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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Livro "Melgacenses na I Grande Guerra (e outras guerras do século XX)"



Domingo, dia 11 de Novembro de 2018, assinala-se um século sobre a assinatura do Armistício que punha fim à Primeira Grande Guerra, um conflito onde combateram dezenas de melgacenses e onde alguns deles tombaram em combate.
Da investigação de Joaquim A. Rocha e Valter Alves, nascerá, muito em breve, um livro onde os autores pretendem perpetuar a memória destes valentes combatentes filhos desta nossa terra. No prefácio desta obra, pode ler-se: “Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres. Em África, já combatiam os alemães desde 1914.
Com base nos dados de que dispomos, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Estes homens da nossa terra, feitos soldados, tinham todos à data do embarque, idades entre 22 e 27 anos completos (nascidos entre 1891 e 1895), à exceção dos oficiais que eram um pouco mais velhos.
Assim, entre Janeiro e Novembro de 1917, partiram estes homens do Cais de Alcântara, rumo ao porto de Brest (França) numa viagem de navio de vários dias. Daí seguiram de comboio até à zona sul da Flandres francesa perto de Armentières, nos vales dos rios Lys e Aire.
Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do Corpo Expedicionário Português.
E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que estes homens da nossa terra e as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.
Na frente europeia, dos 73 homens naturais de Melgaço que partiram, 10 morreram caídos em combate ou devido a outras causas como doenças. O primeiro melgacense a morrer em combate foi o soldado António Alberto Dias, natural do lugar da Verdelha (Paderne) que faleceu a 9 de Outubro de 1917 na Flandres (França).
Quatro dos caídos em combate, faleceram durante a Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918). Foram eles os soldados José Cerqueira Afonso, de Paços (Melgaço); José Narciso Pinto, de Chaviães; João José Pires, de Paços e o segundo sargento António José da Cunha, natural da freguesia da Santa Maria da Porta (Vila de Melgaço). O último pertencia ao 6.º Grupo de Baterias de Metralhadoras e os três primeiros eram soldados que pertenciam à 4ª Brigada de Infantaria do CEP, Regimento de Infantaria n.º 3 (Viana do Castelo). Esta era conhecida como a Brigada do Minho, a que pertenciam a grande maioria dos soldados melgacenses, e já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na dita batalha de La Lys.
Os soldados da Brigada do Minho tinham passado a noite de 8 para 9 de Abril a arrumar armamento, munições e outros equipamentos e seus pertences. Iam ser rendidos por batalhões ingleses no dia 9 e hoje em dia acredita-se que os alemães sabiam disso. Sabiam também que a infantaria portuguesa não estava preparada para aquela guerra e que tinham sido treinados à pressa numa falácia vendida pelo regime republicano que apelidaram de “Milagre de Tancos”. Os soldados de Melgaço e de outras regiões eram lavradores, pedreiros e de outros ofícios. Muitos deles nunca tinham saído da sua terra. A grande maioria nem sabia ler e escrever. Um soldado não se faz num par de meses. Esta batalha foi, por essas e outras razões, um dos maiores desastres de toda a História Militar portuguesa. No dia seguinte, chegara a hora de contabilizar as baixas: 398 mortos (369 praças e 29 oficiais) e uma esmagadora maioria de prisioneiros (6585, dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais). Na 4ª Brigada de Infantaria, à qual pertenciam maioria dos melgacenses, as baixas situam-se em cerca de 60% entre mortos, feridos e prisioneiros. No Regimento de Infantaria 3 (Viana do Castelo), as baixas cifram-se em 570, de um total de 700 homens que estavam em posição naquela noite. Deste total de baixas, houve registos de 91 mortos (4 de Melgaço), 155 feridos, 7 desaparecidos e 317 soldados feitos prisioneiros. Deste total de prisioneiros de guerra, nove soldados eram melgacenses. Inicialmente, estes homens foram dados como “desaparecidos em combate” e esse facto foi comunicado às famílias. Vários meses mais tarde, após o fim da guerra, em Novembro de 1918, a Comissão dos Prisioneiros de Guerra, comunicou que estes homens se encontravam em campos de prisioneiros na Alemanha, pondo fim a meses de sofrimento dos soldados e das suas famílias que os julgavam mortos. Na realidade, estes melgacenses foram todos capturados durante a Batalha e levados para campos de prisioneiros na Alemanha. Eram eles os soldados Mário Afonso, de Santa Maria da Porta; António Fernandes, de Penso; Abílio Alves de Araújo, da Gave; Avelino Fernandes, de Alvaredo; António José Rodrigues, de Paderne; Inocêncio Augusto Carpinteiro, de S. Paio; Justino Pereira, de Cubalhão; António dos Reis, da Rua Direita (Santa Maria da Porta) e António Pires, de Rouças, tendo ficado dispersos por vários campos de prisioneiros na Alemanha.
Depois de La Lys, o C.E.P. não mais participou em operações militares relevantes ficando na dependência dos ingleses e relegado para tarefas secundárias.
Os que tombaram, repousam para sempre no Cemitério Militar Português de Richebourg l`Avoué (França). Os que regressaram, muitos deles voltaram com os traumas próprios de um conflito que a humanidade nunca tinha conhecido ou com os problemas de saúde que os acompanharam durante o resto das suas vidas.
Por tudo isto, estes homens foram heróis e merecem a nossa homenagem. Para que nunca sejam esquecidos!"

sábado, 11 de agosto de 2018

Melgacenses que combateram na Primeira Grande Guerra - Os Expedicionários das freguesias de Fiães, Paços, Cubalhão e Gave



Foi há pouco mais de 100 anos que os primeiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial chegaram à Flandres.
Com base nos dados de que disponho, de Melgaço, partiram para a Flandres, 73 homens, oriundos das diversas freguesias. Estes homens foram autenticamente “roubados” às suas vidas e obrigados a ir para uma guerra para a qual não estavam preparados. Paderne, com 14 homens, Penso, com 12 homens e Vila, com 14 homens são as freguesias melgacenses que mais contribuíram em termos de número de efetivos. Porém, hoje homenageamos os soldados naturais de Fiães, Paços, Cubalhão e Gave. De cada uma destas freguesias, partiu um soldado para esta guerra horrenda. Eles foram João José Pires (lugar de Outeiro, Paços), Justino Pereira (lugar de Cima, Cubalhão), José Fernandes (lugar de Pousafoles, Fiães) e Abílio Alves de Araújo (lugar de Sobreira, Gave).


CUBALHÃO


1 - Justino Pereira, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão).
Nasceu às seis horas da manhã do dia 17 de Junho de 1895, no lugar de Cima, da freguesia de Cubalhão, filho de António Pereira e Maria Esteves.
À data da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no referido lugar de Cima da freguesia de Cubalhão, neste concelho de Melgaço.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho, portador da chapa de identificação nº 49 544.
Esteve envolvido na Batalha de La Lys, integrado na 4ª Brigada de Infantaria do Corpo Expedicionário Português em 9 de Abril de 1918. Nesse dia, foi dado como desaparecido em combate nessa mesma batalha. Contudo, posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, soube-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães durante a referida batalha e levado para o Campo de Prisioneiros de Merseburg (Alemanha), que se localiza a cerca de 150 Kms a noroeste da cidade de Dresden, onde ainda se encontrava em 20 de Novembro de 1918. Depois de finalizar o conflito em Novembro de 1918, foi libertado e embarcou em porto desconhecido no dia 28 de Dezembro de 1918, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, no dia 3 de Janeiro de 1919.
Após regressar da guerra, viria a casar com Maria Alves, natural da freguesia de Cristoval, concelho de Melgaço, no dia 14 de Abril de 1919.
Viria a falecer às 12 horas do dia 12 de Março de 1959, na freguesia de Cristoval, neste concelho de Melgaço.


FIÂES


1 – José Fernandes, 2º Sargento do Regimento de Cavalaria 11, 1º Esquadrão.
Nasceu às três horas da tarde do dia 9 de Maio de 1894, filho de Manuel José Fernandes e Maria do Carmo Domingues, natural do lugar de Pousafoles, freguesia de Santa Maria de Fiães, concelho de Melgaço.
À época de partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar de Pousafoles, da freguesia melgacense de Fiães.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França em 20 de Janeiro de 1917, integrado no Corpo Expedicionário Português.
Não conhecemos muito do percurso deste soldado durante a guerra. Já no cenário de guerra em França, em 8 de Julho de 1917, integrou uma diligência à 2ª Secção do Trem Divisionário, onde ainda se encontrava adido no dia 29 de Novembro desse mesmo ano. Em 8 de Dezembro de 1917, por ordem do comando da 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português, foi apresentar-se na sua unidade que à data era o 1º Grupo de Metralhadoras.
Sabemos que passou ao Depósito de Pessoal de Metralhadores Pesadas em 4 de Maio de Maio de 1918 “por ter sido suprimido o 1º Grupo de Metralhadoras”, unidade em que estava integrado à data.
Em 20 de Junho de 1918, baixa ao hospital, tendo tido alta no dia 30 do mesmo mês. No dia seguinte, a 1 de Julho, seguiu para o 3º grupo de Metralhadoras, unidade em que permaneceu até ao dia 10 de Setembro. Nesse dia, foi transferido para o Depósito de Infantaria.
Sobreviveu à guerra, tendo embarcado no Porto de Cherbourg (França) com destino a Portugal e desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, em 10 de Setembro de 1918.
Após regressar da guerra, viria a casar em Lisboa com Maria da Soledade no dia 7 de Julho de 1935.
Viria a falecer no dia 20 de Fevereiro de 1975, na freguesia da Lapa, cidade e concelho de Lisboa.


PAÇOS


1 - João José Pires, soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão).
Nasceu às duas horas da tarde do dia 28 de Abril de 1895 no lugar do Outeiro, na freguesia de Santa Maria de Paços, filho de José Joaquim Pires e de Alexandrina Pires.
À época da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no dito lugar do Outeiro, na freguesia de Paços.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França, integrado no Corpo Expedicionário Português a 15 de Abril de 1917, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho.
Dispomos de poucas informações quanto ao percurso militar deste soldado durante o conflito. Já no cenário de guerra, na Flandres (França), sabemos que baixou ao Hospital de Sangue nº 1 em 17 de Agosto de 1917.
Combateu na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918. Foi dado inicialmente como desaparecido durante as hostilidades, tendo sido, mais tarde, dado como morto em combate na referida batalha no dia antes citado.
Encontra-se sepultado no Cemitério de Richebourg l`Avoué (França), Talhão C, Fila 10, Coval 5.


CUBALHÃO


1 - Justino Pereira, Soldado do Batalhão de Infantaria nº 3 (Viana do Castelo), 4.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português (2ª Divisão).
Nasceu às seis horas da manhã do dia 17 de Junho de 1895, no lugar de Cima, da freguesia de Cubalhão, filho de António Pereira e Maria Esteves.
À data da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador no referido lugar de Cima da freguesia de Cubalhão, neste concelho de Melgaço.
Embarcou em Lisboa, no Cais de Alcântara, com destino a França em 15 de Abril de 1917 integrado no Corpo Expedicionário Português, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho, portador da chapa de identificação nº 49 544.
Esteve envolvido na Batalha de La Lys, integrado na 4ª Brigada de Infantaria do Corpo Expedicionário Português em 9 de Abril de 1918. Nesse dia, foi dado como desaparecido em combate nessa mesma batalha. Contudo, posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, soube-se que tinha sido feito prisioneiro pelos alemães durante a referida batalha e levado para o Campo de Prisioneiros de Merseburg (Alemanha), que se localiza a cerca de 150 Kms a noroeste da cidade de Dresden, onde ainda se encontrava em 20 de Novembro de 1918. Depois de finalizar o conflito em Novembro de 1918, foi libertado e embarcou em porto desconhecido no dia 28 de Dezembro de 1918, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, no dia 3 de Janeiro de 1919.
Após regressar da guerra, viria a casar com Maria Alves, natural da freguesia de Cristoval, concelho de Melgaço, no dia 14 de Abril de 1919.
Viria a falecer às 12 horas do dia 12 de Março de 1959, na freguesia de Cristoval, neste concelho de Melgaço.


GAVE


1 - Abílio Alves de Araújo, 1º Cabo  do Regimento de Infantaria nº 29, 4ª Brigada de Infantaria (Brigada do Minho), 2ª Divisão do CEP.
Nasceu às dez horas do dia 12 de Julho de 1897 no lugar de Sobreira, freguesia da Gave, filho de João Manuel de Araújo e Maria Joaquina Alves. À data da sua partida para a guerra, encontrava-se solteiro e era morador na freguesia de Oliveira, no concelho de Arcos de Valdevez.
Embarcou para França em 22 Abril de 1917, integrado no Corpo Expedicionário Português, portador da chapa de identificação nº 46 998, onde pertenceu à célebre Brigada do Minho.
Combateu na batalha de La Lys no dia 9 de Abril de 1918, onde é dado como desaparecido em combate. Posteriormente, por comunicação da Comissão de Prisioneiros de Guerra, verificou-se que constava entre aqueles que tinham sido feitos prisioneiros pelos alemães. Dali foi levado para o Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld (Alemanha).
Depois do fim da guerra, o soldado Abílio de Araújo foi libertado e embarcou no navio inglês "Northwestern Miller", na Holanda, em 31 de Janeiro de 1919, tendo desembarcado em Lisboa, no Cais de Alcântara, de 4 de Fevereiro de 1919.
Após regressar da guerra, viria a casar com Amélia da Conceição Guerra em Ponte de Lima no dia 18 de Fevereiro de 1920.
Viria a falecer em Arcos de Valdevez (Salvador) no dia 12 de Abril de 1989.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Branda da Aveleira e Castro Laboreiro - Pré-finalistas às 7 Maravilhas de Portugal


A Branda da Aveleira e Castro Laboreiro (Melgaço) são pré-finalistas às 7 Maravilhas de Portugal na categoria de Aldeias Remotas. A votação decorrerá na Gala de 30 de Julho de 2017 emitida em direto da Branda da Aveleira e de Castro Laboreiro  (Melgaço) na RTP1. 
VOTE NAS ALDEIAS DE MELGAÇO! 

Gala Especial de 30 de Julho

PROGRAMA DE DIA
(com transmissão em direto na RTP 1)
Local: Castro Laboreiro
Horário: 11h30-13h00 e 18h30-20h00
GALA ESPECIAL: Branda da Aveleira
Gala com transmissão em direto na RTP 1 e RTP Internacional
Horário: 21h – 23h

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"Branda da Aveleira, herança de pastores" (Reportagem do Jornal PÚBLICO) - Parte II

Vista sobre a Branda da Aveleira

"(...) Caminhar é, aliás, o que melhor se pode fazer por aqui, onde começa aliás o trilho dos brandeiros, um percurso de 14 quilómetros de moderada dificuldade que, entre os vales do rio Vez e do rio Mouro, nos leva pelas rotas e abrigos dos pastores de Gave. Bem mais acessível é o passeio pelas ruelas estreitas da branda, nas quais é possível espreitar a passagem do tempo na grossura centenária dos troncos dos castanheiros, nas construções em ruína ou em recomposição, ou senti-lo no musgo que dá cor aos muros de granito irregularmente sobreposto. No vale que se abre para as duas encostas por onde se espalha o casario, o Aveleira, um afluente do Vez onde alguém teve a infeliz ideia de criar uma zona seca atirando cimento para o leito, insinua a sua presença, misturando-se com ruído do gado que lhe apara a margem e com uma ou outra ave de rapina que fazem de todo o espaço que a vista alcança a sua coutada de caça.
Não estamos longe de uma das mais belas entradas no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Lamas de Mouro, na sua planáltica brandura, é, sombreada por carvalhos, bétulas e camacíperes, um fértil contraste com algumas das encostas rochosas, esculpindo broas de pão, como descreveria Miguel Torga, que nos balizam o caminho, por estrada, até lá. Estrada que, nos primeiros quilómetros, até começa por nos oferecer um insólito contraste entre o "relvado" verdejante do Lameiro da Porteira, onde é fácil encontrar alguns garranos ou famílias de vacas em ameno piquenique, e o campo de futebol pelado que nos implora, do outro lado da via, relva, uma bola e jogadores que não há.
O que há é um cruzamento, no sítio do Batateiro, que podemos tomar como ponto de partida para um percurso, vá lá, circular - pelo menos capaz de pôr a cabeça de alguns passageiros a andar à roda, de tão sinuoso o caminho. Lamas de Mouro está para nordeste - e de lá, Castro Laboreiro, a sete quilómetros, pede um desvio que, desta vez, resistimos a fazer. Seguimos de Lamas para sul, iremos ao encontro de um santuário singular que, inspirado no Bom Jesus de Braga, espalha encosta abaixo o seu escadório, erguendo-se o templo à sombra da montanha que lhe dá nome. A senhora da Peneda é lugar a visitar em qualquer altura do ano, sendo que vale para alguns o aviso de que, na primeira semana de Setembro, durante a romaria, o lugar e toda a estrada desde Lamas de Mouro são expropriados por milhares de peregrinos e respectivos carros e autocarros, tornando difícil, muito difícil mesmo, a circulação.

Para Sul temos Rouças e, seguindo então de aqui para Norte, de novo a caminho do cruzamento do Batateiro, entramos em terras da Gavieira, onde, com alguns desvios a pedir força nas pernas, podemos perder o sentido das horas em algumas das suas brandas, de entre as quais São Bento do Cando, com a sua capela, é a mais famosa. Separados da Peneda por um vale e uma coluna de granito do mais agreste e imponente que se vê por aqui, a estrada leva-nos já para a casa dos últimos dias. O sol trocou-nos por um mergulho no horizonte a oeste, mas o gado, esse, tomou as ruas e os quintais, fazendo pouco do direito à propriedade privada e lembrando o tempo em que, na solidão da serra, ninguém se lembraria sequer de o invocar. E aceitamos, então, a sua ruminante companhia..."

FIM

Extraído de: 
- "Branda da Aveleira, herança de pastores", reportagem da autoria de Abel Coentrão e Nelson Garrido. in edição do Jornal Público de 27/10/10.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

"Branda da Aveleira, herança de pastores" (Reportagem do Jornal PÚBLICO) - Parte I

Na Branda da Aveleira

"Curvas incontáveis levam-nos de Melgaço a uma antiga aldeia de Verão de pastores nas costas da serra da Peneda e às portas do único parque nacional do país. É a Branda da Aveleira.
Um grito controlado rasga o inumano silêncio que acoberta a mancha granítica. É, urbanamente, de madrugada, mas a urbanidade ficou a 25 curvosos quilómetros de distância, no hiper de Melgaço em que se garantiu a sobrevivência para meia-dúzia de dias. Ah, ok!, temos o frigorífico, e a placa de vitrocerâmica; o micro-ondas e o aquecimento; e temos um televisor que, apesar das moscas, ainda nos põe dentro da casa o país, lá longe, e Espanha aqui ao pé. Mas fora isto, ou fora disto, para lá da grossa porta de madeira, o tal grito irrompe da noite dos dias, organizando o gado a caminho do alto desta montanha como sempre se fez, desde que homens e vacas se tornaram inseparáveis e encontraram refúgio neste lugar a que chamam Branda da Aveleira.
Continuam inseparáveis, por aqui, as duas espécies. Ainda que sejam muito poucos os homens e mulheres para os animais que pastoreiam, como souberam os urbanos mais distraídos pelo filme de Jorge Pelicano, é mesmo verdade que, em Portugal, ainda há pastores. A diferença, no caso deste lugar pertencente à freguesia de Gave, é que eles não precisam de passar as noites com os seus animais, graças aos carros e motas que, há umas décadas, pela mesma altura em que uma canção dizia que o vídeo matara a estrela da rádio, já andavam também a "matar" esta e outras brandas da Peneda-Gerês. Casario que, sem gente para o aconchegar, aceitou, na solidão dos dias, o afago das silvas. E quase desapareceu debaixo delas.
Antes dessa revolução na mobilidade - a mesma que nos trouxe aqui, que de outra maneira não haveria fôlego para tanta lonjura - estes aglomerados de rudes construções de granito eram autênticas aldeias de Verão, também chamadas por isso, e por alguns, Verandas. Erguidas mais perto do alto das montanhas, nelas os pastores passavam os dias entre Maio e Setembro, acompanhando o gado que, nas cumeadas da serra, encontrava, e encontra, pasto fresco, no clima, esse sim, brando. Os primeiros raios do dia transportam essa memória no indisfarçável diálogo entre uma mulher e a sua manada, que galgam os caminhos indiferentes à inclinação da montanha. E esta, se não tem uma sineta ao pescoço, intromete-se na conversa, haja vento para isso, com o som seco das torres eólicas que, há alguns anos, fizeram ninho nos cumes à volta.
Há apenas um outro pastor na serra, mas há gente na aldeia. Lá em baixo, mais perto do riacho que nos há-de refrescar, um casal reconstrói, fim-de-semana após fim-de-semana, pedra após pedra, o seu refúgio familiar. Mas no resto, em pelo menos nove habitações, são os turistas que ajudam a reconstruir esse sentido de abrigo que durante séculos, escapava, quente, das chaminés escondidas pelos castanheiros. Várias das antigas casas e cortelhas foram recuperadas e, como se viu à chegada à branda e ao texto, equipadas com os confortos que a cidade tem para dar, procurando assim os seus donos que a cidade dê também o que tem de sobra: almas em transumância entre a rotina do trabalho e a rotina da casa, que roubam minutos aos seus dias a planear aquilo a que, sinal dos tempos, se designa hoje em dia por escapadas... ou fugas.

Não somos diferentes. Animais fugindo ao rigor do estio e à cidade onde, para muitos, já nada refreia a saudade de uma natureza que afastamos para longe. E aqui, se o quisermos, se desligarmos a televisão, deixando Espanha para lá dos montes a norte e nordeste e Portugal nas nossas costas, separado de nós pelas serras do Parque Nacional da Peneda-Gerês, estamos, de facto, refugiados. Protegidos de quase tudo e, assim, permeáveis ao negrume da terra humedecida pelo orvalho da manhã, aos cheiros, sons e à solidão aparente da paisagem. E permeáveis até aos seus sabores, se viermos no tempo das amoras que tingem os lábios e, quando caem, grande parte dos caminhos."

-----------------------------------  (CONTINUA)  -----------------------------------

Extraído de: 
- "Branda da Aveleira, herança de pastores", reportagem da autoria de Abel Coentrão e Nelson Garrido. in edição do Jornal Público de 27/10/10.

sábado, 21 de julho de 2012

A freguesia da Gave e a sua igreja paroquial: origens históricas

Igreja Paroquial da Gave (Melgaço)

A freguesia da Gave está localizada no lindíssimo vale do rio Minho. Estende-se graciosamente em socalcos pelas encostas montanhosas da serra de Peneda, desde o leito do rio Mouro, até ao alto da Serra, de onde se obtém uma esplendorosas vista panorâmica.
Lá no alto, estão como testemunhas da extraordinária beleza as Brandas ou Verandas.
Em Verandas da Aveleira e do Covelo, localidades onde estão muitas moradias de verão, que serviam ao mesmo tempo de casas de veraneio e de região para a pastorícia e agricultura.


Do núcleo maior de moradias da freguesia, onde se encontra também, a igreja paroquial, a antiga escola e a sede da junta, desfruta-se igualmente, das vistas panorâmicas impossíveis de serem esquecidas, por quem tenha o privilégio de conhecê-las.

Gave está circundada pelas seguintes freguesias vizinhas: no lado norte, a partir da outra margem do rio mouro, Cousso. No nascente, Parada do Monte. Do concelho arcos de Valdevez, as freguesias de Sistelo e da Gavieira são os limites a sul. Do concelho de Monção, a freguesia de Riba de Mouro está a demarcar o lado poente.
Gave compõe-se dos seguintes lugares: Baldosa, Listedo, Costa, Sobreira, Lameiro, Chãos, Barroca, Cofares, Ferrão, Pias, Lage, Coelhos, Senhora do Alívio, Igreja, S. Cosme, pombal, Serdeiral, Vale, Prolteiro, Eiriz, Barreiros, Nogueira, Covelo e Aveleira.
O topónimo Gave pode ter várias origens. Entre algumas possíveis, temos as seguintes hipóteses de nomes para apreciação: Gave seria segundo a opinião de alguns autores, uma corrupção de Gavião, ou de Gávea, Gávia, Gábea, Agabre ou Agrabe. Ou ainda Cávia ou Cávea. Pela proximidade com a Gavieira podia, por isso, ter também, uma das origens para o nome.
Parece merecer uma boa aceitação, a hipótese do nome Agrabe ou Agabre, palavra do Latim Grave, que quer dizer ”pesado, custoso, penoso, doloroso”. Porque, era dificultoso, carregando o que quer que fosse, atingirem-se os locais desta região.
A antiga freguesia de Santa Maria de Gave, vigairaria do reitor de Riba de Mouro, no termo de Valadares, pertenceu a este antigo concelho até 24/10/1855 quando passou para o de Melgaço.

A igreja de Gave não se encontra referida na documentação que Avelino Jesus da Costa estudou para fundamentar a história da Comarca Eclesiástica de Valença. Esta omissão está patente quer na relação de 1258 das igrejas de Entre Lima e Minho pertencentes ao arcebispado de Tui, quer nos diversos Censuais do Arcebispado de Braga (1514, 1545, 1551). Só em 1758 e pelas ‘Memórias Paroquiais’ se fica a saber que “Gavia he aldeia e parochia do termo da villa de Valadares, na comarca de Valença” (IANTT, 1758). Em 1798, pelo censo da Província do Minho, Gave tinha 100 fogos e 423 habitantes rendendo 500$000 reis de dízimos para o Abade de Riba de Mouro (Alves, 2000).

 

A sua igreja paroquial constitui-se como um templo com enquadramento rural, inserido em espaço murado que incorpora adro fronteiro. Desenvolve-se longitudinalmente em planta constituída por nave e capela-mor, à qual se adossou, do lado sul, um corpo pertencente a capela. Coberturas diferenciadas a uma e duas águas.
É construído em alvenaria autoportante de granito aparente, de aparelho irregular e juntas argamassadas.
Fachada principal, voltada a poente, ladeada por robustos cunhais pilastrados, encimados por urnas, que suportam cornija angular com perfil ‘papo de rola’tendo cruz latina no vértice. A porta, axial, apresenta padieira encurvada com moldura em cortina e é encimada por um óculo polilobado que centra o espaço até à cornija. Torre adossada à esquerda da frontaria, num plano ligeiramente recuado, com dois registos separados por cornija e cunhais pilastrados. No último registo, campanário de quatro sineiras com coroamento por cúpula bulbosa rodeada de urnas em cada extremo.

Informções recolhidas em:
ALVES, Lourenço - Arquitectura Religiosa do Alto Minho. II - Séc. XVIII ao Séc. XX, Escola Superior de Tecnologia e Ciências Humanas/Instituto Católico, Viana do Castelo, 2000.
CAPELA, J. Viriato (Coord.) - As Freguesias do Concelho de Melgaço nas «Memórias Paroquiais» de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2005.
http://acer-pt.org/vmdacer/index.php?option=com_content&task=view&id=254&Itemid=65