sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A extinção do mosteiro de Fiães (1834)




O mosteiro de Fiães é de fundação incerta no tempo. O documento conhecido mais antigo é de meados do século XII mais concretamente de 1142, havendo um outro de 1157 onde se refere que o mosteiro segue a regra de S. Bento. Ainda no século XII, Fiães passaria a estar integrado na Ordem de Cister e filiado no mosteiro de Tarouca.
O mosteiro seria extinto em 1834. Na época, o mosteiro tem a comunidade reduzida a dois monges, tendo ainda um terceiro religioso, mas a viver com os seus familiares por ter uma doença contagiosa. No processo de inventário, um documento de 1836, refere o mosteiro "com suas cazas e oficinas, que lhe são inherentes, bem como a Cerca, e Igreja, sem que se mencionem mais esclarecimentos (...)". No inventário dos objetos pertencentes ao culto divino, datado de 1834, consta na capela-mor o seu altar, com hum retábulo muito antigo, pintado e dourado, e, tendo no centro do mesmo e no fim do trono a imagem de Santa Maria, de vulto, pintada e dourada, e, lateralmente, as imagens, em vulto ordinário, pintadas e douradas, de São Bento e de São Bernardo. O altar de São Bento tem um humilde retábulo, antigo, pintado e dourado, albergando ao centro a imagem do orago, de vulto ordinário, pintada e dourada, com resplendor de folha, e, sobre a banqueta, uma cruz pequena, pintada de preto, com um Crucifixo pequeno. O altar de Nossa Senhora do Rosário tem um retábulo pequeno e antigo, pintado e dourado, tendo no centro a imagem do orago, em vulto ordinário, pintada e dourada, à direita uma imagem de Maria Madalena, em vulto ordinário, pintada e dourada. Na igreja havia mais dois altares laterais, um do lado do Evangelho e outro no da Epístola. Ambos indecentes, com seus retábulos velhos, com quatro imagens pequenas, sendo uma São Sebastião e duas do Menino Deus e Nossa Senhora, bem como um Crucifixo pintado numa cruz preta. Na sacristia tinha um "caixão" ordinário, com três gavetões e três armários; em frente da sacristia havia um oratório de pau, velho e pequeno, com um Crucifixo de palmo pendente em uma cruz de pau, pintada de verde. Na capela abacial havia um altar com seu retábulo antigo, pintado e dourado, tendo no centro a imagem de Nossa Senhora da Conceição, em vulto, pequena, pintada e dourada, com a sua coroa de folha, mais uma cruz dourada com um Crucifixo pequeno, uma pedra de ara, dois livros corais e uma estante pequena. O inventário refere ainda a existência de uma imagem de vulto ordinária, que dizem ser São Bernardo, pintada e dourada, e um sino na torre. Concluído o inventário, os bens são entregues ao pároco da freguesia Manuel Joaquim Fernandes da Costa. O inventário do mosteiro refere apenas os bens de administração direta: "Item, digo, item hum, Mosteiro com suas ortas tudo circundado. Hum campo chamado da Magdalena, que produz so feno que parte do Nascente com a estrada publica que vai para Rouças e do poente parte com ribeiro chamado o Regueiro da Ponte. Item outro dito chamado o Campo Piqueno que produz feno com as mesmas confrontações. Item, outro chamado do Follão que somente produz feno com as mesmas confrontações. Item, outro dito chamado o Campo de Serca, que parte do Nascente com a serca do mesmo Mosteiro, e do Poente com o carreiro que vai para a Igreja e que somente produz feno. Item, outro chamado do Moinho, com seu moinho, dentro que parte do Nascente com o terreiro do Mosteiro e do Poente com a estrada que vai para Rouças. Item, mais a Serca por cima do Moinho que pare do Nascente com a estrada publica que vai para a igreja e do Poente com o Mosteiro que se compõem de carvalhos piquenos e tojo. Item, outra tapada chamadas Mattas que parte do Nascente com Manuel Domingues de Souto Mendo de Vaixo, e outros, e do Poente com a estrada publica que vai para Melgaço, e sua produção he ttojo. Item mais hum monte chamado da Fraga, que se compõem de casinheiros, que parte do Nascente com Diogo Domingues de Pousafolles, e do Poente com a corga que vai para o lugar de Gonlle freguesia de Christoval e lugar do Campinho de Fiaens. Item, mais a quinta sita no lugar de Caballeiros freguesia de Rouças que se compõem de cazas tilhadas e sobradadas, e terras de pão e vinho, e carvalheira no fundo, e com árvores de fruto que parte do Nascente com a estrada publica que bem de Fiaens ara Melgaço e do Poente coma quinta de Pascoa Domingues, e regato de babuzaens" (MARQUES, J. 1990). Posteriormente, o governo manda por em praça pública as ruínas do mosteiro para serem vendidas, mas inicialmente não aparecem licitantes. Depois, é vendido em haste pública, estendendo-se a ruína pelas dependências, e a igreja passa a ser paroquial; Em 1836, a 06 de Novembro, é extinto o couto e é concretizada a sua incorporação no concelho de Melgaço. 
Umas décadas mais tarde, na descrição do templo e das ruínas do mosteiro feita por Guilherme Oliveira num livro publicado em 1903, consta que "da torre, que devia ser grandiosa, restam alguns metros de grossas paredes, formadas de grandes pedras desconjuntadas, tendo, mesmo assim n'ellas cravadas, o enorme sino que ainda tange para o serviço da igreja. Havia n'este logar uns vestígios de muralha, que foram propositadamente demolidos para a construção do cemiterio que hoje alli existe, o qual é fechado por moderna grade de ferro". Na fachada da igreja, o autor refere o portal "que é do mesmo estylo, (...) gótico pouco ornamentado" (OLIVEIRA, 1903), o brasão arcebispal, tendo, à direita, o de Portugal e, à esquerda, o de uma rainha portuguesa que foi da casa de França, e a cobri-lo a mitra e o báculo e as respetivas coroas. No adro, que contorna o edifício, havia grandes carvalhos. "Existem tambem de pé as paredes frontaes de uma parte da ala direita do convento, a qual, como o requeria o logar, que é de grandes ventanias e temporaes, tem fortes cantarias. As janelas e portas são de pequeno formato e sem nenhuma importancia architectonica. Eram por detraz os claustros, dos quaes ainda se vêem algumas elegantes e finas columnas sustentando aqui um arco, alli um resto de flecha, e além formando monte (...). Existem tambem, dispersas pelo terreno transformado em campo de lavoura, paredes com restos de janelas, hombreiras, escadas, e o logar da fonte que abastecia o convento" (OLIVEIRA, 1903). "Tinha o D. Abbade capela particular, - chamada abacial, - a qual está assinalada por pedaços de grossos muros mal conservados. Alli, em um altar, veneravam-se as imagens de Nossa Senhora da Conceição, de grande formato, e outra menor, de S. Bernardo. Havia dependências especiaes para as audiencias publicas, casa de albergue alpendradas, e um corpo de edifício do uso e estado independente do superior. Era na grande sala da presidencial que se resolviam os negocios do convento, na presença do escrivão de Valladares” (OLIVEIRA, 1903). O mosteiro era completado, com a casa do capítulo, refeitórios, penitencias e biblioteca que, "conjuntamente com o archivo, desappareceu em um dos incêndios" (OLIVEIRA, 1903). "Seguem-se velhas casarias ou choças assobradadas, que são hoje a residencia do Reitor. Na frente d'estas, e ao lado do adro, existem ainda umas depressões no solo por onde se escoam fios de aguas sulphurosas, que são os vestígios dos antigos banhos que alli havia" (OLIVEIRA, 1903). Frei Agostinho de Santa Maria refere que o povo vinha de longe banhar-se nesta fonte e tal era a virtude das águas que todos voltavam sãos. Especialmente no dia de São João Batista os enfermos aglomeravam-se, e, na ansia de encontrarem remédio para os seus males, criavam disputas e desordens, chegando a ocorrerem ferimentos mortais. Assim, as autoridades resolveram entulhar os banheiros, terminando a causa das discórdias, no entanto, em 1903 os doentes ainda lá iam ou mandavam buscar um pouco da água que corria. Oliveira descreve a igreja com "Duas ordens de robustíssimas columnas de granito, de remota antiguidade, formam a nave central da egreja. As cornijas e as cimalhas são ornadas com figuras mais ou menos plantasticas. Os arcos, largos e bem lançados, com elegantes archivoltas, teem grande imponência e vão até aos frechaes do tecto, que era de madeira apainelada. O tempo destruiu-o, e hoje, a telha vã que os ventos separa, faz que, através do seu arrendilhado, se veja o azul do céo, e se escoem as chuvas que hão arruinado o pavimento. As columnas, que sustentam o arco da frontaria estão cortadas com arte, a alguns metros do solo, o que lhe dá a apparencia de uma arcaria suspensa. O altar principal, assim como os lateraes, teem a obra de talha bem estragada, e parecem pequenos para o tamanho do templo. Na capella môr, há um retábulo pintado e dourado, e no throno a imagem de Santa Maria, e diversas. No altar de S. Bento vê-se tambem um retábulo menor. Esta imagem era, até há pouco tempo, visitada pelas populações dos contornos durante o anno, e, particularmente, no dia em que a egreja venera o santo, por ser de grande devoção e muito milagrosa. Há ainda diversos altares com as imagens de S. Sebastião e outras. O d'este santo, que era da confraria das almas, foi feito privilegiado em 1716, por breve do papa Benedito XIV. O púlpito é de madeira entalhada, com a folhagem alta. O grande côro tem a mesma simplicidade e robustez que se nota em todo o edifício. Dos túmulos, o único que existe é o de Fernão Annes de Lima, pae do primeiro Visconde de Villa Nova de Cerveira, o qual se supõe ter sido sepultado pelos anos de 1430 (...) tem as armas sobrepostas, e assente sobre dois supportes que terminam em cabeças de fórma humana. Este túmulo foi primitivamente collocado junto à capella de S. Sebastião. Hoje acha-se à direita de quem entra "(OLIVEIRA, 1903).




Informações extraídas de:
- OLIVEIRA, Guilherme de (1903) - Uma Visita às Ruínas do Real Mosteiro de Fiães. Lisboa: Typographia da Sociedade A Editora.
- MARQUES, José (1990) - O Mosteiro de Fiães (Notas para a sua história). Braga: Barbosa & Xavier, Limitada.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

As origens do Convento das Carvalhiças (Melgaço)



O Convento das Carvalhiças albergou, em tempos, uma comunidade de frades franciscanos e tem origens em meados do século XVIII. Pertenceu à Ordem Terceira de S. Francisco e integrava a rede de conventos de Nossa Senhora da Conceição. Quais as razões para a sua edificação em Melgaço? 
Encontramos todas as respostas num manuscrito da época lavrado por um dos primeiros frades do convento, um tal Frei Manuel de Jesus Maria, a que deu o título de “Relação Sumária da Vinda dos Religiosos para esta Vila de Melgaço e do motivo que para ela houve”. Neste documento, o autor conta-nos como foi a construção deste convento com algum pormenor a partir de 1748. No manuscrito, podemos ler: "Mas porque a devoção dos principais da vila se não satisfaziam com a erecção da venerável Ordem Terceira, e tudo era pedir ao sobredito Provincial religiosos que lhe viesse assistir, determinou o ministro provincial para este efeito ao Irmão Pregador Frei Francisco da Trindade, com o Irmão Frei Paulo da Soledade ex leitor de Moral para que como Comissários da mesma Ordem residissem na mesma vila e dela fossem também assistir a de Monção, enquanto se não dava outra providencia. Para satisfazer pois a obediência do Prelado que assim o determinava, chegaram a esta vila os ditos religiosos a 29 de Julho do sobredito ano de 1746 e enquanto se não preparavam umas casas que descobriram neste Campo da Feira para poderem assistir se hospedaram em casa de Silvestre Teixeira Torres, que era um dos mais empenhados na sua vinda para esta vila e a quem o sobredito Provincial tinha mandado patente de síndico dos mesmos religiosos (...) Compostas as casas conforme pedia a Nossa Santa pobreza, foram os dois companheiros morar para elas e juntamente provendo-se pouco a pouco do necessário com um Irmão Donato, que lhes assistia a fazer a Cozinha (...) depois de vir para o Hospício o Irmão Pregador Frei André de Jesus Maria (...) sucedeu chegar a porta do hospício um homem pobre, no que mostrava, perguntando pelo síndico dos Padres que não achara em casa, para lhe entregar um dinheiro. Sabido o recado eram vinte moedas de 4.800, que lhe entregara em Lisboa um homem de Rouças, chamado Pedro Fernandes da Silva, sem mais segurança, nem cautela, que um escrito com elas embrulhado, em que dizia: que se entregassem aquelas vinte moedas a Silvestre Teixeira para as obras dos Padres Capuchos e passasse recibo (…)
Ajustado que foi o sítio, vieram os pedreiros de Lanhelas a vê-lo, e feita a planta se fez o ajuste da Capela-Mor com o primeiro dormitório que é dobrado, em quinhentos mil réis, e depois com os acréscimos que houve passou a seiscentos (…) Principiaram os pedreiros a arrancar a pedra a 10 de Outubro de 1748. Lançou-se a primeira pedra no cunhal da Capela Mor da parte da vila a 28 de Novembro do mesmo ano (...); e depois de acabadas as paredes se lançou a primeira pedra no cunhal do dormitório também da parte da vila, a 30 de Maio de 1749 e acabada por 12 de Dezembro do mesmo ano; e depois de se cobrir tudo, de se forrar e fazer as taipas e algumas janelas, fizemos a nossa muda das casas do Campo da Feira para o novo hospício a 8 de Setembro de 1750 (...)
Acomodados no novo hospício, entramos a fazer as janelas mais precisas e reparos para o Inverno, que foi o mais rigoroso que há muitos anos tinha vindo, e sendo um dos principais reparos os telhados seguros já com cal, foi tanta a violência do vento pelos grandes temporais, e desamparo do sítio, que se alagaram as celas da parte do poente em água, de sorte que não tínhamos os Religiosos donde escapar da chuva, senão em algumas celas que ficavam da outra parte contraria, e assim passamos o inverno com muito trabalho e desconsolação, enquanto não chegou tempo oportuno para dar outra providencia aos telhados, como se deu no verão seguinte mandado vir os homens mais experimentados do termo de Viana, que ao mesmo tempo que fizeram o estuque da Capela Mor, também deram volta aos telhados, fazendo-os dobrados como se veem da parte do temporal, da mesma sorte que os da Capela, e com isso se pôs remédio às coisas.
Já por este tempo se tinha encomendado a imagem da Conceição, em Ponte do Lima, e como em Viana se tinha feito a tribuna nova com intuito de darem para esta Capela a antiga, se fez conduzir este mesmo verão, de sorte que quando vieram os caiadores já ela estava assentada (...) Irmão Pregador Frei Manuel de São Francisco, natural de Grovelas, termo da Barca, que foi mandado de Caminha onde acabara de guardião para Regente deste Hospício tomando posse dele nos últimos dias deste mês de Dezembro do mesmo ano de 1751. E com as esmolas, que a Divina Providência lhe ia administrando, a deligência que alguns religiosos zelosos ia fazendo, continuou com a obra de paredes desde a Cozinha, até fechar na Capela Maior, conduzindo com grande trabalho todas as traves, que foram necessárias de Parada do Monte e do lugar das Cavencas de Riba de Mouro (...) Maio de 1753, em que saiu eleito para Regente deste Hospicio o Irmão Pregador Frei Félix de Santa Teresa, natural de Ponte do Lima (...), e solhou o meio dormitório, desde a cozinha até à Casa última, fez as taipas, e celas e concluiu a Casa última no estado em que se acha. Fez também o muro desde a Capela da Pastoriza até à volta que fez em roda da tomada de Caetano de Abreu. O qual muro continuou depois o Irmão Pregador Frei Manuel de São Francisco até o canto da Cruz de pedra, que está para a parte da Pigarra (...) e plantou de novo o pomar com várias árvores de fruto no último canteiro da mata, que fica onde está a Cruz de Pedra (...)
Depois da sua extinção, a igreja fez parte do património da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço durante um curto período de tempo de pouco mais de meio século, entre finais do século XIX e 1963.




Extraído de: AMM, Convento das Carvalhiças, MARIA, Frei Manuel de Jesus, "Relação Sumária da Vinda dos Religiosos para esta Vila de Melgaço e do motivo que para ela houve, iniciado em 1758."

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A linguagem oral das gentes de Melgaço eternizada há cerca de um século atrás



O etnólogo José Leite de Vasconcelos é seguramente um dos maiores imortalizadores das tradições melgacenses. Esteve em Melgaço entre a década de 90 do século XIX e várias vezes durante o primeiro quarto do século XX. Visitou várias freguesias do concelho, desde Paderne ou Cristoval até Cubalhão ou Castro Laboreiro.
Entre outras tradições melgacenses que eternizou na sua obra, encontra-se a maior inventariação de palavras, expressões ou cantigas populares da nossa terra alguma vez feita e que seria publicada na Revista Lusitana, ainda na década de 20 do século passado.
José Leite de Vasconcelos deixou-nos uma impressionante recolha de quase 400 palavras usadas na tradição oral da nossa terra de há cerca de um século atrás. Alguns termos ainda se usam, outros caíram entretanto em desuso. Tudo compilado numa espécie de "dicionário". Faça uma viagem entre as palavras que os nossos avós pronunciavam...


VOCABULÁRIO






























Extraído de:

- VASCONCELOS, José Leite de (1926) - Linguagem de Parada do Monte. In: Linguagens de Portugal e Hespanha. Separata da Revista Lusitana, Lisboa.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Sobre a origem do nome de um lugar da freguesia de Rouças (Melgaço)




Na freguesia de Santa Marinha de Rouças, neste concelho de Melgaço, próximo do antigo Mosteiro de Fiães, encontra-se o lugar de Bilhões, uma localidade referida em documentos históricos com mais de 800 anos.
Nos documentos que compõe o Cartulário de Fiães, podemos encontrar referências a este lugar sob formas com as variantes Uileones, Uelóes e Uilones, às quais podemos juntar ainda a forma Velhoos que surge nas Inquirições de 1288, todas designações primitivas utilizadas na Idade Média. Este pequeno conjunto de registos dá para extrairmos algumas conclusões acerca da etimologia e a evolução formal do topónimo Bilhões.
As mais antigas referência ao lugar de Bilhões datam de 15 de Maio de 1164 e contam num documento em que um tal de Pedro Pais vende a Mendo Gosendes, frade do mosteiro de Santa Maria de Fiães, a herdade que detinha em Bilhões. No dito documento, pode ler-se “De Uilleones (…) Ego Petrus Pelagij uobis Menendo Gosendiz fratris de Fenalis propria uoluntate uendo hereditatem, scilicet quartam illam de Uelóes (Bilhões)...”
Segundo o estudo de LEMA, Paulo M. (2018), basta o confronto dessas referências primitivas com a forma atual Bilhões para repararmos em como a codificação gráfica hodierna deste nome de lugar veio a ficar condicionada pela conhecida desfonologização do par /b/ – /β/ (> /b/) que, provavelmente desde época muito recuada, acabou por prevalecer nos falares portugueses setentrionais — sobretudo nos de Entre Douro e Minho —, bem como nos galegos.
O mesmo autor acrescenta que “de resto, como assinalado, as formas retiradas do Cartulário de Fiães esclarecem alguma coisa a propósito da provável origem do topónimo ou, no mínimo, fornecem-nos alguns elementos de interesse a partir dos quais elaborarmos uma hipótese que julgamos, em tese, verosímil. Lembremos que Piel/ Kremer (HgNb §302, 24), que registam o topónimo sob a forma Vilhões, já o tinham incluído no alargado grupo daqueles nomes de lugar que, à partida, ter-se-ão filiado num tema germânico *will(j)- ‘desejo’, ‘prazer’. Este item, enquanto pré-componente, é facilmente reconhecível no repertório onomástico galego-português alto-medieval através de vários antropónimos bitemáticos que, por sua vez, geraram uma quantidade relativamente elevada de formas toponímicas: e.g. WILIAREDUS (> gal. Guillarei, Guillareo), WILIAFREDUS (> port. Guilhofrei), WILIARIUS (> gal. Guillar, Guilleiro), WILIFONSUS (gal. Guilfonso, port. Guilhafonso, Vila Fonche), WILIAMIRUS (> gal. Guillamil, Villamir; port. Guilhomil), WILIAFREDUS (> port. Guilhabreu, Guilhofrei) etc. Ora importa notar que, como observável aliás noutros constituintes onomásticos homologáveis, o tema *will(j)- terá funcionado também como elemento nominal autónomo.
É na sequência destes registos — que indiciam alguma vitalidade onomástica do tema que estamos a analisar enquanto item autónomo — que achamos assumível colocar, como possível origem do topónimo Bilhões, uma forma antiga *WILIONIS, interpretável por sua vez como genitivo do antedito antropónimo WILIO com flexão consonântica, sendo esta habitual — e até praticamente exclusiva — dos antropónimos monotemáticos ou com sufixo lexical átono (Boullón Agrelo 2012,157)4, como GOTO, ‑ONIS → *(UILLA) GOTONIS > gal. Godóns, FAFILA, ‑ANIS → *(UILLA) FAFILANIS > gal. Fefiñáns, port. Fafiães etc. Quanto à evolução fonética, podemos reconstruir para esse alegado sintagma *(UILLA) WILIONIS um percurso que condiz com aquilo que sabemos da fonética histórica galego-portuguesa e, ainda, com os registos retirados do Cartulário de Fiães: *WILIONIS > *Vilhones > Vilhões > Bilhões.
É assim que podemos explicar de maneira satisfatória a alternância representada pelos antropónimos Gilloi / Uilloi — desde que sejam, na verdade, variantes grafo-fonéticas do mesmo tipo antroponímico".



Informações extraídas de:
- LEMA, Paulo Martinez (2018) - O Cartulário de Fiães enquanto corpus toponímico: acerca de alguns nomes de lugar na fronteira galego-portuguesa. projeto de investigação Inventario Toponímico da Galicia Medieval (ITGM), desenvolvido no Instituto da Lingua Galega (Universidade de Santiago de Compostela.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A freguesia de Remoães (Melgaço) em tempos antigos




Não encontramos, até 1258, referências documentais a Remoães. Apenas nas terceiras Inquirições de D. Dinis, datadas do ano de 1307, é mencionada esta terra, sendo que o inquiridor régio se refere a Remoães como tendo privilégio de "honra".
Em tempos antigos, Remoães foi vigairaria anexa à freguesia de São Paio de Melgaço e da apresentação do abade desta última, antes de se tornar freguesia independente.
São raras as descrições antigas desta pequena freguesia do nosso concelho. A descrição mais antiga com algum pormenor das terras de Remoães remonta ao início do século XVIII. O padre Carvalho da Costa na sua obra “Corografia Portuguesa”, publicada em 1706, descreve a freguesia nestes termos: “S. João de Remoães, é Vigairaria do mesmo Abade, a quem é anexa, rende ao Vigário vinte e cinco mil reis, os dízimos vão na Matriz. Tem oitenta e dois vizinhos. Aqui está a Juradia da Várzea sujeita a Melgaço, mas da Freguesia do Mosteiro de Paderne em Valadares.” Além disto, o autor elogia os presuntos e outros produtos do campo produzidos em terras de Remoães nesta época escrevendo que Melgaço “tem boas e férteis terras, pela maior parte, mas em particular o vale da Folia [designação antiga para o atual território da freguesia de Remoães, concelho de Melgaço] com grandes vantagens: dá muito pão e vinho, frutas, feijão, hortaliças e cebolas muy celebradas por doces e as melhores desta província, excelentes presuntos sem sal...
Em meados do século XVIII, ficamos a conhecer algo de Remoães na época pelas Memórias Paroquiais redigidas em 13 de Maio de 1758. O padre de Remoães, na época, era um tal Gregório Salgado. O dito pároco deixou escrito que esta freguesia pertencia ao termo de Melgaço, comarca de Valença, arcebispado de Braga e, no secular, era da comarca de Barcelos, da Casa de Bragança. Remoães tinha 25 fogos inteiros e 25 meios fogos, 147 pessoas maiores e 11 menores. A igreja, com orago de São João Baptista, ficava no meio do lugar e não tinha naves. Tinha o altar-mor com as imagens da Senhora do Rosário, São Miguel e o padroeiro São João Baptista, o altar colateral do Evangelho com a imagem da Senhora da Purificação e São Domingos, e o colateral da Epístola com as imagens de Nossa senhora e Santo António. O pároco era vigário perpétuo ad nutum apresentado pelo abade de São Paio de Melgaço, tendo de rendimento 20 alqueires de pão, 2 alqueires de trigo, 12 potes de vinho e 8$000 em dinheiro. Na época, os fogos inteiros pagavam meio alqueire de pão e um pote de vinho e os meios fogos pagavam um quarto de pão e meio pote de vinho. Segundo o pároco, nesta época existia na freguesia um barco de duas dornas para passar as pessoas de uma margem para a outra no rio Minho.
Já no último terço do século XIX, encontramos duas curtas descrições da terra de Remoães. No livro “Portugal Antigo e Moderno” do professor Pinho Leal (1874) esta freguesia é assim descrita: “...comarca e concelho de Melgaço (foi do mesmo concelho, mas da comarca de Monção), 70 Kms ao norte de Braga, 430 ao norte de Lisboa, 56 fogos. Em 1757, tinha 50 fogos. O orago é S. João Baptista. Arcebispado de Braga, e districto administrativo de Vianna. O abbade de S. Payo de Melgaço, apresentava o vigário, collado, que tinha 8$000 réis de congrua e o pé d'altar. Clima excessivo e pouco fértil.”
No livro “O Minho Pittoresco”, publicado em 1886, o autor conta-nos que “contigua a Prado, ali está à beira-Minho REMOÃES, cuja multiplicidade de pequenos campanários em forma pyramidal, destaca ao longe d'entre as àrvores que rodeiam a egreja e lhe dão um aspecto pittoresco.
Como Prado, foi em tempo annexa à freguezia de S. Payo. Ultimamente descobriram-se em Remoães umas importantes nascentes de aguas minerais, alcalinas, ferruginosas e sulphureas, que uma empresa já organizada trata de explorar.”
Atualmente, a freguesia encontra-se unida à de Prado...