segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Manoel José Rodrigues da Costa, presbítero de Melgaço no Brasil



Manoel da Costa foi um dos primeiros oficiais da Igreja Presbiteriana do Brasil. Nasceu no dia 21 de junho de 1846 em Beleco de Passos, Melgaço (província do Minho), em Portugal, a pequena distância da fronteira espanhola. Em novembro de 1859, aos treze anos, deixou a pátria, aportando no Brasil em janeiro de 1860. Dirigiu-se para Caldas, Minas Gerais, ali chegando no dia 7 de abril. Quatro anos depois, em março de 1864, foi residir em São Gonçalo do Sapucaí, onde se casou em 22 de abril de 1865 com Florisbela de Azevedo Costa (ele com 19 anos e ela com 13). Em 1866, mudou-se para Águas Virtuosas (Lambari), onde no ano seguinte nasceu o primogênito Guilherme.

Em 1870, mudou-se para a Serra de Santos, como empregado da São Paulo Railway. Converteu-se em 1874, através da leitura da Bíblia, sendo recebido por profissão de fé e batismo no dia 6 de dezembro daquele ano pelo Rev. George W. Chamberlain, na Igreja Presbiteriana de São Paulo. Florisbela foi recebida em 7 de março de 1875, em companhia do futuro Rev. Eduardo Carlos Pereira. No dia 21, batizaram os filhos Guilherme, Elisa e Alberto. Manoel deixou o emprego na estrada de ferro por causa do trabalho no domingo e tornou-se comerciante. Teve um armazém na rua Santa Efigênia, transferindo-o em 1879 para a rua dos Andradas.

Foi eleito diácono da Igreja de São Paulo em março de 1876, e presbítero em 3 de outubro de 1880, sendo ordenado no dia 9 de janeiro de 1881. Tornou-se assim o segundo presbítero dessa igreja histórica, organizada em 1865. O primeiro havia sido o inglês William Dreaton Pitt, ordenado em 22 de dezembro de 1867, que ingressou no ministério em 1869 e faleceu no ano seguinte. Foi somente a partir de Manoel da Costa que a Igreja de São Paulo teve com regularidade o ofício de presbítero.

Foi um presbítero exemplar, secretário do conselho por muitos anos e tesoureiro da igreja. Representou a sua igreja na organização do Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil, em 1888, e em muitas reuniões de concílios. Fez parte da primeira comissão permanente do Plano de Missões Nacionais (1888) e foi o seu segundo tesoureiro (1890-1899), em substituição ao Rev. Antônio B. Trajano. Também atuou como tesoureiro do Seminário Presbiteriano. Foi um dos membros fundadores do Presbitério de São Paulo, criado pelo Sínodo e instalado no dia 14 de setembro de 1888, sendo o único presbítero ao lado dos Revs. George Chamberlain, Donald McLaren, George Landes, Emanuel Vanorden, Modesto Carvalhosa, Eduardo Carlos Pereira, João Ribeiro de Carvalho Braga e Manoel Antônio de Menezes. Foi ainda um dos principais fundadores do Hospital Samaritano (1892), atuando nos trabalhos de organização, construção, administração e sustento dessa entidade.

Manso e humilde, mas firme em suas convicções, era combativo nos concílios e na imprensa presbiteriana. No Sínodo de 1900, manifestou o seu dissentimento contra o critério geográfico adotado para a delimitação dos Presbitérios de São Paulo e Oeste de São Paulo. Duas igrejas da capital ficaram no primeiro presbitério e a outra no segundo. Manoel da Costa assim se expressou: “O abaixo assinado respeitosamente dissente da decisão do Sínodo, dividindo a cidade de S. Paulo, ficando assim a pertencer a dois Presbitérios, o que julga contrário ao espírito do Evangelho”. Essa divisão resultou das controvérsias da época, centralizadas em torno do Rev. Eduardo Carlos Pereira, pastor da Igreja de São Paulo. No culto de ação de graças pela vida do Rev. George Chamberlain, realizado no Mackenzie em 23 de agosto de 1902, Manoel da Costa falou em nome da Igreja de São Paulo.

No Sínodo de 1903, em que se dividiu o presbiterianismo brasileiro, Manoel pronunciou-se contra a maçonaria, mas também se opôs à divisão da igreja. Propôs o seguinte substitutivo a uma proposta do Rev. Álvaro Reis: “Que o Sínodo declarasse a incompatibilidade [entre a fé evangélica e a maçonaria], que recomendasse aos crentes que se não filiassem à instituição, e que fossem tolerados os crentes maçons até que Deus os esclarecesse”. Votou com a maioria, com restrições, fundamentando o seu voto que ficou nas atas do Sínodo: “O abaixo-assinado, votando sim no último parecer da comissão de papéis e consultas, não concorda, entretanto, com os seus considerandos por entender que a maçonaria é incompatível com o Evangelho”.

Apesar de não concordar com a divisão da denominação, continuou a freqüentar por algum tempo a Igreja de São Paulo, agora filiada ao movimento independente. Em 1886 havia voltado pela primeira vez a Portugal, onde procurou propagar o evangelho. Residiu por quatro meses em Melgaço, sua terra natal, e pregou várias vezes em Caminha. Fez nova visita à pátria em 1892-1893. Pouco depois do cisma presbiteriano, foi pela terceira e última vez ao seu país de origem. Voltando ao Brasil, residiu em Juiz de Fora de 1905 a 1915, mudando-se no ano seguinte para Mogi das Cruzes. Dona Florisbela faleceu aos 69 anos em 2 de janeiro de 1922.

Manoel da Costa destacou-se como um crente e presbítero piedoso, pontual e zeloso.

O respeito pelo Dia do Senhor foi uma das características da sua vida. Outro destaque foi a sua liberalidade. Por volta de 1882 fez o voto de dar ao Senhor todos os seus dízimos. Prometeu também a Deus que, se chegasse a possuir 50 contos de réis, o excedente seria aplicado para fins evangelísticos e beneficentes. Disse e fez. Ofertou em sua vida 106 mil réis (dízimos mais o excedente dos seus bens). Era o “dizimista n° 5” em sua igreja. Acima de tudo, foi um homem de oração. Alguém disse: “Quando a igreja mais precisa de oração, os primeiros joelhos que se dobram são os de Manoel da Costa; quando mais precisa de dinheiro, a primeira bolsa que se abre é a sua”. No interesse da causa de Cristo, participou de reuniões de outras denominações (metodista, batista, cristã evangélica, etc.).

Foi também um grande evangelista. Quando mais moço, dirigiu cultos de propaganda nos bairros. Foi professor da classe de adultos da sua igreja por muitos anos e dirigiu uma classe bíblica na Associação Cristã de Moços. Durante algum tempo manteve uma escola dominical em sua casa, aos domingos à tarde, na rua dos Andradas. Escreveu e publicou 18 folhetos, distribuindo-os amplamente. São eles: “Primeiro passo para a salvação”, “Uma conversa”, “Salvação de graça”, “Salva-te sem demora”, “Uma carta aos pretos libertos”, “Aos empregados no comércio e aos artistas”, “Amor e simpatia de Jesus para com os pecadores”, “A grande naturalização e a grande salvação”, “Extrato do folheto Trabalho e Economia”, “Jesus Cristo é o nosso maior amigo”, “O domingo não é nosso”, “O dízimo não é nosso”, “A oração do justo”, “Uma despedida ao povo”, “O plano de Deus para a nossa salvação”, “A cura do corpo e a cura da alma”, “Aviso aos espíritas sinceros”. O primeiro foi traduzido para o italiano (“Primo passo verso la salvazione”) e distribuído largamente entre os imigrantes em São Paulo.

Em 1921, adotou para uso diário a oração do salmista: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim e o número dos meus dias qual é, para que eu saiba o que resta” (Salmo 39.4, Versão Figueiredo). Em 21 de junho de 1922, ao completar 76 anos, estando presente o filho Alberto, ajoelharam-se e agradeceram a Deus por ter-lhe concedido mais um ano de vida, com saúde e na sua graça. Usaram esta expressão: “Não peço que me prolongues a vida, mas somente os dias que forem para tua glória”. No dia 14 de julho, Deus respondeu à oração que vinha fazendo desde 1921, dando-lhe a entender que ainda teria três anos de vida. Mais tarde, concluiu que Deus lhe daria outros três anos (até 13 ou 14 de julho de 1928). Por fim, acreditou ter recebido nova prorrogação de um ano, o que se confirmou com diferença de um dia.

No dia 6 de julho de 1929, seu filho Alberto e o presbítero Luiz Del Nero foram a Mogi das Cruzes e o levaram para a casa de Alberto em São Paulo. O ancião contraiu pneumonia. No dia 11, já enfraquecido, levantou-se para que tirassem o seu retrato. Faleceu no dia 15 de julho, às 8:44 da manhã. O sepultamento ocorreu no dia seguinte. Na residência oficiaram os Revs. Otoniel Mota e Bento Ferraz; no Cemitério do Redentor, Otoniel Mota e Salomão Ferraz.

O casal Costa teve 19 filhos, quase todos falecidos na infância ou no início da idade adulta. Um deles, Guilherme da Costa, foi consagrado pastor metodista (faleceu no Rio de Janeiro em setembro de 1904, numa epidemia de varíola); Elisa foi casada com José Rodrigues da Costa, de Itapira; Ermelinda casou-se com o Rev. Simão Salem. Seu filho Alberto J. R. da Costa, que foi diácono e presbítero da Igreja de São Paulo, escreveu um opúsculo intitulado A Vida de Meu Pai. O Rev. Bento Ferraz também o homenageou com o escrito Manoel José Rodrigues da Costa – In Memoriam. O Rev. Eduardo Carlos Pereira dedicou-lhe um estudo em folheto, “A fidelidade de Deus ou trabalho e economia”, no qual exaltou o seu caráter.

Extraído de:
http://www.mackenzie.br/10195

sábado, 6 de outubro de 2012

A desativação da fortaleza de Melgaço nos séculos XIX e XX (cronologia)


  • 17 de Dezembro de 1761 - O inspector Luís da Cunha aponta a necessidade de reconstruir dois estrados no quartel dos soldados, colocar uma porta nova na barbacã. Reconstruir as portas de Baixo. Executar novas portas para as entradas a norte e sul da tenalha e recolocar a cantaria de 2 m de comprimento por 5 m de altura de parapeito. Realizar plataformas de madeira para a artilharia. Cobrir com telhas os armazéns e o quartel de infantaria em "miserável estado"; recomendava envernizar as portas novas e as janelas dos armazéns das armas e da praça e fazer uma porta interior do paiol com 6 palmos de altura e 4 de largura.
  • 1786 - O castelo estava arruinado ou praticamente destruído.
  • Entre 1789 e 1800 - Nova inspecção na praça de Melgaço, descrita como uma obra antiga com uma torre e uma muralha simples, com alguns baluartes " muito pequenos, de pouca consideração incapazes de poder jogar a artilharia" na parte exterior. Os armazéns e os quartéis estavam em ruína. A fortaleza carecia de função militar.
  • 1792 - O rei proíbe a construção dentro dos fossos e sobre qualquer obra de fortificação das praças e fortalezas da Província do Minho.
  • Fevereiro de 1797 - Inspecção da fortaleza pelo sargento-mor de engenharia M. José da Serra, que determina que se devem reparar os pavimentos e tectos assim como reconstruir portas e janelas com ferragens adequadas.
  • 15 Junho de 1808 - José Gomes Vilas Boas, sargento maior engenheiro descreve Melgaço como um pequeno recinto, que cercava parte da vila, com altas muralhas, mas que o seu terrapleno e parapeito eram tão escassos que mal se poderia manobrar a artilharia.
  • 1810 - Tendo em conta a defesa de Melgaço, construíram-se baterias em pontos vitais para a entrada do exército invasor do lado galego: uma em São Gregório, outras na estrada entre a vila e Ponte das Várzeas, outras foram projectadas mas não chegaram a ser construídas. As baterias foram executadas com parapeitos de terra servindo para soldados com armas ligeiras e para peças de artilharia.
  • 23 de Maio de 1840 - A torre de menagem é denominada Torre do Relógio. O castelo estava circunscrito por um "caminho de piquetes" tendo a este um hornaveque e a norte algumas obras baixas. No seu interior encontrava-se um quartel de campanha e um armazém reconvertido também em quartel. O recinto magistral estava em bom estado. O castelo tinha uma parte da muralha em ruínas. As portas e os quartéis necessitavam de restauro, o hornaveque estava em ruínas com casas particulares dentro e fora.
  • Meados do século XIX - Desactivação da tenalha. A muralha mantém o adarve ao qual se acedia por escadas interiores.
  • Segunda metade do século XIX - Colocação do relógio da Torre.
  • 13 de Agosto de 1856 - O Ministério da Guerra manda demolir a tenalha.
  • 1857- Segundo uma planta desta época, parte da zona militar e da sua envolvente servia para uso agrícola.
  • 1859 - Segundo um plano desta época ainda subsistia a ?couraça nova? que aparece no desenho de Duarte de Armas, embora agora tivesse uma casa adossada por fora e três edifícios por dentro.
  • 15 de Dezembro de 1861 - segundo relatório, a povoação não deveria ser sacrificada à rigidez histórica, pelo que o "recinto magistral" deveria ser demolido e os seus terrenos e materiais vendidos. Sugere que se deveria conservar como "livro histórico" a "cidadela", previamente reparada e destituída na entrada dos edifícios civís. Nesta época restava ainda um pequeno destacamento com utilização mais policial que militar.
  • 25 de Abril de 1883 - A Câmara Municipal fica a cargo das antigas fortificações da vila compreendidas entre a porta do lado sul e do lado este , assim como o reduto que defendia esta última porta. Inicio da demolição da cerca da vila.
  • 1900 - Ainda subsistia parte do muro da vila. O Ministério da Guerra vende as parcelas de terreno que ainda possuía na fortificação.
  • 4 de Abril de 1900 - Comunicação à Câmara Municipal da necessidade de demolir o que restava das muralhas porque os médicos municipais consideram-na uma das principais causas de insalubridade dos bairros circundantes.

Torre de Menagem em 1908

  • 5 de Dezembro de 1917 - Oficio do Presidente de Arte e Arqueologia perguntando à Câmara o motivo da demolição das muralhas sem considerar a resolução da Comissão dos Monumentos. A Câmara entendeu que a suspensão dos trabalhos de demolição eram contrários aos interesses do município decidindo informar a Inspecção-geral de Fortificações e Obras Militares para garantir os seus direitos.
  • 23 de Janeiro de 1918 - Despacho do Ministério da Guerra anulando a venda de lotes.
  • 26 de Junho de 1919 - A Câmara decide vender a pedra da muralha da couraça nova. Os escombros deveriam ser depositados no antigo lavadouro público. O inspector do Conselho de Arte e Arqueologia pediu informação à Câmara sobre o plano de melhoras para o castelo.
  • 5 de Maio de 1920 - A secretaria de Turismo solicita a constituição de uma comissão para a "guarda e defesa do castelo".
  • 24 de Novembro de 1920- Graças a um reforço orçamental da Secretaria do Turismo solicita-se à Câmara o envio da lista de obras a empreender e respectivos custos.
  • 25 de Fevereiro de 1925 - A Câmara delibera vender a pedra da fundação da muralha da vila.
  • 1936 - Solicitação à Guarda-fiscal para desocupar a parte inferior da torre de menagem onde guardava barris e tinha aberto uma porta na fachada lateral direita.

Extraído de: http://www.cieform.org

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Fortaleza de Melgaço nos século XVII e XVIII





As Guerras da Restauração começam na zona fronteiriça do Minho quando, em 1641, Gastão de Sousa Coutinho ordena a invasão de Galiza através de Melgaço dando inicio a uma série de campanhas que apenas terminaram, a 13 de Fevereiro de 1668, com a assinatura da paz entre os dois países.
No século XVII tem lugar a construção de uma nova fortificação de acordo com os modelos militares abaluartados, rodeando a vila de Melgaço. Data de 1713 a representação mais antiga, da autoria de Manuel Pinto de Villa Lobos, que representa a fortificação abaluartada.
A nova construção inutilizará o fosso preenchido para realizar uma nova linha de muralhas. Melhoraram-se novos elementos como as falsas-bragas que rodearam todo o perímetro da cerca seguindo o antigo traçado do fosso, três baluartes orientados para os principais pontos de defesa e uma tenalha exteriormente defendida com um parapeito diagonal. No muro do castelo abriu-se, na segunda metade do século XVII, uma porta de acesso à vila protegida por uma barbacã poligonal. A fortificação esteve em uso num período muito curto de tempo, aproximadamente um século e meio, já que em finais do século XVIII a sua deterioração e destruição eram quase integrais. Em finais do século XVII alteraram-se as paredes laterais da antiga couraça para uma planta sensivelmente triangular, mantendo a cabeceira semicircular com a Porta de Campo da Feira.
De 1758 data a planta do castelo elaborada pelo sargento Gonçalo Luís da Silva Brandão na qual há registo dos três principais pontos de abastecimento de água da vila naquela época: uma cisterna, um poço e uma fonte. Nos anos seguintes em inspecções realizadas por engenheiros enviados pelo sargento maior de campo, António Carlos de Castro, detecta-se a necessidade de empreender reparações nos distintos pontos da fortificação tais como mudar os estrados no quartel dos soldados, refazer duas fachadas no ângulo sul, colocar uma porta nova na barbacã da porta, refazer as postas de baixo e a entrada da Praça a norte. Foi necessário executar portas para as entradas norte e sul da tenalha, repor a cantaria em cerca de 200 m de comprimento e 5 m de altura no parapeito. Executar plataformas de madeira para a artilharia, repor as telhas na cobertura dos armazéns e no quartel da infantaria. Apesar de todas estas reparações o castelo em 1789 estava praticamente arruinado. A partir deste momento sucederam-se as inspecções e concertos, seguidos da demolição de algumas partes e da venda de outras a privados.

Extraído de: http://www.cieform.org

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Praça Forte de Melgaço no contexto do sistema de defesa medieval do vale do Minho



O burgo de Melgaço tem a sua origem, como outras freguesias da região, na Alta Idade Média. Em meados do século XII, durante o reinado de D. Afonso Henriques, a administração real percebe a importante posição estratégica desta vila e em 1183 concede uma Carta Foral ao seu burgo. Nesta época a povoação ainda não possuía nenhum elemento defensivo e é composto unicamente por habitações e igrejas: Santa Maria da Porta, Santa Mariado Campo e São Facundo, esta última actualmente desaparecida. O castelo de Melgaço é uma estrutura defensiva erguida sobre uma colina que reunia em seu redor um casario que juntamente com a fortaleza moderna do século XVII forma um conjunto militar contraposto à torre de Crecente na Galiza.

Desenho de Duarte D' Armas

O castelo de Melgaço, juntamente com Valença, Monção, Caminha e Vila Nova de Cerveira faz parte de um linha de pontos fortificados na fronteira do Minho que participará directamente na configuração, na zona norte, dos limites da nação portuguesa e da sua separação do território Castelhano - Leonês. A primeira documentação histórica que menciona a Vila de Melgaço remonta ao reinado de D. Afonso Henriques que atribui o seu foral em 1183 à povoação de Melgaço. Este Rei, conhecedor da região, atribui grande valor, não apenas à sua situação fronteiriça com Galiza, mas também como defesa do espaço que ficava na retaguarda das linhas de penetração que davam acesso ao Lima e às capitais importantes, para as aspirações independentistas do Rei, como Braga e Guimarães. Relativamente à fortificação da Vila, a primeira menção é feita num documento do ano de 1199 no qual o rei D. Sancho I atribui ao Mosteiro de Longos Vales de Monção um couto que inclui uma torre em Melgaço que tinha sido construída pelo prior desse mosteiro. A fortificação de Melgaço esteve ligada num primeiro momento ao Mosteiro de Fiães, de cujo abade se dizia: "Nestes reinos ninguém, depois do rei, era mais rico que o D. Abade de Fiães" (ALMEIDA, 2002, 19). A defesa do território beneficiava os monges que eram acima detudo os receptores da parte das rendas da terra da zona. Por essa razão o mosteiro se verá obrigado a contribuir para a construção das defesas da vila.
Acerca da vila de Melgaço realizou-se, segundo César A. Esteves em três fases. O início teve lugar no lado nascente em 1205, na época do Rei D. Sancho I (ALMEIDA, 2002,21), o que leva a pensar na existência de uma cerca nesta época terminada em 1263, no reinado de D. Dinis (ESTEVES, 1952, 85). A primeira parte realizou-se na mesma época que a torre demenagem e depois da circunscrição do castelo.
A segunda fase seria o pano sul, realizado a partir de 1245, como se reflecte num documento de acordo entre o abade, os representantes reais e o concelho de Melgaço. A parte mais ocidental, até à união com o castelo, foi realizada em último lugar. A documentação histórica junta uma série de dados sobre a evolução da construção através de feitos bélicos e de relaçõe scom os abades de Fiães: Em 1212 sofreu uma invasão das tropas de Leão. No ano de 1245 continua-se a construir a cerca como se deduz do acordo entre o abade João de Fiães, os juízes João Pires de Caveiras e Miguel Fernandes e o concelho de Melgaço pelo qual o abade se comprometia aconstruir 18 braças (32,91 m) do muro e tomar a cargo a sua reconstrução em caso de deterioração. Também estava obrigado a levantar uma torre, possivelmente no castelo. Em contrapartida, o abade era encarregado de nomear, entre a fidalguia de boa reputação, o alcaide da Praça. Esta prerrogativa foi delegada em 1258 quando o rei D. Afonso III determinou que a nomeação ficasse a cargo da coroa, o que desagradou a população da vila que se insurgiu contra o decreto real que vinha alterar uma deliberação de Afonso Henriques. O rei ordena que se conclua a cerca, a cargo do erário real, o que sucede quando Martinho Gonçalves era alcaide e o mestre Fernando seu construtor, tal como se lê na inscrição da Porta de Baixo. Em 1261, a autoridade militar e a manutenção do castelo estava na mão do alcaide, a guarda ficava a cargo dos homens bons do burgo.
Em Março de 1388, motivada pela luta entre Castelhanos e Portugueses, na sucessão do Rei D. Fernando, reedificou-se uma torre, abrindo duas janelas no último piso convertido em habitação. Posteriormente reforçou-se o sistema militar da vila. Em 1391 devido ao facto da localização da vila no extremo norte do reino, despovoada e bastante arruinadanas suas defesas, o rei concede os benefícios das feiras para intervir na sua melhoria.
Já no século XIV realizou-se o fosso e a barbacã. O fosso  não era conhecido até à intervenção arqueológica levada a cabo na praça da República. A sua obra, posterior à construção do muro davila, foi mandada fazer em finais do século XIV pelo rei D.Fernando como se relata na crónica de Fernão Lopes "...e isso mandouhos reparar de muros e torrea e cavas darredor" .
Abarbacã foi construída, para defender o fosso, sobre afloramentos rochosos previamente aplanados. Na realidade existiam duas barbacãs, uma mais antiga rodeando o castelo e uma segunda que contornava a cerca da vila, esta barbacã já se encontrava muito danificada na época de Duarte de Armas e actualmente apenas subsiste um troço a norte. O assalto de 1388 demonstrou que a fortaleza era bastante vulnerável, sobretudo pelo lado oriental apesar de estar apetrechada com abarbacã e fosso. Nesta zona encontrava-se a Porta de Cima, a mais desprotegida por aceder a uma área topograficamente acessível. A construção da couraça tratava de garantir a aproximação segura a um ponto de abastecimento de água. Duarte de Armas, que a representa na sua obra, descreve-a como "Couraça nova" sem que fosse possível documentar a anterior. Relativamente à data da sua construção, documental e arqueologicamente a couraça de Melgaço é uma obra do século XV, possivelmente do reinado de D. João II. Esta couraça sofreu modificações no século XVII que foram possíveis de detectar nase scavações arqueológicas.
No século XVI foi construído um novo remate na torre com matacães e ameias como pode ser apreciado na representação, de 1512, da autoria de Duarte de Armas.

Extraído de: http://www.cieform.org


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

As muralhas da praça-forte de Melgaço



O perímetro amuralhado que envolve o núcleo urbano mais antigo de Melgaço, e que se ligava ao castelo através de duas torres quadrangulares, é uma obra do século XIII, construída na mesma altura em que o velho castelo românico da vila foi objecto de uma reforma quase integral. A primeira referência a esta cerca data de 1245, ano em que as autoridades (o alcaide, muito provavelmente com o apoio de D. Afonso III e dos principais mosteiros da região) decidiram cercar a vila com uma muralha de "pedras quadradas".
Os trabalhos ter-se-ão desenrolado com relativa rapidez, uma vez que, menos de vinte anos depois, em 1263, uma epígrafe assinala, muito provavelmente, a conclusão da empreitada. Localizada no troço ocidental da fortaleza, junto da porta principal (a que ligava o conjunto ao rio e às estradas para as principais povoações do Noroeste), ela indica que, no tempo de D. Afonso III, o mestre Fernando construiu o muro e que o alcaide do castelo, Martinho Gonçalves, custeou parte das obras. Esta informação é uma das mais importantes que o castelo de Melgaço nos deixou, na medida em que perpetuou o nome de um dos poucos arquitectos da nossa história militar medieval, cuja obra foi de tal forma relevante que o seu autor figurou ao lado do alcaide que a custeou.
De um ponto de vista planimétrico, a muralha duocentista de Melgaço não difere dos esquemas urbanísticos das vilas fortificadas góticas nacionais, apesar de grande parte ter sido já desmantelada, em consequência das obras públicas e privadas que se sucederam neste espaço. Uma planta arredondada, a caminhar para a forma oval, define o reduto, cuja linearidade era interrompida por torres e por portas, em número infelizmente desconhecido. Em 1506, Duarte d'Armas desenhou a fortaleza com três torres e duas portas, mas poderá não ter sido essa a solução original. Ainda se conserva a porta que ligava o castelo ao núcleo urbano, uma estrutura de vão único de perfil quebrado, aparentemente sem torres a ladeá-la, que era protegida por um segundo registo com balcão (de tipo matacães), em posição vertical sobre o portal.
A "raridade de cubelos e a exiguidade dos balcões, apoiados em mísulas, denotam-nos ainda uma relativa elementaridade" do sistema, edificado num momento de transição da nossa arte da guerra, entre as concepções românicas já desajustadas à realidade e a constituição de um novo modelo funcional, determinado por conceitos de defesa activa, que esteve na base do aparecimento do castelo gótico.
O urbanismo intra-muralhas, pelo contrário, pode já considerar-se característico da racionalidade tardo-medieval. Ele era organizado a partir de um eixo viário fundamental - a Rua Direita - que colocava em comunicação directa as duas mais importantes portas da vila: a oriental, junto da qual se localizava a igreja Matriz, e a ocidental, voltada ao rio e principal entrada e saída do conjunto. Paralelas a esta, duas outras ruas estabeleciam uma rede ortogonal com uma série de travessas e de ruas menores que cortavam perpendicularmente a Rua Direita e formavam terrenos rectangulares para construção de habitações.
Na Baixa Idade Média, Melgaço foi dotada de uma barbacã, que nos inícios do século XVI estava já muito destruída, mas de que se conservam ainda vestígios diante da porta principal. Parcialmente restaurado na década de 60 do século XX, numa campanha que não desvirtuou excessivamente o conjunto, o núcleo histórico da vila tem vindo a ser objecto de alguns projectos de valorização. A torre de menagem foi aproveitada para núcleo expositivo e algumas intervenções arqueológicas - em particular a que foi realizada na Praça da República - vieram pôr a descoberto importantes trechos da estrutura gótica, que nos permite, hoje, reconstituir, em traços gerais, o traçado original.