anterior capela, provavelmente do séc. XIII, e o paramento incorpora duas inscrições, uma muito erosionada e outra, do séc. XIV, com a inscrição "LAVOR M A / DOMINGO D S", indicando, possivelmente, Domingo Dias (?) como hipotético arquitecto de uma remodelação do templo. O frontispício segue a tradição românica mas foi muito reformulado no século XVIII, época da modinatura dos vãos e quando também se deve ter prolongado e alteado a capela-mor. O corpo do Consistório apresenta um aparelho distinto e menos cuidado que o da igreja, em alvenaria irregular que originalmente deveria ser rebocada, e com pilastras nos cunhais que, tal como a "loggia", corresponde a uma remodelação do edifício. O coro-alto forma planta em L com longa tribuna, sobre mísulas decoradas, albergando interessante cadeiral dos Mesários. As mísulas são muito semelhantes às da Misericórdia de Valença. Os retábulos laterais confrontantes são maneiristas, de tipo nicho, e o outro do lado do Evangelho é barroco, de transição entre o estilo nacional e o joanino, e com frontal de altar já rococó. A capela-mor tem uma interessante caixa de esmolas pintada, no espaldar, com cena de Senhor carregando a cruz, e no pavimento duas tampas sepulcrais epigrafadas, do século XVIIulo XVIII. Na sacristia, sobre o arcaz, encontra-se um oratório, em talha, de alguma qualidade artística. A Bandeira representa a Visitação. Junto à entrada principal da igreja encontram-se dois sarcófagos antropomórficos com tampas de secção pentagonal com volume em quatro águas. Juntamente com a Misericórdia de Valadares, era a única no distrito que não possuia hospital no século XIX.
Deixo aqui algumas referências históricas ao longo do séculos acerca deste templo. No século XII, existe uma referência documental à existência de três igrejas na vila de Melgaço: a igreja de Santa Maria do Campo, a de São Facundo e a de Santa Maria da Porta. Em 1258, a igreja de Santa Maria do Campo foi integrada no padroado real. Em 1320, a mesma foi taxada em 30 libras. Em 1432, a 2 Julho, há a confirmação do bispo de Tui sobre o padroado da igreja de Santa Maria do Campo, pertencente a leigos, sendo, à data, a apresentação do abade feita por Geraldo Miguel e seu filho Geraldo, moradores no castelo de Melgaço. O pároco apresentado, Rui Lourenço, já era reitor da igreja de São Facundo, na vila. Em 1453, a 20 Agosto, foi elaborado um diploma que anexa à igreja a de São Fagundo à de Santa Maria do Campo. Em 30 Agosto, a apresentação da igreja pertencia ao administrador perpétuo no espiritual e temporal do bispado de Tui na parte de Portugal, que nesta data apresentou Álvaro Rodrigues.
No século XVI, o padroado já pertencia ao arcebispado de Braga. É do início deste século que data a fundação da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço. Entre 1514 e 1532, no sensual de D. Diogo de Sousa, a igreja de Santa Maria do Campo rendia ao arcebispo 78 reais. Nas mãos deste prelado, Lopo da Cunha renunciou a igreja de Santa Maria do Campo, juntamente com as outras onde era abade.
De 1517, data a confirmação dos Estatutos da Santa Casa de Misericórdia de Melgaço. Em 1523, a 5 Fevereiro, o abade da Igreja de Santa Maria do Campo foi substituído por Aires da Costa, que, poucos dias depois, também renunciou. Em 23 Abril, foi nomeado António de Castro, Clérigo de Ordens Menores para a Igreja de Santa Maria do Campo.
Em 1531, é publicado o alvará real entregando à Confraria da Misericórdia de Melgaço o Hospital de São Gião existente na vila. Em Dezembro de 1564, foi publicado o diploma de extinção da igreja de Santa Maria do Campo pelo arcebispo de Braga, Frei Bartolomeu dos Mártires.
Em finais do século XVI, é registado em tombo a mudança da igreja de Santa Maria do Campo para a Misericórdia. Em 1591, a 2 Fevereiro é feito o contrato entre a Misericórdia, sendo provedor Gil Gonçalves Leitão, e António de Figueiroa para este pintar o retábulo e fazer a bandeira, hoje já desaparecida, e grades, pelo preço de de 56.5000 reais. Recebeu apenas 43.520 reais em dinheiro, dada a falta de recursos da Misericórdia, pelo que se decidiu "dar-lhe em satisfação do remate de pagua huma cruz que a Casa tinha a qual foi pesada nesta vila na feira por hos hourives de Salvaterra que a ela costumão vir e pesava doze mil novecentos e oitenta reis".
A obra de imaginária do retábulo foi feita por Pero Lopes, por 26.200 reais. Em Outubro é feito um pagamento a António de Figueiroa 1400 reais por pintar o púlpito e a coluna das galhetas da igreja. Em 1619 um documento refere que os Irmãos da Confraria deveriam mandar buscar a telha à antiga igreja de São Fagundo para que, com ela, pudessem retelhar a Igreja da Misericórdia.
Em 1641, o Desembargador Gregório de Balcacem de Morais, Visitador e Reformador Geral das Fronteiras do Reino, procurou estabelecer um acordo com a Santa Casa da Misericórdia para ela tratar dos feridos de guerra. O provedor, no entanto, alegando o estado de pobreza da instituição, escusou-se a tratar gratuitamente os soldados e a fornecer-lhes remédios sem pagamento.
Em 1672 e 1673, era provedor Pero Gomes de Abreu Magalhães, altura em que tiveram origem os sermões quaresmais pregados na vila até finais do século XIX através do acordo deliberado pela Mesa em 12 Fevereiro 1673.
Em 1676, foi feita a remoção das tábuas do antigo retábulo-mor para a Matriz da vila e foram construídos novos retábulos pelo entalhador de Valadares Jácome de Araújo. De facto, as antigas tábuas do retábulo-mor e a sua talha encontram-se actualmente na Igreja Matriz de Melgaço, na Capela dos Almeidas no lado do Evangelho. As tábuas representam Cristo ressuscitado, São Pedro, Imaculada Conceição e São Sebastião, Apresentação da Virgem no Templo e Apresentação do Menino no Templo. Na predela figuram as cenas, em baixo- relevo, da Visitação e da Anunciação, da autoria de Pero Lopes. Também da predela é a representação da Adoração dos Magos, tendo no reverso a legenda "Mizericordia de Melgaço" e que, segundo Vítor Serrão, se inspira, de modo simplificado, numa estampa de Jerónimo Wierix do "Evangeliarium Imagines", do Padre Jerónimo Nadal, de 1591.
Em 1692 ou 1693, foi eleito provedor Francisco de Araújo Sarmento, mas que por razão desconhecida foi preso, deixando a misericórdia um pouco à deriva. No século XVIII provavelmente o edifício sofreu uma remodelação. Foi feito o aumento das "capelas de Missas", substituição dos paramentos velhos e usados por outros novos, aquisição de alfaias para as procissões, mas devido à penúria em que vivia, recorriam constantemente às Misericórdias vizinhas de Valadares e Monção a fim de lhe emprestarem balandraus (capas).
Em 1740, embora o capital fosse de 3.521.000 reis, as esmolas dadas pela Misericórdia aos pobres não eram muito abastadas. Diariamente dava-se a António Gomes, entrevado numa cama, 10 reis e a Francisco Quintela 7,5 reis. Em 1741, a 19 Março, são suspensas as esmolas, devido às poucas possibilidades da Confraria. Em 1758, a 24 Maio, a vila não tinha hospital, mas apenas Misericórdia que tinha de renda 400$000. Em 1769, o padre Manuel Esteves da Costa ofereceu à Misericórdia uma lâmpada de prata, à romana, para alumiar o Senhor da Cruz.
No século XIX, foi construído o retábulo-mor. Em 1838, o Administrador Geral do Distrito de Viana do Castelo afirma que a maioria das Misericórdias estavam muito mal administradas, o que originava a perda de muitas dívidas e foros, em resultado do desleixo e pouco zelo das Misericórdias. Em 1839, o Administrador envia um comissário contabilista para reformar todas a sua escrituração e examinar os erros de liquidação e desleixo. Em 1840 ou 1841, sob a alçada de José Manuel Gomes de Abreu, a Mesa ruiu várias vezes; compraram-se as mãos e as cabeças precisas para se armarem as figuras das personagens necessárias para a procissão dos Santos Passos, a fim de evitar pedidos a outras misericórdias. Em 1846, são feitas várias obras na igreja por se encontrar bastante danificada. Em 1849, a 20 Novembro, João Correia dos Santos Lima, negociante na vila de Melgaço, procurador de Joaquim Maria Osório, natural da vila e morador no Grão Pará, Brasil, entregou na secretaria da Misericórdia a promessa feita pelo dito Osório ao Senhor dos Passos "uma tunica d'orbão de seda roxa, uma corda amarela e uma cabeleira preta, tudo novo e acondicimado em caixão de pau". Em 1863, a Misericórdia tinha 12 857$868 reis de fundos, sendo 138$040 em domínios directos, 12 519$828 em capitais mutuados e 200$000 em alfaias, jóias e móveis; tinha 627$015 reis em receitas ordinárias, sendo 4$902 em dinheiro e 622$113 em juros de capitais mutuados. Tinha ainda como despesas obrigatórias 300$000 reis, em encargos pios.
Em 1943, sendo Provedor Dr. Augusto Cesar Esteves, as mulheres passaram a ter o direito de se inscreverem como Irmãs da Misericórdia. Em 1944, era capelão o páraco da vila António de Jesus Rodrigues, o primeiro a exercer funções de páraco da vila e capelão da Misericórdia, pois até então a Confraria sempre teve os seus próprios capelães.
Em termos arquitetónicos, esta igreja possui uma planta longitudinal, composta por nave única e capela-mor rectangulares, sacristia e Consistório, rectangulares, adossados a este e sineira e "loggia", rectangular, percorrendo a fachada norte. Volumes escalonadas, com coberturas diferenciadas, em telhados de duas e três águas. Fachadas, com paramentos em cantaria de granito em fiadas pseudo-isódomas, na igreja, e em alvenaria irregular de granito, na sacristia e Consistório, percorridas por cornija saliente. Fachada principal, orientada a oeste, em empena com cornija saliente, tendo, no remate, cruz sobre acrotério e cunhais sobrepujados por pináculos; portal de arco apontado, de duas arquivoltas, assente em impostas lisas, encimado por janelão, de brincos, com verga abatida sublinhada superiormente por cornija saliente, e sineira de uma ventana, em corpo rectangular adossado a norte. Fachada sul com três janelas rectangulares e corpo saliente de altar, na capela-mor, e janela e porta rectangulares na sacristia e Consistório. A fachada este, com pilastras nos cunhais, tem escadaria, pétrea, de um lanço, de acesso ao Consistório, porta rectangular no 1º piso e janela rectangular e porta de verga abatida no 2º piso. Fachada norte, com pilastras nos cunhais do Consistório e da "loggia", apresenta janelas rectangulares no Consistório e janelos rectangulares horizontalizados nos arrumos, sendo percorrida, no terço anterior, ao nível do 2º piso, por "loggia", com porta de verga recta, em ferro forjado, no primeiro piso.
O interior é rebocado e caiado, tendo ligado ao coro-alto, do lado da Epístola, formando um L, tribuna assente em trave de madeira, sobre mísulas pétreas decoradas com dupla voluta e motivos fitomórficos, e balaustrada de madeira. O guarda-vento é em madeira e pia de água benta no sub-coro. Lateralmente, do lado do Evangelho, porta de verga recta com frontaleira e púlpito rectangular sobre mísula pétrea, com balaustrada de madeira. A capela-mor, definida por sanefa, em talha dourada e branca, com as insígnias da Misericórdia ao centro, apresenta-se sobrelevada e com acesso por quatro degraus, sendo cerrada por teia em ferro forjado; tem, do lado do Evangelho, capela de arco pleno, moldurado, sobre pilastras dóricas, albergando retábulo de talha dourada e branca, e, confrontantes, dois altares em talha dourada e branca. Retábulo-mor, em talha dourada e branca, albergando, centralmente, Crucifixo, e inserindo, ê esquerda, porta de acesso ê sacristia. Pavimentos em lajes de granito, na capela-mor, e soalhado, na nave. Tectos de perfil curvo, em madeira. Sacristia, com acesso exterior a partir a fachada sul e da fachada este, com paredes em aparelho de alvenaria irregular de granito, com as juntas tomadas e caiadas e rebocado e pintado de creme, com pavimento lajeado e com tecto cimentado e caiado. Consistório, com acesso a partir de pequeno átrio lajeado, no topo da escadaria, com paredes em aparelho de alvenaria irregular de granito, com as juntas tomadas e caiadas e rebocado e pintado de creme, com pavimento em mosaico cerâmico e com tecto cimentado e caiado.

Informações extraídas de:

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Alto Minho, Lisboa, 1987, p. 179; BARROCA, Mário, Necrópoles e sepulturas medievais de Entre Douro e Minho, Porto, 1987, p. 360 - 361, ROCHA, J. Marques, Melgaço de ontem e de hoje, Braga, 1993, p. 229; BARROCA, Mário, Epigrafia Medieval Portuguesa, vol. II ( tomo 2 ), Porto, 1995, p. 1648 - 1649; SERRÃO, Vitor, Sobre a Iconografia da Mater Omnium: a pintura de intuitos assistenciais nas Misericórdias durante o século XVI, in OCEANUS, nº 35, Julho / Setembro, Lisboa, 1998, pgs. 134 - 144; idem, André de Padilha e a Pintura Quinhentista entre o Minho e a Galiza, Lisboa, 1998; CERDEIRA, Amélia Esteves, Santa Casa da Misericórdia de Melgaço: Cinco Séculos ao Serviço das carências de um povo, in I Congresso das Misericórdias do Alto Minho, Viana do Castelo, 2001, p. 270 - 282; FONTE, Teodoro Afonso da, As Misericórdias do Alto Minho - perspectiva Histórica e actualidade, in I Congresso das Misericórdias do Alto Minho, Viana do Castelo, 2001, p. 96 - 117; ALMEIDA, Carlos A. Brochado, O sistema defensivo da vila de Melgaço, dos castelos da reconquista ao sistema abaluartado, Melgaço, 2003; ESTEVES, Augusto César, Obras Completas, vol. 1, tomo 1, Melgaço, 2003; DOMINGUES, José, Padroado Medieval Melgacence (Santa Maria da Porta, Santa Maria do Campo e São Fagundo), in Boletim Cultural de Melgaço, s.l., 2004, pp. 63-114.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Os primórdios da Misericórdia de Melgaço no século XVI


Igreja da Misericórdia de Melgaço

Embora desconheçamos a data da fundação da Misericórdia de Melgaço, sabemos que estava em funcionamento em 1531. Nesta data, recebeu autorização de D. João III para incorporar o Hospital de S. Gião. Apesar da incorporação ser autorizada pelo monarca, um alvará de 1562, para que o referido hospital fosse anexado à Misericórdia, prova que o mesmo não foi integrado em 1531. Esta importante incorporação constitui o primeiro grande impulso de fortalecimento da confraria, uma vez que o referido hospital possuía bens que transitaram para a Santa Casa. Em 1531, tinha de renda anual “setecentos e trinta e dous reis”. Situado extra-muros, este instituto era uma casa para leprosos, que na época se encontrava mal administrado pelo Provedor da Comarca e sem doentes. Por isso, e como a Misericórdia “hera muito pobre”, os confrades solicitaram ao rei a sua integração na Santa Casa.
Este movimento de incorporações foi conhecido em todo o reino e teve como objetivo tornar viável as confrarias da Misericórdia, ao mesmo tempo que se reestruturava a assistência em Portugal.
A integração significa que a Misericórdia assumia a obrigação de continuar a dar cumprimento aos legados instituídos no hospital, a prover os leprosos, no caso de existirem, podendo usufruir de todos os seus bens. Tratava-se de um “negócio” muito vantajoso para as Santas Casas e que tinha o consentimento dos monarcas.
A Misericórdia de Melgaço conheceu o seu primeiro grande impulso com esta integração. Mais tarde, sedimentou a sua ação com os legados recebidos, com as esmolas oferecidas pelos fiéis e outras individualidades, com as receitas dos funerais, com o empréstimo de dinheiro a juro, com algumas multas passadas pela Câmara Municipal e com os peditórios. Apesar de Melgaço pertencer ao senhorio da Casa de Bragança, as margens deixadas pelos Duques na Misericórdia local foram muito ténues. Ao contrário do que se verificou em Vila Viçosa, onde a Santa Casa da vila beneficiou, por estar situada na sede da casa ducal, das esmolas e dos legados dos duques, em Melgaço apenas existe menção de uma dádiva de oito mil réis enviada por D. Teodósio II à confraria em 1590. A distância da casa ducal não teria sido um fator de menor peso nesta atitude dos Bragança, mas estamos convencidos de que mais do que a distância física, pesaram estratégias de atuação que definiram investimentos diferenciados por parte da casa senhorial.
A confraria de Melgaço era uma instituição pequena, localizada numa terra fronteiriça, onde não abundavam as fortunas pessoais. Este facto refletiu-se nos legados que recebeu. Os seus mais importantes benfeitores foram alguns homens da terra que partiram para o ultramar, especialmente para a Índia. Também os provedores se destacaram, enquanto benfeitores. Sabe-se, no entanto, que parte da sua fortuna pessoal era gasta nos anos em que governavam a Santa Casa. Normalmente, pagavam festas religiosas e obras, proviam pobres ou compravam alfaias de culto, fazendo memória da sua passagem pela direção da confraria.
Na Misericórdia de Melgaço, esta situação foi tanto mais importante quanto muitos deles eram juízes de fora, gente que não era da terra, mas que depois de passar alguns anos em Melgaço e de ocupar o cargo mais importante da confraria mais prestigiada da vila, a escolhia para legar parte ou a totalidade da sua fortuna.
Este facto foi peculiar, porque em algumas localidades, estes homens tiveram dificuldades em aceder às Misericórdias. Porém em Melgaço, explica-se por ser ma terra pobre e raiana onde escasseavam elites.
A Misericórdia servia-se dos seus irmãos e dos homens que pediam pelas freguesias – os mamposteiros – para angariar fundos que lhes possibilitavam prover os pobres. Ou seja, com as contribuições que recebia, conseguiu manter em funcionamento uma ajuda regular aos mais necessitados. Pedia para poder distribuir. O compromisso da Misericórdia de Lisboa de 1618, que regia a Santa Casa de Melgaço, determinava a existência de uma pessoa em cada freguesia para recolher pão para os presos, devendo entregá-lo à Misericórdia.


Extraído de: 
- ARAÚJO, Maria Marta Lobo (2005) - Pedir para distribuir: Os peditórios e os mamposteiros da Misericórdia de Melgaço na época moderna. Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço.

domingo, 16 de setembro de 2012

A Misericórdia de Melgaço na Guerra da Restauração (1640-1668)

Igreja da Misericórdia da vila de Melgaço

A Misericórdia de Melgaço (terra do senhorio de Bragança) viu-se confrontada com os feridos desta guerra logo no ano de 1641. Os irmãos ordenaram a compra de “mesinhas” necessárias para se curarem duas mulheres pobres pobres que os galegos feriram e maltrataram na freguesia de Cristóval quando entraram para queimar a dita freguesia”.
No ano seguinte, em 1642, a Misericórdia foi contactada pelo Desembargador Gregório de Valente e Morais para proceder ao tratamento de militares enfermos. Os mesários concordaram mas lamentavelmente não puderam tratar gratuitamente, como desejavam, por a Santa Casa não possuir rendimentos para o efeito. Por isso, contentavam-se com o “socorro aos soldados nos dias em que estiveram enfermos”. Declararam ainda que o pagamento das mezinhas necessárias aos militares corria por conta da Coroa e que não tratariam soldados aquartelados, porquanto o cirurgião não aceitava esse encargo pelo ordenado de 18 mil réis anuais que recebia.
Não temos conhecimento das diligências posteriores havidas entre a Coroa e a Santa Casa, mas em 1643, os mesários acordaram na obrigatoriedade dos irmãos nomeados visitarem os soldados aquartelados que estivesses doentes e de darem conta da ocorrência ao cirurgião. Esta passagem prova que a confraria tinha cedido na cura  de militares que estavam nos quartéis e em casas particulares.

Mau grado as dificuldades sentidas, a Misericórdia de Melgaço procurava agir com normalidade e cumprir os rituais a que estava habituada. Em 1645, os mesários acordaram fazer as festividades da semana santa e resolveram “que pera os novellos se escolha o linho pior e parte do outro que se asede e que delles se façam os novellos para quinta feira maior e que o outro linho bom se venda para fazer toalhas e amitos”. O tempo impunha racionalidade e parcimónia nas despesas, mas a confraria não deixou de celebrar esta quadra em tempo de guerra.


Extraído de: 


- ARAÚJO, Maria Marta Lobo (2005) - Pedir para distribuir: Os peditórios e os mamposteiros da Misericórdia de Melgaço na época moderna. Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço.