domingo, 30 de dezembro de 2012

Postal Antigo (1943) - Mosteiro de Paderne (Melgaço)


Postal enviado de Melgaço, concretamente do Grande Hotel do Pezo, em 23 de Agosto de 1943. A remetente não se identifica mas apenas sabemos que o postal é endereçado a uma tia moradora em Lisboa. A remetente dá conta à sua tia de como evolui o seu estado de saúde e dos tratamentos nas termas do Peso.
Na frente do postal, fotografia da fachada principal da igreja do Mosteiro de Paderne.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Casa da Calçada (Melgaço): caraterísticas aquitetónicas e breve história



Segundo Augusto Cesar Esteves, o edifício da Casa da Quinta da Calçada remonta à primeira década do séc. XVIII e teria sido mandado construir por Jerónimo José Gomes de Abreu Magalhães, “sargento-mor das Ordenanças, provedor da Misericórdia, ministro leigo da Confraria do Espírito Santo tendo-lhe sucedido na administração do morgadio o seu primogénito, homónimo, Jerónimo José Gomes de Abreu Magalhães, casado que foi com D. Tereza Joaquina Rosa de Melo Almada e Vasconcelos, oriunda do Paço de Montes Livres, em Silvares, Guimarães” (Esteves, 2003). Tendo estes falecido sem deixarem descendentes, a Casa da Calçada passou a pertencer ao irmão daquele, o Dr. João Caetano Gomes de Abreu Magalhães sucedendo-lhe seu filho, Luís de Abreu Magalhães, o “último morgado da Casa” (Vaz, 1985).
Inserida em quinta, em meio urbano periférico, esta construção solarenga apresenta um conjunto arquitectónico em U pouco pronunciado, composto por dois corpos laterais unidos, à mesma altura, a um corpo central mais recuado e com telhado de duas águas, prolongando-se uma delas de modo a cobrir uma alpendrada que compõe a frontaria voltada a sul. O corpo do lado nascente desenvolve-se longitudinalmente com cobertura a quatro águas e o corpo do lado poente, rectangular, encontra-se coberto a três águas.
O edifício, construído em alvenaria autoportante de granito, subdivide-se em dois pisos rebocados e pintados a branco excepto embasamento, cunhais, cornijas, molduras e ornamentos que apresentam pedra ‘à vista’.
Os vãos são constituídos, no andar térreo ou de serviços, por portas adinteladas e no piso superior, de habitação, por janelas de peitoril com padieira ligeiramente encurvada nas fachadas sul dos corpos laterais e adintelada nas fachadas laterais dos mesmos. Nas fachadas frontais destes corpos, no nível superior e enquadrado pelas janelas, encontra-se uma pedra de armas. A do corpo do lado nascente “representa Abreu, Magalhães e a do corpo do lado poente pode ler-se como Costa, Gomes, Abreus e Magalhães” (Vaz, 1985).
No nível térreo do corpo central abre-se uma entrada em arco pleno que daria acesso a arrecadação e, no piso superior, estende-se a referida alpendrada e peitoril em granito aparente. Perpendicularmente a esta e adossadas às paredes dos corpos laterais, lançam-se duas escadarias em pedra, de acesso à galeria, estando resguardadas, num dos lados, por parapeito fechado iniciado por volutões.
Quando contemplado, do início do caminho, partindo da estrada e marginado por muros rebocados a branco, constata-se neste solar um grande equilíbrio nas proporções dos diferentes corpos. A horizontalidade dos alçados, aliada à pouca altura das cérceas, confere-lhe uma escala humanizada e uma certa imaterialidade induzida pela alvura das paredes misturando-se com o caio das telhas de meia cana que cobrem todo o edifício.

Para o Arq. Luís Magalhães Fernandes Pinto, a Casa da Calçada e o Pazo de Pegullal (em Salcedas, Galiza) “apresentam uma aparência que nos permite aceitar terem sido construídas segundo uma técnica comum e, talvez, sob o mesmo plano. Apresentam plantas em U, de proporções e dimensões idênticas, com dois corpos intercalando uma alpendrada, em que as variações significativas se concentram no lançamento e exuberância das escadas. Na comparação das suas organizações internas encontra-se a referida diferenciação de organograma, isto é, preferência de cenário numa (a da Casa da Calçada), prioridade ao conforto, na outra (o Pazo de Pegullal)” (Pinto, 1999).

Informações recolhidas em:
CERVEIRA, Alexandra/DGEMN - Casa da Quinta da Calçada, n.º IPA: PT011603180012, 1999. Disponível em WWW: <www.monumentos.pt>.
ESTEVES, Augusto César - Obras completas. Melgaço e as Invasões Francesas, reed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2003, Vol. 2.
ESTEVES, Augusto César - Melgaço. Sentinela do Alto Minho, Ed. Tipografia Melgacense, Melgaço, 1957 e 1959, Vol. 1 e Vol. 2.
PINTO, Luís de Magalhães Fernandes - O Vale do Minho. Pazos e Solares. Dois modos diferentes de habitar, in Revista ‘Estudos Regionais’, n.º 19/20, Viana do Castelo, Dezembro 1999, p. 43-58.
VAZ, Júlio - P.e Júlio Vaz apresenta Mário, Edição do Autor, Melgaço, 1996.
www. acer-pt.org

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses II


Inscrições em sepultura medieval junto ao Mosteiro de Fiães


Inscrição gravada em tampa de sepultura em granito. Comprimento: 189 cm. Altura: 62 cm/50 cm (Cabeceira/Pés).
Leitura:
Era Ma CCCa L IIII KaLendaS IULII / Obiit Maria I(o)HannIS  DE CAVALEIROS
Inscrição funerária de D. Maria Anes, natural de Cavaleiros (Freguesia de Roucas, Concelho de Melgaço), gravada na tampa de sua sepultura, que se conserva hoje fora de contexto, encostada à parede Norte da Nave da Igreja de Fiães.
A insc. de D. Maria Anes foi publicada apenas por dois autores, em ambos com leitura distinta da que aqui apresentamos no que respeita ao nome próprio de D. Maria Anes. O primeiro autor a divulgar esta inscrição foi o P.e Bernardo Pintor, na sua monografia dedicada a Melgaço Medieval, quando dá notícia do aparecimento da tampa de sepultura em 1958, desenterrada da zona envolvente da Capela-Mor de Fiães. Nesse estudo, o P.e Pintor propõe a seguinte leitura para este epitáfio:
"E : M : CCC : L IIII KL S IULII
O' M : IHTS . DE CAVALEIROS" desdobrando:
"Era 1345 Calendis Julii Obiit Martinus Johanis de Cavaleiros" (PINTOR 1975, p. 44). O P.e Bernardo Pintor ressalvava, ainda, que o desdobramento de M por "Martinus" era apenas uma hipótese, podendo ser igualmente desdobrado por "Mendo" ou "Múnio" (PINTOR 1975, p. 44). Depois da referência do P.e Bernardo Pintor, a insc. de Fiães seria apenas de novo referida em 1987, por nós próprios, quando procedemos ao estudo dos vestígios funerários medievais de Entre-Douro-e--Minho, e onde perfilhámos a leitura proposta pelo P.e Pintor, optando pela primeira solução de desdobramento («Martinus»), por parecer ser a mais usual para a época, sendo portanto a mais plausível (BARROCA 1987, p. 410 e p. 482). Julgamos, hoje, que estávamos equivocados, tal como o P.e Pintor. Na realidade, o M apresenta-se coroado por pequeno A aberto, de herança visigótica, revelador do género feminino da palavra aí abreviada. Ora, a sua presença afasta desde já, e de forma radical, a possibilidade de se tratar de um Martinho, Mendo ou Múnio. A conjugação de um M com a terminação em A, na forma «Ma» recomenda que se desdobre por Maria, o que aqui fazemos pela primeira vez.
A inscrição de Maria Anes, natural de Cavaleiros, encontra-se gravada na sua tampa sepulcral, decorada com uma enorme cruz latina que ocupa as dimensões maiores da tampa acompanhando o eixo principal desta, com braços definidos a duplo traço e remates terminais flordelizados. Acompanhando o braço maior da cruz, e ocupando os dois "campos" rectangulares por ele definidos, foram gravadas as duas regras deste modesto epitáfio. 
Apenas uma palavra, Obiit (abreviada na primeira letra, «O»), que abre a segunda regra, foi gravada à esquerda desse "campo" epigráfico, portanto no que poderíamos designar por primeiro quadrante da tampa. Esta palavra constitui, igualmente, o principal motivo de interesse desta inscrição, já que se trata de uma abreviatura particular da palavra Obiit, grafada na forma de O cortado por pequeno segmento de recta oblíquo (0). Ora, esta forma peculiar de abreviar a palavra Obiit ocorre apenas em Coimbra e, sobretudo, em Alcobaça, sendo típica dos "ateliers" epigráficos cistercienses. Julgamos que o seu aparecimento em Fiães não pode deixar de espelhar contactos culturais entre as diversas instituições cistercienses, que sabemos terem existido, e que encontram aqui uma comprovação epigráfica.
O Mosteiro de Fiães encontra-se documentado desde 1142, tendo começado por abraçar a Regra de S. Bento (que ainda seguia em 1173), e mudando mais tarde para a Regra de Cister (que já se documenta nesta instituição em 1194).


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses I


Inscrição na Capela de Nossa Senhora da Orada


Inscrição comemorativa da Fundação da Ermida de N.a S.a da Orada, gravada em silhar do ombral direito do Portal Ocidental do templo. A inscrição revela-nos o papel desempenhado pelo Prior de Fiães na fundação deste templo rural.
Foi o Padre. Bernardo Pintor o primeiro autor a publicar a inscrição de Orada, oferecendo leitura quase correcta do letreiro, primeiro sem desdobramentos:
"P'IOR MONAC DE / FENALIB ISTAM / ECCIÃ FUND" depois com desdobramento de abreviaturas:
"PRIOR MONACHORUM DE FENALIBUS ISTAM ECCLESIAM
FUNDAVIT" e depois da respectiva tradução:
"O Prior dos Monges de Fiães Esta Igreja Fundou" (PINTOR 1975. Anotemos apenas que a inscrição apresenta ECCLA e não ECCIA, e que a MONAC se segue o sinal de abreviatura, parcialmente gravado no silhar superior, pelo que deveria transcrever MONAC. A leitura do Padre Bernardo Pintor, correcta nas suas linhas gerais, seria citada por Lúcia M. Cardoso Rosas (ROSAS 1987).
Já tivemos oportunidade de referir as ligações profundas que uniam a Ermida de N.a S.a da Orada ao Mosteiro de Fiães. O Mosteiro teria recebido a herdade de St.a Maria da Orada das mãos de D. Afonso Henriques por diploma hoje desconhecido mas confirmado indirectamente por outro de seu filho, D. Sancho I, de 1199. É possível que a doação tenha sido realizada no quadro do diploma de 1173 pelo qual o primeiro monarca português entregou diversos e alargados bens ao Abade D. João e aos frades do Mosteiro de Fiães. A construção da Ermida, como Carlos Alberto Ferreira de Almeida teve oportunidade de sublinhar, deve ser colocada nos meados do século XIII (ALMEIDA C.A.F. 1988) e à qual talvez se deva associar a inscrição de 1245. É possível que tenha sido no final das obras dessa centúria que se gravou o letreiro que aqui nos ocupa, consagrando o papel do Prior de Fiães na construção deste prestigiado centro de devoção, implantado em plena mancha rural, à saída de Melgaço.


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte XIX)

Nenhum outro elemento poderá expressar melhor os sentimentos manifestados em relação às crianças expostas como as mensagens escritas que as acompanhavam. Muitas delas apontavam para uma futura reintegração familiar, a justificarem um tratamento diferenciado daquelas que eram enjeitadas e que passariam a constituir um encargo exclusivo dos municípios. Mesmo que, no futuro, se viesse a provar não existir uma correspondência efectiva entre o conteúdo das mensagens e o destino das crianças expostas, o facto de terem sido elaboradas já revela uma preocupação particular com a sua sorte. Na prática, seria uma forma de manter uma ligação afectiva que a sua exposição não havia definitivamente quebrado. São muito variadas as expressões utilizadas nas mensagens que demonstram o desejo de continuar a acompanhar o percurso das crianças expostas, reveladoras da presença de fortes sentimentos pessoais e familiares. São expressões que, apesar de aparecerem sobretudo na documentação do século XIX e do primeiro quartel do século XX, não deixaram de aparecer esporadicamente no século XVIII, numa altura em que o número de expostos ainda era muito reduzido. Algumas dessas mensagens imploravam os favores das rodeiras para que lhes arranjarem amas boas que as tratassem “com amor” ou “com toda a humanidade e carinho”. Outras vezes, depois de recordarem que a caridade era a principal das virtudes, solicitavam o seu bom tratamento, “por caridade e amor ao próximo”, havendo mesmo uma que “pedia do coração todo o esmero possível” na criação da criança inocente.
Algumas das mensagens pretendiam justificar as razões que levaram à exposição das crianças, como se verificou com uma delas, ao informar que «a criança que se engeita não é por falta de amor que lhe têm seus pais, mas sim por circunstâncias», ao mesmo tempo que se comprometiam a recuperá-la mais tarde e a pagar toda a despesa que tivesse sido realizada pela Roda. Através do escrito que acompanhava esta criança (exposta na freguesia de Alvaredo, concelho de Melgaço, apenas com algumas horas de vida), informava-se que a criança ainda não fora baptizada e pedia-se «por amor de Deus que lhe pusessem o nome de Júlio da Glória e que havia nascido às 9 para as 10 horas da noite do dia 17 de Outubro de 1861». Ao mesmo tempo, prometia-se que iria ser procurada e a instituição ressarcida de toda a despesa realizada. Na verdade, em 20 de Agosto de 1862, esta criança foi procurada e entregue a João Correia dos Santos Lima, negociante da vila de Melgaço, que a exigiu e se responsabilizou pela sua criação e educação, não sendo possível saber se seria o seu pai.  Também não passou despercebido o facto de alguém ter escrito uma mensagem num papel em forma de coração, assim como a promessa de uma mãe em recompensar a ama que criasse o seu filho com todo o amor, cuja exposição a fazia “sofrer encarniçadamente”, mas que esperava poder vir a recuperá-lo no futuro, ultrapassadas as razões que a haviam obrigado a tal procedimento.

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.