sábado, 7 de março de 2020

O Padre Aníbal Rodrigues e a restauração do Pelourinho de Castro Laboreiro




Castro Laboreiro deve muito ao saudoso Padre Aníbal Rodrigues. Uma das dívidas ao seu antigo pároco prende-se com a recuperação do seu histórico pelourinho, desaparecido desde 1860 e restaurado mais de um século mais tarde.
O pelourinho de Castro Laboreiro data de 1560 e foi desmontado três séculos mais tarde para permitir a construção da chamada "Casa Grande” tendo as suas peças sido levadas para diversos pontos da vila castreja. Em 1917, o Major Fernando Barreiros, de visita a Castro Laboreiro, é informado sobre o paradeiro de algumas peças e de como ele era, levando-o a elaborar um desenho reconstitutivo.
Durante décadas, o incansável Padre Aníbal investigou o paradeiro das restantes peças e moveu montanhas para que o histórico monumento reaparecesse na vila castreja. Escreveu cartas para o Ministro das Obras Públicas como esta de 1970 onde pede ao governante a restauração do pelourinho com medo que o mesmo se perca para sempre:

Castro Laboreiro, 16 de Julho de 1970
Ex.mo Senhor Ministro das Obras Públicas e Comunicações
Lisboa
Excelência:
Apresentando a V.ª Ex.ª os meus respeitosos cumprimentos, venho por este meio dirigir-me a V.ª Ex.ª a fim de lhe expor o seguinte: – Em 27 de Maio do corrente ano pedi a V.ª Ex.ª a restauração do Peloirinho de Castro Laboreiro com o objectivo principal de evitar a sua destruição, quer pela acção corrosiva do tempo, quer pela maldade dos homens. Sei perfeitamente que este problema devia ser posto a V.ª Ex.ª não por mim, que sou pároco, mas sim pelas entidades civis, isto é, pela Junta de freguesia de Castro Laboreiro ou pela Câmara Municipal de Melgaço. Nem sempre infelizmente estas entidades têm pessoas com preparação cultural e patriótica para se interessarem pela solução racional deste problemas de arte e de um valor histórico extraordinário, como é o Peloirinho de Castro Laboreiro, cuja data de construção e existência é do ano de 1560. Foi declarado Monumento Nacional e criada a respectiva zona de protecção pela portaria publicada no Diário do Governo, série 2, n.º 231, páginas 8363, de 2/10 de 1959. Apesar de todo o meu interesse na restauração condigna de tão valioso Monumento Nacional, que marca o apogeu da grandeza da antiga Vila de Castro Laboreiro e bem assim a sua hegemonia política e autonomia administrativa, não tive a subida honra de receber de V.ª Ex.ª uma resposta à minha exposição, dirigida a V.ª Ex.ª em 27/5/1970, relativamente à restauração do Peloirinho em referência. Venho pois mais uma vez solicitar de V.ª Ex.ª todo o interesse e carinho para a boa solução deste problema que me vem preocupando, há já muito tempo, não só como filho de Castro Laboreiro e pároco desta freguesia, mas também como dedicado cultor destas obras de arte, relíquias sagradas do antigo Município de Castro Laboreiro, que por forma alguma ou circunstância de qualquer espécie deixarei destruir ou lançar no olvido, como objecto sem valor. Se à Direcção Geral dos Monumentos Nacionais não lhe for possível restaurá-lo ou esteja desinteressada em fazê-lo pelo achar de pouca valia, ficar-lhe-ei profundamente reconhecido a V.ª Ex.ª, se tiver a amabilidade de me dizer o que se lhe oferecer a fim de que eu possa tomar as providências que julgar convenientes para evitar a sua destruição e levar a efeito a respectiva restauração. Pedindo desculpa desta minha longa exposição e esperando para ela o melhor acolhimento, com a máxima consideração subscrevo-me de V.ª Ex.ª at.º Ven.or grt.º e obg.º
A Bem da Nação.
[assinatura]
(Padre Aníbal Rodrigues, pároco de Castro Laboreiro)”

E teve sucesso...
Em 1979, o Padre Aníbal Rodrigues, conta-nos como, após décadas de buscas, conseguiu localizar as peças do antigo pelourinho e conseguiu que o mesmo fosse reconstruído. Num artigo da publicação “Cadernos Vianenses”, escreve: “(…) Embora Castro Laboreiro fosse erecta Vila e sede de concelho por foral concedido por D. Afonso III, em 1271, o que correspondia ao direito de pelourinho, o actual monumento, desta antiga Vila, data de 1560, tendo-lhe sido concedido novo foral por D. Manuel I em 1513. Constituído por três degraus, uma base, fuste, gola e capitel, rematado por pequena pirâmide, presidiu aos destinos desta região desde 1560 a 1860, data na qual foi apeado do seu legítimo lugar e dispersos todos os seus elementos para naquele local se construir uma casa particular.
Os degraus desapareceram para sempre, não havendo possibilidade da sua recuperação. A base consegui descobri-la a fazer parte do muro de um quinteiro.







Peças do pelourinho de Castro Laboreiro dispersas por algumas casas e quinteiros da vila
(Fotos de 1967)

O fuste encontrei-o a servir de lintel ou padieira na chaminé da casa construída onde ele se encontrava antes de ser destruído. Preocupado com a sua restauração continuei sempre em investigações para descobrir o seu capitel. Depois de numerosas pesquisas, fui encontrá-lo a servir de óculo de luz numa casa em ruínas, a uns trezentos metros num muro dobrado e de alvenaria irregular. Facilitou-me o seu reconhecimento o facto de ser trabalhado a pico fino e de ter a gola circular voltada para fora. Somente em 1978 me foi possível desmontá-lo do respectivo muro com auxílio dos pedreiros reconstrutores das muralhas do castelo. Depois do mesmo se encontrar no solo pude averiguar que era verdadeiramente o capitel do antigo pelourinho de Castro Laboreiro, pelo facto de na face interior ostentar uma gola circular com a espessura de 5 centímetros aproximadamente; e na superior um rebaixe de uns 4 centímetros, onde poisava a pirâmide que rematava este pelourinho. Não me foi possível descobrir a pequena pirâmide.
Os trabalhos de investigação para reunir os três elementos desta preciosa relíquia do passado, prolongaram-se durante vinte e quatro anos. Mas como saber o estilo e forma deste pelourinho para a total identificação dos seus elementos e sua restauração?
Mercê dos trabalhos de investigação do estudante Soeiro de Carvalho no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, conseguiu descobrir-se um esboço muito perfeito deste pelourinho, efectuado pelo Sr. Coronel Fernando Barreiras, em Julho de 1917, data em que fez uma visita de estudo a Castro Laboreiro; e que servindo-se das preciosas informações do Castrejo Sr. Melchior Gonçalves, que ajudara a desmontar e destruir este antigo pelourinho em 1860, conseguiu com muita precisão representar a lápis este monumento no artístico esboço de todas as peças constitutivas do mesmo, descrevendo com bastante aproximação as respectivas medidas de cada um dos seus elementos (...).
Foi com esse referido esboço e memória descritiva de todas as peças de que este monumento constava que consegui levar a Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Norte a reconhecer como autênticos todos os elementos descobertos podendo solicitar àquela entidade a sua imediata restauração.
Quero manifestar publicamente o meu sincero agradecimento a todos os donos das propriedades urbanas, onde as peças em referência se encontravam, pela cedência voluntária das mesmas. Não posso deixar de expressar, como filho de Castro Laboreiro e humilde estudioso destes monumentos, raízes desta região, o meu eterno agradecimento aos meus estimados amigos, Sr. Dr. Oliveira e Silva, digníssimo Governador Civil de Viana do Castelo; ao Sr. Eng.º José Maria Moreira da Silva, digníssimo Director do Parque Nacional da Peneda-Gerês; ao Sr. Arquitecto Roberto Leão, do Planeamento do Porto; ao Sr. Professor Carlos Alves, digníssimo Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, e ao Sr. Adelino Esteves digníssimo Presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro, por todo o auxílio e apoio que tiveram a bondade de me dispensar, patrocinando uns, a sua imediata restauração; e outros, além do seu contacto com as entidades responsáveis, a oferta do seu auxílio pecuniário. Bem hajam por todo o interesse que me concederam. A imediata restauração de tão belo e histórico monumento será a recompensa bem merecida de todos estes auxílios e trabalhos a bem da cultura nacional, que tão precisada anda de trabalhos de tamanha monta.”

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Reportagem da RTP em S Gregório - Melgaço em 1980



Há 40 anos, a RTP esteve em Melgaço, mais concretamente em S. Gregório, junto ao posto fronteiriço em vésperas das eleições presidenciais. Realizou aí uma pequena série de entrevistas a melgacenses e a galegos que vinham a S. Gregório fazer compras. 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Sobre as origens da capela de S. Bento de Barata (S. Paio - Melgaço)





Temos que recuar mais de 350 anos para encontrarmos as origens da capela de S. Bento, construída no lugar de Barata, freguesia de S. Paio. A mesma foi fundada por volta de 1651 por um tal padre João Lourenço e na sua origem era dedicada a Nossa Senhora da Esperança. Cerca de 100 anos depois, esta mesma capela, em meados do século XVIII, aparece referenciada num documento como “a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho”. Apenas muito mais tarde é que esta capela passa a ser dedicada a S. Bento.
Segundo MARQUES, J. (2020), “o fundador desta capela foi o Padre João Lourenço e que a mesma já estava construída quando, em Março de 1651, fez a escritura do dote a favor da mesma, expressamente destinado à sua conservação e do que fosse necessário adquirir para para se poder celebrar missa e outros actos do culto divino, nesta ermida dedicado à “Virgem Nossa Senhora da Esperança” situada junto a Barata, pegada à estrada que vay da igreja de S. Payo pera a villa de Melgaço. A escritura foi feita na casa do dotador, Padre João Lourenço, situada no lugar da Quinta da Alote pelo notário Francisco Soares de Brito, que para o efeito aí se deslocou. O património então constituído para esta capela constava de uma “vinha nova chamada das Fernandes”, com a extensão de “sete cavaduras de vinha pouco mais ou menos”, cerrada e fechada sobre si, confinando do lado nascente, com o caminho que vem dos Barreiros para o Outeiro, e do poente com vinha de Lourenço da Gaia, pai do padre João Lourenço. Além desta propriedade, que era a parte mais significativa do dote, acrescentou-lhe “um pedaço do souto que está por baixo da dita vinha que levará de semeadura dois alqueires pouco mais ou menos que parte do nascente com souto de João de Fontes, e do poente com caminho que vem dos Barreiros para o Regueiro”.
Na escritura, o fundador da capela, padre João Lourenço, dotou-a também com cálice, missal, paramentos e outros objetos indispensáveis para as funções litúrgicas, que aí teriam lugar, pois sabia que a vistoria por que passaria, antes da concessão da desejada licença, prestaria atenção ao estado do edifício e existência e qualidade destes bens móveis.
Entre as obrigações impostas aos futuros administradores, avulta a de mandarem celebrar cada ano seis missas por ele, nos dias dedicados e Nossa Senhora, seguindo a ordem litúrgica anual: Purificação, Anunciação, Assunção, Nascimento, Conceição e Esperança, isto é, Expectação ou Senhora do Ó, em 18 de Dezembro, oito dias antes do Natal.
Este processo de licenciamento da capela de Barata, na freguesia de S. Paio, percorreu os trâmites normais, tendo sido incumbido de proceder à indispensável vistoria o padre de Rouças, um tal João Lopes Vilarinho, que deu parecer favorável à concessão da necessária licença, tendo o processo sido finalizado em 9 de Julho de 1651. (...)
O padre João Lourenço a quem ficamos a dever esta capela, inicialmente dedicada a Nossa Senhora da Esperança, era natural de S. Paio, filho legítimo de Lourenço da Gaia e sua mulher, Maria Rodrigues, moradores na sua Quinta da Alote.
No documento da título da capela podemos ler: “Saybam quantos este instromento de doação e obrigação ou como em Direito mais valha e haja lugar no anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e seiscentos e sincoenta e hum annos aos vinte e hum dias do mez de Março do dito anno no lugar da Ponte d’ Alote que he na freguesia de São Payo do termo de Melgaço e casas de morada do reverendo Padre João Lourenço ahi onde eu Francisco Soares Britto tabalião cheguei, ahi perante mim tabalião e das testemunhas ao diante escritas pareceo prezente e outorgante o Reverendo Padre João Lourenço pessoa por mim tabaliã recohecida e por elle foi dito que elle com a ajuda de Deos Nosso Senhor tinha determinado de fazer como de feito tinha feito huma hermida junto a Barata pegada da estrada que vay da igreja de S. Payo pera a villa de Melgaço do orago e invocação de Virgem Senhora Nossa da Esperança; e pera a fábrica e repairo e ornamentos e missas e culto divino pera nella se celebrar, e mais cousas necessárias a queria dotar como de feito logo dotou de hoje pera todo o sempre jamais a dita hermida e capella, as pessoas e propriedades seguintes, a saber: a sua vinha nova chamada Das Fernandes, sita na dita freguesia de S. Payo assi como está serrada e cercada sobre si, que serão sete cavaduras de terra pouco mais ou menos, que parte do nascente que vem dos Ferreiros para o Outeiro, e do poente com vinha de Lourenço da Gaia pai delle dotador e das mais partes com quem diretamente deve partir que he dizimo a Deos , e assi mais lhe dotava hum pedasso de souto que está por baixo da ditta vinha que levará de semeadura dois alqueires pouco mais ou menos que parte do nascente com souto de João de Fontes, e do poente com caminho que vem dos Barreiros para o Regueiro e das mais partes com quem direito partir deva que he dizimo a deos as quais propriedades dottava e havia por dottadas pera todo o sempre jamais a dotta capella para a fábrica e ornamentos della e era contente de em tempo algum não fazer das dittas propriedades cousa alguma elle nem seus herdeiros e sucessores porque sempre estarão obrigados a ditta capella contanto que o Senhor Arcebispo ou seus Governadores e Comissários sejam contentes que na ditta capella e hermida se possam dizer missa e fazer ofícios divinos como se costuma em semelhantes capellas e hermidas e que deixaria nomeado por sua morte administrador da dita capella, e não nomeando ficaria por administrador della seu irmão ou irmã que a esse tempo se achar ser mais velho contanto que o nomeado não caze com pessoa de nação, digo, com pessoa que tenha rassa de mouro nem judeu, nem de outra mor septa e fazendo o contrário perderá o direito todo da ditta capella e dos bens a ella impostos, e sucedem nelle o parente mais chegado, ainda que tenha que seja clérigo, e o que suceder na ditta capela por nomeação ou sucessão em nos bens a ella dottados que sempre serão os acima nomeados à ditta vinha e souto andará sempre no parente mais chegado, os quais bens obrigados não poderão ser vendidos alheados, nem troquados, nem descambados, nem apenhados, nem sobre eles feito algum contrato de penhora, nem venda nem os frutos della, e fazendo penhora, e fazendo o ocntrário tudo fique nullo, e de nenhum valor.”



Informações extraídas de:

- Arquivo Nacional da Torre do Tombo - “Memórias paroquiais da freguesia de S. Paio (Melgaço)”, in Dicionário Geográfico de Portugal, volume 27, nº 25, p. 149 a 152.
- MARQUES, J. (2020) – Origem da Capela de Barata – S. Paio. In: A Voz de Melgaço. Edição de 1 de fevereiro de 2020.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Notícias das romarias de Melgaço em tempos antigos nos jornais locais




Desde tempos imemoriais que, pelas aldeias de Melgaço, se celebram festas e romarias, algumas delas bastante concorridos. Desde que existem jornais em terras melgacenses, em finais do século XIX, os mesmos costumavam fazer eco das ditas festividades, especialmente quando aconteciam cenas de pancadaria. Se passarmos os olhos pelos jornais locais de Melgaço de há cerca de 100 anos, vemos frequentes notícias de desacatos com uma certa violência, em romarias da nossa terra. 
Por exemplo, no jornal “Correio de Melgaço”, na sua edição de 18 de Janeiro de 1914, conta-nos que a 15 do mesmo mês e ano, foi a festa de Santo Amaro, realizada na freguesia de Prado. Ao terminar a romaria, quando a Filarmónica Nova, regida por Rafael Paulo Fernandes, vinha saindo do arraial, tocando um ordinário, originou-se uma desordem, tendo sido agredido António Joaquim, que vinha acompanhando a dita filarmónica, com bengaladas dadas por Manuel Joaquim Barreiros, solteiro, lavrador, natural de Prado. O agredido pegou numa pedra e atirou-a à cabeça do agressor, causando-lhe um ferimento na cabeça «fazendo-lhe jorrar sangue em abundância.» «Depois, prisões, socos, revólveres em cena, o diabo, terminando por António Joaquim de Sousa ter dado entrada na cadeia e o Barreiros ter-se ido curar a uma farmácia. Dizem que, a causa desta desordem são rixas velhas entre rapazes da Vila e da freguesia de Prado”.
No mesmo periódico, na sua edição de 22 de Agosto de 1915, ficamos a saber que na festa da Senhora dos Remédios, realizada em Sante (Paderne) no dia 15 do mesmo mês e ano, houve pancadaria. Um dos feridos foi Manuel José Soares, conhecido por o “Cerdeira”, de Cavaleiro Alvo, o qual teve de ir fazer tratamento ao hospital da Vila. Outro dos atingidos foi Joaquim Garelha, do lugar de Pomares, freguesia de Paderne, tendo um dos contendores cortado uma das suas orelhas a meio, parecendo ter o desgraçado três orelhas.”
Desacatos nas romarias melgacenses eram de facto muito frequentes. No Jornal de Melgaço, na sua edição de 3 de Agosto de 1919 escreve: “Está em moda, nas romarias, à tarde ou à noite, haver grossa bordoada. Em Pomares, quando no dia 25 se realizava a festividade em honra de São Tiago (Santo Iago), foi o que se viu. No dia 27, quando em Paços se realizava a festividade em honra de Santa Ana, também não faltou a traulitada entre a rapaziada de Paços e a de Chaviães. Que ela se desse em Pomares, quando se festejava o São Tiago, admitimos, visto tratar-se de um herói na traulitada aos moiros; mas tratando-se da avó de Jesus, que decerto devia ser toda bondosa, parece que não fica bem. Mas, como os desordeiros acham sempre bem, toda a vez que podem pregar a sua traulitada, à tarde, pouco depois de recolher a procissão, houve alguns socos, misturados com bengaladas, o que deu em resultado alguns dos de Paços virem até ao lugar do Esporão onde perguntaram aos de Chaviães se queriam guerra ou harmonia. E como os de Chaviães respondessem que se estavam ali era para bater, e como logo em seguida fizessem com uma traulitada baixar ao chão o Ricardo Alves, de Paços, os companheiros deste desafrontam-no, fazendo também ir a terra uns quatro ou cinco de Chaviães. Não podemos de forma alguma elogiar tais proezas, mas se temos de censurar estas, como não devemos classificar o facto de os “valentes” de Chaviães, depois desse dia, baterem em qualquer pessoa que à Portela do Couto passasse, pelo simples facto de ser de Paços? Desconhecemos as razões anteriores que naquele dia os levaram a vias de facto, não podendo, por isso, avaliar bem a responsabilidade de cada grupo, mas o que toda a gente, desconhecendo embora essas razões e até esses factos, tem de censurar com toda a energia dos seus nervos, é o facto de certos “valentes” da Portela do Couto baterem há dias numa mulher de Sá, conhecida por Maria do Romão. Essa mulher deve ter 60 anos de idade aproximadamente, é viúva e doente, e vive distante um único filho que tem. Nada mais julgo necessário para aquela mulher ser digna de todo o respeito; mas os “valentes” da Portela não o entenderam assim. Saem à estrada, onde lhe perguntam de onde é, e – como ela dissesse que era de Paços – dão-lhe logo duas bofetadas. Por acaso será crime o ser natural de Paços porque os desta freguesia bateram nos de Chaviães? Mais juízo, ó “valentes” da Portela, pois do contrário teremos de chamar a atenção da digna autoridade administrativa para as vossas proezas, mandando-vos chamar a capítulo!”
A festa de S. Bento em Fiães no ano de 1932 também foi notícia pelas más razões, tal como nos conta o “Notícias de Melgaço”, na sua edição de 17 de Julho de 1932: “A romaria de São Bento, em Fiães, ficou assinalada por algumas desordens que se desenrolaram durante o arraial da tarde do dia 11 (Julho de 1932), e de que resultaram bastantes feridos, sendo dois gravemente. O princípio da desordem foi provocado por dois rapazes da Vila de Melgaço. Generalizou-se, e das várias refregas havidas saíram muito maltratados, em estado grave um rapaz de Sante e um outro conhecido por José Canelas, com uma facada no rosto o comerciante desta Vila, senhor José Maria de Sousa, tendo este, em sua defesa, agredido com um guarda-sol o senhor José Correia de Amorim, de Cristóval. Houve alguns feridos mais, sem gravidade, e felizmente não houve mortes. Bom seria que os arraiais não fossem perturbados com estas alterações da ordem que bastantes prejuízos acarretam, não só a quem ali acorre para fazer o seu negócio, como a quem vai com devoção, ou [apenas] para se distrair.”

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A capela e a velhinha ponte da Minhoteira (Parada do Monte - Melgaço): algumas notas históricas



Na freguesia melgacense de Parada do Monte, ao pé do rio Mouro, encontramos o lugar da Minhoteira com a sua capela da Nossa Senhora da Vista e onde em tempos havia uma velha ponte em pedra, já desaparecida. 
A primeira questão que é importante esclarecer é o significado do nome deste aprazível local. Na realidade, o termo “Minhoteira” é de uso muito antigo e significa “pequena ponte de madeira composta por uma ou duas tábuas para passagem de pessoas”. Certamente, que muitos se lembram de ali existir até há cerca de 35 anos, uma ponte em pedra mas ninguém tem memória de ter ali existido uma ponte em madeira. Na verdade, quem nos esclarece este assunto é o padre de Parada do Monte num documento redigido em 1758. Nele, o pároco Francisco de Caldas Bacellar escreve que, na época, na Minhoteira existia “uma ponte de cantaria há poucos anos, que antes era de pau em o sítio chamado Minhoteira, sítio horrendo e medonho". Assim, ficamos a saber que a antiga ponte em pedra foi construída em meados do século XVIII e que antes dessa ponte em pedra, já ali havia uma pequena ponte em madeira, sendo essa a razão para o nome do lugar. 
Ponte e Capela da Minhoteira (Parada do Monte - Melgaço) em meados dos anos 80

Conforme se disse, existe na Minhoteira uma capela dedicada a Nossa Senhora Vista. Desconhece-se a data exata da sua construção. No documento das Memórias Paroquiais de 1758, o pároco de Parada do Monte não faz referência à existência de nenhuma capela na Minhoteira. Creio que esta capela terá sido construída algures no último terço do século XVIII. Temos referência a um documento datado de 1790 que faz alusão à obrigação à fábrica da capela do Senhor dos Aflitos, no sítio de Ponte de Minhoteira a favor dos moradores do dito lugar, que pedem para se rezar missa. Assim, inicialmente, esta capela estava dedicada ao Senhor dos Aflitos e apenas posteriormente passará a ser dedicada à Nossa Senhora da Vista. Esta mudança é relativamente recente. Em 1914, no documento relativo ao inventário dos bens da paróquia de Parada do Monte, refere-se que existe "a capela do Senhor do Aflitos no sítio da Minhoteira com três altares". Desta forma, a mudança de orago para "Nossa Senhora da Vista" terá ocorrido algures durante o século passado.
Segundo CERVEIRA, A. (1999), a capela da Nossa Senhora da Vista possui uma planta longitudinal composta por nave única retangular e capela-mor quadrangular. Apresenta volumes escalonados, com coberturas diferenciadas em telhado de duas águas. Cunhais apilastrados encimados por pináculos e ângulos das empenas rematados por cruz latina. Apresenta frontispício virado a sudeste, de remate em empena, aparelho granítico com as juntas pintadas a branco. Podemos observar portal de verga reta encimado por frontão triangular de volutas interrompido, com porta metálica de duas folhas gradeada na metade superior. Flaqueiam o portal duas janelas quadrangulares e encima-o óculo galbado. O alçado sudoeste tem no pano da nave porta acedida por escada lateral adossada, e duas janelas, uma na nave e outra na capela-mor. A fachada posterior é cega e no alçado noroeste rasga-se janela na capela-mor e a porta é encimada por janela no pano da nave.  
No interior, as paredes encontram-se rebocadas a branco, o coro-alto é em madeira, o pavimento é em lajeado granítico cimentado e o teto é em abóbada de berço. O púlpito do lado do Evangelho, apresenta-se apenas com a base sobre mísula e a escada de acesso. Encontramos uma porta lateral no lado da Epístola e arco triunfal, pleno, flanqueado por pilastras ornamentais em granito. A capela-mor alberga cruzeiro granítico integrando pedestal quandrangular, coluna e cruz latina com imagem escultórica de Cristo e na parede testeira, um painel de madeira formando retábulo.